Falando da Vida

Vai-se, novamente, baby blue. E pensei que seria apenas mais uma volta para depois regressar a meu peito cansado de esperar algo novo a cada instante. Ledo engano. Os ponteiros correm ao contrário quando não está. Novos problemas e sempre as mesmas soluções: um passo de cada vez, toda vez; siga em frente e adiante verás o novo amanhã. Balelas. Eu que choro feito fogo ao sol do meio-dia. Em vão. A cura tão longe. Como se houvesse curas para poucas chagas.

Às vezes acredito que sou capaz de mudar o mundo. No segundo seguinte, me pego a rir dos meus ingênuos devaneios; por que logo eu seria capaz de alterar aquilo que não quer ser transformado? Noutras, desconfio se devo duvidar de meus instintos mais bonitos e passos contraditórios. Sempre me calo quando não está.

Ainda há pouco, era apenas uma imensa estrela prestes a mergulhar de cabeça no infinito instante entre nós dois. Agora, é uma gigante ira a devorar a grandeza do mundo. Vai, suje os pés na lama e alivie o peito. Tenha medo não; a barra sempre estará pesada demais àqueles que ousam desafiar o coro dos contentes. Somos tão poucos, mas ainda somos fortes. Até quando? Não sei!

Enquanto você corria o mundo, eu sonhava. Preso em meus labirintos, não pude sorver seu veneno e nem te ver chorar quando mais precisou de meus conselhos inúteis. Não que eles eram válidos, mas afagavam sua alma sempre que se entregava à deriva na noite escura. É esta imensa oculta magia sobre suas retinas que me cativa. É uma força a me deixar inerte. O tempo passou. Sinto a introdução leve, uma guitarra distorcida e a bateria a carregar a harmonia surreal. Berro: “felicidade não serve ser não for com amor”. Não deu para segurar.

Eu me pego a pensar sobre o silêncio das estrelas e a morte de constelações. Você me acorda para a vida e cita a morte de crianças regimentadas para servir ao tráfico aos às grandes corporações. É esta sua sensatez que me deixa desorientado. Um sino toca forte em mim; Lennon canta em algum canto esquecido de meu subconsciente: “She’s not a girl who misses much”. Como ao refrão seguinte, concordo.

O azul de seus olhos traduz som e fúria. Nunca tive medo de partidas, mas também não deixo as malas arrumadas. Melhor achar que sempre há o amanhã para escolher um novo terno ou encarar uma fila interminável. Algo é certo, um dia não mais haverá o amanhã. Que esta data eu seja pego de roupas limpas e a barba feita. Não gosto de incomodar.

O seu mundo

As curvas do tempo seguem sem deixar que malas desfeitas renasçam em sonhos feitos das cinzas herdadas dos passos errantes. Ao acaso, as horas seguem sem uma ordem conexa, assim como o brilho dos seus olhos a me lembrar da jornada diária. O labor maquinal serve apenas para poder aproveitar cada instante da primavera vindoura. Por mais que as noites frias intermináveis pareçam permanentes, os primeiros raios de sol da nova estação virão para nos brindar o começar de um novo ciclo.

Vejo seu aceno e a estrada a engolir, em velocidade máxima, a lágrima de saudade. Arrumar as gavetas bagunçadas e tirar pó da prateleira é fácil àqueles acostumados a seguir em frente, apesar de tudo (ou por causa de nada). Mas como reorganizar o caos que se fez com a sua ausência. Às vezes vejo a vida como a um reflexo em um espelho: por mais que a imagem se conceba perfeita, sei que se trata uma representação próxima daquilo que acostumaram a chamar de realidade. Isso me deixar pensativo e triste.

No entanto, quando você sorri sinto uma paz invadir-me por completo. Tudo faz sentido e sei a explicação do que se passa pelos meus os olhos. É o único sentimento a me faz calar voz e refletir que há uma força maior a controlar os invisíveis fios a manter o silêncio das estrelas. Nestas ocasiões enigmáticas, a vida se mostra muito maior que minha pouca Inteligência imagina supor. Apesar de sempre querer ter opinião sobre tudo, ao seu lado nem me importo sobre a constante expansão do universo. Nem mesmo se um dia o manto azulado dos cosmos poderá suprimir ao ponto de não mais existir. Como eu, você e a eternidade um dia.

São estas imagens fragmentadas que alimentam meus labirintos internos. Antes fosse Borges para traduzi-los de uma forma exata, segura. Sou apenas um narrador de sonhos desconexos, que nem conseguiu despertar a fim de impedir que o último botão de rosa caísse. Não sei o que mais me assusta, se é a vertigem ou a virtude: ambas me deixam entorpecido. Nestas datas, tenho a impressão que enxergo o futuro como uma clarividência viva. Depois volto à realidade e compreendo o pesar de meus atos distraídos. Sem a precisão das datas, tento jogar-me de cabeça diante do desfiladeiro. Às vezes saio vivo.

Alguns passos tímidos e distantes são seguidos em linhas tortas. Fotografias borradas, lembranças de momentos vividos e a interminável sensação do novo alimentam um lado que não sei classificar. Seriam valentias ou fugas incompreendidas? Como se fosse possível ter saudade do futuro disforme. Num segredo abstrato, via de passagem uma aquarela de momentos passados. Pintado em tons de azul e amarelo, sua fragilidade bela derreteu o gélido satélite em mim. E seu nome gravou-se para sempre no céu aberto. Ninguém, nem mesmo as rosas, tem cores mais vivas que seu sorriso.

Do passado sei quase nada. E nem me preocupo em saber. Sigo como que novo a cada dia. Um beijo e um adeus… definitivo. Não mais! Partir, chegar: são partes de uma mesma estrada incompleta. Sinto que está ao meu lado, mesmo quando minhas retinas cansadas não a conseguem enxergar. Percebo seu aroma tatuado em mim, assim como vejo todo o seu futuro, que nunca me escapará das mãos. Tenho os sentidos dormentes, o corpo cansado, a blusa suja, os cabelos cada momento mais rarefeitos e os dedos calejados. Mas tenho o coração puro e o raro desejo de mudar o mundo. O seu mundo.

Marte alinhado em Virgem

Todos estavam aparentemente em paz no instante que ele avançou pela porta. Cabelos sem corte e barba de vários dias, sentiu pavor ao encarar as pessoas que dançavam ao som de rock’s e outros barulhos. Procurou, entre a solidão de cada participante da reunião, um canto para se esconder da tormenta que seguiria. Não percebeu, mas desde que invadiu o salão com a sua timidez foi notado de longe. Ela estava próxima à janela, vendo a lua cheia que iluminava a noite fria dos corações vazios. Acompanhando a movimentação dos automóveis a procura de bares e outras fugas de medos urbanos, divagava sobre as neuroses escondidas nas metrópoles. Tentava em vão se manter equilibrada e conservar suas pequenas loucuras. Unhas roídas pela ansiedade de algo disforme e o cabelo cuidadosamente despenteado para afugentar os traumas de outrora. Entre unhas e dentes, assobiava Caetano Veloso; na inútil esperança de controlar os impulsivos gestos e palavras contraditórias aos sentimentos.

Quem passasse pela avenida no instante em que ela se postava à janela poderia imaginar que se tratava de uma pintura de Guignard ou uma clássica cena eternizada pelas lentes de François Truffaut. Bela como as noites frias e solitárias de Inverno, permanecia, cintura para cima, braços apoiados no batente e mãos segurando o queixo e o olhar teimosamente mirando ao firmamento. Na confusão de fora, as pessoas que passavam apressadas para aproveitar mais uma noite da conturbada vida moderna não seguiriam os pensamentos incompletos que a redimiam de pecados e traumas repentinos. Com uma força que nunca teve, deixou a companhia de livros, chocolates, filmes e o telefone mudo, para se aventura em um mini-universo de gente ávida por consumo momentâneo e em busca de prazer imediato. Tinha pouca resistência para bebidas alcoólicas, mas, descansando no batente da janela, um copo de plástico com gim barato e água tônica ordinária. Girava com a ponta dos dedos o gelo e a rodela de limão, na inútil tentativa de diluir o álcool e sorver a água. Ria, como sempre ria em momento de apreensão. Imaginava arrumando as malas e fugindo da realidade, como costumeiramente fazia nestas ocasiões. Pegava-se distraída e não percebeu o instante que ele a olhou pela primeira vez. Ao mirá-la, pintura estática com os olhos castanhos mergulhados na confusão de fora, fantasiou-se ao seu lado, em uma história estranha. Rumo aos desconhecidos mistérios das almas em ebulição, palpitava ao imaginá-la sorrindo. Na cabeça do rapaz, que escondia sua beleza na barba por fazer e no cabelo sem corte, os ruídos oriundos dos rock´s e outros barulhos se transformam em harmonias compostas por Guerra-Peixe.

Arquitetou milhões de maneiras de se aproximar da moça de cabelos castanhos parada diante à janela. O pavor do novo o fez estancar antes mesmo de dar o primeiro passo. Por precaução, procurou abrigo ao lado oposto, em um ponto que seria difícil ser avistado pela retina da menina absorta ao mundo a rodar do lado de fora. Distraída com a lua, sentia uma vibração diferente no ar. Talvez por ser sábado à noite e ter espantado o telefone mudo, achava-se contente dentro no pequeno universo que rodeava aquele encontro repleto de pessoas estranhas, álcool e dissabores. Amores do passado e marcas invisíveis a teriam feito desistir da vida em milhares de ocasiões. Em noite como aquela, costumava deixar ser conduzida em labirintos criados pelo inconsciente desejo de se perder por completo. Mas, no entanto, talvez pelo gosto de gim na boca ou o frio do lado de fora do casaco, estava diferente. Como criança que apronta, sorria na tentativa de diminuir o castigo que viria. Seu rosto ficou levemente vermelho e os olhos se espremeram para deixar o sorriso escapar a face e ganhar o salão, enquanto todos estavam preocupados em fugir de seus próprios demônios.

Por ser sábado à noite e os temores menores, que lhe roubavam os melhores momentos, terem ficados sobre a penteadeira junto a um livro de Michel Foucault, deixou que o sorriso a iluminar a face ganhasse o salão. Em um instante, pegou-se distraída mirando os olhos castanhos do rapaz de barba e cabelos sem corte. Na fração de segundo em que encararam os olhos um do outro, o tempo faz uma curva na linha imaginária que nos conduz e parou por uma breve eternidade. Como se tivesse acordado de um transe profundo, ele pôs-se a remontar acontecimentos que não pôde controlar. Os olhos incandescentes da moça reacenderam um brilho até então escondido em sua timidez exagerada. Sobrevoaria sobre o campo se tivesse asas. Livre em seus passos imaginários, desejou o final da festa para voltar ao conforto de seu quarto vazio e desorganizado.

Dentre os temores do rapaz, amargavam os sonhos desfeitos e a imensa vontade de cura instantânea. Tropeçava em astros distraídos, na inútil agonia de viver a vida em uma única noite. Distante dos olhos comuns, dois perdidos a espera de um momento mágico, união de duas constelações em rotas opostas e destinos iguais. O choque celestial de dois cometas vagando a eternidade na solidão da estrelas em busca da metade decaída. No instante que o tempo deu um pulo para se avançar a eternidade parada, Marte se alinhou em Virgem. O pressagio de um novo capítulo se desenhara entre os corpos cansados de desatinos e esperanças dos dois libertos para a vida. Alguns dias foram necessários até que criasse coragem a encarar novamente os olhos castanhos da moça de cabelos lisos que sentia no ar o nascimento de uma energia cristalina. Duas músicas estranhas e cerca de nove minutos separavam a entrada ao salão e o instante que lutava contra suas limitações. No ar, a voz de Lennon enchia o ambiente berrando: “I want you. I want you so bad”. Embriagado com o som e o momento que se aproximava, encaminhou-se para o banheiro. Compreendeu os anos que se passara quando sentiu um toque em sua face.

- Sente algo novo no ar?
- Como a vinda de uma nova era?
- Semelhante a isso, mas um pouco mais restrito. Talvez apenas para mim. Quem sabe, para você? Ou entre nós dois?
- A lua está em um brilho raro. Sou eu ou o efeito do álcool?
- Quando criança, ouvia meu pai falar sobre a ida do homem à Lua. Ele contava sobre o mar da tranquilidade. Eu imaginava um domingo de sol com a praia deserta. Lá sempre foi meu cantinho para me abrigar quando estava com medo. Fechava os olhos e me imagina na Lua a me esconder dos perigos.
- Eu ia para uma pedra em um antigo bosque. De um tempo para cá, lotearam o local e hoje tem um bairro repleto de arranha-céus e automóveis de consumo excessivo de combustível. Pouco restou do que era antes.
- Por que o homem quis destruir a lua. Não basta a gente?
- Nós?
- Não, o mundo. Todo o mundo. O mundo todo. Como fizeram com o seu bosque. Não entendo o porquê de corremos contra o tempo para juntar dinheiro e não ter um pouco de paz para poder usá-lo. Além de não ter tempo, falta alguém que gostamos ao lado.
- Não sei, talvez por se sentir sozinho. Talvez por egoísmo…. Talvez por ser parte do ser humano destruir tudo que é belo e colocar em seu lugar alguma coisa cinza, construída de concreto e ferro armado. Sem o meu cantinho, ás vezes, me sinto tão sozinha.
- Estranho mundo que se vangloriam estadistas e generais de guerras? Em meu mundo ideal, poetas vadios governariam as pessoas de corações partidos.
- Me leve para seu mundo?
- É preciso?

Ela sorriu.
Silêncio.

- Já sentiu as marcas do tempo?
- Sinto apenas, não o vejo. Na verdade, não sei ver muito bem as coisas. Apenas sinto e de uma forma intensa, como se eu fizesse parte de tudo. O tempo todo.
- Carrego no rosto o gosto amargo do tempo. Mas não sinto como ele passa, apenas vejo.
- Tenho duas vidas. Uma eu morri. Ainda carrego as cicatrizes. Renasci hoje, quando sua timidez invadiu a solidão das pessoas mesquinhas.
- Tentei me matar tantas vezes; as inúmeras vontades, se transformaram em algo corriqueiro. Cada novo desejo, mergulho no dia seguinte em busca de alguma coisa ainda inclassificável. Estava a sua espera para me tirar deste labirinto sem nexo.
- Eu te vi em um sonho. Faz tanto tempo que seu rosto se perder dos meus olhos. Mas ainda carrego suas marcas, seus desejos em mim.
- Trago tatuado seu gosto, seu rosto, tudo que me deixa em paz e tira meu sossego nos raros momentos de calmaria.
- Vou te procurar em um porto seguro, em busca de algo que sempre esteve em mim, mas perdi por não enxergar as ondas que conduzem a maré.

Ele sorriu sem jeito, mas não percebeu que, na verdade, aquele sorriso era o dela. No céu, uma estrela mostrou o caminho em direção oposta que deveriam seguir. Marte e Virgem eram, agora, um único corpo celestial alinhado. A sombra de um iluminava a parte fria do outro. O sol, de longe, apontava seus primeiros raios de luz a iluminar o deserto breu que se seguia até em tão.

- Olha, está chovendo. Adoro noites de chuvas.
- Em um dia de chuva, minha mãe costumava colocar na vitrola o disco Elis e Tom. Desde então, não posso ouvir “Chovendo na Roseira” sem me lembrar das tardes que a música me fazia companhia. Minha única companheira na adolescência perdida.
- Eu costumava ver a chuva pela janela do meu quarto e a cantar baixinho: “Meu coração \ Não sei porquê \ Bate feliz, quando te vê”. Quando chove, sempre me lembro dessa imagem.
- Quando bem novinho, eu corria na chuva. Minha mãe sempre falava que ficaria gripado. E ficava mesmo. Ela fazia um chá e eu tomava, ainda enrolado em cobertas depois do banho quente, comendo bolinhos de chuva.
- Você é de peixes?
- Sim. Você de gêmeos?
- Como soube?
- Sempre soube. E você, como adivinhou?
- Não adivinhei, está escrito em seu olhar.

Silêncio.

Baixinho, para esconder a timidez, ele começou a cantar. “Agora eu era o rei \ Era o bedel e era também juiz \ E pela minha lei \ A gente era obrigado a ser feliz”. Ela sorriu, retribuindo a canção. Disse:

- Embora tentasse, nunca vi as sete cores que dizem ter em um arco-íris. Você já viu?
- Não, mas uma vez eu vi dois arco-íris. Não vou esquecer. Era uma tarde de outono ou primavera, não me recordo. Choveu e abriu sol. Voltou a chover e o sol, tímido, surgiu no céu. Estava em uma estrada, ao olhar o horizonte, dois arcos enfeitaram minhas vistas. Pensei ser algo único. Tentei contar, mas não eram catorze riscos.
- Tenho você comigo antes mesmo de nascer. Me leve para seu tempo?
- O tempo não existe.
- Existe e nos devora com uma voracidade incomensurável.
- O tempo faz o que somos.
- Somos apenas aquilo que fazemos em nosso tempo.
- Ar, Água, Fogo, Terra.
- Terra, Fogo, Água, Ar. Tudo misturado em nós.
- Quero que o vento nos varra para bem longe das maldades do mundo.
- Vou senti saudade deste instante. A ponto de a saudade virar dor; a dor um lamento; o lamento uma marca; a marca uma lembrança; a lembrança algo que não consigo indicar, mas machuca na alma. Da mesma forma que fere, me alimentará.
- Vou te esperar quando não tiver sol, mesmo quando não estiver chovendo.
- Vamos fugir?
- É necessário?

Silêncio.

No firmamento, nove luas mostraram suas faces. Sentia-se no ar uma sensação que mudariam as estações; todas de uma só vez. Forte rajada de vento tentou varrer em uma intensa tempestade a maldade do mundo. Um novo e belo pôr-do-sol iluminou a madrugada que se iniciava. Virgem alinhada em Marte consertava as estranhas armações que unem e separam as pessoas. O início dos novos tempos se pronunciou nos rostos sorridentes do casal, enquanto os astros distraídos tratavam de mapear as coordenadas que suspendem o universo. Uma estrela cadente iluminou o caminho do semibreu da noite perdida, mostrando os próximos passos. Cada uma carregava na palma da mão o futuro do outro tatuado em cores douradas.

Sob o travesseiro

O doce do afago tingiu-se com o sabor amargo da dor. O silêncio fez-se em forma de prece. Era necessário elevar a calma antes de a tempestade que se anunciava. Certas horas, a ausência das palavras diz mais alto. E deixamos que a falta de algo ainda desforme guiasse-nos por labirintos difusos. Em cada curva, uma saída desavisada: as imagens refletidas mostram quadros que tentamos abafar.

Há sentimentos que não se explicam, apenas cresce ao ponto de a pele não ser mais a fronteira, extravasa a alma e explode como uma bomba sobre os pés. Tira-nos o chão, a paz e algo mais. Vejo nos seus olhos o medo que tentei esconder. Não aguentei. Agarramo-nos em teias frágeis nas sutis armações suspensas que nos apoiava. Caímos no pior dos pesadelos. Sem forças, não pude arrancar-lhe do peito a mágoa contida. Culpo-me por te ver chorar e não ter nada em meu alcance para impedir-te de sofrer.

Nos cantos, o escuro do medo revela a face sombria. Seguíamos em desfiladeiros ao breve sussurro das frases vazias. Todas as frases tornaram-se vazias então. Os sentimentos misturaram em um choro uníssono. Somos operários de nossas próprias mágoas íntimas. Deixo transcorrer em versos perdidos as mágoas que não sei classificar. Medo, talvez; incapacidade de arrancar-lhe a dor, plenamente.

Escrevo sem nexo em parcas linhas desconexas a inexatidão deste emaranhado de sensações impróprias. Palavras não bastam, como não satisfazem apenas os abraços partidos e sinais de boa sorte. Nada pôde ser feito para acordar deste pesadelo que parece um labirinto borguiano; ou seria um inferno dantesco?. Melhor seria se soubesse como livrar o meu rosto magro da realidade desconexa que nos cerca. E esta tormenta suba a ternura de louco dentro de mim.

Uma hora, a tempestade vai passar, deixando para trás apenas o lastro de destruição que ajudamos a criar. Que os mistérios da vida voltem a trazer o afago sabor doce da surpresa vindoura. E nada mais importa, exceto enxugar suas lágrimas e cantar uma suave canção para fazer-te dormir em meu peito. E desta forma ficaremos até você e eu florescemos, à última flor, à última hora, aos céus. Assim, quando despertar, as dores tenham ficado veladas sob o travesseiro.

Versos sujos perdidos

Não basta o seu gesto impiedoso
A soar como antigo cântico
De novo, o velho gosto do novo

Não basta seu jeito imposto
Seu corpo a exalar o aroma de carvalho
O leve torpor agridoce do orvalho

Não basta seu sopro indecoroso
Mordido ao breve tremor de um suspiro
A remeter a dor de um instante perdido

Não mais basta seu olhar indeciso
Vasta glória, agora, jaz
Existe distância, mas não há paz

Francielle

Dança o jardim ao sabor do final de verão. Em cenas repetidas, pede para que tudo volte aos bons tempos em que a infância ainda dominava as preocupações corriqueiras. A vida e seus mistérios: um segundo antes, a paz reinava entre os sorrisos encantadores. Um volta incompleta dos ponteiros, e o que era calmaria transformou-se numa engraçada tormenta. Meus velhos e inesquecíveis dias… Dá-los-ia apenas para ver-te sorrir, em câmera lenta, quadro-a-quadro, em plano aberto, amplo, infinito. Cinematograficamente.

O percurso das águas e seus afluentes. Se soubesse antes o quanto seria suscetível cada passo, teria antecipado o encontro derradeiro uns 300 anos antes. Ou mais, se possível fosse. Ah, seria sim. Tenho a certeza convicta dos visionários ou dos desmiolados. Uma clarividência autêntica, que me assegura seguir em frente mesmo diante da maior das tormentas. O acaso já se foi, restam-nos agora os melhores dias de nossa vida.

Dói-me tanto, e na alma, a sua mesmo que mínima ausência. Parte-me em milhares de pedaços infinitos a lacuna que se abre sem você. Falta tanta coisa quando não está por perto; nem olhar seu sorriso no porta-retrato satisfaz a sensação inebriante de ter sua voz a completar-se com o toque, seu olhar e seus mais despertos encantos.

Começo, meio que ingênuo, a entender que nem tudo que é sólido derrete. O ar que te vê flutuar não pode ser tão pesado ao ponto de deixar morrer a poesia, o encanto e a alegria plena. Tudo é infinito dentro de seus olhos azuis. O mundo e a vida têm a obrigação de serem assim, como seu sorriso: fácil e de infinitos encantos. A cada giro planetário, como suas ilimitadas graças, uma manifestação. Aquela saudade boa que nos leva aos tempos imemoriais. A memória seletiva a pregas as melhores surpresas.

Abrem-se as caixas de Pandora: vejo em alto-relevo seu nome em cada momento bom. Pode ser que amanhã você dance de olhos fechados sobre o vendaval ou cante a nossa canção e algumas lágrimas quentes rolem pelo seu rosto. Pode ser que sonhe colorido e antecipe o futuro ou me leve para o paraíso junto aos seus passos. Pode ser… E será. Com um sorriso nos lábios, fecho os olhos e as palavras de Vinícius de Moraes vêem-me à mente. “Não há você sem mim, eu não existo sem você”.

O sangue é sólido

O agudo grito abafado no peito não encontra eco para dar vazão a angustia que enfarta a inexistente quietação. Cercam-nos os olhos vermelhos e cansados de sangrar lágrimas. O gosto de sal me invade a boca… Tantas palavras, e nenhuma que caiba no vazio que se fez. O vazio me consome até o estado de torpor; é esta então a dor absoluta. São sensações que crescem, ao passo que diminuem. O sangue é sólido. Turvo tudo de azul, sombrio.

O problema das mentiras veladas é que, geralmente, elas são acompanhadas das bocas abertas. Adeus aos corações puros. Um salto no vazio e imaginário do escuro a acompanhar as angustiantes noites sem sono, sem brio, sem exatidão, sem esperanças… O mundo se curva sobre as pernas cansadas do amanhecer sem flores. Jamais se esqueça: do universo, eu espero apenas que as luzes iluminem os passos a te seguirem. E nada mais me importa.

Tolos temem a solidão. Sentimento, este, que tem medo de ser esquecido num forte e duradouro abraço. Vivemos apenas de esperanças que já nascem mortas e germinam pequenos pedaços de calafrios. A vertigem que nos cega; a tempestade que nos absorve: a queda e o ponto final. Aos poucos, o silêncio em nosso redor cresce ao ponto de se tornar ensurdecedor. Um vento anunciando infortúnios seca minhas lágrimas. Carece apenas esperar o sol se pôr definitivamente. Sobra o sal. A língua cansada e um adeus.

Nunca teremos a certeza clara destes emaranhados fios de desejos, emoções, desatinos e incertezas que acostumamos a chamar de futuro. Instintos que são apenas para acalmar a alma em ebulição. Num segundo de descuido, os frágeis pilares a sustentar os planos vindouros desmoronam por completo. Ruí eu. O pouco que me restou da fé se esvai em milhares de imagens a explodir diante das retinas atônitas. O silêncio dói mais que uma ferida.

De lixos e trapos, fazíamos viscosos vestidos a tatuar nossa pele nua. Desperdiçávamos os corpos saudáveis com a cansada mocidade a rodear os primeiros anos. No meio do caminho de um abraço, os olhos repousam sobre a outra alma. E você corria, corria, corria para tão longe de mim. Falam de uma revolução em marcha, dizem ser evolução; mas não se livram de velhos preceitos e vícios. Até chover, até se esquecer de lembrar. O mundo continuará a mover sem que possa desfazer-me desta chaga a me consumir de uma vez por todas. Apenas o gosto amargo do embate perdido irá permanecer quando o fim chegar, em breves momentos. O salto sem fim…

E foi assim por toda a eternidade

O mundo prestes a eclodir no derradeiro ponto infinitivo; e eu apenas penso em colher flores para que você possa usar da forma mais bela. Imperfeitos, são estes seus gestos mais delicados que me dilaceram a alma e me fazem feliz por completo. Lentamente, como bolhas de sabão a subir aos céus, ar se enche com o encanto de notas musicais naturais de seus mais distraídos passos. O resto é ruído.

Nestes instantes, o tempo faz uma curva imaginária em sua retilínea evolução e, como um relógio velho, permanece parado até que eu possa te desenhar num quadro em branco. Abstrato… Noutra cena, o futuro a passar diante de minhas retinas impávidas, tangidas de cores vívidas a jovialidade do nascer de uma nova estação. Como cair em seus braços é tão simples. Diante do satisfatório medo vindouro, fecho meus olhos e deixo que suas mãos me conduzam para onde quiser me levar. E eu fui.

Em areias regidas por arcaicos cânticos e velhos preceitos, permanecíamos flutuando no suspenso ar que nos rodeava. Ao som de uma valsa antiga, a pianola desgastada do destino movimentava as engrenagens que fazem o mundo rodar. Como quem começava a despertar de um longo sono, sem pressa, as décadas se moviam em bucólicos acordes dissonantes. Em um rápido movimento dos olhos, o tempo deixou de existir… E foi assim por toda a eternidade.

Sombra sobre as estrelas

“Eu escaparia se me jogasse desta altura”, disse-me enquanto girava com a ponta dos dedos o destilado ordinário em um copo descartável. Os olhos perdidos no horizonte suplicavam por desculpas insípidas ou como se pedisse perdão pelos seus passos errôneos. No breve instante que visualizava meu corpo em queda livre e o frio hálito da morte vindoura, interrompeu o silêncio com uma frase certeira. “Não me assusta a vertigem, mas a virtude”.

Cai por completo. Daquelas palavras duras, despertei-me de um transe profundo: ainda achava que a vida fosse fascinante. Como as rápidas cenas de um filme sem nexo, acompanho sem cor o peso sobre os ombros da ausência de algo ainda disforme. “O silêncio cicatriza as lágrimas amargas”, aconselhou-me no momento que mais precisava da palidez das noites não dormidas. Ao tapar o rosto com as mãos para esconder o choro compulsivo, compreendi que esta frase foi dita para acalmar suas próprias dores.

As palavras duras se calam por completo. O silêncio de minha retórica significa uma tormenta de sentimentos inclassificáveis. Os medos eram mais simples quando éramos mais jovens. Sigo, mudo, pelos percalços de suas marcas impressas em mim. Sobre as sombras do mundo e o peso que se abate em meus ombros cansados, sua foto é o raro momento de entendimento da confusão de fora. Vejo, claramente, que você é tudo que eu sou.

Talvez o tempo passe rápido demais para quem se deixa abater com as adversidades da vida. Ou simplesmente o tempo se esvai entre os dedos cansados? Os menos céticos diriam ser a mecânica celeste influenciada de forças não gravitacionais. Sombras sobre as estrelas.

Passam-se os versos, as datas, as cores e a velha alegria. Uma breve memória me faz regressar da escuridão que se desfilava. Vejo seu sorriso como uma maneira de reencontrar um arco-íris antes que o dia termine. Sei que vou ouvir por várias vezes a sua risada antes do pôr do sol.

Tangos e outras delícias

(*) Réquiem para Sérgio Sampaio

Então o mar destruiu os castelos de areia que fez com seus sonhos inacabados? Descia a rua tropeçando entre corpos mutilados e a paz não mais existente em seus olhos. Berrava velhos cânticos de guerra ao tentar desviar do pôr-do-sol que se forma diante de seu sorriso jocoso. Sem graça, debochava dos comensais apenas para demonstrar que continuava novo e livre das convenções antiquadas. Estava acabado para os novos ventos. Um ataque surpresa roubou seus melhores momentos de sono. Daquele jovem de coração franzino, nada mais resta: nem as lembranças; tampouco os tímidos lábios.

Para fugir de seu círculo vicioso e autoritário, inventava histórias de amor tão insanas e sinceras quando um sonho tranquilo. Acordava ensopado de suor e angustia ao deparar no espelho a verdade estampa em meus olhos vermelhos. Ouvia passos no corredor, mas fechava a porta apressadamente. Poderia ser alguém? Não queria ser pego fazendo as coisas das quais se arrependeria antes do sol nascer. Com pedras a rolarem insistentemente em uma realidade não imaginada, via-se suspenso no ar em antenas de TV não sintonizadas. Veja o fogo que escorrem com as minhas lágrimas? Não pôde enxergar a tempestade que se aproximada dos rostos úmidos e exaustos pela costumeira repetição do relógio. Tudo parece cinza quando os olhos fecham e o silêncio da noite me ensurdece a alma.

Seu modo incontrolável faz com que o mundo o deteste. Os cabelos cuidadosamente pintados de um modo provocante são, apenas, para se esconder das dores que remontam o passado sombrio. Veludo tudo. Foge dos sentimentos puros por temor de não controlá-los. Repetia no espelho do banheiro imundo todas as manhãs que é uma pessoa independente, forte e que não se deixa dominar com emoções ordinárias como o amor, a paixão e a dor. À exaustão, ecoa velhos mantras batidos sobre a necessidade de se manter firme em um mundo eclodindo em cacos. Seu reflexo revelava a verdade inconveniente que, inutilmente, tentava esconder das vistas comuns: sua maior virtude está no ponto que encobriu ao alegar defeito mortal. Não passa de alguém assustado em busca de um abraço de redenção e um ponto seguro.

O volume exagerado vindo do stereo da sala de estar te faz mergulhar num mini-universo ávido: tudo é ilusório diante os olhos cansados e entorpecidos. Baila seu corpo pelo ar, para desfazer uma mágoa profunda. Os acordes dissonantes se misturavam com o álcool em excesso e as seletivas memórias que nos atacam nas horas mais inimagináveis. O brilho de prata reluzente em as lágrimas o trouxe à vida comum. Por alguns segundos, a tonalidade dos cabelos em chamas remeteu à criança perdida na praia numa tarde de domingo. Desamparado, o choro foi a única alternativa para voltar ao seguro abrigo dos braços paterno. Agora, anos distante daquele garoto tímido e com pintas no rosto, luta para se desvincular destas imagens. O tempo pune com o ressentimento. Porém, ser levado para casa ainda era seu desejo mais intimo.

Mais que tente, nunca conseguirá se esconder de você. Esta e outras verdades nos acompanharão mesmo quando não mais houve sol ou a lua não iluminar no firmamento. Sempre existirá um falso profeta nos centros da cidade pregando o fim do mundo próximo. Mais perto que imaginamos. Na próxima esquina, a cura milagrosa para os problemas comuns é anunciada em um megafone a chiar ruídos indecifráveis. Acreditar em algo que possa reverter os desatinos cotidianos da solidão pode ser uma redenção; ou é a falta de luz que entristece e nos cega. Sem paz e sem calma. Cobrou-me hombridade, mas cadê a sua coragem?

Incansável, buscamos resposta para tudo: água, terra, céu, sol a girar. Abria, por direito, a felicidade estampada no peito e um sorriso sem graça. Esta necessidade de explicar o porquê de tudo que nos torna presas fácies aos emaranhados desfiladeiros do acaso. Mais breve que o tempo passa, vem a galope a culpa que nos consome. A alegria e dor ficam dormentes antes mesmo de ganhar as ruas frias. Cadê a ousadia quando estamos hipnotizados pelas pobres palavras desconexas? Foi-se pelo ar? Está bailando um tango triste pelas alamedas escuras de Buenos Aires? As remotas lembranças seguem pela poesia pequena; toda mágoa que acompanha sob os pés cansados. Vá sem pressa, e não penses que terá a vida toda para se equilibrar sobre os desfiladeiros remotos da consciência.

Voltas de um relógio ilógico

Tormentas e outros problemas tiram-me o pouco da paz reinante. Não que houvesse muita, apenas a tímida calmaria para poder dormir e acordar no dia seguinte com o gosto amargo provocados pelo exagero de álcool. Tudo lembra as nossas longas noites de insônia: as palavras mortas, os dias longos, as poucas fotos que enfeitam as paredes desnudas de artes. Nossas respirações ofegantes pelas longas frases e o efeito do vinho. Tudo parece perdido. O encanto de outrora, as falsas demonstrações de carinhos descartáveis. A dor em seu estado bruto. Tudo é ilusão neste parque de diversões ilógicos, distante da tonalidade que enfeitava seu olhar belo. Estas verdades inventadas se fazem necessárias para me manter vivo. Metade é calmaria, a outra, precisão. A vida e seus misteriosos desfiladeiros. Em cada esquina, uma nova história: o final nem sempre previsível.

Você cismava em reinventar o futuro a cada instante. Presa à imprecisão das datas, algumas lágrimas davam vazão aos seus puros gestos. Nestas ocasiões, eu enxergava com a clarividência viva a impudência de meus atos. Em frente ao desfiladeiro, corria para me jogar de cabeça. A vertigem sempre me deixou entorpecido. Seus planos inacabados com meus passos errados. Era a união perfeita dos cosmos. As sombras da madrugada faziam companhia às conversas ilógicas e absurdas. Seus abraços me fazem falta, como o seu sorriso a enfeitar as terças-feiras cinzas de outono. Um grito no escuro pegou-me de assalto: tudo em volta está em chamas. Solitário e errante, chamava seu nome como quem procura proteção materna. Na escuridão que atravessava, uma estrela sombria iluminou o caminho. Vi, do outro lado da estrada, seus lábios redentores ao arco-íris vindouro. A paz reinou por um breve instantes enquanto durou seu sorriso.

Em preto e branco, a retina mergulhava em sua fotografia deixada ao acaso sobre a bagunça da mesa. Na sala de estar, numa repetição do passado, ouço o eco da porta as se abrir e seus passos abafados pelo corredor. Como a acordar de um transe, reanimo-me à parca realidade que me cerca. Garrafas vazias e a alma repleta pela fúria cega dos devaneios incompletos. Voltas de um relógio ilógico. São movimentos que não posso mais conter. De um lado, a saudade que me consome aos litros de um destilado ordinário; do outro, a verdade que me arde o rosto e tento esconder do coração em frangalhos. Os fragmentos esquecidos do passado voltam a atacar em meu ponto fraco. Justo agora que me achava seguro demais para caminhar em linha reta. Feriu-me com palavras tão mortais quando lanças de prata.

É triste perder a essência, ainda mais quando se luta para mantê-la. Mais trágico é arruinar-se pelos sonhos e utopias adormecidas. Velhos corações desfeitos pelos mecanismos sistêmicos que regem as gastas roldanas do mundo. Impossível mudar as antigas marcar que não querem ser alteradas. Esqueci cânticos de outrora e testamentos amarelados pelo tempo. Desfilam diante das retinas cansadas a herança do sangue na madrugada infinita. Perdemos a palavra fria. Perdemos a paz. Perdemos-nos. Por favor, visite-me em meus sonhos. O que será que virá nos próximos dias? O vazio perturbador ou a maluquice dos dias maquinais? As cartas sobre a mesa. O inverno que se aproxima lento… quente dentro de meus labirintos esquecidos. Desejo o fim dos dias que as marcas deixadas impressas em lentes digitais. Valerá para toda a vida te levar em mim?

Sinto falta de vento em seus cabelos e a liberdade que aspiramos desde o princípio. A vida e os interessantes mistérios. Em cada volta, uma história sem fim. São estas palavras perdidas que em encantam. Fragmentos molduram o mosaico que somos. Numa madrugada cinza, seus vocábulos desiludidos trouxeram-me um breve alento. Será que amanhã estarão ainda estampados em meus olhos cansados da imprecisa necessidade de seguir adiante sobre o temporal? Quando mais ódio, mais o sentimento de identificação com o outro. As sensações são rarefeitas quando está distante. Um passo para a eternidade; apenas mais um dia… Uma noite e nada mais? Falta-me o incessante desejo de ter quem a me esperar de braços abertos após o pôr do sol, como o desesperado almeja uma luz no final do túnel. As armadilhas do destino. Você tenta se esconder das mágoas que te fizeram ser a pessoa de hoje. Perca o medo de se arriscar e nade contra a maré comum. Desta forma, todos os dias que eu sigo em frente.

Até o final de nossos dias

Atravessei apressado a avenida repleta de carros e dissabores. Sem saber ao certo que me esperava do outro lado do mundo, caminhava passos firmes e certeiros, destas caminhadas que fazem os que sabem exatamente onde irão. Eu não sabia a parte de sua estrada que se uniria ao meu destino. Quase nada. Poucos metros de distância, meu coração pulsava tão forte a ponto de imaginar que pararia. Parou por uma breve eternidade. Ao nosso redor, exceto seus cabelos que balançavam perfeitamente, tudo mais se estancou. O tempo fez uma curva nas emaranhadas teias do destino. Desconfiado, verifiquei ao redor temendo que algo acontecesse. Em qualquer história cinematográfica, alguma surpresa se daria neste instante. E ocorreu:

Foi o sorriso mais lindo que vi a me observar. Neste momento, toda minha vida, finalmente, teve sentido. As pequenas peças indefinidas e inexatas se encaixaram com a perfeição de seus encantos. Num segundo, todo o encanto a girar, como nossos corpos unidos num abraço sem fim a bailar sem gravidade no infinito opaco dos corações ritmados, agora, em um compasso único. Harmoniosamente. Uma espécie de refúgios das dores passadas me redimia dos erros cometidos até então. Em um novo capítulo, escreveríamos em cores vivas a felicidade que incendiávamos. Em seus olhos percebia uma onda de sentimentos complexos. Não em vão, eu era misturado em cada olhar.

A casa estava tão vaza sem você. Ou será que sem você tudo fica tão vazio. Horas completas de felicidade em seu estado mais puro. Nas estrelas que reluziam um brilho único, bailávamos sobre o tempo, numa destas curvas que ele fez quando você e eu nos encaramos frente a frente. As marcas cronológicas eram suspensas por uma linha tão tênue, que já não sabíamos mais o que era o real ou imaginário neste conto de fadas que penetrou a madrugada silenciosa. Quais os próximos passos a seguir?, perguntei em um segundo de distração. Com o indicador em meus lábios, disse “em frente, como é de se fazer”… Fizemos.

Mas o tempo cobra os momentos que se diferencia da percepção dos demais. Um preço alto para dos jovens pares de olhos assustados como novo. Precisou se ausentar. Baixamos nossas faces tristes com o medo de ver nos olhos do outro maior dor até então. Foi o sorriso mais lindo que revi, mas carregado da lágrima mais triste que me molhou o rosto. O seu choro derramado em meu corpo me deixou marcas profundas. Como se eu fosse batizado naquele instante com seu nome, sua história e seus planos… Não apenas isso, mas com tudo que fosse capaz te de fazer ser feliz e, assim, encontrar a minha felicidade refletida em seus braços seguros.

A vida é um misterioso labirinto: no instante que mais me sentia perdido, você apareceu com palavras mansas e jeito decidido de lidar com os desafios. Com o seu sorriso estampado em mim, pude acreditar que poderia reencontrar a felicidade adormecida e despertar a paz que buscava incessantemente. No silêncio da longa noite solitária, relembro cada segundo de seus primeiros suspiros. Um sorriso mágico que me desarmou profundamente. Refém sem hesitar, entrego-me aos seus encantos enquanto luz existir ou até mesmo se um dia o breu tomar conta do firmamento.

O amor é uma expressão forte demais para quem nunca saberá o que significa. Tudo tem um ponto de início. Nada fazia sentido antes de você chegar, mas eu sabia como caminhar em frente sem esperar grandes surpresar no entardecer. Depois que seu olhar me acalmou, não quero mais cruzar as vias deste labirinto da vida sem suas mãos a me conduzirem. Concentro-me e em minha mente imagens de você a desafinar a música que ouvíamos juntos. Com um fio de lágrima que escorre em meu rosto, peço que me dê as mãos, pois assim podemos nos entender até o final de nossos dias.

Em cartaz, Cine Macalé

Jards Anet da Silva, 66 anos, vestido com uma camisa do Super-Homem, caminha tranquilamente sobre o palco do Sesc Santos, às 21 horas de 22 de agosto de 2009. Pega um violão, ameaça algumas notas. Para. Olha para o público, aponta o telão instalado atrás do compositor carioca e anuncia a exibição do primeiro trecho de um filme. Em preto e branco, cenas do enlatado Batman e Robin, sucesso televisivo dos anos 50. Na sequência, apresenta uma de suas primeiras composições: Gotham City, defendida em 1969 durante o 4º Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Entoada, na ocasião, pelo grupo ‘Os Brazões’. Os comensais vão ao delírio. Era apenas o começo apoteótico.

Inspirado em músicos que se apresentavam em sessões de cinema mudo, no começo do século passado, o representante dos marginais da MPB estréia em cartaz com Cine Macalé. Espetáculo multimídia o qual o compositor carioca apresenta músicas e trechos de suas participações na sétima arte. Neste terreno, pouco importa se atuando ou compondo.

A trama do espetáculo, com duração aproximada de 80 minutos, segue os caminhos do violeiro cego do filme ‘Amuleto de Ogum’ (1974, Nelson Pereira dos Santos). Além de ser o protagonista do longa, Macalé assinou a trilha sonora da fita. “Se me der na veneta eu vou,\Se me der na veneta eu mato,\Se me der na veneta eu morro,\E volto pra curtir”, canta para um seleto grupo de aproximadamente 150 pessoas (cerca de 20% da lotação do local).

Um dos rebelados da indústria fonográfica, Macalé integra a lista dos compositores intitulados “malditos”. À margem dos sucessos repetitivos das ondas do rádio e televisão, o músico carioca também se aventurou nas telas do cinema em outros dois longas: O Demiurgo (1972, Jorge Mautner) e Tenda dos Milagres (1977, Nelson Pereira dos Santos). Trechos e causos são narrados e seguidos de execuções de parcerias do músico com o poeta Waly Salomão (1943 – 2003); “A voz do Morro”, de Zé Keti; “Acertei no Milhar”, de Moreira da Silva. Ainda há espaços para homenagens ao ator Grande Otello, com cenas da obra Macunaíma (1969, Joaquim Pedro de Andrade), baseado no romance de Mário de Andrade.

Em uma ode à Sétima Arte, trechos da fita Terra Estrangeira (1996, Walter Salles e Daniela Thomas) são intercaladas com imagens do humor clássico dos irmãos Marx. Próximo frame, a cena final do filme que é considerado a retomada do cinema nacional. Cantando “Vapor Barato”, Alex (interpretada por Fernanda Torres) leva Paco (Fernando Alves Pinto) baleado para o hospital. Pela estrada portuguesa o veículo se desloca em alta velocidade, lentamente a câmera se afasta… Ouvimos os soluços de Alex: “vou descendo por todas as ruas \ E vou tomar aquele velho navio…”. Lentamente o zoom da câmera desfoca o auto a rodar sem fim… o ‘road movie’ chega ao fim. A voz de Macalé e o show se vão à tomada seguinte, Faz-se luz, então:

Desce-se o pano do palco santista; da mesma forma que eram baixadas as cortinas após as exibições do cinema mudo, em uma época que teatros eram adaptados para as projeções. Sobre aplausos, e reclamando de uma tendinite na mão esquerda, Macalé, lentamente em seus trajes de super-herói, retorna a coxia. Não há humano que suporte dor nas mãos após conduzir sabiamente um instrumento musical. Respeitosos, nenhum dos fãs pede bis: no cinema, quando acabam os caracteres, não há mais ninguém na sala de exibição.

Antes do sol nascer

Em meio aos cacos deixados sobre a pia imunda, tentei procurar aquilo que ninguém jamais teve coragem. Juntei fragmentos de utopias esquecidas e versos escritos ao acaso, que, por descaso, deixei em cima das roupas sujas. O amor distante a brilhar em nossos olhos a ponto de nos deixar com medo de voar. Disse-me, a maior dor que passou foi perder a inocência: eu também sei, o mundo é cruel e não foi feito para nós. Ainda busco a pureza em cada gesto perdido, a cada palavra não dita. No silêncio é que encontramos nossa melhor retórica. Seus olhos me mostram que está se despedindo da vida. Mesmo assim, você é tão especial. Não pertencemos a este lugar.

Como quem pedia desculpas pelos atos a serem cometidos, sussurrou em meu ouvido aquilo que me martelava a cabeça: escrever é mais difícil que morrer. Eu me suicidava a cada linha torta. E caminhamos rumo ao derradeiro fim a todo instante. Corra. Fuja de seus demônios. Qualquer trajeto que seguir, sempre terá a sensação que não é deste lugar. Respirávamos fundo e mergulhávamos de cabeça num ávido universo sem cor. O sangue amargo escorria pela garganta abaixo. O gosto agro dos derrotados. Corra… Corra… Mas nunca poderá se esconder de si mesmo.

A angústia se torna mais forte ao cair da noite, ao terminar o último copo, no apagar as luzes e fechar os olhos. Ajudas são desnecessárias e o orgulho fere a única bondade que ainda restou nos atos puros. Dentro de mim habitava um menino que morreu quando parei de sonhar. As tonalidades são sempre opacas distantes das retinas claras de sua áurea. Nossas aspirações são tão vazias? Atravessamos o contrário do mundo sem sair do chão. Como mergulhar de cabeça num mar raso sem se ferir? Afinal, somos apenas peças num tabuleiro sem nexo e prestes a serem devoradas no próximo lance de sorte.

Temia mais o medo de sua falta que a chuva do outro lado da esquina. Pedi com os olhos para me levar para casa. Com um sorriso, ordenou que ficasse entre seus braços e traumas. Minutos depois, levantou-se e, com a boca em copas, disse que minha casa estava em qualquer lugar que quisesse fazer moradia. Levantei assas e voei para perto de seu peito ferido. Enquanto ouvia o seu coração ainda desritmado, entregou-se num breve alento. Como entender as armas do amor? Por um instante, fechou-se em uma redoma de vidro impermeável. Percebi que o melhor a fazer era deixar que o opaco da noite conduzisse o cinza que viria. Deixei a casa vazia e partir sem rumo para algum lugar que pudesse rever o nascer do sol. Neste momento, perdemos-nos…. parecia que para sempre.

O tempo e suas marcas

Sinto-me vazio. Não é fácil preencher uma alma imperfeita com sentimentos que deveriam durar para sempre. Nada é eterno diante da intensidade de seus olhos. Mesmo assim, insisto em relatos intermináveis e em frases sem nexos, apenas para tentar te impressionar com a minha literatura barata. Gestos vazios e utópicos para reencontrar o pote de ouro no final do arco-íris. A cada passo adiante, o precipício se aproxima ferozmente. Eu cai.

Quando mal, o que era sempre, costumava me consolar com palavras duras. Dançavam em minhas retinas suas expressões amargas sobre a vida cotidiana e a solidão das metrópoles. Seu sorriso enfeitava até mesmo o cinza concreto de suas frases. Sentia-me sozinho entre minha parca dor e os labirintos que criava para me distrair. Jogava-me em histórias absurdas que eu já sabia o final. Morto, dilacerado, tentava reerguer a cabeça e me jogar, como quem se precipita à lança, numa outra desaventura. Cada história era o final derradeiro.

Depois de uma certa idade, a maioria das pessoas passa a não acreditar mais em poemas, igualdade, fraternidade ou o no amor. Levo comigo estes lemas batidos dos corações ainda pulsantes de jovens apaixonados e temerosos diante do mar que se segue. Preso na baleia, seria tão mais fácil. O que pouco me tranquiliza, é saber que tudo existe por uma grande exatidão. Esta precisão absoluta cega as retinas cansadas a ponto de não enxergar os pequenos milagres que movem as roldanas capazes de nos manter suspensos no espaço. E eu flutuava próximo à sua gravidade… o tempo e suas marcas.

Tenho medo da barra pesar e despedir-me da vida pelas portas dos fundos. Penso nas dores que poderei deixar: meu egocentrismo é tão egoísta que me preocupo apenas com quem me rodeia. No ápice da dor, dizem-me que a vida vale a pena e o ponto de equilíbrio encontra-se num local qualquer em mim. Nem consigo me encontrar no meio do entulho deixado sobre os restos de sentimentos desconexos. Quero a paz reinante de seu sorriso puro. Deveria ter chorado a dor profunda de ter perdido seus passos. Tristes relatos em torno das horas mortas.

Lentamente, desce-se a luz e a magia encanta-nos. Até os mais céticos, desprendem-se de suas utopias perdidas e encantam-se com o cenário ilusórios descritos nos cantos sombrios do palco da vida. Num breve suspiro, as cortinas se fecham e o espetáculo reaparece diante das faces boquiabertas. A tinta desbotada que as lágrimas fizeram cair de suas pálpebras deixou-me confuso. O mesmo tempo que quero amparar suas dores, sou impedido pela soberba forma que reage aos sentimentos puros. Amanhã, o silêncio de minhas frases repetidas ecoará o nada que nos resta. Sonhos desfeitos ao abrir os olhos para o novo dia cinza. Sua falta tira um pedaço de mim.

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