Tudo perdeu o gosto

A música que ouvia há alguns meses não faz mais o menor sentido. São duas horas da manhã de uma madrugada cinza. Vejo vultos nos corredores. Carros apressados que não partem ou chegam a lugar nenhum. Uma dose ordinária de álcool vulgar para não me lembrar a dor que não me esquece. Peito aberto e ardendo; o frio é intenso, a magoa, fatal. Estou preste a cair do décimo andar. A queda é longa; a dor surda, inevitável. Imagino meu corpo estirado entre os transeuntes em suas pressas rotineiras. Penso em te ligar. Desisto no segundo seguinte. Sinto a ferrugem que alimenta a solidão a engasgar a garganta rouca de palavras insólitas. Sua voz ecoa em minha cabeça, dizendo que eu preciso de um banho e uma noite de sono. Enquanto a cidade devora as almas em cicatrizes escondidas nas confusões urbanas, estou à beira de um abismo prestes a despencar. Desabar ou deixar-se cair é só mais um passo. Vou quebrar os móveis, destruir a casa, acordar os vizinhos, discar seu número e falar que preciso dormir em seus braços. Depois, despedir-me da vida e deixar que um transe profundo me leve de volta ao começo. Bem vinda ao paraíso!

Eu vou me embriagar em suas retinas apenas para poder deixar partir, sem rumo, a transparência que sua alma reflete em meus passos contraditórios. Ouço alguns acordes dissonantes no vento que varre o mundo para longe das viciadas curvas de seu corpo. Vá, junte tudo o que você puder trocar: seus maços de cigarros, suas bijuterias ordinárias, suas malas recheadas de roupas e perfumes banais. O mundo é muito maior que seu quarto e seus amigos que cheiram ao falso brilho da juventude. Leve meus medos e pecados para longe; distante de minhas retinas cansadas… Seria acaso ou sorte? Um leão está solto nas galerias escuras da cidade. Viciados com as imagens que explodem, todos passam despercebidos pela fera. Não há fuga nem destino, apenas paisagens que passam ao esmo. Desatinos costumeiros e desencorajados dos que teimam seguir adiante sobre o vendaval. Os pensamentos perdidos não são páreos para atravessar o longo corredor da solidão e a dependência.

Olho as luzes que dançam sinfonicamente em minha frente enquanto me reinvento num silêncio sem fim. Você não entende meus berros desesperados quando grito; não me entende nos instantes que me calo. O tempo escoou pelos dedos cansados da alegria dispersa. Há muitos anos desisti de procurar a felicidade escondida em sua derme obscura. Deixo a rima no ar: sem amor, sem lágrimas, sem mágoas, sem nada. O resto da paixão que ficou vai servir para nós? Abandono todos os vícios sobre a mesa vazia. O gosto amargo da loucura tortura meus olhos doidos por ti. Madrugada longa. Na manhã seguinte, serei devorado pela angustia de um sonho ruim. Perturbador. Desacostumei a olhar nos lados, apenas para não perder a direção. Talvez o inverno demore mais para passar este ano.

Entre seus labirintos, apenas quis que me levasse para distante deste temporal. Agora, claramente, vejo que não passou de um devaneio em um momento de fragilidade. Suas palavras sutis e gestos carinhosos me prenderam em meu próprio destino. Dentro do peito, dorme um menino que se perdeu por não saber se desculpar. A paz latente tão próxima de um ponto de conversão. Nada restou sobre a empoeirada penteadeira: nem os vícios intrigantes, nem os relatos agonizantes, tampouco os frascos de comprimidos para fugir da realidade fria que nos cerca. Alma vazia, deixei tudo espalhado no chão do quarto para que pudesse perder a memória como quem esquece um papel importante. Em troca, de braços abertos, a solidão ronda meus passos que se abrem diante do firmamento sem luz ou esperança de uma clarividência. Só espero a hora que o sangue estanque, o dia amanheça e eu possa dormir enquanto o mundo explode em milhões de manifestações desencontradas. Estou no meio da estrada, fugindo de meus piores erros que vejo estampados em cores vivas em seu sorriso.

Vinte e oito

Avanço à noite fria com versos que não se completam; vocábulos que não se encaixam. Em poucas palavras, perco-me nos mais horripilantes desfiladeiros criados pelos meus delírios. Confuso como as madrugadas intermináveis de solidão, entrego-me em histórias incompletas e lágrimas que escorrem facilmente nas ocasiões mais impróprias. Como se tudo devesse ter um ponto inicial e final: breve relato, triste fim. Com a mesma necessidade que vejo em aperfeiçoar meus passos errantes, busco inspiração para concluir os termos gastos em rimas velhas. Pego-me a pensar quão breve é a vida. Leve como pluma, efêmero quanto a um sopro de vento. Passa pelos olhos cansados e pela memória rarefeita da pós-modernidade que nos cobra prontidão, precisão, agilidade, rapidez, sem atrasos, no menor tempo possível, ao custo mais baixo e sem falhas. O vento que leva a vida passa tão veloz que o trem da saudade se rompe sem deixar marcas. Feridas profundas.

A tempestade desta noite quase acabou com tudo em nossa volta e sem deixar vestígios. Em meio ao furacão, pude vê-la caminhando sem medo, cabelos ao vento, em busca de algo que nunca compreendi muito bem. Porém, era a minha única e incessante procura. Será que você sabe perdoar meus gestos mais imprudentes em direção ao desconhecido medo? O tempo ruim passou e o dia quase amanheceu em paz nos lábios cansados que sorriram para esconder a lágrima perdida. Não sei quais as armas que eu usei para me ferir enquanto passeava distraída em meus sentimentos confusos. Por outro lado, compreendo o jogo ilógico que procurou se esconder do temporal que te esperava em meu abraço. Será que saberá redimir o amor que nos atingiu sem coerência? Foram tantas as feridas não cicatrizadas, mas saímos ilesos na madrugada cinza. O vento forte acalmou e quase conseguimos dormir em paz.

Tenaz quanto um menino com vontade de voar, encontro fragmentos de relatos esquecidos com o tempo em uma ligação telefônica banal. Uma voz solitária expõe a nuvem calma de sua passagem. Recordo-me de uma paz reinante e a calmaria de sua oratória pedindo para não ter pressa no conturbado centro caótico das desilusões perdidas. Breve como passarinho que foge de seu ninho em busca do paraíso do outro lado da estrada, seguiu pelos desfiladeiros esquecidos das almas consumidas. Deste lado do muro, o jogo é árduo e a oração não roga a raiva exposta. Novenas não pagam aos donos de pegue-e-pagues espalhados em cada esquina. O olho seco cega a inexata precisão das ordens estabelecidas pelas regras do consumo.

Levo a vida a pisar em campos minados. Relato em sonhos costurados meus medos expostos numa metalinguagem inexplicável. Pesadelos mutilados, acordo ensopado de um suor desesperador das imagens registradas em minha retina enquanto os olhos fechados buscavam o mundo multicolor do torpor. Cenários de papel ilustram a jornada que seguem os destemidos perante a existência inexata. Sei que deve partir antes do amanhecer, mas fique um pouco mais, se agarre ao meu peito despido e diga que não pode mais viver sem a minha confusão incontrolada. Depois, vá, junte tudo que puder levar e se esconda do meu discurso contra a vida. Vou estender a mesa vazia para os comensais famintos de relatos intermináveis e de conturbadas menções sem nexo, sem paz. As pessoas que correm apressadas pelas vias não se importam se choro ou se sofro. Apenas seguem, abafando as mágoas contidas em suas almas.

Certa manhã acordei com pensamentos imperfeitos. Ao meu lado, rascunho de um projeto se arrasta há anos sem fim. A saudade navega em águas mansas a remontar o que o tempo fez esquecer. Marujos ao mar raso diante da tempestade. Pede-me para me embalar em uma dança macabra: alguns balançam os corpos tímidos para esquecer; outros, embriagados, para lembrar seus raros momentos de glória. Segue longas milhas, mas não se perca no instante que deveras voltar para o lar. Os ventos mudam a direção, mas meus olhos afoitos teimam em registrar as cenas repetidas do passado sem paz. Onde estive quando mais precisou de meu ombro amigo e conselhos inexatos, que nem mesmo eu tenho coragem de os colocar em prática?

Luzes de mercúrio iluminam a face escura da madrugada. Do outro lado do mundo, sequer ouve meus suspiros desesperados. Você dizia que deveria libertar os prisioneiros em minha mente. Eu sorria, como o único ato desesperado de quando não encontrava alguma forma de responder. Corpos entregues ao momento esmo; nos dias seguintes, silêncio opaco. Seu retrato esquecido me faz lembrar o momento de sua partida. Volte e retome tudo que te faz falta nestes anos de exílio imaginário. Toque-me e prometa-me que não se afastará de meus braços cansados e medrosos perante o desfiladeiro que aos poucos me aproximo. Abrace-me e faça-me uma parte viva em ti; o que eu nunca fui e talvez nunca serei.

O legado

Partiu sem deixar rastros. Apenas um recado: em poucas linhas tortas, disse-me adeus e um abraço. Palavras parvas desprovidas de sentimentos e sensações decorridas. O derradeiro final antes mesmo do breve começo. Mudou a estação, mas em meus olhos algo perdeu o brilho. Talvez por ser um dia deserto ou apenas a saudade de qualquer coisa disforme. Sinto seu perfume em outros corpos como se tentasse, em vão, remontar um quebra-cabeça de paisagens que não vivemos. O sol nascerá amanhã? Quando acordo e não tenho seu sorriso aprumado enfeitando nas manhãs sombrias penso que algo sem conserto se partiu dentro de mim. Agora, seguimos em linhas opostas de volta para casa.

E você a me dizer que os sentimentos são mais valiosos que os gestos. Então, ainda acredita que o amor é tudo? Tudo bem, faça-me de tolo nas lerdas horas incertas das quais tento me reencontrar depois de uma tormenta. No final, suas boas intenções continuam a movimentar a roda-gigante que me mantém suspenso em sua gravidade. Ando passos incertos, rumo à confusão de seus olhos castanhos. Dias sem paz e folhas amareladas deixadas no travesseiro antes mesmo de abrir os olhos e ganhar mais um dia sem flores ou poesias. Sonhos coloridos foram deixados em um piscar de olhos, mesmo anteriormente de terem tempo suficiente para que fossem maturados. No local que deveria ritmar a compaixão, agora cicatriza uma lacuna interminável. O que faremos com tudo que ficou sobre os ombros cansados? Fingir que nada aconteceu e seguir em frente? Ou simplesmente culpar o desconhecido medo do outro? Como cegos, tateávamos no escuro que cultivamos com a nossa ausência. Dias incertos e a vontade de recomeçar antes de ser dada a largada do páreo principal.

Como um espelho ou mais uma manifestação de ironia, analisamos nossos maiores defeitos refletidos na face do outro. A palidez de suas retinas aflitas deixou-me marcas: sei que deves partir, mas peço que regresse antes o maremoto que se aproxima. Às vezes, pego distraído a pensar: por que sou assim? O único retorno que encontro é o silêncio assustador de quem sabe as respostas. De qual local caem as palavras? Na madrugada fria, um rosto desconhecido passa pelas minhas retinas carregando suas dores. Eu, passivo, apenas acompanho suas lágrimas ante ao fascínio do desespero. Calo, tentando controlar a minha loucura. Do que restou, ficou no ar um sorriso estampado de falsa alegria e a tentativa de rever a cor do céu em um dia de sol. A paz tão longe de um redenção. Amanheceu e nem notei que envelhecei anos a cada segundo sagrados sem seus abraços. Por que deixou sobre a mesa poucas palavras que em nada resumiu nossos dias confusos e desencontrados?

Carregamos cicatrizes deixadas pelo tempo. Cada marca era uma nova história. Você a me perguntar se ainda tinha medo do escuro. Fecho os olhos e segurando a sua mão finjo ter uma coragem que nunca tive. Embora esconda meus traumas mais sombrios, deixo aparente o temor à falta de luz. Mesmo tendo crescido um pouco, ainda carrego certa magia de criança. Um sorriso inocente esconde minha timidez, mas contesta a falta de maturidade que os anos não me trouxeram. Penso excessivamente em seu relato inacabado, transcrito com a mão trêmula e em poucas palavras desencontradas: amor, solidão, desespero, o mundo caindo sobre os pés cansados. Voltas completas; volte voando. Bem-vinda à vida real!

Em sua confusão, dizia que eu não rimava dor com amor. Meus passos me mostravam o oposto. Fazia de tormentas uma forma de manifestação de ternura. E de cada acalanto, um sofrimento sem tamanho. Há dias que tudo permanece em paz; em outros, faço da calmaria um campo de batalhas. Cansou-se dos temporais que eu provocava. Foi-se, pois deste lado do beco, só ter piedade não vale a pena. A voz que ecoa não é mais a mesma de quem grita. Repete seu berro em travessas escuras da cidade cinza. Valei-me de um amparo. Neste segundo, seu abraço faz-me necessário, no mesmo instante que seus olhos confusos trouxeram calmaria aos meus passos distraídos ao acaso em combustão. Metade de mim se foi quando fechou a porta e seguiu sem olhar para trás. O que restou, guia-se moribundo pelos percalços das alamedas mal iluminadas das falsas demonstrações de alegrias.

Nem todos os sonhos se desmancham no ar

Leve-me para onde seus olhos possam me proteger deste amargo e escuro desfiladeiro que se aproxima de meus passos cansados e desamparados de proteção. Por algum motivo, insisto em reinventar histórias adormecidas sobre o travesseiro. Algo encheu meu coração de sentimentos incompletos; pediram-me para não chorar: foi inevitável. O mês voando e a velha chama a queimar a derme novamente.

Agora que envelheço anos a cada dia, procuro a paz roubada reinante em minhas fantasias mais secretas. Onde esteve o tempo que deixava minhas feridas expostas ao sol? Crianças, acordem antes que seus sonhos se tornem tão breve quanto uma chuva de verão. Sigam seus erros a provocar tempestades por causas justas. Não se prendam as horas mortas, que enferrujam as engrenagens de nossos corações a cada gesto bom.

Perdi-me em curvas provocadas pelo meu insano medo de errar. Voltas incompletas e repetições em mesmo tom sobre as poucas migalhas envelhecidas em cima da mesa. Na sala de jantar, estranhos conversam banalidades. Eu, com o correr dos olhos, sigo a movimentação de fora. Um dia será apenas um breve relato. Um corte profundo na carne. Arcos de fogo cruzam o céu em chamas. Em poucos instantes, o cinza tornou-se vivo em mim. Com minhas flechas e relâmpagos, posso ver como serei no futuro. O desenho que se cerra em minhas vistas não é nada animador.

Passos incertos e a improvável certeza de um novo amanhecer. Lúcido, sei que não há nenhuma saída para estes labirintos imaginários e regressos para o lar depois da madrugada morta. Então, deixo meu cabelo crescer e tento esquecer tudo que aprendemos a nos acostumar sem duvidar. Nem todos os sonhos se perdem no ar. Conforme a madrugada se aproxima do final, ouço sua voz a entoar uma sutil melodia dourada. É a canção que não me acompanhará na manhã seguinte. Nada mais está escondido diante de suas retinas.

Foi pelos ares!

Levo branco o seu sorriso tatuado em pontos escuros da cidade: entre o cinza opaco de construções incompletas e anúncios iluminados de arranha-céus, escuto acordes dissonantes nas alamedas das quais fui mais feliz. Ouço-te cantar uma sutil melodia. Durma enquanto o dia desperta para as rotineiras repetições de palavras e gestos. Garota, você conseguirá carregar este fardo por tanto tempo assim?

Em suas palavras, deixava transparecer algumas dúvidas que pairavam no ar. Como as rápidas cenas de um filme sem nexo, fragmentados sentimentos se desenham no quadro branco que tentava compor. Nesta tela triste, remotos relatos pincelavam a paisagem e o chão forrado de folhas decaídas da última estação. Não tenha medo, o vento sempre sopra com mais força para os que não são acostumados com o Inverno. Então, deixe a brisa molhar seus olhos e nos fazer acreditar que o sol voltará em breve. As árvores eram mais altas quanto tínhamos cinco anos. Vem iluminar o deserto que nos cerca enquanto o dia se extingue.

Eu nunca te dei meus sonhos mais perturbadores. No meio das celebrações tolas, apenas convidei para adentrar em meus devaneios. Sobre os ombros, pesa a ausência de algo ainda disforme, uma espécie de reconciliação com os pecados do passado. Eterno caminho das águas. Acompanhava o amanhecer de forma bucólica, como se fosse a primeira vez que via os raios solares surgindo para o novo dia. Sigo, mudo, pelos percalços deixados pela excessiva timidez. O silêncio de minha retórica guarda o significado de uma tormenta vindoura. Eu desabei.

No momento em que o mundo explode em milhares de manifestações desencontradas e eu apenas penso em seu sorriso como uma maneira de reencontrar o arco-íris antes que o dia termine. É uma dor que não se esconde com falsas demonstrações de aparente tranquilidade. Como uma espécie de despedida; a arte de desprender-se das falsas demonstrações de carinho repentino. Procuro seus olhos em uma forma de recriar, em doces lembranças, novas sensações. Certa vez, houve um caminho que nos levaria para casa. O que, afinal, foi feito com isso tudo? Foi pelos ares!

Insisto em escrever relatos em voltas e labirintos incompletos. A poesia não passa de uma forma de se exonerar aos poucos: antes do derradeiro pôr-do-sol, sei que vou reler por várias vezes a sua risada. É um conforto momentâneo diante de tanta imagem que explode. Para me abrigar da chuva ácida, quero me esconder por detrás de suas retinas, em um ponto em que possa ver o mundo cada vez menor. Uma pergunta martela minha cabeça: você estará em meus sonhos esta noite?

O túnel

Insistentemente o telefone toca. Atendo. Do outro lado da linha, uma voz sombriamente conhecida me diz entre soluço: alô!
Ainda atônito, olho para o rádio-relógio a me informar que ainda estamos no meio da madrugada fria de inverno. Respondo: oi!

– Tenho pensado em você de uma forma que não se limita ao que sou.

Ainda sem saber com quem estava a falar, contesto com frases soltas, como a me reencontrar depois de uma imensa tempestade vindoura.

Do outro lado da linha, aquela voz sombria e familiar relatava acontecimentos até então adormecidos.

– Estive fora uns dias. Estava fora de mim, de ti, de tudo que fizemos juntos. Do nada que nos separa. Onde esteve quando me perdi de você?

Ela me perguntava justamente o que eu procurei entender neste tempo todo. Longos dias frios e maquinais, a repetir exaustivamente os mesmos percursos. Cada dia era fatal.

- Não sei o porquê de você me diz isso – respondo. Justamente agora que não há mais a indagar por estas respostas. Neste tempo de exílio que me mantive longe de suas retinas, aprendi a representar uma felicidade que não tenho. Sorria para os outros como a alimentar uma alegria que nunca esteve estampada em meu sorriso lacônico. Sorria para disfarças as cicatrizes deixadas com a sua ida ou o seu regresso. Agora, você …

Ouço-a fungar, como a amparar uma lágrima que teima em rolar nas horas mais impróprias. Ela emenda:

- Nunca se arrependeu de algo que fez? Ou ainda continua com a sua soberba mania de achar que seus sentimentos são mais valiosos que os dos outros? – disse, aos berros, na remota tentativa de esconder a voz embargada pelas lágrimas.

Engulo a seco uma resposta atravessada, que normalmente falaria nestas ocasiões. Calo-me, em uma auto-análise das parvas insensatas atitudes que tive até então. Ela continua, agora com a voz aveludada e doce.

- Senti-me perdida, da mesma forma que se sentia e nunca o entendi. Agora compreendo a confusão que eram seus passos tortos. Por que se calava quando precisava se abrir? Por que relatava suas mágoas a quem nunca teve a sensatez de entender os labirintos de sua alma? Por que, afinal, nunca confiou em meus conselhos? Sempre tão auto-suficiente em seu egoísmo cético, que se esqueceu de ajudar a quem mais precisa: você.

Suspiro… queria encerrar aquela conversa insana e inoportuna. Falo:

- Está bêbada? Ligar a esta hora e para nada falar, a não ser para me derrubar em um mar comum que eu mesmo me joguei… O que quer afinal? Minha cabeça como sobremesa? Entre, sirva-se à vontade. Hoje o prato da casa é a minha dor. Experimente.

- Ironia sempre foi a sua arma mais apaixonante. Somente os inteligentes conseguem a usar de uma forma tênue, quase poética. Você é um dos poucos que me fez enxergar isso.

– Não exagere – como um tolo, respondo a única frase que me vem à mente, no instante que tento afastar o sono. Desperto para a vida!

Ela diz:

- Não estou bêbada, embora tenha motivo para me embriagar todos os dias, principalmente ao cair da noite. Nessas horas, a dor é mais forte e nos entregamos aos vícios. Da mesma forma que você fazia e eu não o compreendia. Para falar a verdade, eu nunca o compreendo. Talvez seja esse o grande mistério: o labirinto multicolor que me envolvi a ti. Sem nunca o entender plenamente, mergulhava de cabeça para saborear a queda livre até seus passos contraditórios. Eu acompanhava de uma janela com vistas ao mar o seu suicídio perante a vida banal… Renunciava-se sempre contra o senso-comum.

Silêncio.

Por um breve instante, vem à mente o momento de desespero que, sem alternativa, retirei meu cinto e tentei me enforcar. Na cena seguinte, vejo minha mãe ajoelhada e com o terço nas mãos, pedindo proteção aos seus santos católicos pela vida de seu filho errante. Ouço velhos cânticos, como sinos a badalar em minha cabeça e a me mostrar as iniquidades cometidas no passado. Passos incertos e uma vontade de deixar os caminhos livres fluírem as próximas jogadas.

- Andei em linhas tortas, quase em círculos concêntricos – respondo. Quando mais precisei de ti, não que devemos projetar nos outros as passagens mais amargar, você disse que precisava cuidar sozinha de seus passos. Passei por medos, momentos de inseguranças, solidão em ponto de dor. Você apenas sorriu e disse que precisava devorar o mundo. Nesse instante, o mundo todo desabou em minha cabeça. Mesmo assim, aprendi a deixar a ferida aberta e seguir em frente. Acumulando dores, medos, solidões, desamparos e desesperanças em um único turbilhão. Para amenizar estes sentimentos confusos, afogava-me em vícios rasos: trabalho excessivo, álcool, solidão dos amigos, noites de insônia em meio à cidade em combustão. Você apenas ria, enquanto eu tropeçava pelo chão com uma garrafa de rum vazia.

Naquela altura, remeto-me a lágrimas de minha avó em um momento de despedida, um abraço antes de colocar o carro na estrada de volta à confusão e para a solidão das grandes metrópoles. Em cenas repetidas, me vejo voltando para casa, em busca de um abraço materno. Uma redenção longe de um final feliz.

- Eu sempre me entreguei a remotas tormentas, como um marujo frente ao mar. Desesperada diante do abismo que nos cercava cada vez mais e amedrontada com as correntes que nos arrastavam, saltei enquanto dava tempo. Confesso, foi o medo de te perder aos poucos que me fez arrancar esse sentimento de uma só vez. Dor instantânea e ensurdecedora, mas que um dia cessa. Ainda guardo cicatrizes profundas que, acredito, nunca irão se curar. Por que não me perdoa e faz cicatrizar as marcas que me fizeram ser o que hoje sou?

- Quando minhas feridas estavam expostas, jogou sal para arder na carne a dor que trazia. Fez-me envelhecer anos a cada dia que esteve distante. Hoje, trago marcas amargas no rosto, na boca, na alma. Não durmo em paz. Esqueci a áurea que deixar se apaixonar por uma música, um poema, um filme… Não me recordo do gosto do amor. Não a culpo, desculpo-te em mim. Mas um forte medo ainda cintila nos meus olhos quando me vejo frente ao que poderia ser chamado de felicidade. E por quê? Pergunto na minha mais insana ignorância: por não ter que repetir as cenas de alegria que compartilhamos em outro rosto, exceto ao seu.

Limitou-se a me ouvir. Com a boca velada, como a assistir, bestificada, uma ópera no Municipal. Em seus trajes de gala para aparecer pertencente de uma pequena elite burramente dominante a viver, socialmente, de aparentes demonstrações de suas insignificâncias intelectualidades. Boçal como a maioria dos comensais, sorria com uma taça de vinho em mãos, sabor que não soube apreciar. Continuei…

– Em seu egoísmo homérico, esqueceu-se de perguntar como seria o amanhã. Quis a liberdade, mas ela não é aceita de braços abertos e sem cobrar pelos préstimos feitos. Tem seu preço sujo e implacável. Cobra caro pelos passos distraídos dos desventurados. A coroa da liberdade está salpicada com o sangue, a lágrima e o suor dos que desafiaram suas ardilosas regras. No final, somos todos reféns de um sistema falho. Presos pela eterna sensação de sermos livres… assim na terra como no céu.

- Eu te procurei no vento, eu te procurei em outros rostos, outros portos, outras rotas, outras voltas. Reencontrei-te em mim num dia escuro e úmido, depois de uma sessão de cinema ordinário, naquele cubículo que sempre adorou. Eu detestava ir naquele antro de cinéfilos babacas, que nunca entendiam os filmes que assistiam. – disse-me.

Ainda com raiva no tom da voz, continuou:

- Reclamava de minhas inúteis vaidades, mas seus vícios burgueses como cafés, cinemas europeus, culinária sofisticada e vinhos caros não te fazem uma pessoa melhor. Apenas mais interessante e, para certas mulheres, quase irresistível. Esta mistura de quem precisa de atenção com a docilidade de suas palavras, seus acalantos e confusões te fazem mais belo que o realmente é.

- E para quê? Para que me ligar em um dia em que eu não estou mais em mim. Quando se foi, senti-me sozinho e sem tem com quem confiar. Desacreditei do que seria capaz. Mesmo assim, a cada dia sorria para os vizinhos apenas para mostrar a eles que tudo estava bem. Para esconder meu rosto triste, recolhi-me em abraços momentâneos e desesperados. Encarei a morte na sua face mais cruel. Perdi cabelos, mas não a teimosia.

- Eu não sei viver, convivendo com a sua falta. Tenho pressa do novo, o imediato instante que seus passos seguiam em direção os meus sonhos mais secretos. Sua boca a relatar seus estranhos medos e seu toque em meu cabelo para me falar que tudo ficariam bem, quando eu me desesperava. Calado, engolia a seco as mágoas que habitavam seu espírito. Eu sempre me senti num labirinto imaginário, que me devorava aos poucos, nos raros momentos ao seu lado – ela disse.

- É fácil recontar o passado, pois sempre recriamos pela nossa ótica. Não vivíamos em labirintos. Andávamos em linha reta, cada um em um túnel com caminhos distintos. Nos encontramos no meio do trajeto. Breve momento eterno. Foi…

“Preciso desligar”, ela disse. O sombrio som de sua voz deu espaço ao tom da linha telefônica. Minha vontade era arremessar o aparelho contra a parede. Limitei-me a desligá-lo. Tentei reencontrar o sono, da mesma forma que, no passado, me esperancei em seguir nos trilhos certos instantes depois que ela se foi. Ecoava na cabeça suas frases rotas e o mantra que recitei apenas para me afastar dos perigos que me rodeiam por imaginá-la novamente em mim. Viver era perigoso. A cada curva, uma nova aventura nesta escura estrada rumo ao desconhecido nada.

Ecos de um mundo em silêncio

Tateávamos no escuro os nossos reflexos repetidos na alma do outro. A falta de palavras nos fazia companhia, da mesma forma que nossos corpos se enlaçavam no frio da madrugada interminável. A paz roubada tão longe de uma redenção sem fim. Dias passavam e o vazio consumia as vistas cansadas de cenas repetidas dos corriqueiros passos no escuro. Fechava os olhos para não encarar as verdades expostas em sua boca velada. Esquivava de seus olhos suplicantes por repostas, que não poderia explicar com palavra vazias, repetidas, sem embasamento teórico… Frios vocábulos, inúteis passagens.

Procuro em meus restos algo que nunca esteve presente em mim. A vontade de conquistar o mundo pelas portas dos fundos deixou-me vícios indecifráveis: partida e despedia; o regresso antes mesmo da viagem; o sonho derretido em horas incertas. Pego-me a reler devaneios imprecisos enquanto acompanho as cenas repetidas dos próximos acontecimentos. Sei que caminhará dias em dúvidas; na sequência de diferentes naipes, apostará ambiciosamente contra a sorte comum. Depois, pedirá a conta e abandonará o salão principal em salto alto e ar esnobe. Na manhã do outro dia, se despedirá dos comensais.

Persigo seu rosto sobre escombros da fragmentada memória: uma noite e tudo volta ao mar insólito das sensações imperfeitas. Esqueço as horas mortas, os segundos sagrados que fecho os olhos e tento dormir novamente. Um pouco de ar, por favor! Em poucas palavras murmuradas, um silêncio ensurdecedor estrangulava o resto dos sonhos esquecidos, que nunca mais voltarão. Pesa sobre a penteadeira um retrato em cores apagadas a modurar seu sorisso irônico. Como a uma película, águas calmas em um dia de sol contrastavam a taciturnidade de seus olhos cândidos e desesperados. Você gargalhava em momentos de desespero, repetia sem fé ou esperanças frases rotas e cantava para esquecer as dores. Sorria na hora errada no inútil tentativa de disfarçar o desespero repentino. Unhas roídas e esmalte borrado. Seguia. Eu fiquei na contramão dos acontecimentos que nos uniam. Parti, para nunca mais me reencontrar.

As luzes da cidade demarcam as ruas sem saídas que teimosamente tentei desafinar o coro dos contentes. O paradoxo das despedidas intermináveis. O tempo deixou marcas em nossos corpos, como as quentes armas disfarçadas da alegria mediada. Escrevo nas paredes do mundo com letras garrafais e em poucas palavras o silêncio anacrônico que atravessamos nos últimos tempos. Sobram vozes, mas falta conteúdo. O infinito abre seus braços perversos com vista para o mar.

O castelo dos destinos

Longa noite sem sono; pesa sobre os ombros a ausência de algo ainda inclassificável. Uma espécie de saudade de acontecimentos que estão por vir. Na memória, pensamentos imperfeitos e incompletos. Fragmentos do passado misturados com os próximos passos em direções opostas. Contraditórios sempre foram meus devaneios mais interessantes. Creio que me acostumei a esquecer os sentimentos ainda em estado embrionário.

Ao senso comum, ilusórias sombras sem um espectro visível. Forma e conteúdo imprecisos ao passo que se escondem por detrás de cortinas concebidas pela imaginação fértil. Improvável, impossível, inalcançável aos olhos nus e sentimentos desencontrados. Ligações invisíveis, redes imagináveis. Suave tormenta e retorno ao lar. Sejam bem-vindos, mas regressem ao mar raso de sensações insólitas e momentâneas antes que a dor torne-se insuportável.

Sobre nove luas, gritei sem força seu nome em uma noite fria. Nada permanece inalterado sobre os trilhos de comedida tempestade. Calmaria provisória. Amanhã tudo voltará à velha rotina: morte e vida; encontros e desencontros; lua e sol. Bendita voz a sussurrar palavras doces e mentirosas aos meus ouvidos desacostumados com a realidade dura e imposta pelos padrões de consumo. Suas verdades inventadas me fazem acreditar que são respostas e manifestações do coração. Antes viver de esperança que perder a certeza de tudo.

Lavo as mãos e deixo sobre a alma o que não se pode interromper. O que nos aproxima, afasta-nos involuntariamente com a mesma intensidade, talvez com um pouco mais de força. Nesse vetor, o tempo dita as regras sujas. Polos magnéticos que se chocam em um espaço sem gravidade. Suspenso no ar. Reflexos de uma noite desprendida sobre vultos. Empilhada em cantos escuros da alma, a soberba reflexão incorreta sobre quem sou. Minhas abstrações se limitam a nada definir com profundidade. Nos destinos cruzados, castelos envelhecidos permeiam caminhos emaranhados pelo acaso. Por descaso, espero sua volta, da mesma forma que aguardo meu reencontro.

Do mais, estou indo embora do campo de sua visão, apenas para resguardar o que restou das velhas lembranças. Recordações de alguns abraços, fotos espalhadas e sua imagem cristalizada em minha retina. O que restou de vastas sensações que nos permearam por anos: a ausência, a dor, a saudade, seu retrato na estante e a redenção dos pecados não cometidos. Ficaram as palavras soltas no ar. Como bolhas de sabão, após breve elevação, esvaem com o vento.

O tempo diminui com a intensidade que os pensamentos incompletos controlam meus passos ao acaso. Com o cuidado necessário, preocupo-me com a saúde e equilibro uma dieta que não será cumprida. Tardios reflexos da consciência, por instantes tive a sensação nítida que estava ao meu lado. A sua presença se faz necessária em ocasiões em que não me encontro em mim. De exato, apologias deixadas de lado e outras utópicas revelações sobre as invisíveis teias que controlam o mundo. Feridas abertas pelo tempo e a vontade de cura instantânea.

Ab(surdo)

Se o absurdo,
por um segundo
fizer-me sonhar
ou, quem sabe,
calar-me a voz
engasgada
e encher a face
com gosto de lágrimas.
Saberei que não
foi apenas um sonho
abstrato.

Se suas palavras
mudas forem visíveis
apenas aos meus olhos
insensatos,
desesperados,
incompreendidos.
O silêncio da noite
interminável
faz-me renovado
para um outro
amanhecer.

Improvável
perder a esperança.
Contra-senso seria
não mais ter
a presença
de sua voz suave
que me fazer calar
a boca, a mente
e o coração.

Depois da vertigem, a volta

Partes perdidas de uma calmaria desejada. Sobre o mundo, caminho vislumbrando seus suspiros esquecidos. A paz roubada tão perto de voltar ao princípio, quando tudo era utopia ou um lindo sonho inalcançável. Inexatos instantes a contemplar as horas mortas. Enquanto a roda-gigante que gerencia o universo gira, vagamos pelas lentes cristalizadas e olhares infantis. Meus olhos vermelhos e o medo de se entregar.

Perto do fogo, longe das lágrimas de um recinto de outrora. Mar e sol que se unem em um ponto perdido no universo. Volte do lado sombrio da lua e me encante com seus mistérios, que me devoram aos poucos. Um pouco de luz. Ar, por favor! Rascunhos de histórias inacabadas e imperfeitas transcorrem em passos lentos a me conduzir. Perigos e sinais de vida vindos de um passado opaco. Medo e desejo misturados. A saudade transmuta em sabedoria e dores solidificadas. Pelos reflexos do espelho, te vejo a dançar em um ritual. Mitologicamente, você a enfeitar meus pesadelos mais sombrios.

Aproximo meus anseios a suas mãos cândidas. Olhos e pele próximos a acontecimentos recentes e expectativas de ações vindouras. Pesa sobre os ombros, a necessidade quase que vital em alinhar seus impulsos a meus pulsos cansados. No momento de ir embora, resolvi voltar. Esqueço traumas, dores e sonhos sobre a penteadeira e parto para mais um dia sem flores, sem poesia. Como entregue a um amor remoto, sem conseguir um direcionamento aos meus passos, saio para salvar o mundo. Rostos e gestos trazidos pela maré. Depois da vertigem, a volta.

Palavras não ditas

Guardei o retrato seu que mais gostava entre as páginas de um livro de contos reunidos de Murilo Rubião. Não como metáfora às questões existencialistas, apenas para me refugiar das decisões contrárias. O sorriso que me iluminava adormece, agora, entre o canto empoeirado e as antigas leituras na estante de meu quarto. O amor é isso: poeira, vestígios de sorrisos e uma imensa saudade a enfeitar o mosaico que nos cerca.

A emoção parece ter chegado ao fim. Ver-te caminhar perdeu a importância. As imagens vão se apagando da memória rarefeita. Voltas incompletas de um caleidoscópio a girar sem órbita. Fora do ar em vastas sensações esquecidas. Irônico destino fadado a seguir em linha reta quando o mundo insiste em caminhar de forma cíclica. Sol, girassol a girar…

Cada face da lua guarda um mistério. Seus olhos e palavras duras eram enigmas que tentava decifrar a cada novo ciclo lunar. Disposto a ser devorado, perdia o pouco da paz reinante de desencontros do passado. Com gosto de framboesa na boca, imagina ser dias especiais. Foram. Mas partiram. Nem o frio ou a falta de assunto foram capazes de afugentar os corpos cansados de promessas esquecidas.

Enquanto você ria, o mundo parecia parar. Problemas deixavam de existir apenas por ter as imagens de seus olhos cerrados e lábios abertos cristalizados em minhas retinas. Pego o livro que repousa sua foto, mas desisto instante antes de abrir a página certa. Ver seu sorriso puro, estampado em cores límpidas e registrado em um momento de felicidade plena, seria um golpe certeiro ao dilacerado coração ofendido. Deixo repousar na eternidade de um segundo a repentina inspiração. Seu sorriso emoldurava a corrente que envolve o amanhã.

Foi o tempo de fechar os olhos e dormir. Breve pluma a voar pelo ar, com a mesma intensidade que veio, partiu sem deixar sinal. Varres esfinges em cruzadas épicas. Triste mundo em que se vangloriam estadistas e guerreiros. Em meu cenário ideal, artistas vadios e poetas boêmios governariam os corações solitários. O arremesso mortal da saudade que sentirei do amanhã.

Há ocasiões que o sol se esconde entre nuvens indefinidas e carregadas. Em outros momentos, é a chuva a molhar a roseira no jardim. O cheiro que exala e as cores ressaltadas fazem-me recordar as notas musicais de uma antiga canção que me acompanha desde os cinco anos de idade. Escrevo porque não sei compor músicas. Talvez nem saiba transpor em papel o que se passa em minha cabeça.

Mas, você teimava em ser essa menina distraída que vacila diante de tudo. Eu, enquanto isso, tentava equilibrar a insegurança com o medo do escuro. Espelhos multicoloridos refletiam em uma realidade criada a epopéia seguida pelo infindo espaço de nós dois. A diferença, como sempre, era a sua desconfiança cética de tudo e a minha falta de fé. Mentindo, seus olhos me confidenciaram que necessitava de uma nova dose do novo. Você, pela clarividência de meu rosto, percebeu que eu aguardava o derradeiro amanhecer.

Em bolhas de sabão sopradas por uma criança enquanto esperava o tempo passar até se tornar adulta – e fria como todos aos amadurecidos –, reflexos recriavam o que fui até então. Nuvens cobriam o céu em que o sol lutava friamente para raiar. Eu olhava as bolhas de sabão a desafiar a gravidade e pegava-me a pensar sobre a vida: sábias palavras não ditas e as expectativas deixadas sobre o travesseiro.

Em leve satélite

O telefone a tocar sem a mínima esperança de ouvir sua voz do outro lado da linha. A vida passa rápido demais. Fecho os olhos e parece que foi ontem. Ao mesmo tempo, tantos encontros e desencontros, beijos e despedidas, gritos e sussurros… tantas coisas ocorreram desde então. Há quem chame de acaso, outros de ironia do destino; fato é que não creio na existência de tais redes invisíveis a controlar nossos passos. Existem a lua e a maré, mas também há remédios para dormir. Retrato instantâneo de um cotidiano não vivido; flores deixadas sobre o túmulo e o medo de reinventar o futuro remoto. Uma cápsula do tempo guardada no fragmentado (in)consciente coletivo. A bifurcação dos sentimentos. Janela da alma em formas homeopática. Por ondas via satélite, enxergamos um mundo formatado pela tábua-rasa do senso comum. Incomum abrir os olhos e analisar a realidade opaca que nos cerca. A vida sem freio, sem pressa, sem sonho, sem expectativa e alegria nos prega um sorriso irônico. Pelos cantos de olhares sombrios, via-se o resto de esperanças perdidas escoarem pelo ralo. Numa dança macabra, a realidade misturava-se com escombros de uma noite de insônia e sentimentos desfeitos.

Deixo a cama sabendo que terei um longo dia sem poesias, flores ou alguém a me esperar. Corro contra o relógio para me alimentar na hora certa, ser pontual aos compromissos, não esquecer de pagar as despensas mensais e lembrar de datas que não me remetem a nada. Luto, diariamente, contra o gigante medo no intuito de manter a cabeça ereta, a coluna reta e o coração o mais tranquilo possível. Cogito: entre o ébrio e o inexato, o sombrio e o inacabado, o abatido e o derrotado. Para saber o que se passa ao meu redor, ligo a TV e esqueço das preocupações pertinentes sobre meu relato. À taba de índio pós-catequizado pelo moderno desejo da companhia midiática. Cabos de fibra ótica e sistemas complexos de transmissões digitais vomitadas, friamente, entre o fetiche tecnológico e a solidão mediada. Do outro lado do mundo, sequer sabe de minhas angustias e lamentações.

Sobem as cortinas e um novo mundo desce pelos desfiladeiros da inconsciência. Tenho a chave do jogo na palma das mãos. Incapaz, deixo escorrer como areia ao vento os meus desejos e esperanças. Caem folhas, despedem da vida no ápice de seus impulsos. Acompanho pelo calendário deixado, involuntariamente, sobre a mesa o correr acelerado dos dias maquinais. Revir a areia da ampulheta escorrer, face sombria, pelo largo orifício. Cada dia, um ensaio dramático para o último ato, a última cena, a última fala. O adeus definitivo ensaiado a exaustão diária. Guiado pela sequência de diferentes naipes e cores, deixo o destino jogar as cartas. Não por acaso, faz as maiores apostas; é detentor do melhor carteado e controla a banca. Num desatino cruel e desenfreado, vence quem sabe mentir com o rosto alvo da verdade.

Esconde entre os dentes um amor definitivamente abandonado. Um anjo solto escreveu em minhas mãos: sairá a salvo, sem vida; mas não terá nada para citar. Desta janela, sozinha, olhar as luzes da cidade lhe traz calma. Sorria quando o choro era a única vontade que sua alma emitia. Fez-se uma dor cicatrizada em alto-relevo em seu coração. Pelos anúncios luminosos da orla da praia, seu olhar sem brilho segue em busca de algo inclassificável. Desatino e dor sem cessar. A rigor, o passo seguinte se confunde com o caminhar do passado. Segue em frente sem saber a próxima jogada. Dados a rolarem sobre os degraus dos destinos que se cruzam no tempo. Amanhã, repetirá os mesmos temores e acalantos antes do sol nascer. Que o satélite seja breve.

Histórias estranhas

Um salto no escuro grito da madrugada silenciosa. Como se não fosse impossível viver do sonho. O insano desejo de voar de peito aberto para o novo destino em vão. Preciso desabafar sobre as mais sombrias lembranças esquecidas no travesseiro antes do cair da noite. Sobre as mil noites no sertão, lampejos de euforias em sombras de desejos reprimidos. Noite chegou e outra vez esqueço o sutil detalhe que sou mortal. Morro todos os dias em frente aos seus olhos castanhos. Espero no fundo da noite, no fundo do copo, no fundo dos olhos… tomar suas mãos. Você desconhece o futuro que trago tatuado na derme.

Mesmo no escuro da noite e no silêncio das vozes opacas, não me sinto sozinho. Fujo das esquinas vazias para um outro lugar indefinido. No claro do dia novo, encontrarei seus traumas e pecados desfeitos sobre ao criado-mudo. Silêncio nos corredores. A vida se cansa das despedidas de corações solitários. Você se esquece das palavras ditas e das madrugadas entregues à meditação e à desesperança. Discorro em histórias estranhas, os relatos esquecidos ao som do mar e luz de um céu profundamente sombrio.

Desejo ser herói para salvar-me de meus medos torturantes. Cada relato, um novo amanhecer tingindo em papéis adormecidos e amarelados pelo tempo. Caem as folhas, os desejos, as palavras, os dias… nada permanece igual aos olhos cândidos e incompreensíveis. A vida imita a arte não representada: o teatro das ilusões perdidas. Papeis picados e aplausos calorosos. O final era fatal a cada filme rodado em sua retina. A tirania dos oprimidos; a estranha coragem dos desenganados. Sobre a mesa, dois terços de uma fé esquecida e o que a poeira encobriu de utopia envelhecida.

Sujos de sal, navegávamos em tormentas tempestades de esperanças. Sofro, sacrossanto, esperando por um dia de sol vindouro. Eu sempre quis decifrar seus passos, peco pelo excesso de esmero e polidez. Sobra luz sobre o cais de paixões. Cada memória, pequenos universos que se despedem da vida. Vigília de pastores descrentes a iluminar as trevas. Vendemos saúde, mas nos entupimos de remédios para ficarmos mais jovens. Palavras envelhecidas de um menestrel a caminhar enlouquecido, barba embranquecida, pelas ruas cinzas das ruínas da cidade em ebulição. A explicação que nunca procurei se esconde debaixo do temporal. Seus olhos iluminam a minha face mais escura.

Espero-te em um esquina qualquer em busca de algo que sabes mas não queres perceber. Relato em histórias sem finais o começo de um capítulo obscuro. Passavam-se os anos e nada permanecia em nós. Eu tinha bruxas impregnadas em meu lado esquerdo. A explicação que sei, se há, se foi pelo ar. Sem fim. Um novo ponto final a cada relato repetido. Enlouquecido. Exclamação? Eu invento rotas e espaço para te ver correndo ao curto trajeto de meus braços.

Escrevo com palavras repetidas as normas inexatas que orquestram seus sonhos delirantes. Nada mais adivinho. Era ingênuo sonhar e provar que ainda sou um menino. Ainda sonho a sua volta e os perigos que me roubam o sono de desejar estar contigo. Insisto em proclamar o oposto do que vivo. Nada mais acredito. Sou corajoso, mas muitas vezes deixei o medo tomar contar de meus passos. Ainda temo o escuro, mas desafio a breu com as luzes acessas no corredor e um oração que repito, sem fé, pelo exercício herdado de minha mãe. Não sei o dia de amanhã, porém acordo esperançoso antes mesmo do sol nascer.

Durmo com medo do futuro e esqueço as preocupações ao ouvir o som de flautas. Eu esqueço de cantar meus dias em euforias. Nada mais alivio. Nós, filhos de uma geração que morria ou mataria por um ideal, somos incapazes de se emocionar com a humanidade. Mudar o mundo, jamais. Nossa gênese não quer sonhar. Preciso te provar que ainda sou um menino envelhecido. Não durmo sem sua voz a protestar em forma de hino.

Lutas invisíveis

Abrem-se as cortinas e um mundo novo explode diante dos olhos cândidos. Esperançosos, procuram reconstruir a partir de fragmentos um mosaico multicolor. Frases incompletas, intenções escondidas; desejos subentendidos; sorte jogada aos astros distraídos: incompletas verdades e mentiras que deixaram de acontecer.

A realidade tinge a beleza dos pequenos milagres cotidianos com cores violentas. Segundos depois, nada mais restará nos poros, na pele, na boca, na alma… no ar. Evapora-se e leva-nos a acreditar que tudo não passou de um delírio, um momento de loucura controlada. Ventos solares a varrerem as lágrimas escondidas.

Nem tudo que é fugaz perder-se nos labirintos da memória. O ar rarefeito e a imensa necessidade de reiventar o passado mesmo antes do sol nascer. Sísifo indeciso diante da colina a calcular a necessidade de seu labor. A beleza é efêmera diante de olhos desprotegidos de tudo que é simples e suave. Leve pluma solta sem direção aos sete ventos. Dentro de mim, o mundo parou. Revive agora em ti; ou no que restou de nós. Silêncio: o que me resta é observar a solidão da rua pela janela.

Vou sair para ver o céu, vou me perder nos segundos sagrados dos sonhos deixados no travesseiro. Antes mesmo do pôr-do-sol, penso em milhares de formas para me esquecer de tudo que se passou. Preso em armadilhas do tempo, creio viver hoje uma repetição de cenas nunca vistas. Para sempre essa noite na memória. Chovia, mas ninguém se importou se mudávamos tudo em nós. Uma rua deserta no meio do mundo imaginário.

Olho meus olhos cansados diante ao espelho e percebo marcas de lutas invisíveis pelo corpo. Restos de um passado presente em meus passos indecisos e gestos contraditórios. Por medo, deixo alguns sonhos entorpecidos em cima da penteadeira e saio para mais um dia de poesia morta. Sem flores pelo trajeto, observo o entardecer melancólico da cidade cinza. Cores e fantasmas que rodeiam as ruínas esquecidas são as heranças recebidas da ganância voluptuosa.

Deixo as chaves para um jovem mundo sobre os trilhos e parto por galerias desconhecidas em busca de um novo eu. Sem documentos nos bolsos, conta em banco ou carta de alforria sigo preso em minha liberdade excessiva. Como se o dia seguinte não fosse nascer, ou se não existisse mais nada para acreditar, levo meus cabelos às rajadas tropicais de um tempo inexistente. O vento beija a noite escura, em volta completa rumo ao amanhecer. Amanhã, tudo voltará ao normal.

Uma canção triste

Fragmentadas cenas se repetem à exaustão. Palavras frias em voz de veludo colidem ao medo repentino de ter o que não se pode tocar. Ouço uma canção triste. Uma espécie e ópera a narrar traços de meus relatos. Sentimentos incompletos e histórias inacabadas. A vida sem freio cega para pequenos milagres cotidianos. Leva-nos para um lugar desconhecido: ao mesmo tempo em que é sombrio, saltam aos olhos a beleza latente dos encantos escondidos no misterioso. Repetidas frases, subentendidas intenções.

O segundo que antecede o medo, a paz roubada de quem desmoronou. Se tudo muda o tempo todo, mude-se para dentro de mim. Não, não é saudade em demasia; tampouco relatos ordinários confeccionados pela dor. Imagens explodem em um mundo governado por anti-heróis. Atravesso a noite interminável com algumas melodias suaves em minha cabeça. Torturantes horas em que busco o sono perdido. Entre versos perdidos e flores, rabisco no espelho nomes e palavras soltas. Não acendo a luz nem procuro me alimentar. Uma canção triste embala a falta de sorriso e o medo do pecado.

Vou perder-me no centímetro exato de seus delírios e subtrações não resolvidas. A matemática e seus mistérios; o silêncio absorto em seus lábios. Palavras não ditas e frases incompletas mostram-me em um mosaico de acontecimentos da fria realidade escondida em seus olhos castanhos. Fantasias deixadas no travesseiro ao som ensurdecedor do despertador, que rouba os melhores instantes do sonho. Mais um longo dia sem poesias e flores pelo chão. A realidade entorpece as vistas cansadas. Pego o telefone para te contar um sonho ruim. Desisto antes de discar o primeiro número. Afinal, vai valer?

Enquanto preocupo-me em saber se vai chover; num segundo de distração pego-me a pensar em você. Não que eu quero torturar-me ou encontrar um culpado. Apenas revi seus sorrisos entre outdoor antigo da avenida. Escrevo cartas repetidas e uso palavras iguais na tentativa de traduzir sentimentos contraditórios. Assim, antes do amanhecer vejo nove luas a clarear o breu. Concebo e descubro respostas; metade é mentira e a outra metade, inventada.

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fevereiro 2010
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