Arquivo para Dezembro, 2006

DO OUTRO LADO

Do outro lado da estrada
Existia a estrada
Vários caminhos que em vão caminham para lugar nenhum
Do outro lado da estrada só a estrada havia
Talvez uma ponte adiante
Uma descida ou desvio
Do outro lado da estrada outra estrada havia
Meus pés cansados do caminhar, teimosos seguiam
E a estrada que não levava à lugar nenhum
Em vão ia
Fecho os olhos e por um segundo
Imagino que não existe estrada, ponte, desvio
Nenhum!
Sorrio.

O TEMPO PASSA…

Olhamos-nos, como quem encontra algo perdido, algo que sempre esteve ao nosso alcance, mas, por um destes maléficos fios do destino, foi arrancado de nossas mãos. Víamos, claramente, escorrer o tempo entre nossos dedos, assim como, enxergávamos a enorme e agradável surpresa que nos esperava ao fim daquele olhar. Percorríamos por longos segundos todo sentimento guardado até então. Em nossos olhos víamos a metade do outro refletida. Um busca eterna interrompida por um momento catalisador. Neste instante, todo o universo em expansão parou, e, em um breve segundo, eclodíamos pela primeira vez em nossa vida terrena um para o outro. Eram gotas de orvalho brotando em cada sorriso. Seus olhos, puros como estalagmite, enchiam todos os espaços com sua energia calma e bela.

Como cristalizar um momento? Como retirar da linha do tempo um mísero segundo, e deste, construir seu talismã de vida? Como ser influenciado por alguém que está distante? E, acima de tudo, como reconhecer a hora certa, a pessoa certa em meio ao caos que vivemos?

Sua respiração presa ao ouvir minha voz, disse ,em um silêncio abismal, todo sentimento que procurei entender anos a fio. Quanto tempo faz? Às vezes penso que passaram-se milênios, outras imagino não existir calendário para medir as distância geográfica que cisma em nos separar. Quanto tempo faz? Como esquecer suas palavras, se são elas que me dão força em continuar? Apenas suspiro, e lembro dos seus gestos mais breves, seus mais belos sorrisos esculpidos em minha alma… Tempo…

Seria impossível prever aquele segundo eternizado em nosso tempo, nenhum astrólogo, numerólogo, físico, astrofísico seria capaz de prever o cataclisma da junção de seu sol ao meu satélite natural, regido pela sua gravidade, fui atraído ao seu centro, e lá fiquei vagando em torno de ti por toda a eternidade. Nós, que inventamos o nosso sonho, o nosso espaço, criávamos, ali, o nosso tempo. Só nosso, poderíamos correr sobre o tempo tão acelerado quando estivéssemos longe um do outro, e vagar pela lentidão das horas a cada abraço. Mal nos despedíamos e o tempo acelerava de forma veloz ao momento de nosso regresso, e neste instante, parava subitamente e para sempre. Hoje! Vivíamos apenas o momentâneo, o imediato, o já. Amanhã, ano que vem, daqui a 10 anos são datas esquecidas em nosso sistema. Tempo, tempo, tempo… Jogo o relógio fora.

Por onde guia a rosa dos ventos? Como são gerados os furacões? Onde o vento se esconde em dias de preguiça? Procurava sua mão no escuro, tateando o imenso deserto que nos separa, pegadas na areia marcavam o caminho que deveria percorrer. Atravessávamos por tortuosos labirintos, perdidos e distantes, desesperados procurando um ao outro. Berrávamos nossos nomes, ouvindo ao fundo o eco de nossas próprias palavras, chorávamos de desespero, mas não por falta de amor. Estávamos próximos, muito próximos, de costas para o outro, com uma parede transparente a qual estávamos encostados. Não nos enxergávamos. Mesmo próximos, estávamos perdidos.

Mas, ao fechar os olhos, e mergulharmos ao nosso submerso mundo, tocávamos, em silêncio, todas as portas secretas de nossas almas. Neste instante, como a um imenso raio, transmutamos-nos ao outro, nossos espectros fundiram-se em um só, éramos o pecado e o perdão berrando em palavras repetidas: “EU TE AMO”.
Há dias que esqueço a cor que tem o céu. Olho em seus olhos e recomponho todas as tonalidades existentes na primavera.

O ANJO AZUL

De tudo que nos restou, apenas sombras decoram o quarto. Sobre a penteadeira algumas fotos provando que, um dia, tentaram encontrar a dita felicidade. Pelo chão, além de garrafas de bebidas, roupas, muitas roupas, espalhadas. Completam, esta imensa bagunça, restos de comida, livros, jornais, revistas e uma bíblia que, inutilmente, tentava trazer paz em seu pobre, e desfeito, coração.

Pelas paredes imundas, quadros maravilhosos pintados por ele, em noites de agonias e desespero, projetava em telas todo o sufoco que tirava a tranqüilidade roubada no dia que ela partir. Misturados com os remédios para dormir e excessivo uso de álcool. Faz um ano em dezembro. Decorou alguns trechos do livro sagrado, durante o banho recitava-os como quem provocava Deus. A voz abafada pelas lágrimas e desespero, recitava sem fé, esperava um milagre. Sabia de cor os palavras de Matheus.

Das sombras que decoravam o quartinho dos fundos de uma casa na periferia da cidade, escondia um grande artista, genial e louco. Recolhia-se do mundo.

Desde que ela partira para ganhar o mundo, ele se trancou em seu próprio universo. Criou fantasias e histórias. Nos quadros, narra o que sonhou em toda vida. Passou os primeiros meses assim, depois a depressão o consumiu, nos quadros imprimiu a morbidez e a autodestruição. Em cores pesadas, pincelava a amargurada dor que tornara seus passos. Tinha saudade das promessas e planos de amor sonhado em loucas horas. Em algumas manhãs, e tomado pela melancolia, pintava o rosto da amada sendo amparada por anjos. Ou pintava o que desejava ser o tão imaginativo lar. Outros dias, tomado pela dor, pintava as mais horrendas imagens, muitas delas, o seu corpo sendo velado. Desejava a morte. Nos momentos de grande desespero, quebrava tudo ao redor. Quando acalmava, sentava nos restos e chorava, depois, ainda molhado de lágrimas, bebia o que tinha pela frente, após dormia. Dez, doze horas seguidas. Acordava no meio da madrugada com ódio de si mesmo, e, para tentar se desculpar, pintava as mais intrigantes figuras em quadros abstratos, sem nexo, apenas deixava a mão guiar os traços. Destruía todos. Às vezes, pintava algo genial, e, por isso, cobra-se muito, esperava a cada obra superar a anterior. Isso o deprimia de forma devastadora.

No ápice de sua apatia, entregou-se aos vícios. Álcool, drogas, mas era nos antidepressivos com uísque que sentia mais à vontade. Esqueceu os sonhos mais delirantes. Das sombras que decoravam seu quarto, herdou a apatia e a solidão.

No alto de seu desespero tentou o suicídio. Acordou com a cabeça girando, milhares de imagens formando ao seu redor. Via a enfermeira com o rosto de sua mãe. Lembrou-se do ocorrido. Depois da lavagem estomacal, sentia dor imensa. Olhou para o teto, começava a ver sentido em tudo que ocorrera. Foi quando viu a imagem de um anjo azul decorado por uma estrela de cinco pontas, também de cor azul, rodiado por algumas pessoas, entre elas, sua avó falecida e seu grande amor. Nas mãos do anjo estava tatuado seu futuro.

ROTAS

Tropeçávamos em distraídos astros vagabundos
Vagabundeando em distintos aromas primaveris
Tampando os olhos, a boca, os ouvidos.
Para não enxergar, falar ou ouvir o colidir de seus passos tímidos.
Em tímidas formas de emergir seus dias
Seus dias que colidiram em energéticas bombas de nêutron
Em meus passos mais absortos no passado, remoto-controle.

Plantávamos em escondidas covas o amor e a timidez
Em palavras rasgadas de sentimentos doces e carinho
Escondíamos nossas carências e faltas de fé
Em segundos, que distraídos, nossos olhos olhavam o breu
A fenda aberta em chão de paisagem aos nossos pés
Dias que, sozinho, seguiam por milênios sem paz

Eu te via de frente, seguia seus passos sem determinação
Vales, vulgares, de um escoteiro em remotas aventuras.
Sonhando em dias mais felizes, em felizes formas de viver.

POR ELA

Por ela passo meus dias em agonia
Por ela suspiro meus sonhos em euforia
Ela sorri enquanto eu aspiro vôos perdidos
Deparo com seus suspiros apaixonados pelo corredor

Por ela esqueço as dores do dia-a-dia
Engulo amargo gosto da sua ausência enlouquecedora
Sinto o perfume ao longe, ouço seus berros de saudade
Percebo o tamanho do mundo e a falta abismal que sua luz faz

No tempo de outrora, imaginava o agora perdido
Seu aroma perfumava o ambiente, eminente
No topo do outono, seu rosto em meu rosto
Agora, somente saudade sinto

Por ela perco meu sono, esqueço meus planos
Rasgo promissoras, documentos, jornais, manuais
Por ela espero o correr dos ponteiros acelerados dos relógios, o acúmulo da idade
Por ela a vida vale muito mais que a longa estada em te ver chegar.

SAUDADE

Hoje faz um ano. A saudade chega a ponto de torpor. Antes sentir dor, era mais fácil conviver. Sinto o tempo cada vez mais vago e não consigo sentir o bater do meu coração. Cogito, não por falta de vontade ou aspiração para o novo, apenas por virtude, ou falta dela; cogito, como berro o seu nome. Quero recriar o mundo. Como? Se não consigo me colocar em ordem?

Não sei o que me causa mais dor, se é a sua ausência ou sua imagem no porta retrato. Releio algumas cartas como relíquias. Sigo suas palavras como religião. Mas, ao olhar-me ao espelho, percebo as marcas da sua falta. Não durmo, não por falta de sono, mas porque não está aqui. Sinto um medo indescritível do mundo, não por falta de fé ou confiança em meus passos; isso nunca! Mas por observar o vago lugar que me sobra ao lado. Cadê você?

Às vezes, leio seu nome de forma pausada, tentando observar o mistério que coroa sua marca. Calo-me, apreciando, calmamente, cada letra que compõem o universo envolto em seus dias. Por que se esconde? E, principalmente, por que não ouve meus berros mais apavorados em noites regadas de pesadelos mórbidos, que a sua falta, caprichosamente, trouxe aos meus dias de desalento.

Mas, se for voltar, não volte por uma noite ou uma tarde ensolarada de verão. Volte para a vida inteira; inteiros momentos de entregas e recebimentos. Volte! Volte logo, volte já. Por que se esconde em nebulosos passos distraídos? Por que sonhamos sonhos tão bons quanto insanos? Entregamos-nos em sólidos delírios típicos dos adolescentes na descoberta do amor durante as férias de verão. Não. Não posso admitir, nem por um segundo, nem se realmente for verdade, que este insano sonho foi inventado. Seria um tiro certeiro ao meu peito frágil, se, tudo isso, apenas passasse de delírio, ou um sonho passageiro típico das chuvosas manhãs de inverno. Volte.

Não deveria mais acreditar na felicidade eterna, passei da idade em crer em tal utopia, seria ingenuidade leviana de um coração frágil. Mas, ao te ver sorrindo e bela deslizando em passos tímidos, poucos passos ao encontro do infinito, suspirando aliviada e agradecendo aos céus, pus-me a crer no amor e felicidade pura.

Eram dias de felicidades, sorrisos e passos decididos.

Hoje, em poucos momentos que entrego aos sonhos, acordo assustado e sem ar. Liberto-me de pesadelos que vagam em minhas noites mais aflitas. Procuro minha mão no escuro e entre terços, bíblia e meus olhos aflitos refletidos no espelho, procuro um abrigo sustentável ao medo latente, perene e sombrio manifesto em indecisos manifestos de falta de fé.

A sua falta sufoca, não apenas pela presença física ou a doce harmonia de sua voz, mas pela perda dos sentidos que não reconheço em meus trajetos tortos. Não entendo, e pouco procuro entender, meus passos. Falta-me à referência inerte, ou seu sorriso mais angelical, ou o seu olhar puro como delírio infantil, ou seus passos retilíneos e decididos, falta você, com todos os defeitos que sempre desejei odiar, e todas as virtudes que faltam em meu peito solitário.

Pouco sei sobre a vida, – analisada de forma profunda, creio que nada -, só sei que sem você nem sei se quero saber.

Atravesso a noite com um pensar que não acho solução, com dúvidas e lamentos que nem sei se são corrigíveis. Isso me sufoca, perco o apetite, o sono, postura, orgulho, esperanças, fé… Tudo. Tenho perdido alguns quilos, muitos cabelos, livros, discos, sonhos… Não me atrevo em pensar que perdi você. Pessoas não se perdem, desencontram-se. Desencontramos no momento que você precisava de mim, mas, infelizmente, desencontramos no momento que eu precisava me encontrar. E, sem você, me sinto completamente perdido.

Completamente perdido… Volte!

À quem espero incondicionamente.

Derretendo Satélites

Desta janela encoberta de neblina
Avisto seus brilhos solares atravessando a rua
Escondendo das lentes ofuscantes do sucesso
Seus passos decididos partiam em rotas inexistentes

Por um segundo, senti o bater ritmado do seu coração parar.
Como se o mundo parasse, se o ar faltasse.
Instantaneamente o universo retrocedeu duas décadas de evolução
Depois acelerou tão ferozmente que estrelas colidiram
Escuridão silenciosa fez em seu breve penar

Deste labirinto tortuoso que descrevo meus dias de exílio.
Observo, assustado, o correr natural de seus dias simples.
Como a um terremoto seus passos chocam com astros distraídos.
Destruindo o pouco de paz existente nos cosmos
Volte!

Por um breve instante, minha vida misturou-se com a sua.
Meus tristes relatos, observados com minhas vistas cansadas de esperar
a paz roubada, no instante que colidiu sua rota em meus dias cinzas
Os deuses festejaram a descoberta de uma constelação.

Deste quadro abstrato que minhas retinas incansavelmente entorpecem
Procuro vestígios palpáveis para reencontrar seus braços
Eu, vagando entre o real e o imaginário, suspiro a cada sonho.
Contrabandeando sorrisos puros a cristalizar nostalgicamente a vida

Desta caverna sombria a qual observo tudo contra a luz
Vejo-te flutuar pelo salão principal, deslumbrante e bela.
Ignorando as luzes ofuscantes, vejo apenas seus olhos brilhando,
no escuro opaco, reluzente luas prateadas em noites de euforia
Seu sorriso derretia satélites e corações gelados.

Ditadura da imprensa

Toda a imprensa noticiou a morte do ditador chileno, Augusto Pinochet. Figura aliada aos Estados Unidos, durante a Guerra-fria, foi um dos mais violentos ditadores da América Latina; e peça principal da implantação do Neoliberalismo no Hemisfério Sul.

Algumas informações sobre ele: Em 1973, então comandante chefe do Exército, lidera o golpe que levaria a derrocada do governo socialista de Salvador Allende. Permaneceu até 1990 no poder. Com mais de 3.000 acusações de morte e mais de 20.000 de torturas.

Todos os dias milhares de crianças morrem de fome, outras milhares trabalham em regime de semiescravidão. Nas periferias de São Paulo, imigrantes clandestinos de países latino-americanos trabalham em condições sub-humanas; na Palestina tiroteios e bombas o dia inteiro; Iraque; África… Nada mais é noticiado. O espetáculo da notícia não se rende ao que já é banalizado. Sim, banalizamos a morte, a violência, a falta de esperança.

Isso faz lembrar algo, pouco mais de três semanas atrás, as principais revistas semanais do Brasil com a mesma capa – e mesma foto -. Anorexia. Amplo assunto para venda de revistas, e anúncios de indústrias farmacêuticas no conteúdo do produto (sic. revista). Não tiro a responsabilidade das publicações, entendo a importância do assunto. Existe a necessidade de alertar para os riscos desta doença, visões clínicas e psicológicas. Mas volto ao mesmo assunto, quantas pessoas morrem de fome a cada dia? Viram capas de revistas? Isso aumenta a tiragem das publicações? Atraem publicidade? Muitos sabem da existência desta patologia, nunca foi noticiada.

Também faz me lembrar algo, menos de duas semanas em voga, a crise no transporte aéreo. Algo previsível. Há anos ouço, da boca de passageiros e aviadores, o colapso aéreo brasileiro. Aeroportos sucateados, ampla jornada de trabalho e falta de controladores de vôos, falta de investimentos. Porém, foi preciso um acidente aéreo das proporções do da Gol para chamar a atenção da imprensa. Acompanhamos filas nos embarques aéreos. Absurdos… E as filas em rodoviárias? As greves no transporte público? Os velhos trens das periferias? Os aumentos das tarifas e a falta de ônibus? Os atrasos do metrô? Assaltos em coletivos? Isso é noticiado? Merece destaque na poderosa? Faz-se necessário atingir a uma pequena minoria para virar manchete. É necessário incomodar os ricos para virar pauta.

Aos problemas das classes C, D e E pouco se importam. Aliás, bacanas como são, criaram jornais para esta “classe”, noticiam crimes em um português sofrível (como julgam viverem os leitores deste nicho) receitas econômicas, fofoca de artistas, futebol e mulheres na capa, e lá darão abertura para este tipo de informação, que pouco interessa aos leitores dos “jornalões”; estes estão preocupados com a morte de ditadores, ou árvores condenadas por fungos, ou na crise aérea, ou em doenças da moda, em novidades nas academias.

Tenho que concordar com o Gérson Moreira Lima, quando afirma: “O jornalismo é feito por gente da classe média alta, com pensamentos e preconceitos da classe média alta, defendendo interesses e pontos de vistas da classe média alta”.

Quando surge alguém disposto a lutar contra esta maré comum são tachados de lunáticos, loucos, sonhadores, utópicos.

Enquanto milhares morrem na África, na Palestina ou bem próximo a nós, bestificados, comentamos nas padarias, filas de bancos ou mercado, a morte do ditador chileno. E os mais de 3 mil que morreram durante o período do regime de Pinochet? E os milhares de torturados? Merecem nossos comentários? Ou estarão esquecidos, como os crimes impunes do Ditador?

A América Latina comete os mesmos erros que culminaram à Ditadura Militar. Fidel Castro mal fechou os olhos, e ameaçam “roubar-lhe” o
cargo.

Enquanto discutem se o enterro do ditador será com honras oficiais ou não, guerras explodem pelos quatro cantos do planeta. Morre um ditador, mas a ditadura econômica, que aniquila milhares aos dias, está longe de um fim.

MOMENTOS

Perdíamos os olhares contemplando o horizonte. Eu me preocupava, apenas, em acariciar seus cabelos, enquanto sentia o quente e doce suspirar e sua cabeça pesando, de forma acolhedora, em meu peito. Enquanto divagávamos sobre as horas, esquecíamos de todas as lutas e projetos que sonhávamos. Neste instante, somente importava o peso de nossos corações ritmados ao nosso compasso e o breve momento de paz que tínhamos.
Perdemos a juventude tentando mudar o mundo. Enquanto me jogava de cabeça em milhões de projetos, todos ao mesmo tempo, que tomavam maior parte de minha força física e de tempo, você, como um anjo, apaziguava meus momentos de dúvidas e fraquezas que assolavam minha paz. Cuidava, de forma protetora, a pessoa que eu me formava. Pacientemente, preocupava-se com minha aparência, alimentação e, mesmo contrário, de minhas roupas. Eu, absorto, em minha mania de modificar o que está estabelecido, esquecia-me de cuidar de nós. Pouco tínhamos nos bolsos, além de alegria e amor, rumávamos nossas vidas entre linhas bambas e passos incertos. Você se apaixonara pelos meus distraídos gestos e resolutas decisões contrárias. Eu era perdidamente, e eternamente, apaixonado pela sua decisão coesa e definidos passos certos. Seus olhares resolutos e sorriso forte faziam de meus mais perdidos momentos, valiosos dias de lembranças eternas.

Assim, seguíamos. Hoje, perdida a juventude, continuo com o mesmo coração contestador e provocativo, mesmo cansado, continuo remando contra a maré comum. Seus olhos, castigados com o tempo e a vida que lhe dei, continuavam ardentes e apaixonados pelo meu velho coração.
Sobre o criado-mudo, além de versos em papeis vagabundos, um jarro com flores que, todos os dias, colhia para você. Elas alegravam nossas almas. Fotos ilustravam como envelhecemos. Uma lua de vidro cristalizava, de forma angelical, nosso amor.

Hoje, você com a cabeça em meu peito, eu acariciando seus cabelos, sentido o aroma de seu suspirar a entorpecer-me, lembro dos dias que passávamos, sem nos preocupar com mais nada, desta forma.
Hoje, além da barba branca e a falta de cabelo, a pele castigada com o passar do tempo, ouço você dizer: “amor meu”. Seu rosto, ainda belo, resistiu ao tempo, e ao olhar-te recordo do instante que nos vimos pela primeira vez. Ele continua a expressar todo o encanto que tivemos em nossa vida.

Iniciando

Primeiro pediu-se luz. A luz apareceu. Instantes depois, não satisfeitos, pediram silêncio. Em breve momento, o silêncio ensurdeceu os cinco bilhões de anos que sua ausência trouxe. Das lembranças passadas, o escuro era que dava mais pavor. Não há nada no escuro que não possamos vencer (juntos). Estrelas colidiam em absurdos silêncios. Tudo perdera o peso, o sabor, o valor. De leve, apenas uma pequena pluma cinza voando, sem órbita, no aveludado azul do universo.

Cinco bilhões de anos nos separam. Cinco vidas. Cinco escolhas em suas mãos. Eu, perdido, procurava o momento que o silêncio rompia o universo. Você vinda de azul, trouxe a paz que um dia fora habitual em meu peito.

Manchas dançavam sem forma no espaço. Espetáculos de luzes e sombras mirando aos seus olhos pequenos. Enquanto o universo eclodia, eu imaginava o momento exato de ver seus olhos caminhando aos meus.

Neste instante, estrelas calariam, o universo em expansão silenciar-se-ia, ao te ver caminhar, elegante, bela, demonstração da natureza, único momento de paz; seus olhos vagam, sem ciência exata alguma, no rumo do meu olhar.


 

Dezembro 2006
S T Q Q S S D
    Jan »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Acesso número:

  • 59,862 Páginas vistas.

Twitter