Planalto Central. Brasília. Latitude 15º14´s, longitude 47º54´w. Clima seco. Umidade relativa do ar: 35%. Vento: norte, 3,09 m/s. Céu de Brigadeiros. Sol. 1500 quilômetros longe de casa.
50º Congresso da UNE.
Antes de tudo
Às 20h, horário de Brasília, na Praça do Correio, São Vicente – SP. Pouco depois da hora marcada, saímos em viagem com duas paradas programas. Cubatão e São Paulo. Eu, depois de quatro anos, tirei férias no trabalho, para quatro dias em Brasília.
São Paulo. Última parada para embarque. Conversas, teorias, sonhos. Pelo caminho, discussões sobre o futuro político, política, partidos, congresso, juventude. Sonhos.
Quinze horas e algumas paradas pelo caminho, chegamos a Brasília. UNB, 15 horas.
Quinta-feira, 5 de julho de 2007.
“No centro de um planalto vazio/ Como se fosse em qualquer lugar/ Como se a vida fosse um perigo…” (Léo e Bia – Oswaldo Montenegro)
Após o desembarque, câmera na mão e o início do nosso trabalho, realização de um documentário sobre o Congresso. Um mar de estudantes, com bandeiras, faixas, camisetas, bonés, adesivos partidários. Gritos de guerras, palavras de ordem. Desordem.
Início dos muitos debates proposto pela UNE. Em quase todos os rosto, a vontade de mudar, de construir algo novo. Sonhos.
Pelos corredores tomados pelos estudantes dos quatro cantos do país, além da diversidade cultural de cada estado estampada em camisetas, no sotaque, nos cabelos, na vestimenta, na forma de aproximação…, havia o entusiasmo típico da juventude. Idéias pulsantes das mentes inquietas, de jovens que desejam mudar os rumos políticos do Brasil. Sonhos, vontade de mudar e a bandeira do futuro estampada em cores vivas nos sorrisos e retóricas eufóricas do futuro da nação. Brasília.
Debates e mais debates, sobre os mais variados temas. Softwares livres, GLBTT, Meio Ambiente, Política, Educação. Tudo ao mesmo tempo, em diversas salas e auditórios da UNB. Pelos corredores, artistas, hippies, livros, DVDs, cartazes, camisetas do Che, livros de correntes Socialistas, Marxistas, Comunistas. Filmes proibidos e raros em cópias piratas, livros e cartilhas partidárias raras, artesanato em couro…
Rosto do Che em várias partes, paro para indagar, onde estão as estampas do Luís Carlos Prestes, Lamarca, Antônio Conselheiro, Bacuri, Marighella, entre outros revolucionários brasileiros? Até em nossos heróis seremos colonizados eternamente? Indagações e pensamentos soltos.
Depois dos debates, e ao cair da noite, todos de volta (ou ida) para os alojamentos. Ficamos cerca de 11 quilômetros da UNB, na W3, asa sul. E 308. De banho tomado, mesmo com a precária estrutura da escola que serviu de alojamento, fomos jantar em uma pizzaria. As ruas calmas da noite de Brasília, acompanhada do frio ao cair da tarde e do ar seco, nos levaram pelas quadras bem desenhadas. De volta ao alojamento, a segunda parte mais interessante da viagem começava. O choque cultural de todos os estados da nação aberto entre nós. Em uma roda de mate, gaúchos, mineiros, paulistas, pernambucanos, paraenses, amazonenses, baianos, acreanos, potiguares… Na mesma roda que o mate passava, a cachaça nordestina e mineira rodava de mão em mão. Nas conversas, carregadas de encantados com os milhares de sotaques, toda a diversidade cultural do país depositada nas particularidades e características de cada unidade da nação. Características de cada canto, cada verso, cada estrofe e refrão. Sons, poesias, literatura, cinema, teatro, dança, cultura popular e erudita em um balaio único. Brasil. Durmo com o sorriso nos lábios por toda a riqueza que só nosso solo sagrado tem, o seu povo.
Sexta-Feira, 06 de junho de 2007.
“Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos projetos do futuro, /É duro tanto ter que caminhar /E dar muito mais do que receber” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)
O segundo dia começa um pouco preguiçoso, pelo menos para o meu corpo cansado. Ao chegar à UNB, por volta das 9h30, alguns debates interessantes sobre o Meio Ambiente. Com a ajuda da assessoria de imprensa do congresso, fomos ao julgamento de anistia de ex-dirigentes da UNE, presos no período da Ditadura Militar.
Estava agendada para as atividades da tarde uma passeata até o Banco Central, os dados oficiais falam de 8 mil estudantes exigindo a demissão do Henrique Meirelles e mudanças na política econômica. Manobra eleitoreira da UNE, para mostrar “força” nas eleições de domingo. Acompanhei do alto do trio elétrico, em posição privilegiada, registrando para o documentário. Pelo caminho, palavras de ordem, bordões e discursos verborrágicos, inflamados e jargões ultrapassados da esquerda estudantil.
“Povo marcado é povo feliz…” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)
Do alto do trio elétrico, a massa compactada de estudantes, ao som das músicas (sucessos) do momento e discursos eufóricos, senti a sensação e o arrepio de fazer parte de um movimento que o idealismo e o sonho é maior que a razão. Apenas ao cair da noite pude reparar, de forma clara, a manobra eleitoreira que mais de 8 mil estudantes foram vitimados. Uma passeata absolutamente inútil, como se o presidente do Banco Central, funcionário público, mudasse algo na política econômica, sendo que é apenas um cargo burocrático e figura decorativa. A raiz do problema, o xis da questão, o ponto de equilíbrio está acima da figura emblemática do Henrique Meirelles.
Mesmo assim, fiz o registro fiel. Ao chegar ao Banco Central, chuva de papel picado dos funcionários da instituição. Mais de 200 policiais faziam a guarda da entrada do BC. Desci do trio elétrico e acompanhei a manifestação do chão. Atravessei a barreira policial com a câmera na mão. 8 mil vozes gritando “Fora Meirelles”. Depois do discurso, o Hino Nacional cantando por um belo coro. Com a garganta seca e emocionado, berrávamos: “Verás que um filho seu não fosse a luta…”.
De volta à UNB, assistimos ao documentário sobre o Honestino Guimarães, líder estudantil morto durante a ditadura militar. Ao término, “Batismo de Sangue”, do diretor Helvécio Ratton, sobre o livro do Frei Beto. Tortura, prisões, humilhações e a destruição dos ideais. Registro fidelíssimo do período que sonhar era proibido, idealizar um sonho era crime. Período que estudante era símbolo de rebeldia e de liberdade.
“É esta a juventude que quer tomar o poder?” O que diria Caetano Veloso hoje, ao ver a juventude calada diante de tanta barbárie social? O que diria Caetano para os pragmáticos, aos acomodados, aos consumistas, aos porras-loucas, aos alienados, aos manipulados, os que estão no poder? Sonhar e não ter medo de sonhar.
Sábado, 07 de julho de 2007.
“Nada existe como o azul/ Sem manchas/ Do céu do Planalto Central/ E o horizonte imenso aberto/ Sugerindo mil direções” (Céu de Brasília – Toninho Horta e Fernando Brant)
Terceiro dia da nossa viagem, quarto dia do congresso. Como todos os dias, começamos cedo, mas a preguiça fez-me ficar um pouco mais no colchonete, retardando o café da manhã, e perdendo o ônibus, que desta vez nos levaria para ginásio Nilson Nélson. Fomos de circular até a rodoviária e de lá, em uma lotação, para o ginásio. Um grande professor diz que o furo é a junção da sorte e do faro jornalístico. Tive alguns furos nos últimos dias, mas devo, em grande parte, à sorte. Desta vez, ao chegarmos ao ginásio, Heloísa Helena falava para a juventude do PSOL. Fomos até ela e pedimos uma “palavrinha”. Fomos atendidos com entusiasmo e atenção pela ex-senadora. Ao término, um abraço fraternal e desejos de boa sorte.
Entrevistamos a candidata à presidência da UNE, de forma arrogante, declarou-se eleita, um dia antes das eleições, indireta por sinal. E ainda falam em democracia.
Entramos no ginásio. Arquibancadas lotadas, na quadra um mar de gente, gritos de guerra, palavras de ordem, bandeiras de diversos partidos, representações da juventude partidária. MPB nas camisetas e bandeiras, camisetas com frases de músicas, mesmo que os que a usavam não soubessem quem compôs a canção. Como exemplo claro, em um panfleto com os autores errados da música “Clube da Esquina n.º2”. Discursos nacionalistas e antiimperialistas. Contradições entre a fala e a ação. Berros antiianques, mas nas camisetas desenhos do Calvin para expressar a revolta imperialista (?). Pergunto-me, onde estão a Mônica, o Cebolinha, o Menino Maluquinho, o Saci-Perere, a Graúna, ou qualquer outro traço nacional? A colonização por meio da TV é visível até em quem quer reclamar da colonização por meio da TV. Aliás o marxismo também é uma colonização. Nossos estudantes citam Marx, Engels, Sartre, Nietzsche, mas esquecem de citar Darcy Ribeiro, Orlando Villas Boas, Gilberto Freire. Faltam referencias nacionais aos que querem tratar da nacionalidade.
Fomos pegar algumas imagens panorâmicas de Brasília na Torre de TV. A idéia era pegar o pôr-do-sol. Tarefa cumprida. Do alto da torre podemos ver o Estádio Mané Garrincha lotado. Ao fundo, o Congresso Nacional, o sol se pondo, Brasília encerrando o início de uma longa jornada de sonhos e realizações. Na mente, ecoavam os versos do Sérgio Sampaio, “E posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião, /E mesmo com o ar desse jeito tão seco, consigo cantar no seu chão. /Quase que me sinto em casa em meio a suas asas e “Dablius” e “Éles” e/ Eixos e ilhas, Brasília”.
Voltamos ao Congresso. Circo pegando fogo. Votação das propostas. Um militante subiu as estruturas metálicas do teto. Foi detido por um policial. Agressão ao estudante. Todo o ginásio eufórico contra as cenas de violência. Uma pequena multidão cercou os seguranças. Pensei que a coisa ficaria feia, mas a mesa conseguiu contornar a situação. Voltamos à votação. Nada de novo, tudo como antes. As propostas da situação ganharam “por diferença visual”, segundo a mesa. O término do sonho, telegrafada a acabar, dava seus primeiros passos que muita coisa foi em vão. E foi.
Conchavos, negociatas, repetições da velha oligarquia dominante no poder, idealismo versus politicagem, partidos divididos entre a emoção idealista e a razão política. Fim de sonhos, início da realidade. Construção de bases? Esquerda versus Direita? Nunca a esquerda foi mais direita! Conservadorismo dos dois lados. Esquerda à direita. Direita à esquerda. Reboque. Choque. Cargo. Cadeira. Voz. Caminhada realizada no primeiro passo. Tijolo por tijolo. Democracia? Mil por UM? Crachá? Quem são os jovens que querem tomar o poder? Repetições da politicagem e negociatas da política tradicional. Votos e composições de chapas por cargos. Nas universidades repetimos o passado. Reluzimos o brilho de uma estrela que morreu há bilhões de anos. Miramos o presente, repetimos o passado no futuro. Poder versus posição. Conservar tudo como está, como foi e, provavelmente, como sempre será.
Um dia… quem sabe… um dia tudo mudará.
Domingo, 08 de junho de 2007 – Último Dia.
“Já gastei muita esperança/ Já segui muita ilusão/ Já chorei como criança/ atrás de uma procissão/ Mas já fiz correr valente/ quando tive precisão” (Ventania [De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando] – Geraldo Vandré e Hilton Accioly)
Último dia. Dia D. Acordamos arrumando nossas coisas, roupas sujas em sacolas plásticas, último banho gelado, plenárias, barracas arrumadas, café da manhã reforçado. Abraços e despedidas, trocas de e-mails e telefones. Sonhos depositados em futuras alianças, que no fundo sabemos, que não serão tão fortes assim. Deixamos o alojamento com um nó na garganta, uma brisa de saudade apertando o peito, como se o mais importante de toda a viagem estivesse naqueles quartos, dentro de cada coração e mente inquieta de cada um dos jovens que deixaram seus lares, camas confortadas, banhos quentes e comidas saborosas, para ousar sonhar em um futuro político melhor. Um Brasil melhor, mais digno, mais justo, menos sofrido ao nosso maior tesouro, o povo brasileiro.
Entramos no ônibus que nos levaria para o ginásio, neste dia que seria o último na Capital Federal. As chapas levariam suas propostas, defenderiam suas teses, teria as eleições e tudo acabaria. Para daqui dois anos tudo começar de novo.
De início, 11 chapas inscritas. Antes de tudo, negociatas e acordos elaborados nos bastidores. Em uma barraca de lanches, muito antes do início das eleições, um “político” bebia e gozava comemorando sua “cadeira” na UNE, fruto da desistência de candidato próprio em sua chapa. ABSURDO.
Duas chapas retiraram suas candidaturas pedindo “vaga” na composição da UNE. Em alto grau de sem-vergonhice, negociando “cargo” abertamente, como se fosse normal. Uma novidade no Congresso, a chapa Deus. Como quase todos, pensei ser uma sigla, mas não, o intrépido “companheiro” (ou camarada) estava disposto na defesa da DEUS (religião, não o Deus universal) na UNE. Acertadamente ou não, foi a única chapa de oposição ao atual modelo que manteve a posição calada, até de forma respeitosa. As demais frentes de oposição ou eram vaiadas, ou se afogavam em mares de bolinhas de papel, ou com lasers nos olhos, ou por barulho, mas o ato de maior demonstração antidemocrata era o “fala com a minha mão”.
“É esta a juventude que quer tomar o poder?”
Protestar contra o que foi dito é um direito, tanto quanto falar e dar sua opinião. Tal senso de democracia e liberdade não foi visto no ginásio Nilson Nelson, no último dia do Congresso. Teoricamente o mais importante. Mas como tudo era um jogo de cartas marcadas, nada muda e nada mudará.
Houve rachas internos dos grupos que formaram o “chapão” (chapa 11, posição). Muitos movimentos internos dos blocos não aceitaram a debandada. Mas ficaram apenas no protesto, outros se retiram do ginásio, houve quem não votou, em forma de protesto.
O mais grave estava para vir. O almoço seria liberado após o voto dos delegados. O ginásio foi fechado. Ninguém entra, ninguém sai. Só quando o último delegado votasse que os portões seriam abertos. Às 18 horas, não tinha acabado a votação. A desorganização ficou completa, por volta das 19 horas, quando o “almoço” acabou, deixando muitos sem comida. Contam-me, de bastidores, que um grupo invadiu o palanque do ginásio para reclamar da situação. O presidente da UNE disse que chegaria mais almoço e pediu que os manifestantes formassem fila no refeitório. Ao passo que os manifestantes saiam, ele pediu para os seguranças do recinto para fechar as portas. ABSURDO.
O resultado das eleições deu o óbvio. O que já era telegrafado desde a última eleição. Alias, há quem aposte no próximo presidente da UNE.
Nos gritos de guerra eufóricos, nos protestos contra o americanismo, imperialismo, TV Globo, política econômica de FHC, Lula, marxismo, monopólio, juventude no poder. Pedidos de democratização dos meios de comunicação, TV comunitária, inclusão social, inclusão digital, GLBTT, aborto, meio ambiente, minorias, ensino à distância, revolução pela cultura…
Solitário em uma bandeira vermelha, o Graúna do Henfil berrava a favor da contra reforma. A mola que resiste?
Embarcamos no ônibus que me levaria para casa, em doze horas de desconforto e sono pesado, imaginei sobre o futuro político do país. Há saídas? Naomi Klein, salve-nos.