Depois da vertigem, a volta

Partes perdidas de uma calmaria desejada. Sobre o mundo, caminho vislumbrando seus suspiros esquecidos. A paz roubada tão perto de voltar ao princípio, quando tudo era utopia ou um lindo sonho inalcançável. Inexatos instantes a contemplar as horas mortas. Enquanto a roda-gigante que gerencia o universo gira, vagamos pelas lentes cristalizadas e olhares infantis. Meus olhos vermelhos e o medo de se entregar.

Perto do fogo, longe das lágrimas de um recinto de outrora. Mar e sol que se unem em um ponto perdido no universo. Volte do lado sombrio da lua e me encante com seus mistérios, que me devoram aos poucos. Um pouco de luz. Ar, por favor! Rascunhos de histórias inacabadas e imperfeitas transcorrem em passos lentos a me conduzir. Perigos e sinais de vida vindos de um passado opaco. Medo e desejo misturados. A saudade transmuta em saberia e dores solidificadas. Pelos reflexos do espelho, te vejo a dançar em um ritual. Mitologicamente, você a enfeitar meus pesadelos mais sombrios.

Aproximo meus anseios a suas mãos cândidas. Olhos e pele próximos a acontecimentos recentes e expectativas de ações vindouras. Pesa sobre os ombros, a necessidade quase que vital em alinhar seus impulsos a meus pulsos cansados. No momento de ir embora, resolvi voltar. Esqueço traumas, dores e sonhos sobre a penteadeira e parto para mais um dia sem flores, sem poesia. Como entregue a um amor remoto, sem conseguir um direcionamento aos meus passos, saio para salvar o mundo. Rostos e gestos trazidos pela maré. Depois da vertigem, a volta.

Palavras não ditas

Guardei o retrato seu que mais gostava entre as páginas de um livro de contos reunidos de Murilo Rubião. Não como metáfora às questões existencialistas, apenas para me refugiar das decisões contrárias. O sorriso que me iluminava adormece, agora, entre o canto empoeirado e as antigas leituras na estante de meu quarto. O amor é isso: poeira, vestígios de sorrisos e uma imensa saudade a enfeitar o mosaico que nos cerca.

A emoção parece ter chegado ao fim. Ver-te caminhar perdeu a importância. As imagens vão se apagando da memória rarefeita. Voltas incompletas de um caleidoscópio a girar sem órbita. Fora do ar em vastas sensações esquecidas. Irônico destino fadado a seguir em linha reta quando o mundo insiste em caminhar de forma cíclica. Sol, girassol a girar…

Cada face da lua guarda um mistério. Seus olhos e palavras duras eram enigmas que tentava decifrar a cada novo ciclo lunar. Disposto a ser devorado, perdia o pouco da paz reinante de desencontros do passado. Com gosto de framboesa na boca, imagina ser dias especiais. Foram. Mas partiram. Nem o frio ou a falta de assunto foram capazes de afugentar os corpos cansados de promessas esquecidas.

Enquanto você ria, o mundo parecia parar. Problemas deixavam de existir apenas por ter as imagens de seus olhos cerrados e lábios abertos cristalizados em minhas retinas. Pego o livro que repousa sua foto, mas desisto instante antes de abrir a página certa. Ver seu sorriso puro, estampado em cores límpidas e registrado em um momento de felicidade plena, seria um golpe certeiro ao dilacerado coração ofendido. Deixo repousar na eternidade de um segundo a repentina inspiração. Seu sorriso emoldurava a corrente que envolve o amanhã.

Foi o tempo de fechar os olhos e dormir. Breve pluma a voar pelo ar, com a mesma intensidade que veio, partiu sem deixar sinal. Varres esfinges em cruzadas épicas. Triste mundo em que se vangloriam estadistas e guerreiros. Em meu cenário ideal, artistas vadios e poetas boêmios governariam os corações solitários. O arremesso mortal da saudade que sentirei do amanhã.

Há ocasiões que o sol se esconde entre nuvens indefinidas e carregadas. Em outros momentos, é a chuva a molhar a roseira no jardim. O cheiro que exala e as cores ressaltadas fazem-me recordar as notas musicais de uma antiga canção que me acompanha desde os cinco anos de idade. Escrevo porque não sei compor músicas. Talvez nem saiba transpor em papel o que se passa em minha cabeça.

Mas, você teimava em ser essa menina distraída que vacila diante de tudo. Eu, enquanto isso, tentava equilibrar a insegurança com o medo do escuro. Espelhos multicoloridos refletiam em uma realidade criada a epopéia seguida pelo infindo espaço de nós dois. A diferença, como sempre, era a sua desconfiança cética de tudo e a minha falta de fé. Mentindo, seus olhos me confidenciaram que necessitava de uma nova dose do novo. Você, pela clarividência de meu rosto, percebeu que eu aguardava o derradeiro amanhecer.

Em bolhas de sabão sopradas por uma criança enquanto esperava o tempo passar até se tornar adulta – e fria como todos aos amadurecidos –, reflexos recriavam o que fui até então. Nuvens cobriam o céu em que o sol lutava friamente para raiar. Eu olhava as bolhas de sabão a desafiar a gravidade e pegava-me a pensar sobre a vida: sábias palavras não ditas e as expectativas deixadas sobre o travesseiro.

Em leve satélite

O telefone a tocar sem a mínima esperança de ouvir sua voz do outro lado da linha. A vida passa rápido demais. Fecho os olhos e parece que foi ontem. Ao mesmo tempo, tantos encontros e desencontros, beijos e despedidas, gritos e sussurros… tantas coisas ocorreram desde então. Há quem chame de acaso, outros de ironia do destino; fato é que não creio na existência de tais redes invisíveis a controlar nossos passos. Existem a lua e a maré, mas também há remédios para dormir. Retrato instantâneo de um cotidiano não vivido; flores deixadas sobre o túmulo e o medo de reinventar o futuro remoto. Uma cápsula do tempo guardada no fragmentado (in)consciente coletivo. A bifurcação dos sentimentos. Janela da alma em formas homeopática. Por ondas via satélite, enxergamos um mundo formatado pela tábua-rasa do senso comum. Incomum abrir os olhos e analisar a realidade opaca que nos cerca. A vida sem freio, sem pressa, sem sonho, sem expectativa e alegria nos prega um sorriso irônico. Pelos cantos de olhares sombrios, via-se o resto de esperanças perdidas escoarem pelo ralo. Numa dança macabra, a realidade misturava-se com escombros de uma noite de insônia e sentimentos desfeitos.

Deixo a cama sabendo que terei um longo dia sem poesias, flores ou alguém a me esperar. Corro contra o relógio para me alimentar na hora certa, ser pontual aos compromissos, não esquecer de pagar as despensas mensais e lembrar de datas que não me remetem a nada. Luto, diariamente, contra o gigante medo no intuito de manter a cabeça ereta, a coluna reta e o coração o mais tranquilo possível. Cogito: entre o ébrio e o inexato, o sombrio e o inacabado, o abatido e o derrotado. Para saber o que se passa ao meu redor, ligo a TV e esqueço das preocupações pertinentes sobre meu relato. À taba de índio pós-catequizado pelo moderno desejo da companhia midiática. Cabos de fibra ótica e sistemas complexos de transmissões digitais vomitadas, friamente, entre o fetiche tecnológico e a solidão mediada. Do outro lado do mundo, sequer sabe de minhas angustias e lamentações.

Sobem as cortinas e um novo mundo desce pelos desfiladeiros da inconsciência. Tenho a chave do jogo na palma das mãos. Incapaz, deixo escorrer como areia ao vento os meus desejos e esperanças. Caem folhas, despedem da vida no ápice de seus impulsos. Acompanho pelo calendário deixado, involuntariamente, sobre a mesa o correr acelerado dos dias maquinais. Revir a areia da ampulheta escorrer, face sombria, pelo largo orifício. Cada dia, um ensaio dramático para o último ato, a última cena, a última fala. O adeus definitivo ensaiado a exaustão diária. Guiado pela sequência de diferentes naipes e cores, deixo o destino jogar as cartas. Não por acaso, faz as maiores apostas; é detentor do melhor carteado e controla a banca. Num desatino cruel e desenfreado, vence quem sabe mentir com o rosto alvo da verdade.

Esconde entre os dentes um amor definitivamente abandonado. Um anjo solto escreveu em minhas mãos: sairá a salvo, sem vida; mas não terá nada para citar. Desta janela, sozinha, olhar as luzes da cidade lhe traz calma. Sorria quando o choro era a única vontade que sua alma emitia. Fez-se uma dor cicatrizada em alto-relevo em seu coração. Pelos anúncios luminosos da orla da praia, seu olhar sem brilho segue em busca de algo inclassificável. Desatino e dor sem cessar. A rigor, o passo seguinte se confunde com o caminhar do passado. Segue em frente sem saber a próxima jogada. Dados a rolarem sobre os degraus dos destinos que se cruzam no tempo. Amanhã, repetirá os mesmos temores e acalantos antes do sol nascer. Que o satélite seja breve.

Histórias estranhas

Um salto no escuro grito da madrugada silenciosa. Como se não fosse impossível viver do sonho. O insano desejo de voar de peito aberto para o novo destino em vão. Preciso desabafar sobre as mais sombrias lembranças esquecidas no travesseiro antes do cair da noite. Sobre as mil noites no sertão, lampejos de euforias em sombras de desejos reprimidos. Noite chegou e outra vez esqueço o sutil detalhe que sou mortal. Morro todos os dias em frente aos seus olhos castanhos. Espero no fundo da noite, no fundo do copo, no fundo dos olhos… tomar suas mãos. Você desconhece o futuro que trago tatuado na derme.

Mesmo no escuro da noite e no silêncio das vozes opacas, não me sinto sozinho. Fujo das esquinas vazias para um outro lugar indefinido. No claro do dia novo, encontrarei seus traumas e pecados desfeitos sobre ao criado-mudo. Silêncio nos corredores. A vida se cansa das despedidas de corações solitários. Você se esquece das palavras ditas e das madrugadas entregues à meditação e à desesperança. Discorro em histórias estranhas, os relatos esquecidos ao som do mar e luz de um céu profundamente sombrio.

Desejo ser herói para salvar-me de meus medos torturantes. Cada relato, um novo amanhecer tingindo em papéis adormecidos e amarelados pelo tempo. Caem as folhas, os desejos, as palavras, os dias… nada permanece igual aos olhos cândidos e incompreensíveis. A vida imita a arte não representada: o teatro das ilusões perdidas. Papeis picados e aplausos calorosos. O final era fatal a cada filme rodado em sua retina. A tirania dos oprimidos; a estranha coragem dos desenganados. Sobre a mesa, dois terços de uma fé esquecida e o que a poeira encobriu de utopia envelhecida.

Sujos de sal, navegávamos em tormentas tempestades de esperanças. Sofro, sacrossanto, esperando por um dia de sol vindouro. Eu sempre quis decifrar seus passos, peco pelo excesso de esmero e polidez. Sobra luz sobre o cais de paixões. Cada memória, pequenos universos que se despedem da vida. Vigília de pastores descrentes a iluminar as trevas. Vendemos saúde, mas nos entupimos de remédios para ficarmos mais jovens. Palavras envelhecidas de um menestrel a caminhar enlouquecido, barba embranquecida, pelas ruas cinzas das ruínas da cidade em ebulição. A explicação que nunca procurei se esconde debaixo do temporal. Seus olhos iluminam a minha face mais escura.

Espero-te em um esquina qualquer em busca de algo que sabes mas não queres perceber. Relato em histórias sem finais o começo de um capítulo obscuro. Passavam-se os anos e nada permanecia em nós. Eu tinha bruxas impregnadas em meu lado esquerdo. A explicação que sei, se há, se foi pelo ar. Sem fim. Um novo ponto final a cada relato repetido. Enlouquecido. Exclamação? Eu invento rotas e espaço para te ver correndo ao curto trajeto de meus braços.

Escrevo com palavras repetidas as normas inexatas que orquestram seus sonhos delirantes. Nada mais adivinho. Era ingênuo sonhar e provar que ainda sou um menino. Ainda sonho a sua volta e os perigos que me roubam o sono de desejar estar contigo. Insisto em proclamar o oposto do que vivo. Nada mais acredito. Sou corajoso, mas muitas vezes deixei o medo tomar contar de meus passos. Ainda temo o escuro, mas desafio a breu com as luzes acessas no corredor e um oração que repito, sem fé, pelo exercício herdado de minha mãe. Não sei o dia de amanhã, porém acordo esperançoso antes mesmo do sol nascer.

Durmo com medo do futuro e esqueço as preocupações ao ouvir o som de flautas. Eu esqueço de cantar meus dias em euforias. Nada mais alivio. Nós, filhos de uma geração que morria ou mataria por um ideal, somos incapazes de se emocionar com a humanidade. Mudar o mundo, jamais. Nossa gênese não quer sonhar. Preciso te provar que ainda sou um menino envelhecido. Não durmo sem sua voz a protestar em forma de hino.

Lutas invisíveis

Abrem-se as cortinas e um mundo novo explode diante dos olhos cândidos. Esperançosos, procuram reconstruir a partir de fragmentos um mosaico multicolor. Frases incompletas, intenções escondidas; desejos subentendidos; sorte jogada aos astros distraídos: incompletas verdades e mentiras que deixaram de acontecer.

A realidade tinge a beleza dos pequenos milagres cotidianos com cores violentas. Segundos depois, nada mais restará nos poros, na pele, na boca, na alma… no ar. Evapora-se e leva-nos a acreditar que tudo não passou de um delírio, um momento de loucura controlada. Ventos solares a varrerem as lágrimas escondidas.

Nem tudo que é fugaz perder-se nos labirintos da memória. O ar rarefeito e a imensa necessidade de reiventar o passado mesmo antes do sol nascer. Sísifo indeciso diante da colina a calcular a necessidade de seu labor. A beleza é efêmera diante de olhos desprotegidos de tudo que é simples e suave. Leve pluma solta sem direção aos sete ventos. Dentro de mim, o mundo parou. Revive agora em ti; ou no que restou de nós. Silêncio: o que me resta é observar a solidão da rua pela janela.

Vou sair para ver o céu, vou me perder nos segundos sagrados dos sonhos deixados no travesseiro. Antes mesmo do pôr-do-sol, penso em milhares de formas para me esquecer de tudo que se passou. Preso em armadilhas do tempo, creio viver hoje uma repetição de cenas nunca vistas. Para sempre essa noite na memória. Chovia, mas ninguém se importou se mudávamos tudo em nós. Uma rua deserta no meio do mundo imaginário.

Olho meus olhos cansados diante ao espelho e percebo marcas de lutas invisíveis pelo corpo. Restos de um passado presente em meus passos indecisos e gestos contraditórios. Por medo, deixo alguns sonhos entorpecidos em cima da penteadeira e saio para mais um dia de poesia morta. Sem flores pelo trajeto, observo o entardecer melancólico da cidade cinza. Cores e fantasmas que rodeiam as ruínas esquecidas são as heranças recebidas da ganância voluptuosa.

Deixo as chaves para um jovem mundo sobre os trilhos e parto por galerias desconhecidas em busca de um novo eu. Sem documentos nos bolsos, conta em banco ou carta de alforria sigo preso em minha liberdade excessiva. Como se o dia seguinte não fosse nascer, ou se não existisse mais nada para acreditar, levo meus cabelos às rajadas tropicais de um tempo inexistente. O vento beija a noite escura, em volta completa rumo ao amanhecer. Amanhã, tudo voltará ao normal.

Uma canção triste

Fragmentadas cenas se repetem à exaustão. Palavras frias em voz de veludo colidem ao medo repentino de ter o que não se pode tocar. Ouço uma canção triste. Uma espécie e ópera a narrar traços de meus relatos. Sentimentos incompletos e histórias inacabadas. A vida sem freio cega para pequenos milagres cotidianos. Leva-nos para um lugar desconhecido: ao mesmo tempo em que é sombrio, saltam aos olhos a beleza latente dos encantos escondidos no misterioso. Repetidas frases, subentendidas intenções.

O segundo que antecede o medo, a paz roubada de quem desmoronou. Se tudo muda o tempo todo, mude-se para dentro de mim. Não, não é saudade em demasia; tampouco relatos ordinários confeccionados pela dor. Imagens explodem em um mundo governado por anti-heróis. Atravesso a noite interminável com algumas melodias suaves em minha cabeça. Torturantes horas em que busco o sono perdido. Entre versos perdidos e flores, rabisco no espelho nomes e palavras soltas. Não acendo a luz nem procuro me alimentar. Uma canção triste embala a falta de sorriso e o medo do pecado.

Vou perder-me no centímetro exato de seus delírios e subtrações não resolvidas. A matemática e seus mistérios; o silêncio absorto em seus lábios. Palavras não ditas e frases incompletas mostram-me em um mosaico de acontecimentos da fria realidade escondida em seus olhos castanhos. Fantasias deixadas no travesseiro ao som ensurdecedor do despertador, que rouba os melhores instantes do sonho. Mais um longo dia sem poesias e flores pelo chão. A realidade entorpece as vistas cansadas. Pego o telefone para te contar um sonho ruim. Desisto antes de discar o primeiro número. Afinal, vai valer?

Enquanto preocupo-me em saber se vai chover; num segundo de distração pego-me a pensar em você. Não que eu quero torturar-me ou encontrar um culpado. Apenas revi seus sorrisos entre outdoor antigo da avenida. Escrevo cartas repetidas e uso palavras iguais na tentativa de traduzir sentimentos contraditórios. Assim, antes do amanhecer vejo nove luas a clarear o breu. Concebo e descubro respostas; metade é mentira e a outra metade, inventada.

Labirintos

Procuro minha mão no escuro,
encontro escombros de um dia de sono.
Pesadelo de uma noite mal dormida;
fumaças de cigarros num lugar estranho,
uma jovem, pessoas desconhecidas ao redor.
Não sei se devo seguir.
Sinto que algo está para terminar.
Cada vez mais veloz, o fim parece se aproximar.

Um terço pendurado em cima da cama;
de uma vida inteira voltada para a religião.
Procuro minha mão no escuro,
encontro escombros de uma noite de insônia.
Sinto um corpo frio ao lado.
Olho para os redor, estrelas perdidas
de um teto menos luminoso que uma camiseta em uma vitrine.
Sigo seus passos; não sei seu nome, Maria!
Uma jovem de mãos e braços vestidos;
garotos e garotas perdidos em filmes e bares.
Tudo parece fora de lugar.

Não quero me preocupar.
Deve ser tarde demais!
Olho para os lados, tudo parece estar em paz.
A mesma calmaria que não há em mim.
Matemática, confusões e algo que não esteve ao meu alcance.
Creio que devo desculpas a estranhos.
Estrelas que não brilham mais no céu da Espanha.
Olho para o lado, sinto o frio derreter meus sentidos.
Tudo está bem?
Olho para os cantos
e vejo todos perdidos em labirintos tortuosos.
Jovens garotas enganam-se como se vivecem em um contos de fadas.
Miro para os lados e tento me convencer que tudo está bem.
Sem sucesso.

Suspiro aliviado, para minha surpresa,
fico calmo pela primeira vez desde que acordei.
Assustado pelo sonho de uma morte que tive: faz duas semanas.
Sonhos vivem livres e se despedem por aí.
Sem ao menos tocarmos.
Perturba-nos alma de flores vistas nos cinemas ordinários.
Livros, lixos ou o que a mente espera de um pobre pecador.
Perdido, procuro em todos os cantos. Não posso olhar.
Seguir trajetos de um passo no escuro.
Agora sim parece o fim. Pegadas de caminhos tortuosos.
Saídas em todas as portas!

Memórias de velhas fotografias penduradas na parede

Marcas deixadas pela ação do tempo: as velhas folhas amareladas de papéis fotográficos ainda guardam fragmentos da memória rarefeita. No escuro, suspirava pelas glórias de um passado distante. A cada gesto e sentimentos, gotas de saudades mensuradas em viagens não iniciadas e regressos ao lar. Das travessuras de infância, sorrisos misturados a uma vontade imensa de te ter em meus braços. A vida segue em linhas tortas e ruas desertas.

Observo velhas fotografias que enfeitam as paredes acinzentadas do cotidiano. Pedaços de ilusões esquecidas sobre a mesa. Quando será minha vez de esquecer passos a colidirem em um silêncio abstrato. Justamente na quietude das horas mortas que relembro quem eu fui. São tantas histórias perdidas nos labirintos da memória seletiva. Primavera chuvosa e flores de lótus a enfeitarem sua jornada de retorno ao lugar que nunca deveria ter partido. De concreto, apenas um sorriso moldurado na parede de um longo corredor.

Duzentas vezes berrei seu nome no escuro. Chama viva a queimar minhas diretrizes perdidas e encantos inalcançáveis. A cada manhã, vejo-me mais perto da despedida derradeira, do último adeus, do silêncio das estrelas. Longa estrada em direção ao nada. Caminhos difusos aos que perdem o coração. E no canto escuro do cômodo, uma lembrança a incomodar pela presença eterna. Um gosto amargo na boca e caminhos que se bifurcam num paraíso distante. Distante de ti, tudo paraste.

Passos solitários no asfalto e o céu de brigadeiros sobre cabeças desprovidas de parâmetros mínimos para seguir em frente sem titubear. Feridas abertas em jogos perdidos e uma imensa vontade de servi-se à cova dos leões. Do ponto a qual miro ao espelho, reflexos de uma auto-imagem datada de dez anos. Outrora, as cores eram mais vivas e a saudade pesava menos na alma. Toda as tonalidades do arco-íris a relembrar instantes de euforias revelados em papéis fotográficos. Cada retrato, uma volta ao passado raso; uma espécie de corredor do tempo, que me faz voltar séculos de existência.

Pensamentos nebulosos encobertos por devaneios momentâneos. Em preto e branco, vejo seu sorriso como uma onda de boa esperança. Velhas páginas amarelas e provérbios repetidos à exaustão. Sobre a cama, um terço para relembrar a fé perdida e o conturbado medo da solidão mediada. Nossas vidas tornaram-se um único caminho composto por percalços e desafios. Rezo três vezes a santos que não acredito, apenas para repetir um exercício ensinado por minha mãe. Das cavernas da religião, entrego-me à desconfiança de tudo que não se derrete no ar.

Olhares vagos postos à parede que, translúcida, mostra-me seus olhos transpostos em papel moldurado a enfeitar a casa refeita de saudade. Recordações em cada canto escuro. Do outro lado do mundo, eu olho à janela: as músicas que cantamos juntos e a incompreensão muda dos medos do passado a reinaugurarem em um futuro próximos aos olhos cândidos. Outono tem gosto de mágoas. Primavera, uma chaga aberta. A falta de memória trai os melhores momentos da vida. Vivemos em um mundo voraz, que desaparece a todo instante a magia do objeto cotidiano. Cada dia, milênios de evolução são esquecidos em nome do fetiche tecnológico. Apetrechos fabricados ao menor custo e com baixa capacidade científica a servir-se de psicologia barata para aliviar os desesperos pós-modernos. Um pequeno milagre límpido para a próxima geração, que se consumirá após 15 minutos no ar.

Aonde nascem os anjos?

Sonhos e malas desfeitos. Sobre a penteadeira, restos de um passado recente, que remete ao gosto amargo dos que ousaram desafiar a vida em duras batalhas desnecessárias. De exato, apenas a incerteza que nada será como antes. Como nunca foi e nunca será. Em vão, ao mar, fragmentos de vidas vistos pela rotina. Passos que caminham ao acaso, pelo descaso de suas retinas viciadas a enxergar apenas o que compreende como verdades. Meio-dia: guardo na boca o sabor amargo de seu corpo; na alma lembrança que nunca se apagarão por completo. Sísifo sombrio. Leve-me para longe e perto de ti. Leve-me agora para nunca mais voltar.

Por prudência, escovei os dentes e ouvi alguns discos no intuito de esquecer seu gosto, seu rosto, tudo que me deixava em paz. Lembranças que martelam e me deixam sem chão para executar tarefas rotineiras e comuns. Sem fôlego, atravesso em longos pensamentos os dias incertos, a pensar sobre os caminhos bifurcados que nos rodeiam. Se fosse diferente, oras, diferente seria. Nada mais duvidoso que os dias que se seguem depois dos temporais. Vida e morte; luz e escuridão; céu e inferno. Trajetos opostos, vidas cortadas ao meio e o medo de reinventar o futuro com gestos do passado. Por todos os lados, seus olhos me acompanham a me torturar. Sem dor ou saudade; apenas lágrimas condensadas em restos de esperanças projetadas. Uma paisagem tatuada na alma que me queima como chaga.

Esqueci os versos, os pecados e as redenções por te ver sorrir em um curta-metragem filmado em super-8. Passos ancorados no passado e a esperança de um futuro melhor estampada em letras garrafais e cores enigmáticas. Em negrito, vi seu nome grafado em muros espalhados pela cidade cinza. Sobre o mundo, uma breve lucidez deu vazão à insanidade imposta pelos padrões esquecidos e o amarelo do outono latente pelas palavras esculpidas em pedra-sabão. Em cima dos enganos tardios, a novidade consumia litros de saudade. Como pontes destruídas e malas desfeitas, em meu pensar, você corre livre em verdes campos cobertos de tulipas. Anjos nascem do escuro abstrato das palavras em chamas. Quentes e vivos versos como um quadro do século V. Vida!

No escuro, tropeçávamos em palavras distraídas.

Sobras

    “Diz-se que quem é feliz no amor
    No jogo é infeliz
    Mas de quem faz do amor
    Um jogo o que é que se diz
    Eu não sei jogar e ela é a rainha
    Como poderei pensar que ela é minha?”
    (Caetano Veloso – Dama do Cassino)

Palavras se desfazem como chuva, em percursos costurados pelo tempo. Derretem violentamente entre o silêncio e os suspiros próprios de cólera. Há pouco instante, tudo era paz. Fios invisíveis a demonstrar a ternura exposta em olhos cansados de esperar. As frases caem de alturas imensuráveis e explodem rompendo a noite fria. Cortam o breu em imagens de luzes dançantes no espaço infindo de nós dois.

Pensamentos imperfeitos como tempestades tropicais clareiam as névoas deixadas pelo passado fragmentado e caminhos interrompidos. Espectros de vidas que se bifurcam em labirintos difusos. Rotas em colisão. Um milhão de sóis a iluminar a face mais sombria do universo. Todos os lados escuros da lua são regidos pelas suas retinas a me fotografar. Início e fim interruptos; que clamam sempre por mais: incansavelmente!

Sobre corpos desfeitos, a maquiagem fria e borrada expõe em versos profundos a quietude de seu exílio. Do lado de fora, longas jornadas em vão. Em minha cabeça, um Minotauro se aloja entre o Dédalo d’alma e a solidão das grandes metrópoles. Sem Teseu e o fio condutor para achar a saída, vago pelas peripécias típicas dos distraídos para a vida. Esqueço os dias de calmaria e miro-me aos pensamentos sobre tormentas e desalentos. Voe como quem deve partir e regresse ao lado dos puros de coração.

A queda de Ícaro: o mergulho raso ao céu aberto e o horizonte infinito. O devaneio de aventurar-se. O risco de cair e o medo de se arriscar. A carne e o osso. Ondas de tristeza encharcada de eufórica alegria divergem e convergem em partes; a me possuir, torturar e proteger. A alma e seus mistérios. A metafísica do amor. A alquimia dos sonhos. A virtualidade do ser. Saídas de emergência em todos dos cantos.

Enquanto feras andam soltas, você me hipnotiza em cada gesto inculto. Feridas e chagas desfeitas em pétalas de rosas a tatuar a pele. Certas consternações não se sentem apenas com o coração. Dores expostas em vitrines vulgares, sob a sombra semi-iluminada do consumo desenfreado e desinibido de pudores. Preso a uma cela, tento fugir e cair em suas garras. Astros distraídos ofuscam constelações.

Solidão nuclear

Rotas incertas e incompletas voltas,
em remotos começos sem fim:
a cada hora, uma nova história.
Tímidos devaneios da alma em ebulição.

Extremos sempre cicatrizaram meus dias.
Passos em direção ao precipício,
calmarias em dias tropicais:
inverno e pôr-do-sol ao amanhecer.

Sigo por trajetos não traçados,
em aventuras não vividas.
Recomeço e fim que se encontram
no escuro abstrato das palavras.

Luta vã a minha, tecer em versos
os horizontes perdidos do amor.
Chaga tatuada no espírito,
tempestade e calmaria que não cessam.

A paz próxima e distante ao olhar.
Peito aberto para engolir o mundo.
Imaginário e real em polos opostos
em luzes apagadas da solidão nuclear.

O côncavo e o convexo

Sempre os meus erros primários e pecados insólitos sobre a mesa. A confraria dos covardes, a batalha dos derrotados. Sobre o chão, restos de uma noite sem sono e a tortura angustiante a embaçar as vistas cansadas dos desesperos comuns. De real, apenas uma história de amor inventada e tortuosas horas de prazer e acalanto. Eu te vejo pelos cantos escuros da alma em estado de calmaria provisória aos desatinos provocados pela incompreensão. Paz, amor e recomeço a exorcizarem a tempestade de sentimentos que teve início há poucos dias. Contados nos relógios, meio século de evolução cármica.

Do outro lado do hemisfério, seus olhos enfeitam o mundo. Sobre o globo, caminha tranquila pelas ruas e alamedas das cidades em chamas. O mundo, quase que por encanto, esqueceu de me avisar que tudo não passou de um devaneio vespertino, ou uma história combinada e espalhada pelos quatro cantos. Real, imaginário, virtual ou embrionário: o que sei é que esqueci de me lembrar do que não poderia duvidar. Quem sabe, o amanhã me surpreenderá com mais uma história incompleta neste caleidoscópio fantástico e irreal.

Em minha confusão, sentimentos esparramados pelos cantos. Janelas e portas que se abrem para o desconhecido inerte em cinco sentidos e quatro pontos cardeais. Vistas encobertas pela incerteza latente dos que temem a paz derradeira e a felicidade completa, negociada em pegue-e-pagues espalhados em esquinas vulgares de cidades vazias. A única certeza é que nada de concreto passa imune por rotas alteradas. A vida, meu caro, era uma repetição de cenas sem nexo, num imenso mosaico multicolor. Alguém nos cosmo deve se divertir com as investidas equivocadas dos marinheiros inexperientes defronte ao imenso mar do amor.

A poesia é um vício: a podre corrupção da falta de poder. A arte é a fantasia da alma, enquanto se embriaga pela escassez de sentimentos convictos e puros. Toda poesia é uma mentira. E as mentiras me fazem viver. Será que existe vida inteligente diante minhas retinas, ou dentro delas. Livros e filmes empilhados sobre a memória cada vez mais rarefeita. Sobre o mundo, seus olhos castanhos me mostram estranhos caminhos inexplorados. Tudo de pernas para o ar; côncavo e convexo fundem-se em um ponto abstrato no infinito inseguro. Vida vista de fora; em estações fora do ar… Pelas as esquinas do mundo a fora, aflora a dor. Sem você, tudo fica fora do lugar. Se há, sei lá!

Procuro o resto de uma lucidez inexistente. Nada. Fecho os olhos e espero o grande inverno da Rússia. Girassóis que não procuram a luz, e refrões de bolero que não rimam amor com dor. Felicidade não combina com a realidade. Pontos que não convergem no infinito opaco de suas palavras frias. Vejo seu rosto em gélidas galerias; nos cinemas; em páginas coloridas dos jornais. Eu sempre escolhi bem as palavras, ma hoje eu não sei o que pensar. Talvez por falta de sorte, talvez por falta de repertório, talvez pela ausência em mim em mim.

Hoje, vou fugir de casa, desfigurar a falta de coragem em escolher outros caminhos. Hoje, irei esparramar resíduos do passado em vultos que se multiplicam refletidos em um espelho a me mostrar o que nunca fui. Em repetidas cenas, o meu lado mais sombrio a me torturar em frases não ditas e o silêncio abstrato de suas palavras – duras palavras. Pelo caminho, pedaços de sentimentos triturados a contaminar velhas feridas não cicatrizadas. A paz derradeira tão longe de uma compreensão.

Fugas

Eu me escondo no escuro do mundo.
Rumo aos seus olhos castanhos.
Estranhos enganos.
Calo-me em um segundo.
Guiado pelo criado-mudo
Escuto: silêncio!
Sinto forte o cheiro do vento vir.
Volta você do alto, voando baixo.
Por perto. Peito aberto. Vento vem seguir!

Eu me escondo do medo.
Do tempo.
Guiado sem paz.
Água!
Areia!
Ar!
Céu!
Mar!
Quando meus olhos menos esperavam, anoiteceu.

Escondo-me do medo perdido,
no espaço vazio esquecido.
Nos livros, festas e fantasias,
No exato momento que perdia a alegria.

Tudo que é sólido derrete no ar

Sentimentos nublados por cicatrizes não curadas e tentativas desconexas de me reencontrar. Por mares nunca dantes navegáveis, tateio a monotonia dos dias maquinais. De longe, apenas o universo em expansão a acompanhar virtualmente meus suspiros abandonados ao acaso. Por descaso, deixo que marcas do passado conduzam a incompreensão da angústia lapidada em palavras e frases.

De concreto, apenas a incerteza latente que amanhã tudo recomeçara: como voltas concêntricas e retorno ao lar. Imprecisos sempre foram minhas decisões. Meus passos que colidem ao acaso dos astros vagabundos. Vida vista por outra ótica. Saudades com sabor amargo. Marcas no rosto e um gosto salgado na boca. Equilibro-me à beira de um abismo. Largo, fundo, interminável. Quem sabe caio, quem sabe vôo, quem sabe vou. Vou-me embora para nunca mais voltar em mim.

Deitado em asfalto molhado, a neblina desvia minhas vistas cansadas do tédio e apatia. Fazer forças para conseguir pensar em algo que nem mesmo sei prover, provar, tentar. Fora de estação, inverno se mistura ao verão que e anuncia em poucos dias. Caóticos sentimentos desencontrados e uma revolta intermitente de reinaugurar o passado. Volte voando, vindo dos céus.

Sem rumo, a menina que refletia de seus olhos agora demonstra que se perdeu por não aprender a dividir os seus medos e traumas. Apática, a chama que lhe enfeitava as datas mágicas agora se esconde sobre a maquiagem borrada e o abuso de álcool. Longe da confusão de fora, vaga entre desencontros e medos. Lágrimas pela dor de ausência.

Pensei no fogo, falei de dor, recriei o amor em mim. Uma claridade viva de uma mente sem lembranças dos fragmentos do passado. Ao mar sem cor, lanço a única memória envolta. Livrei-me de mim… Passos no porão da alma. Do outro lado, verdades derretidas em combustão estrelar. Tudo que é sólido derrete no ar. Ante a explosão, um momento de calmaria. Momentânea e desnecessária quanto uma imagem refletida no espelho. Linhas paralelas que se cruzam no infinito e além dos olhos comuns.

Marcas profundas

Enquanto o mundo se arrasta, nós nos mantemos presos em milhares de feridas não cicatrizadas e momentos eternizados em nossas almas. A vida, vista de fora, parecia ser algo simples; tão comum quanto respirar. Não! Não me convide para beber seu veneno. Não tenha medo de entregar seus planos em outras rotas. Pedras em seus passos. Poeira vermelha sobre o céu de brigadeiro que não nos aguarda.

Espero o telefone tocar, como torço para que não me ligue. Contradições que se compõem em um enorme mosaico de sentimentos mensurados pelo tempo. Em relógios imprecisos, rotas de colisão e estrelas distraídas perdem-se em longas e intermináveis voltas concêntricas em um labirinto sem nexo, sem lógica e sem final. Nove pontas de uma estrela reluzente: azul. Noites de frio, manhãs melancólicas com cheiro de saudade. E você vinda do alto.

Busco em outras histórias pedaços esquecidos do passado. Em frente, apenas a lembrança dos dias que virão. Compro flores como se pudessem rever as rosas que enfeitavam um jardim que me marcou, em algum lugar estranho. Tudo é tão verde em seus olhos, que é impossível não enxergar pela sua clarividência. Justo quando me acostumava, o ar faltou. Fulminante como um raio em noite de tempestade, novamente o tapa brutal da dor.

Eu esperei tanto tempo por respostar para as perguntas não formuladas, que me deparei com a desesperança de ter perdido algo que nunca pude tocar. Mas, ainda havia mais a esperar. Os dias que passavam enquanto esquecia do tempo, os olhos que cansavam diante da penteadeira desabitada de sua fotografia. Resolvi desprender-me do período remoto que nos uniu. Na verdade, dias intermináveis.

Enquanto caminhava devagar pelas ruas da cidade deserta, você respirava fundo em novos planos e entregas. Do outro lado, dois mundos que se chocaram e que deixaram marcas profundas. Qual a palavra certa para descrever o que nos passa? Dor e saudade que e misturam a um gosto de sal na língua. Bem-vinda ao lar; guardo histórias embaixo do colchão para encher de alegria ao seu regresso em nós. Sobre a mesa vazia, o passado como sobremesa.

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