Soneto V (Paula)

Vejo a união de várias constelações em seu olhar.
Em um brilho único, todo encanto do universo
condensado em duas pupilas a refletir em sua alma.
Sorriso do céu em noite de luz e dança no ar.

Em chão de estrelas, astros perdidos vagam eternos.
Flores de lótus a perfumar toda uma jornada.
Deitados sob a manta azulada dos cosmos
o correr dos séculos divaga em seus olhos cândidos.

Mas, em um segundo, você a embalar meus sonhos.
No instante seguinte, a fragilidade bela de nossos suspiros
mostrou-nos, ingenuamente, a beleza latente em seu coração.

De tão puro e belo, ao ponto de me tornar refém confesso
das tramas do acaso que deu-nos o momento perfeito.
Fecho os olhos e vejo você sorrindo. Saudade sem fim!

Último adeus

Quando jovens, achamos que somos invencíveis. Capazes de vencer a velocidade, a vida, a morte. Achamos-nos super-heróis, imbatível com nossos corpos e mentes saudáveis. Acreditamos, piamente, que nunca iremos envelhecer. Indestrutíveis em nosso sorriso federal seguimos em frente com uma vontade incontrolada de desbravar o mundo. Sede de sugar tudo.

Por um instante, morrer jovem pode ser um passo para a eternidade. Uma espécie de James Dean não filmado em 35mm, tampouco transposto à imortalidade. Sem jaqueta de couro e a falsa rebeldia do cinema. Sem tapete vermelho ou reconhecimento de herói. Talvez, morrer jovem seja o destino de uma geração sem esperanças de mudanças. Quem sabe exista um motivo maior.

Sem capa para voar ou superpoderes somos tão frágeis. Em bólidos movidos por combustão fóssil, aventuramos nossa vida diariamente. Como a uma corrida maluca ao espaço, injetamos nas rotações dos motores o desprender das sensações frustradas. Estradas esburacadas. Descaso governamental. Pedágios não aplicados em melhorias. Pressa. Mais um fim de semana que acaba. Acabou a vida.

Restam na gaveta duas fotos. Na memória, aventuras de duas décadas. Nos corações dos familiares ficam o arrependimento e impotência. Vidas interrompidas em um segundo. Um segundo e tudo mudou. O que era paz deu vazão ao desespero. Berrei contra Deus. Berrei contra meus próprios demônios. Chorei. Desesperei. Esperei que fosse mentira. Não acreditei. Três calmantes. Abraços. Soluços e lágrimas. Saudade e arrependimentos de viagens desmarcadas em cima da hora devido a uma banalidade. Aos sorrisos e aventuras vividas. Às poucas brigas, duas exatamente, por motivos tão insignificantes ao passo que nem me recordo quais foram.

Pego-me a pensar em todas as vezes que, involuntariamente, dei um passo para o fim de minha vida. E coloco-me em seu lugar. Lembro das músicas que gostava. Lembro que conheceu o Clube da Esquina por mim. Que pedia para repetir e repetir “Um girassol da cor de seu cabelo”. Lembro de quando acabou a gasolina, no alto de uma ladeira, da moto que pegamos emprestada e sem a consulta prévia de um tio. Das traquinagens de infância. De andar a cavalo. De acordar cedo para nadar no rio. Rancho. Leite com goiabada. Fazer cabana na horta da avó. Da vez, talvez minha única aventura, que eu machuquei a testa em um acidente de bicicleta. Você ria. Eu ria. Você me chama de um “caipira de cidade grande”.

De ouvir Creedence Clearwater Revival em um dia de chuva na estrada. Nós dois berrando:
“I heard it through the grapevine, not much longer would you be mine.
Oo, I heard it through the grapevine, and I’m just about to lose my mind.
Honey, honey yeah.”

De ver o limpador tirando o excesso da água a cair no pára-brisa. Você trocando a marcha, apertando meu joelho depois dando uns tapinhas a dizer: “É, boy! Essa música é boa demais”. Aquele foi um dia especial.

Remete-me a lembrança das vezes que almoçávamos pastéis. De quando roubávamos goiaba do quintal do vizinho. Comer bobagem. Do meu aniversário de 18 anos e que bebemos uma garrafa de Jack Daniels. Do dia que entramos na igreja bêbados. Da noite que paramos em uma festa estranha com gente esquisita. Tivemos que entrar na casa da vó pela janela dos fundos. Ela acordou e nos deu um “pito”. Das vezes em que você me defendia. Das vezes que me colocava em fria (tudo bem, depois tirava). Da gente vendendo sorvete. Da gente vivendo.

Recordo das férias em que passava na minha casa. Do dia que queria fugir para Portugal. Das vezes que eu te chamar de “portuga”. De você vomitando pinga com groselha e dizer para a avó que era por causa da pizza. De trilhas no mato. Das conversas malucas. De ver e rever “Matrix”. De trabalharmos juntos. Do seu abraço. Dos planos de termos uma banda.

Do “primão”. Das vezes que você pregava peças na gente (e era o tempo todo). Por que desta vez não foi mais uma peça?

Penso em nossa cumplicidade. Da nossa amizade. Do nosso amor.

Lembro de tantas coisas…

Só não quero lembrar que se foi. Não posso.

Para mim, meu irmão, estás apenas em uma viagem longa, em alguma aventura, como sempre gostou, bem distante. Quem sabe, agora sim está em Portugal ou no Nepal. E estaremos esperando seu regresso.

Neste instante, queria ter uma máquina para fazer o tempo voltar. Para voltar nos momentos em que éramos felizes e aproveitar muito mais. De recordar o último abraço, o último telefonema, a última aventura. Um acidente em uma tarde de domingo. Uma bobagem sem tamanho. Dor.

Chovendo na roseira

Era verão. Eu deveria ter cinco ou seis anos. Não recordo exatamente a data, mas tenho uma certeza: era verão. Lembro, pois estávamos de férias, minhas irmãs e eu iríamos para o interior de São Paulo, na casa de minha avó. Eu não fui. Mamãe achou perigoso demais que eu viajasse com uma tia. Vi meus irmãos na despedida, e senti um pouco de inveja da idade deles. Queria ter ido também. Sentir o sol nascendo no caminho, comer pamonha caseira durante a viagem, tomar refrigerante, destes bem baratinhos, em um restaurante à beira da estrada, picolé vendido em caixas de isopor e com um gosto que não era do sabor da embalagem, bolachas. Naquele verão não tive nada disso.

Minha diversão era ler, aprendi pouco antes desta data com a minha mãe, pois, ela, não agüentava mais ler as mesmas histórias. Então passava as manhãs, tardes e parte da noite com as minhas aventuras infantis. Era com Monteiro Lobato que mais me divertia: a coragem do Pedrinho; Narizinho e sua meiguice; Emília e toda a vontade de devorar o mundo com perguntas. Naturalmente, morria de medo da Cuca. Em minha cabeça, corria em fazendas. Subia em árvores, nadava em rios. Naquele verão imaginei sentir o cheiro de café torrado, depois moído, o sabor da culinária do interior, feita em fogo à lenha, ao som de uma moda de violas. O gosto de curral, bolo de milho, pamonha e tudo mais que minha avó habitualmente faria.

Em uma manhã, destas que deveríamos marcar nos calendários como um dia especial, tentei ocupar-me. Queria chutar bola contra a parede, sentir o sol tocando minha pele, conversar com as plantas do jardim. Mas não pude. Chovia. Estas chuvas típicas de verão. Sol e chuva. Um dia mágico que ainda hoje, posso sentir o aroma daquelas horas. Embora, hoje, classifique aquele dia como mágico, na ocasião fiquei entediado com a o clima. Com isso, minha mãe, vendo minha inquietude, calmamente pegou um LP, ligou o aparelho de som, colocou na vitrola, ajeitou a agulha. Comecei a ouvir uma linda música. Depois outra, e outra, mais uma.

Acabou o lado A. Virou o lado B. Cada vez mais me apaixonava com aquela voz angelical, com o som de um piano, os seus compassos, harmonias, notas, coisas tais que, na época, eu não sabia que existiam. Aquela poesia cantada oras sussurradas por um homem, oras que me levavam às lágrimas cantada por uma mulher. A música percorria meu corpo infantil, e transformei em rei, em arco-íris, tempestade, calmaria. Sol. Silêncio. Outra faixa. Volto ao mundo real.

Fixo meus olhos à janela, que escorre gotas da chuva. Sinto que meu corpo todo faz parte daquela onda musical. A música acaba, chamo minha mãe e peço para repita uma das faixas. Com a calma, habitual em todas as mães, sou atendido. Acaba de novo, peço para repetir, e repetir, e repetir… Fico bailando meu corpo, sobre a letra e música, com os olhos fechados. Sentindo que melodia e eu éramos um único sentimento.

Mesmo com tão pouca idade, senti algo único. Algo que não tem explicação. E que nunca esquecerei. Quando a melancolia toma conta de meu pensamento, fecho os olhos e posso sentir os passos daquele dia, todos os minutos daquelas horas. Ao passo que ouvia: “Pétalas de rosa espalhadas pelo vento / Um amor tão puro / carregou meu pensamento, / Olha! Um tico-tico mora ao lado / E, passeando no molhado, /Adivinhou a primavera”, senti o nascer de algumas paixões em meu tão jovem coração: Música, chuvas e rosas.

Girassol da Rússia

O tempo escorre entre os dedos cansados de esperar uma solução simples para resolver todos os problemas de nossos corações. A vida passa como um trem estrangeiro em visita à terra natal. Os dias maquinais consomem tudo que nos restou da fé esquecida dos idos tempos de outrora. Seguia reto, céu aberto entre o cataclismo e o desespero. A cada dia nascente, a mesma certeza me martelava o pouco que sobrou da consciência.

Entendo, perfeitamente, as marcas de agonia que armazenava em seu peito. Tanta dor acumulada pelos desatinos e desfiladeiros de sua caminhada, que deixou sinais profundos em mim. Carrego um peso ardente fragmentado em milhares de pontos brilhantes. Em cada brilho, uma história cristalizada em uma perfeição secular.

O tempo ecoa pelas paredes pouco iluminadas das galerias da vida. Vago por um labirinto borgeano a procura dos restos e risos esquecidos. Aquece-me a difusa idéia de perder-me em seus braços e prender-me em seu sorriso enigmático. Trilhar durante a perpétua existência de sua risada apertando meu peito frágil. Suave dor que berra alto, ao ponto de ensurdecer-me. Cego, inexato, tateio o escuro reluzente do amargo gosto dos esquecidos. Nas galerias do século, sua vida, minha vida, nosso mundo.

Enquanto seu sorriso atropela minha paz roubada, inspiro o aroma agridoce do ciúme que o Sol tem da Lua. A sufocante rotina, pressionada pelos ponteiros dos relógios, fabricando tortura com a mesma velocidade de uma linha de produção, molda a tábua rasa triturada de fragmentos da virtualidade que compõem o que nos cerca. Ao lado, um retrato e flores de plástico enfeiam a saudade a me consumir aos poucos.

Sinto o cheiro de amora que adorna as datas bucólicas do futuro. Presente tatuado em mim. O som do passado impregnado pelos cinco mil auto-falantes ao tocar, repetidamente, os trechos de uma música desconhecida. Ainda, ao fundo, ouço passos colidindo aos cotidianos dias marginais. Dor, saudade e utopias misturadas sobre copos e sorrisos. O resto, apenas máculas literais de uma imensa chama em combustão nuclear.

Ao passo que reflito sobre meu exílio embrionário, pego-me a pensar sobre as pessoas que perdem-se, que prendem-se, que vivem para pedir e querem sempre mais.

Cruzada

Aumento o volume do rádio para não ouvir meu choro. Desesperado, bato com as duas mãos ao volante: afinal, o que espero? Talvez nada. Ou quem sabe um novo começo.

Perco o pouco da calma que ainda me resta no sinal fechado. O caótico trânsito da Capital deixa marcas em meus olhos fundos e meu coração inquieto e desesperado. Olho para o relógio: 14h45 a piscar. Penso em todos os momentos mágicos que passamos juntos. Teria sido tudo isso um sonho, um delírio inconseqüente, um devaneio vespertino… uma loucura?

O vôo está marcado para as 15h30. A esta altura, na minha mais cética dúvida, ela deve estar no chek-in para o embarque. Enquanto penso nas possibilidades e de onde ela estaria, continuo preso em mais um engarrafamento colossal da metrópole em chamas. Gotas de lágrimas molham minha camiseta. Insisto na pergunta que me martiriza desde o momento que soube de seu destino: o que, afinal, espero? Talvez um aceno? Um olhar? Talvez nada.

“Não sei andar sozinho por estas ruas…”. Ouço na rádio nossa música e choro. Desta vez com mais dor, com mais força, ao ponto de ficar sem ar. Cruzada, nossa música, nossa primeira música, reflete o que somos. Nós que temos tantas melodias marcantes.

Minhas vistas cansadas pelas lágrimas pouco enxergam. Apenas sigo o tráfego, incondicionalmente. “Você parece comigo, nenhum senhor te acompanha. Você também se dá um beijo dá um tiro…”, realmente sempre fomos idênticos, ao ponto de nos entregarmos e assuntarmos mutuamente.

Aumento ainda mais o volume do som, tentando inutilmente abafar o meu choro ou quem sabe ter coragem para enfrentar a sufocante falta que me faz. Mas, os outros veículos continuam seus trajetos. Não sabem, e pouco se importam, com o que estou fazendo, tampouco para onde irei. Largar o dia do trabalho, tomar um carro emprestado, mesmo sem carteira de habilitação. Louco! Talvez espere apenas um aceno, um adeus, um último abraço. Talvez nem tenha coragem de me aproximar.

Maldita loucura, quase que santa, este tal amor. Carrego algo próximo à paz, quase desespero. Por que insisto tanto, mesmo sabendo que talvez não a encontre? Por quê?

“Você também se dá um beijo dá abrigo, se dá um riso dá um tiro…”. Quantos tiros a queima roupa trocamos nestes últimos meses. E telefonemas, um mais absurdo que o outro. Mas, todos os amores são insanos. Dizem que a loucura e o amor sempre caminharam juntos. Por que, então, teima em sumir da minha vida? Logo agora que éramos um.

Todas as longas horas que ficamos longe , eternos anos. Cada segundo próximo, longas lembranças. Como esquecer o som da sua voz vibrando ao meus ouvidos. Ou seus suspiros apaixonadas ao dizer: ”Amor meu”. Como não lembrar dos sonhos que juntos nos entregamos a sonhar, dos abraços apertados em que nossos corações batiam ritmados no mesmo compasso. Como esquecer o que sou?

“Flor na janela da casa, olho no seu inimigo…” Com os braços debruçados no volante, contemplo o horizonte, nos segundos que o sinal está fechado.

Faltam poucos quilômetros para chegar ao aeroporto. Talvez não dê tempo. Mas afinal, o que realmente espero? Que ela me veja, desista de ir para Europa e decida voltar comigo. Para viver uma vida pela metade, com um jovem recém formado, ainda vivendo com os pais. Que futuro nos espera? Melhor seria esquecer esta loucura toda, voltar para casa e esperar que o tempo cure todo o mal.

Chego ao aeroporto, em minha cabeça ecoa: “Não sei andar sozinho por estas ruas, sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos. Não há sinal de paz e tudo me acalma em seu olhar”. Por que insisto em percorrer estes estreitos corredores? Por quê? Neste instante lembro-me da frase: “Não quero andar sozinho por estas ruas…”. Talvez a razão me falte. Não quero caminhar sem você ao meu lado. Meus passos sem rumo, não sei onde será seu embarque, nem qual vôo. Talvez espere que no final tudo dará certo. Talvez queira sofrer.

Cruzada me acalma.

Passos tímidos. Deveria voltar para casa, quem sabe tomar um porre, ligar para alguém que me entenda. Não cheguei até aqui por nada.

“Não há sinal de paz, mas, tudo me acalma em seu olhar”.

Estava despenteado, camiseta amarrotada e molhada de suor e lágrimas. No rosto, as marcas de choro constante: olhos vermelhos e fundos, cansaço de noites não dormidas, agonia e desespero misturados.

O seu olhar atravessa o frio salão, como quem me esperasse, ou esperasse um milagre, quem sabe planejasse uma fuga. Traços tristes compunham seu rosto, que permanecia belo. Não tive coragem de gritar seu nome, talvez fosse melhor assim. E, se gritasse, provavelmente não me ouviria. Estava sem fôlego e com nó na garganta. Cabisbaixo, atrás de uma pilastra, tento acompanhar seu embarque, choro mais ainda. Bato minha cabeça contra a parede. “Você também se dá um riso dá um tiro…”

Seus passos distraídos seguiam o fluxo dos demais passageiros. Eu pensava em Cruzada, e todas as vezes que sussurrei esta música em seu ouvido. Você dizia: “Você realmente ama esta música?”. Eu respondia: “Cruzada me lembra você”. Sorriamos sempre.

“Não há sinal de paz, mas tudo me acalma em seu olhar”. Levanto a cabeça, e você está na sala de espera do vôo, impossível trocarmos qualquer palavra. Mas, nossos olhares encontraram-se no espaço. Um indescritível brilho raiou em seus olhos. Acessa-quente-chama, seu rosto esqueceu os traços tristes. As gélidas paredes derreteram-se, pelo calor provocado de nossos olhares. Pela primeira vez em muitas semanas sorrimos. Sorrimos como sempre sorriamos um ao outro. Sorriso puro, capaz de cativar até os corações mais acinzentados. Éramos nós novamente. Corremos um para o outro. Paramos no vidro que separam as galerias. Encostamos nossos corpos, nossos rostos, nossas mãos no reflexo que o outro projetava no vidro fosco.
“Eu te amo”, falamos ao mesmo tempo. Apenas ouvíamos nossas próprias vozes ecoadas. “Eu te espero o tempo que for necessário”, dizia repetitivamente vendo-a ser arrastada pelos outros passageiros. Com lágrimas nos olhos, ela acenou um adeus, pude ler em seus lábios: “Eu te amo para sempre, amor meu”.

Meu corpo escorrega no vidro, sento no chão do aeroporto. Não vi o avião decolar. Fiquei ali, em choro constante, por vários minutos, talvez horas. Muitos tentaram me levantar, diziam: “Vá atrás dela”, “Não desanime, meu filho”, “Agüente firme”; ouvia-os sem animação. Não tinha força, nem cabeça para agradecer ou responder com quem falava comigo. Não sei o que afinal esperava. Talvez imaginasse que teria um final como nos filmes. Não houve. Fiquei ali, desesperado no chão frio da galeria, milhares de pessoas em trânsito e eu em lágrimas.

“Não sei andar sozinho por estas ruas, sei do perigo”, realmente viver era risco, ainda mais sozinho. Volto para casa, coração nas mãos.

Saiba que eu te amo!

Caminhe seus passos firmes.
Confie em seus instintos.
Olhe para trás para se orgulhar do passado.
Sorria. Seu sorriso é lindo.
Sonhe. Sonhe comigo. Sonhe com o futuro.
Não olhe para o chão. Levante a cabeça, olhe em meus olhos.
Respire fundo, profundo, intenso.
Se, por acaso, às seis da tarde de uma quarta-feira chuvosa, pensar em mim, apenas guarde na memória os nossos melhores momentos.
Esqueça quase todas as brigas, lembre das mais engraçadas. E sorria.
Olhe o seu destino e pense que sempre enxerguei pelos seus olhos verdes claros.
Caminhe no escuro, afinal esta é a maneira de viver. Liberte-se de tudo que lhe amargue as vistas.
Como um sol depois de um dia de chuva, caminhe de braços aberto contra o vento, contra o tempo…
Cometa erros novos todos os dias. Todos os dias!
Ame, Ame mais, ame mais ainda.
Conte as estrelas, mas não aponte. Minha avó sempre dizia que apontar para as estrelas cria ruga.
Olhe, sorria e lembre daquela que eu te dei após uma noite de briga.
Chore, mais chore sozinha. Sorria para a vida.
Não sinta medo de rir para os outros na rua, mesmo para os desconhecidos.
Aliás, um ótimo exercício diário: sorria para todo e diga: “bom-dia”.
Semeie o bem e perdoe a quem te fez o mal.
Sonhe colorido; preto e branco basta os jornais.

Mas, se insistir em um dia lembrar de mim, apenas sorria.
Não chore, não se culpe. Desculpe!
Não pense em como seria se fosse diferente.
As difereças existem, as ações diferentes sempre existirão.
Seremos diferentes e esta é a grande magia do universo.

Tire um tempo do seu dia para recordar o passado. Mas não se deixe apegar.
Viva o presente. Sonhe o futuro. Sonhe. Sonhe sempre. Sonhe ainda mais.
Ouça nossa música no volume alto. Cante junto. Erre a letra. Desafine!
Assista menos à tv. Compre sapatos novos. Dance!
Cante na rua, cante no chuveiro, cante no carro. Desafine!
Cante fora do tom, sem melodia. Cante sem palavras todo sentimento que está dentro de seu peito.
Faça de pequenas coisas um brilho para valer o seu dia.
Não se preocupe com os problemas. Eles que se preocupem com a gente.
Olhe nos olhos e pise firme. Erga a cabeça. Desafine!
Pegue as estradas certas, as vezes a errada.
Esqueça os dias, não se prenda nas horas e saiba que te amo!

Pequeno mapa sobre a loucura

O tempo rasga a face cansada de esperar. Range bravo feito cão sem dono. O tempo passa. “E, o esquecer era tão normal que o tempo parava…”. Esquecíamos de olhar nos olhos, desejar bom dia, esperar a saudade bater mais forte ao ponto de sentir dor. Mas, a ilha não se curva? O mar continua seu ciclo mesmo sem seus olhos para admirar. A lua renascerá amanhã após o pôr do sol.

Éramos corpos bailando no ar, duas estrelas perdidas em negros labirintos. Desertos. Éramos corpos celestes vagando no azul aveludado sem órbita. Mas, o tempo parou. Paramos.

Às vezes penso em liberar as portas do meu próprio manicômio. Mergulhar no meu mundo louco, marginalizado. Outras, penso que o todos estão certos e o único louco sou eu. Internaria-me como o Dr. Simão Bacamarte.

Quantas vezes quis expurgar as dores mais sombrias, os pensamentos mais imperfeitos, as saudades mais doloridas… Estes sentimentos martelam em minha mente como um sino às seis da tarde de uma quarta-feira chuvosa. Todos, apressados, passam sem ver o pedido de socorro emitido nas estrelas.

Procuro esquecer certo peso em meu peito, cenas e sensações que me torturam. Em vão, a cada fechar de olhos, como um flash, repetem incessantemente diante de minhas retinas cansadas de chorar. A dor dos mais fracos é transformada em lágrimas tristes, que ardem as vistas e rasgam a carne frágil da melancolia.

Saudade tem sabor de primavera. Mas, éramos cegos solitários tateando a escuridão esculpida em nossos rostos, corpo e mente. Éramos satélites perdidos em colisão procurando um ao outro. Achamos. O tempo parou. Mas depois acelerou-se tão veloz que não vimos o abismo que nos separa. E separamos. Voltamos a ser apenas eu e você, pedidos no curto caminho dos nossos olhares. O tempo parou.

Tocava ao fundo o som das primeiras memórias da infância. Som com gosto de Sol, com sabor de nostalgia. Você sorri em curta-metragem filmado em super-8. Em fotografias preto e branco, vejo-te correr sobre as águas.

Tempo, velho camarada.

Rumo ao norte

Era uma noite fria. Dessas noites frias em que o vento gelava não somente o corpo, como também a alma. Caminhava pelas ruas a procura de um porto seguro ou uma nova história. Um novo começo, recomeçar do zero, em novos rumos, velhos portos, nova história repetida pelas armações do destino. Apenas caminhava. Seguia meus passos, que não seguiam a lugar algum. Caminhava sem rumo, pelos rumos tortos das ruas desertas do centro vazio da cidade cinza. O frio era a única companhia, o meu pensar pesava em minha alma. Alma solitária não era alma e sim algo solto no ar, como um balão de gás flutuando no azul aveludado do céu de inverno, vagando sem importância. Era frio, destes dias cinza e nublados, que escondem qualquer sorriso, até mesmo dos mais contentes.

Era frio. Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam. Destes dias gelados que atravessam a memória e atacam nossas mentes como tempestades sem tamanho. Frio violento cortava-me em pedaços tão míseros ao ponto de perder-me entre bilhões de pontos de solidão. Caminhava sem rumo, a caminho qualquer, sem passos, sem pressa, seguindo o ar.

Nada via com meus olhos cansados, também não procurava olhar para nada. Caminhava no escuro, não percebia que a cidade estava iluminada ou eu seu meus olhos não eram capazes de captar luz. Continuava a caminhar e o frio era cada vez maior a ponto de seguir os meus passos. Caminhava, vigilante solitário, atrás de refúgio para meus tristes relatos. Histórias incompletas de vidas incompletas de relatos incompletos…

Não fazia idéia alguma para onde meus pés me levavam. Eles trilhava um caminho desconhecido, coisa que nem me dei ao trabalho de refletir por onde ou como, apenas, com os olhos baixos, vendo o chão, deixei que meus pés guiassem meu destino, como uma espécie de pedido de socorro. Escuro. Escuto passos. Paro. Medo. Sigo. Caminho apressado. Paro. Olho para os lados, nada. Atrás, não olho, paralisado, tremulo. Ouços passos. Voltou a caminhar. Sigo em frente. Caminho mais rápido, ando, ando, ando… Paraliso. Viro meu rosto. Não vejo nada. Houve algo? Ouço algo? Sinto passos fortes, caminhando, mas nada vejo. Viro lentamente a cabeça, em minha frente um rosto. Um rosto novo, algo, alguém.

- Oi! - Branda uma voz suave, no escuro, não vi quem era.

- Ola! - Timidamente minha voz sai rouca, quase abafada pelo som dos automóveis que circulavam pela cidade.

- Para onde vai? - Perguntou-me a voz, agora avisto um rosto, sobre um corpo feminino.

- Apenas caminho, sem rumo. - Ainda Tímido mal ouço minha voz.

- Não importa o caminho, basta caminhar, diria o poeta.

- Qual poeta? – Esta frase estúpida sai da minha boca, se pudesse voltar ao tempo, ou quem sabe continuar meu caminho.

- Também não sei. – Risos por parte dela.

Procuro andar, sou impedido. Por quem? Ninguém, meus pés me traem. Mentalmente ordeno: “Andem pés. Andem”. Nada. Preciso desesperadamente sair dali.

-Mas o que você faz na rua, ainda mais com este frio? – Insiste aquela voz suave que soa em minha cabeça, como uma orquestra regida por mãos competentes.

-Solidão. - penso em outras palavras, mas apenas esta evapora dos meus lábios.

- Solidão, Só – Lidão, Soli-dão. Solidão. Todos somos sós. Mas a pior solidão é quando sentimos sozinhos mesmo com a companhia de alguém.

Não compreendia aquela pessoa, não compreendia seu olhar, seus olhos profundos, calmos, tranqüilos. Não entendia sua voz pura, nem seus cabelos que o vento balançava lindamente, trazendo um aroma que me roubava a paz transitória entre a dúvida e a certeza de continuar meu trajeto. Queria sair deste quadro e, por outro lado, não queria mover um músculo sequer para continuar o caminhar. Mas, minha razão inconscientemente teimava em argumentar que era preciso voltar ao velho roteiro cansado e fingir que não havia ninguém nas ruas. Sentir-me só novamente. A solidão fazia-me forte, ao mesmo passo que me deixava desprotegido, desamparado. Buscava a liberdade que me acorrentava nas paredes do labirinto a qual estava preso. Nos meus medos e traumas, desejos e desatinos de largas memórias perdidas nas linhas do tempo que já não corriam mais diante dos meus olhos cansados.

- Somos livres, mesmo correndo o risco de nos prender na solidão. Somos seres solitários, egoístas. Os seres humanos são como lobos nas estepes, são solitários por natureza. – continuava aquela voz que me trazia calmaria e desconforto. Paz e agitação. Aquela voz que confundia meu pensar e meus passos.

Apenas concordei com a cabeça, tentando andar. Não entendia o que ela queria, não entendia o que me deixa imóvel ao seu lado. Tentei fazer uma pequena movimentação com as mãos, indicando o caminho que deveria tomar, em um sinal de confusão, pedindo passagem. Não obtive nenhum sucesso, nem por minha parte, nem por parte dela.

- Só-Li-Dão. Sou só também. Mas tenho um cachorro, Teco o nome dele, um São Bernardo, ele é minha única alegria. Você tem cachorro?

- Não. Tenho medo. – respondo olhando o vapor que saia de minhas narinas.

- Eu amo cachorro. Como assim medo? O Teço é tão fofinho – continuava – E chocolate, você gosta de chocolate?

- Medo. Não sei explicar, deve ser algum trauma de infância.

- Hun…, mas de chocolate você gosta?

- Tenho alergia.

- A chocolate?

- É – minha palavra abafada pelo som do sino da igreja ao longe.

- Qualquer chocolate? – insiste

- Pelo menos a todos que comi. - Disse, rindo da minha piada, porém ela não entendeu.

- Uma pena, não vivo sem chocolate. – Disse isso retirando do bolso um pedaço ordinário de chocolate. Cheirava o tablete antes de comer, e ao sentir derreter na boca, soltava um suspiro aliviado.

- Também gosto de andar. Por onde anda? – disse-me.

Tentando desesperadamente me livrar da tempestade, disse: - Tenho que ir desculpe. Está tarde – Falei, baixinho, como quem que estivesse atrasado ou caminhando para algum lugar.

- Vai para onde? – Perguntou-me com um olhar perdido e esperançoso.

- Vou para lá – Apontei para o meu norte, apenas por ser o lado onde meu nariz mirava.

- Eu também. Vamos? – Tornou-me pelos seus braços e pôs a caminhar ao meu lado em direção ao norte.

De repente, fez-se sol. O calor derretia as calotas polares do meu coração.

Igrejas Históricas

Antes das igrejas luxuosas do ciclo do ouro em Minas Gerais, as primeiras construções religiosas em solo nacional foram edificadas com a simplicidades e devoção aos padroeiros das cidades litorâneas. Vindos com as caravelas de Martim Afonso, os padres jesuítas, que tentariam catequizar os índios, foram responsáveis pela confecção das primeiras capelas. Eram construídas com o material que dispunham na época: madeira; pedras talhadas; areia do mar. Além de imagens sacro-santos simples, esculpidas em barro ou pedra-sabão. Na região, são várias as edificações que resistiram ao tempo e se mantiveram como centro histórico-religioso. Hoje em um belo ponto turístico.


Convento Nossa Senhora da Conceição
No início do povoamento de Itanhaém, os primeiros habitantes edificaram, no alto de um monte, uma pequena ermida de barro. Desde cedo atraiu a atenção e a fé dos romeiros que vinham de vários pontos da Capitania Hereditária de São Vicente.
Por ser um dos pontos mais afastados da colonização portuguesa na América, o convento serviu de abrigo aos moradores e defesa da cidade. Foi durante longos anos a igreja matriz da vila, por isso existia a seu lado uma casa para o vigário, assim continuando até 1639, quando se iniciou a construção do novo templo paroquial, com o título de Sant’ana.
Os dois pavimentos superiores, dos quais o de baixo está ao nível do piso da igreja divididos em celas, eram os dormitórios principais. Ao lado direito do lanço descrito, fazendo face com a frente da igreja, fica anexo outro edifício com pavimento térreo e um só superior. Este está ao nível do piso do primeiro andar do lanço principal, com o qual comunica por meio de um arco. O seu pavimento térreo, em parte cavado dentro do morro, está ao nível dos outros e nele funcionava o capítulo conventual. O primeiro andar, que de fora parece o térreo, é acessível do adro da igreja: era a portaria. No segundo andar havia uma sala, talvez biblioteca.
Com a extinção da Capitania de Itanhaém, que passou de novo para a Capitania de São Vicente, e com o êxodo da maior parte dos seus habitantes para o interior, atraídos pela fama das descobertas de minas de ouro e de pedras preciosas, os frades existentes também sentiram a escassez da renda do Convento, que os levou a irem, por sua vez, saindo para outros lugares onde pudessem ser melhor amparados.
Durante muito tempo, a igreja ficou abandonada e entregue à destruição do tempo. Em 1921, Washington Luís, amante da história do Brasil e Presidente do Estado de São Paulo, resolveu proceder uma restauração parcial, renovando o madeiramento do telhado e o assoalho. Soube-se que um dos vigários tinha enterrado há muito tempo diversas imagens do Convento, logo atrás da Igreja Matriz de Sant’Anna. A busca teve êxito e quatro dessas imagens ainda são conservadas no Convento.
Em 1948 grande parte do telhado e do forro ruiu por um raio, destruindo completamente a torre. O monumento histórico, a partir de 1952, foi objeto de restauração, executada então pelo órgão de preservação federal.
O monumento foi parcialmente incendiado e ficou abandonado por longo período, e de certo modo submetido a dilapidações. As obras de restauração iniciadas em 1952, previam também a reconstituição da ala conventual (ruínas da residência), incendiada no início do século XIX, conforme pode-se verificar dos estudos então efetuados. Dessa época até os dias de hoje, exigiu de tempos a tempos, obras de conservação


Matriz de São Vicente
A Igreja Matriz da Vila de São Vicente foi erguida por Martim Afonso, embora não seja no exato local em que ela se encontra hoje. O primeiro prédio que abrigou a Igreja foi erguida próximo à orla da praia. Local onde ocorreu a fundação oficial da Vila de São Vicente.
Diz os livros de história que em 1542, a construção foi destruída por um maremoto que varreu a cidade. Não apenas a Matriz, mas boa parte das construções da Vila foram destruídas.
Após a tormenta, a segunda sede foi erguida pelo povo em local, um pouco mais distante da faixa de areia do mar. Porém, novamente ficou em ruínas. Desta vez, foram os piratas que atacaram São Vicente para saquear o comércio e as casas.
Em 1757, a atual igreja foi construída sobre as ruínas da anterior, onde permanece até os dias atuais. Seu nome é uma homenagem a São Vicente Mártir, santo espanhol que deu nome à cidade e hoje é seu padroeiro.
Em 1999 foi interditada. No ano seguinte, um incêndio destruiu parte do teto e altar, além de danificar algumas imagens sacras. Em 2006 foi finalizada a primeira parte das obras de restauração do imóvel.


Igreja do Valongo

Importante exemplar das construções dos padres franciscanos. Considerada um dos mais belos barrocos do século XVIII, a entrada da igreja conta com três arcos romanos, simétricos às portas-balcões de arco abatido do andar superior, arrematadas por vergas curvas de pedra. Frontão ondulado e guirlandas completam a fachada.
À esquerda fica a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que conserva o Cristo Místico de Seis Asas entre as obras de arte de sua capela, perpendicular e com arco aberto para a igreja conventual. Além do padroeiro apresenta, no altar-mor, um dos únicos tronos rotativos do País: de um lado a Santíssima Trindade e, do outro, o ostensório para Adoração Perpétua.
Ali as paredes ganharam murais de azulejos, na década de 30, de autoria de Cândido da Silva Jr., que se auto-retratou de paletó e gravata, ao lado de Santo Antônio.
Uma placa comemora a visita do monsenhor José Ferreti, datada de 1823, que se tornaria papa com o nome de Pio XII.
O portal da igreja traz a data de 1640 no alto, ao passo que a entidade leiga da Ordem Terceira inaugurou a capela em 1691. Em 1859, o imóvel foi vendido para a construção da estação da estrada de ferro Santos-Jundiaí. O convento foi demolido mas não houve força capaz de retirar a imagem de Santo Antônio do altar, fato que foi considerado milagre e impediu o desaparecimento da igreja, elevada a santuário em 1987.


Mais informações:

Convento Nossa Senhora da Conceição - Itanhaém
Localizado no alto do Morro do Itaguaçu, Centro Histórico. Funciona diariamente, das 9 às 11 horas e das 13 às 18 horas. Mais informação nos telefones da Secretaria de Turismo (13) 3421-1808 ou (13) 3421-1809

Igreja Matriz – São Vicente
Localizada na Praça João Pessoa, s/ nº, Centro. Mais informações no telefone da secretaria de Turismo e Cultura (13) 3569-1400

Igreja do Valongo - Santos
Largo Marquês de Monte Alegre s/ nº. Funciona de terça a sábado, das 8h00 às 20h00, e domingo, das 8h00 às 19h00. Mais informação no telefone (13) 3219-1481

(Matéria publicada no caderno especial + Verão, do Jornal Diário do Litoral, em 19 de janeiro de 2008 )

Presépios: um símbolo religioso que resiste ao tempo

    783 anos depois de criado por São Francisco, a tradição ganhou vida e forma com o choque cultural em terras brasileiras


Vinda com as caravelas dos portugueses, a imagem do presépio, após a década de 1950, foi gradativamente substituída por outros símbolos natalinos. Aos poucos, árvores de natal e bonecos de Papai Noel tomaram o lugar da representação do nascimento de Jesus em várias casas comerciais e em residências. Mas, recentemente, o resgate cultural e religioso tem retomado o interesse referente ao assunto.
Originário da palavra “prosepium”, que do latim significa estábulo, curral; o presépio representa a cena de adoração ao Menino Jesus na manjedoura, acolhido por Maria, José e os pastores, que estavam com seus rebanhos, na gruta de Belém.
A coordenadora da Centro de Estudos Folclóricos Albino Luiz Caldas (Cefalc), Yza Fava de Oliveira, realiza há mais dez anos exposições sobre o tema. A pesquisadora acredita que o valor religioso foi o principal fator para a retomada para este hábito natalino.
“No natal só era montado o presépio, mas, a partir década de 50, começou a surgir a influência da árvore de natal, além de outros elementos que foram sendo introduzidos. Estes novos símbolos se transformaram em um contra-ponto à montagem do presépio. Porém, agora está retornando um pouco a valorização dos presépios, das lapinhas e do alto de natal, que é mais ligada à religião”, analisa Yza.

Religiosidade
A pesquisadora aponta que a cultura e o imaginário de cada povo deram características diferentes ao presépio. Porém, todos retratam de forma artística o nascimento do Menino Jesus. A história e a religiosidade permearam a tradição do culto durantes os séculos.
Narra a bíblia que, para participarem de um recenseamento convocado pelo imperador romano César Augusto, José e Maria saíram da cidade de Nazaré e se dirigiram para Belém. Sem ter onde ficar, o casal abrigou-se em um estábulo dentro de uma gruta, na noite de 24 de dezembro. Virgem Maria deu à luz ao Menino Jesus, que foi colocado numa manjedoura coberta por palhas, tendo ao lado pastores, jumentos, vacas e um galo.
A notícia do nascimento fez com que pastores dos arredores viessem visitá-los. Seguindo a estrela-guia, os três Reis Magos (Gaspar, Baltazar e Belchior) chegaram ao local do nascimento, para ofertar ao Menino Jesus presentes, ouro, incenso e mirra.

História
Foi São Francisco de Assis, em 1224, o primeiro a encenar , de acordo com o Evangelho, o ambiente da Natividade de Jesus. Nesse ano, em vez de festejar a noite de Natal na Igreja, como era de hábito, São Francisco celebrou em uma gruta em Créccio, localizada num bosque na Itália, para onde mandou transportar uma manjedoura, um boi e um burro, além de imagens esculpidas em argila, madeira e pedra, para melhor explicar o Natal às pessoas comuns da localidade.
A representação simbólica do nascimento de Cristo foi bem aceita e generalizou-se nas comunidades franciscanas. A Igreja e as famílias cristãs assumiram a tradição, que se espalhou pelo mundo.

Brasil
Em 1391, segundo estudos do Frei Luiz de Souza, eram montados presépios em Lisboa. A tradição chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, pelas mãos do frade Gaspar de Santo Agostinho, que introduziu o presépio em Olinda, (PE)

Santos
Em Santos, alguns presépios ficaram famosos e ainda remetem ao saudosismo nos mais experientes. O do Mercado Municipal atraía milhares de visitantes nas décadas de 1940/50. O presépio criado pelo artista Manoel Molina, esculpido em madeira com mais de 580 peças, era movido a eletricidade. Nesta época, várias casas comerciais no Centro armavam a representação, que, segundo aponta Yza, era o maior destaque dos festivos do comércio.
Atualmente, o maior destaque é a Exposição de Presépios realizada pelos frades do Santuário do Valongo, que este ano está na décima e quarta edição. Lá são expostos representações de diferentes regiões do mundo e das mais variadas formas e formatos. Ainda conta com a participação de artistas locais, como o Mestre Manoel Messias. Aos poucos, muitas lojas do comércio voltam a expor presépios nas vitrines, resgatando a tradição quase esquecida.
Nos dias atuais, cada vez mais novos símbolos do Natal são lançados. A pesquisadora aponta para a comercialização do espírito natalino. Embora, ela analisa que aos poucos a tradição tem voltado à tona. Os símbolos modernos do Natal não serão substituídos pelos presépios, mas aos pouco têm cedido lugar às antigas tradições. “Foi percebido que estavam caminhando em uma linha que não era da religiosidade, o que descaracterizava do Natal”, emociona-se, Yza.

Saiba Mais:

Ritual
No passado, os presépios eram montados no início do mês de dezembro. O Menino Jesus só era colocado na manjedoura no dia 24. As imagens dos Reis Magos eram introduzidas apenas no dia 6 de janeiro.
Com o tempo, passaram a ser desmontados em 6 janeiro, Dia de Reis. Todo material que ornamentava a cena era considerado sagrado, e eram queimados às 12 horas do mesmo dia. Somente as imagens eram guardadas para serem usadas no próximo ano. Na cerimônia eram cantados cânticos de despedidas e faziam promessas de refazer o presépio no ano seguinte, pois a crença popular determina que deve ser montado no mesmo espaço, durante sete anos.

Traços Culturais no Brasil
Os autos de Natal foram encenados no Brasil desde o século XVI pelos padres jesuítas, que adicionaram elementos da cultura indígena, no intuito de facilitar o processo de catequese.
Vários estados brasileiros, principalmente os do Nordeste, comemoram o Natal com o bumba-meu-boi, encerrando o ciclo de natal com o reisado.
Os presépios motivaram o aparecimento de uma cerâmica popular no Norte, Nordeste e São Paulo, especificamente no Vale do Paraíba, onde os artesões confeccionavam peças utilizando barro, algodão bambu e arames.
Por isso, levando em conta as concepções culturais de cada região, é comum encontrar, ao lado de Jesus, Maria e José, a imagem de cangaceiros com roupas de couro, caiçaras pescando, gaúchos de pantalonas, canas rurais com casas de pau-a-pique, curral, monjolo, engenho de açúcar, além de uma vegetação tipicamente brasileira.

Lapinhas - são presépios simples, que na cena incluem apenas o Menino Jesus, Maria e José.

Auto de Natal - é uma representação cênico-musical tradicional de nossa cultura popular. Neles, representam-se as figuras do ciclo natalino com a interação de personagens tipicamente folclóricos, definidos muitas vezes em função do grupo que o realiza ou das condições instrumentais em cada comunidade.

Bumba-meu-boi - uma dança do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, que gira em torno da morte e ressurreição de um boi.

Reisado – é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja a véspera e o Dia de Reis. No período de 24 de dezembro a 06 de janeiro, um grupo formado por músicos, cantores e dançadores vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam.

(Matéria publicada no caderno especial + Verão, do Jornal Diário do Litoral, em 22 de dezembro de 2007)

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