Arquivo para Julho, 2007

AO SOM DO MAR

Queria tanto ouvir sua voz massageando meus ouvidos, ainda mais hoje em que sinto tanta mágoa contida em mim. Talvez dor, talvez saudade. Quem sabe uma ponta de arrependimento. Às vezes, às três da tarde de uma terça-feira, penso: “E se tivesse feito mais, e se tivesse me exposto mais”. Mas fica tudo para depois. A rotina corriqueira dá vazão aos sentimentos incompletos que roubam a cena, roubam a paz, roubam o que não soube, enfim, denominar com um nome próprio.

Primavera tem gosto de saudade. Outono tem sabor de melancolia. Talvez por estar tão longe, eu sinto mais medo que saudade. Talvez mais saudade do que medo. Talvez os dois sentimentos se misturaram de tal forma que é impossível desassociá-los. Talvez, talvez, talvez. Tantas dúvidas e uma única certeza. Faz tanta falta o pouco espaço que separavam nossos abraços. Tanta falta. Tanta falta. Tanto mar. Saudade.

Dentro do meu ritmado coração, acostumado a esperar, bate certa ponta de alguma coisa ainda sem nome, ainda sem rosto, ainda sem definição aparente. Um sentimento novo, uma espécie de esperança e saudade misturado de auto-realização. Um tanto paradoxal. A mesma dor que me consome, por fim, me alimenta. Como um ciclo sem fim que ininterruptamente termina e começa sem tempo para respirar. Uma forma de me matar e ter uma luz no final no túnel ao mesmo tempo em que penso no momento de entregar os pontos. Ironia. Logo eu, sempre animando quem me rodeia, mesmo que estas pessoas sejam as primeiras a me desanimar. Rosas na mão, pés descalços e um mundo novo a caminhar. Flores de lótus se abrem ao te ver passar.

Dentro das minhas bobagens, construí cenários perfeitos. Construí vidas, histórias e paisagens belas para te ver chegar. Era a vida que sonhava, que sonhávamos e que por todo o correr dos séculos sonharíamos. Mas, mesmo dentro de minhas pequenas bobagens, coisas que você – e eu também – costumava chamar de sentimentos, deixei uma parte funda do que fui. Talvez a parte que mais gostava. Talvez a parte de um todo que mais me representava. Éramos personagens de uma peça sem fim. A cada ato, uma nova descoberta, uma nova revelação. Éramos novos personagens a cada fala, a cada cair das cortinas dividindo as cenas. Ato 3. Luzes. Cortinas que se abrem, Fala 1. Ele trêmulo de amor, diz. Diga logo. Tanto tempo esperando, e na hora esperada, na hora de revelar à mocinha sobre as verdades contidas em seu coração, você se cala. Oras, vejam vocês. Cadê os mocinhos do novo mundo? Cadê os mocinhos em seus cavalos brancos? O mundo anda complicado demais.

Interessante esta forma de ver o mundo. Tudo anda complicado, tudo anda na contramão. E eu, sempre na mesma forma tragicômica de narrar meus maiores dramas. Rir é um santo remédio, dizia minha avó, mas há tempos não sei como me curar. Fui me acostumando a ser uma ilha cercada de mágoas. E o pior, cada vez mais eu cavo mais fundo o poço que me separa do continente. Queria ter um aparelho, destes que vendem nos canais de TV, para acabar com as ilusões que eu mesmo crio. E os sonhos, e as dores, e as lágrimas que não ferem profundamente, mas machucam e os finais de semanas a qual espero milagres. Existe o sol, existe a lua. Entre eles, algo maior, que nem mesmo a ciência, ou a teologia, ou a geometria, ou a paranormalidade, souberam responder. Existem as marés. Com elas, todo o movimento transitório de sua ida, contando com a esperança de seu regresso. Flor na janela da casa. Olhos para seu coração.

Ao som do mar que me rodeia, desejo sua volta e com ela a paz roubada no instante de sua partida. Em quantas partes me partiu? Não sei calcular. Sobre os pedaços reinantes nesta imensa sala iluminada, pondero sobre a existência humana. Por vez, tenho a certeza clara que nada disso é o que, até em tão, aparenta ser. Por ora, tenho a dúvida copiosa dos teimosos, que tudo isso é o que é, o que sempre foi e provavelmente sempre será. Paz? Saudade? Dor? São todos os lados de uma mesma moeda viciada a perder quando apostada. A vida sempre ganha, tem as melhores cartas, e ela que controla a queda da moeda ao solo. Enquanto isso, resta a teimosia generosa da lacuna causada pela sua falta. Não, amor, não é saudade acima do permitido. Nem desabafo de quem procura um ombro amigo para se abrigar de sua bebedeira e falar por horas a fio sobre dores do passado. Não, amor, não é. É apenas parte de uma imensa, mas imensa mágoa que tenho atravessado os séculos para tentar, em vão, dar vazão. Sem euforia, sem excesso de dor, sem lamentações profundas. Apenas uma forma de tentar apaziguar o compasso do meu coração.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, você nem sequer sabe quanto tempo faz que deixei de pensar em mim, para pensar em nós. Resta, nestes segundos que me restam, esperar, não mais sua volta, mas pelo meu regresso, dentro de mim, dentro de nós. Flores enfeitariam nossos passos. Voar seria uma gostosa brincadeira. Os pássaros teriam inveja de nossa liberdade. E viver, viver, meu bem, não teria risco algum que não conseguiríamos atravessar em paz.

OLHOS DE POETA

O poema não tem parto.
Parte ao meio-dia,
No meio do dia, de vidas ao meio.
Renasce em versos perdidos,
Em perdidos sentimentos não sentidos,
Nos sentidos não visíveis.
Nas alegrias descontentes.
Nos sonhos rompidos por pesadelos.
Nas vidas vividas em solidão.

Sim! O poema não nasce.
É expelido pelo peito do poeta confuso,
Em confusas maneiras, em perdidas horas,
Na sã e vã agonia de rever o passado,
Que nunca vivera e, talvez, nunca viverá.

O poema absorve as dores mais sombrias do poeta,
Os pensamentos mais ambiciosos,
Os amores impossíveis,
As vidas não vividas,
As horas, todas, perdidas em sonhos e agonias,
Em desejos e anseios despertos nas horas vazias,
Nos peitos vazios, nos sentimentos vazios.
Sim! A poesia é exposta em galerias frias,
Como as frias vidas sem vidas,
Em horas recheadas de sofrer, penar e desfazer malas de sonhos,
Sim! Toda poesia nasce sem vida das veias que sangue não circulam,
Dos poetas egocêntricos, narcisista ou melancólicos.

O poema é uma forma de conversa, a qual o poeta
encontrou para conversar consigo mesmo,
E com todos os “consigos mesmos” dos corações humanos.
Toda poesia nasce morta, e vive nos lábios sedutores
De quem os recitam, nos ouvidos atentos de quem os ouvem.
Nos olhos úmidos de quem os lê.
Nos sonhos inocentes das meninas em flor.
Na malícia inocente dos meninos em pétalas da dor.
Nos sorrisos dos amantes, nos corpos e mente das mulheres.
Entre copos de vinhos com os amigos.
O poema nasce e morre milhares de vezes ao correr do dia.
E o poeta carrega em suas entranhas o ponderar e todo peso do mundo.
Em suas frágeis vistas castigadas com que seus olhos desiludos, apaixonados,
ou melancólicos teimosamente viciados em enxergar,
Abortam palavras, sentimentos ou a vida.

Fernando Gabeira – Hóspede da Utopia

Hóspede da UtopiaHóspede da Utopia, Fernando Gabeira (Editora Nova Fronteira; Rio de Janeiro; 2º edição; 216 páginas, 1981). Escritor, jornalista, político (atualmente deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro),fotógrafo, iniciou sua carreira como jornalista no Jornal do Brasil (1964 – 1968). Ingressou na luta armada contra a ditadura militar, responsável, em 1969, pelo seqüestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, posteriormente, preso, torturado e finalmente, exilado (em troca pelo embaixador alemão). Acompanhou de perto o golpe militar que derrubou Salvador Allende, no Chile, após, tal golpe, passou a viver na Europa (Suécia). No final dos anos 70, participou do tribunal Bertrand Russel, que investigou os crimes da ditadura brasileira.

Com a anistia política, voltou ao Brasil, e iniciou sua carreira de escritor, com o best-seller, “O que é isso companheiro” (1979, Cia. das Letras), que narrava o episódio do seqüestro do embaixador americano. Em seguida lançou “Crepúsculo do Macho” (1980, Guanabara), e “Entradas e Bandeiras” (1981, Codecri), relatando como vivera exilado, e sua volta ao Brasil.

Em Hóspede da Utopia, a cena central é o término de uma relação marcada pela rotina, em fragmentos de cartas, lembranças do passado, viagens, e ligações telefônicas, resumidamente, em retalhos de comunicação, vai se costurando todo o enredo, que da mesma forma que começa, termina, deixando uma sensação incompleta, ou até mesmo, um desejo em saber se tudo acabará bem. Quem já esta acostumado com a forma com que o Gabeira escreve poderá pensar que se trata de mais uma de suas histórias reais, embora o mesmo deixe bem claro, no início do livro, que este trata-se de uma obra de ficção. Impossível, ainda mais para quem conhece a figura pública do Fernando Gabeira, ao ler o livro não imagine que muitos fatos narrados possam ter sido vividos.

Após o término de uma relação, que julgavam ser para sempre, o narrador, um antropólogo, narra sua vida, como a um recomeço, tentando dar continuidade, assim que Luisa o deixou, partindo para Nova Iorque. Em várias cartas, telefonemas à ex-namorada, misturado ao presente (do narrador), e seus devaneios ao passado, e claro com Luisa, toda a trama é desenhada, horas como uma aventura, despertando desejo ao leitor em seguir estes passos, horas em solidão e saudades.

O livro, sem ter pretensão alguma, ocupa uma lacuna na literatura brasileira – literatura jovem. Sendo ou não uma ficção, “Hóspede da Utopia” remete a um período conturbado da juventude no Brasil, que acabara de descobrir a liberdade política, ainda perdidos com tantas ideologias, ou falta de uma. Assim, brutalmente Gabeira termina o livro, ensaiando para o futuro ainda incerto, e impresso em suas páginas a vontade de mudar, não apenas o mundo, ou o país, mas sim, mudar a mente e o coração, abrindo-os para o novo amanhecer.

Diário de Bordo – 50º Congresso da UNE – Brasília

Planalto Central. Brasília. Latitude 15º14´s, longitude 47º54´w. Clima seco. Umidade relativa do ar: 35%. Vento: norte, 3,09 m/s. Céu de Brigadeiros. Sol. 1500 quilômetros longe de casa.

50º Congresso da UNE.

Antes de tudo

Às 20h, horário de Brasília, na Praça do Correio, São Vicente – SP. Pouco depois da hora marcada, saímos em viagem com duas paradas programas. Cubatão e São Paulo. Eu, depois de quatro anos, tirei férias no trabalho, para quatro dias em Brasília.

São Paulo. Última parada para embarque. Conversas, teorias, sonhos. Pelo caminho, discussões sobre o futuro político, política, partidos, congresso, juventude. Sonhos.
Quinze horas e algumas paradas pelo caminho, chegamos a Brasília. UNB, 15 horas.

Quinta-feira, 5 de julho de 2007.

“No centro de um planalto vazio/ Como se fosse em qualquer lugar/ Como se a vida fosse um perigo…” (Léo e Bia – Oswaldo Montenegro)

Após o desembarque, câmera na mão e o início do nosso trabalho, realização de um documentário sobre o Congresso. Um mar de estudantes, com bandeiras, faixas, camisetas, bonés, adesivos partidários. Gritos de guerras, palavras de ordem. Desordem.
Início dos muitos debates proposto pela UNE. Em quase todos os rosto, a vontade de mudar, de construir algo novo. Sonhos.

Pelos corredores tomados pelos estudantes dos quatro cantos do país, além da diversidade cultural de cada estado estampada em camisetas, no sotaque, nos cabelos, na vestimenta, na forma de aproximação…, havia o entusiasmo típico da juventude. Idéias pulsantes das mentes inquietas, de jovens que desejam mudar os rumos políticos do Brasil. Sonhos, vontade de mudar e a bandeira do futuro estampada em cores vivas nos sorrisos e retóricas eufóricas do futuro da nação. Brasília.

Debates e mais debates, sobre os mais variados temas. Softwares livres, GLBTT, Meio Ambiente, Política, Educação. Tudo ao mesmo tempo, em diversas salas e auditórios da UNB. Pelos corredores, artistas, hippies, livros, DVDs, cartazes, camisetas do Che, livros de correntes Socialistas, Marxistas, Comunistas. Filmes proibidos e raros em cópias piratas, livros e cartilhas partidárias raras, artesanato em couro…

Rosto do Che em várias partes, paro para indagar, onde estão as estampas do Luís Carlos Prestes, Lamarca, Antônio Conselheiro, Bacuri, Marighella, entre outros revolucionários brasileiros? Até em nossos heróis seremos colonizados eternamente? Indagações e pensamentos soltos.

Depois dos debates, e ao cair da noite, todos de volta (ou ida) para os alojamentos. Ficamos cerca de 11 quilômetros da UNB, na W3, asa sul. E 308. De banho tomado, mesmo com a precária estrutura da escola que serviu de alojamento, fomos jantar em uma pizzaria. As ruas calmas da noite de Brasília, acompanhada do frio ao cair da tarde e do ar seco, nos levaram pelas quadras bem desenhadas. De volta ao alojamento, a segunda parte mais interessante da viagem começava. O choque cultural de todos os estados da nação aberto entre nós. Em uma roda de mate, gaúchos, mineiros, paulistas, pernambucanos, paraenses, amazonenses, baianos, acreanos, potiguares… Na mesma roda que o mate passava, a cachaça nordestina e mineira rodava de mão em mão. Nas conversas, carregadas de encantados com os milhares de sotaques, toda a diversidade cultural do país depositada nas particularidades e características de cada unidade da nação. Características de cada canto, cada verso, cada estrofe e refrão. Sons, poesias, literatura, cinema, teatro, dança, cultura popular e erudita em um balaio único. Brasil. Durmo com o sorriso nos lábios por toda a riqueza que só nosso solo sagrado tem, o seu povo.

Sexta-Feira, 06 de junho de 2007.

“Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos projetos do futuro, /É duro tanto ter que caminhar /E dar muito mais do que receber” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)

O segundo dia começa um pouco preguiçoso, pelo menos para o meu corpo cansado. Ao chegar à UNB, por volta das 9h30, alguns debates interessantes sobre o Meio Ambiente. Com a ajuda da assessoria de imprensa do congresso, fomos ao julgamento de anistia de ex-dirigentes da UNE, presos no período da Ditadura Militar.

Estava agendada para as atividades da tarde uma passeata até o Banco Central, os dados oficiais falam de 8 mil estudantes exigindo a demissão do Henrique Meirelles e mudanças na política econômica. Manobra eleitoreira da UNE, para mostrar “força” nas eleições de domingo. Acompanhei do alto do trio elétrico, em posição privilegiada, registrando para o documentário. Pelo caminho, palavras de ordem, bordões e discursos verborrágicos, inflamados e jargões ultrapassados da esquerda estudantil.

“Povo marcado é povo feliz…” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)

Do alto do trio elétrico, a massa compactada de estudantes, ao som das músicas (sucessos) do momento e discursos eufóricos, senti a sensação e o arrepio de fazer parte de um movimento que o idealismo e o sonho é maior que a razão. Apenas ao cair da noite pude reparar, de forma clara, a manobra eleitoreira que mais de 8 mil estudantes foram vitimados. Uma passeata absolutamente inútil, como se o presidente do Banco Central, funcionário público, mudasse algo na política econômica, sendo que é apenas um cargo burocrático e figura decorativa. A raiz do problema, o xis da questão, o ponto de equilíbrio está acima da figura emblemática do Henrique Meirelles.

Mesmo assim, fiz o registro fiel. Ao chegar ao Banco Central, chuva de papel picado dos funcionários da instituição. Mais de 200 policiais faziam a guarda da entrada do BC. Desci do trio elétrico e acompanhei a manifestação do chão. Atravessei a barreira policial com a câmera na mão. 8 mil vozes gritando “Fora Meirelles”. Depois do discurso, o Hino Nacional cantando por um belo coro. Com a garganta seca e emocionado, berrávamos: “Verás que um filho seu não fosse a luta…”.

De volta à UNB, assistimos ao documentário sobre o Honestino Guimarães, líder estudantil morto durante a ditadura militar. Ao término, “Batismo de Sangue”, do diretor Helvécio Ratton, sobre o livro do Frei Beto. Tortura, prisões, humilhações e a destruição dos ideais. Registro fidelíssimo do período que sonhar era proibido, idealizar um sonho era crime. Período que estudante era símbolo de rebeldia e de liberdade.

“É esta a juventude que quer tomar o poder?” O que diria Caetano Veloso hoje, ao ver a juventude calada diante de tanta barbárie social? O que diria Caetano para os pragmáticos, aos acomodados, aos consumistas, aos porras-loucas, aos alienados, aos manipulados, os que estão no poder? Sonhar e não ter medo de sonhar.

Sábado, 07 de julho de 2007.

“Nada existe como o azul/ Sem manchas/ Do céu do Planalto Central/ E o horizonte imenso aberto/ Sugerindo mil direções” (Céu de Brasília – Toninho Horta e Fernando Brant)

Terceiro dia da nossa viagem, quarto dia do congresso. Como todos os dias, começamos cedo, mas a preguiça fez-me ficar um pouco mais no colchonete, retardando o café da manhã, e perdendo o ônibus, que desta vez nos levaria para ginásio Nilson Nélson. Fomos de circular até a rodoviária e de lá, em uma lotação, para o ginásio. Um grande professor diz que o furo é a junção da sorte e do faro jornalístico. Tive alguns furos nos últimos dias, mas devo, em grande parte, à sorte. Desta vez, ao chegarmos ao ginásio, Heloísa Helena falava para a juventude do PSOL. Fomos até ela e pedimos uma “palavrinha”. Fomos atendidos com entusiasmo e atenção pela ex-senadora. Ao término, um abraço fraternal e desejos de boa sorte.

Entrevistamos a candidata à presidência da UNE, de forma arrogante, declarou-se eleita, um dia antes das eleições, indireta por sinal. E ainda falam em democracia.

Entramos no ginásio. Arquibancadas lotadas, na quadra um mar de gente, gritos de guerra, palavras de ordem, bandeiras de diversos partidos, representações da juventude partidária. MPB nas camisetas e bandeiras, camisetas com frases de músicas, mesmo que os que a usavam não soubessem quem compôs a canção. Como exemplo claro, em um panfleto com os autores errados da música “Clube da Esquina n.º2”. Discursos nacionalistas e antiimperialistas. Contradições entre a fala e a ação. Berros antiianques, mas nas camisetas desenhos do Calvin para expressar a revolta imperialista (?). Pergunto-me, onde estão a Mônica, o Cebolinha, o Menino Maluquinho, o Saci-Perere, a Graúna, ou qualquer outro traço nacional? A colonização por meio da TV é visível até em quem quer reclamar da colonização por meio da TV. Aliás o marxismo também é uma colonização. Nossos estudantes citam Marx, Engels, Sartre, Nietzsche, mas esquecem de citar Darcy Ribeiro, Orlando Villas Boas, Gilberto Freire. Faltam referencias nacionais aos que querem tratar da nacionalidade.

Fomos pegar algumas imagens panorâmicas de Brasília na Torre de TV. A idéia era pegar o pôr-do-sol. Tarefa cumprida. Do alto da torre podemos ver o Estádio Mané Garrincha lotado. Ao fundo, o Congresso Nacional, o sol se pondo, Brasília encerrando o início de uma longa jornada de sonhos e realizações. Na mente, ecoavam os versos do Sérgio Sampaio, “E posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião, /E mesmo com o ar desse jeito tão seco, consigo cantar no seu chão. /Quase que me sinto em casa em meio a suas asas e “Dablius” e “Éles” e/ Eixos e ilhas, Brasília”.

Voltamos ao Congresso. Circo pegando fogo. Votação das propostas. Um militante subiu as estruturas metálicas do teto. Foi detido por um policial. Agressão ao estudante. Todo o ginásio eufórico contra as cenas de violência. Uma pequena multidão cercou os seguranças. Pensei que a coisa ficaria feia, mas a mesa conseguiu contornar a situação. Voltamos à votação. Nada de novo, tudo como antes. As propostas da situação ganharam “por diferença visual”, segundo a mesa. O término do sonho, telegrafada a acabar, dava seus primeiros passos que muita coisa foi em vão. E foi.

Conchavos, negociatas, repetições da velha oligarquia dominante no poder, idealismo versus politicagem, partidos divididos entre a emoção idealista e a razão política. Fim de sonhos, início da realidade. Construção de bases? Esquerda versus Direita? Nunca a esquerda foi mais direita! Conservadorismo dos dois lados. Esquerda à direita. Direita à esquerda. Reboque. Choque. Cargo. Cadeira. Voz. Caminhada realizada no primeiro passo. Tijolo por tijolo. Democracia? Mil por UM? Crachá? Quem são os jovens que querem tomar o poder? Repetições da politicagem e negociatas da política tradicional. Votos e composições de chapas por cargos. Nas universidades repetimos o passado. Reluzimos o brilho de uma estrela que morreu há bilhões de anos. Miramos o presente, repetimos o passado no futuro. Poder versus posição. Conservar tudo como está, como foi e, provavelmente, como sempre será.

Um dia… quem sabe… um dia tudo mudará.

Domingo, 08 de junho de 2007 – Último Dia.

“Já gastei muita esperança/ Já segui muita ilusão/ Já chorei como criança/ atrás de uma procissão/ Mas já fiz correr valente/ quando tive precisão” (Ventania [De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando] – Geraldo Vandré e Hilton Accioly)

Último dia. Dia D. Acordamos arrumando nossas coisas, roupas sujas em sacolas plásticas, último banho gelado, plenárias, barracas arrumadas, café da manhã reforçado. Abraços e despedidas, trocas de e-mails e telefones. Sonhos depositados em futuras alianças, que no fundo sabemos, que não serão tão fortes assim. Deixamos o alojamento com um nó na garganta, uma brisa de saudade apertando o peito, como se o mais importante de toda a viagem estivesse naqueles quartos, dentro de cada coração e mente inquieta de cada um dos jovens que deixaram seus lares, camas confortadas, banhos quentes e comidas saborosas, para ousar sonhar em um futuro político melhor. Um Brasil melhor, mais digno, mais justo, menos sofrido ao nosso maior tesouro, o povo brasileiro.

Entramos no ônibus que nos levaria para o ginásio, neste dia que seria o último na Capital Federal. As chapas levariam suas propostas, defenderiam suas teses, teria as eleições e tudo acabaria. Para daqui dois anos tudo começar de novo.

De início, 11 chapas inscritas. Antes de tudo, negociatas e acordos elaborados nos bastidores. Em uma barraca de lanches, muito antes do início das eleições, um “político” bebia e gozava comemorando sua “cadeira” na UNE, fruto da desistência de candidato próprio em sua chapa. ABSURDO.

Duas chapas retiraram suas candidaturas pedindo “vaga” na composição da UNE. Em alto grau de sem-vergonhice, negociando “cargo” abertamente, como se fosse normal. Uma novidade no Congresso, a chapa Deus. Como quase todos, pensei ser uma sigla, mas não, o intrépido “companheiro” (ou camarada) estava disposto na defesa da DEUS (religião, não o Deus universal) na UNE. Acertadamente ou não, foi a única chapa de oposição ao atual modelo que manteve a posição calada, até de forma respeitosa. As demais frentes de oposição ou eram vaiadas, ou se afogavam em mares de bolinhas de papel, ou com lasers nos olhos, ou por barulho, mas o ato de maior demonstração antidemocrata era o “fala com a minha mão”.

“É esta a juventude que quer tomar o poder?”

Protestar contra o que foi dito é um direito, tanto quanto falar e dar sua opinião. Tal senso de democracia e liberdade não foi visto no ginásio Nilson Nelson, no último dia do Congresso. Teoricamente o mais importante. Mas como tudo era um jogo de cartas marcadas, nada muda e nada mudará.

Houve rachas internos dos grupos que formaram o “chapão” (chapa 11, posição). Muitos movimentos internos dos blocos não aceitaram a debandada. Mas ficaram apenas no protesto, outros se retiram do ginásio, houve quem não votou, em forma de protesto.

O mais grave estava para vir. O almoço seria liberado após o voto dos delegados. O ginásio foi fechado. Ninguém entra, ninguém sai. Só quando o último delegado votasse que os portões seriam abertos. Às 18 horas, não tinha acabado a votação. A desorganização ficou completa, por volta das 19 horas, quando o “almoço” acabou, deixando muitos sem comida. Contam-me, de bastidores, que um grupo invadiu o palanque do ginásio para reclamar da situação. O presidente da UNE disse que chegaria mais almoço e pediu que os manifestantes formassem fila no refeitório. Ao passo que os manifestantes saiam, ele pediu para os seguranças do recinto para fechar as portas. ABSURDO.

O resultado das eleições deu o óbvio. O que já era telegrafado desde a última eleição. Alias, há quem aposte no próximo presidente da UNE.

Nos gritos de guerra eufóricos, nos protestos contra o americanismo, imperialismo, TV Globo, política econômica de FHC, Lula, marxismo, monopólio, juventude no poder. Pedidos de democratização dos meios de comunicação, TV comunitária, inclusão social, inclusão digital, GLBTT, aborto, meio ambiente, minorias, ensino à distância, revolução pela cultura…

Solitário em uma bandeira vermelha, o Graúna do Henfil berrava a favor da contra reforma. A mola que resiste?

Embarcamos no ônibus que me levaria para casa, em doze horas de desconforto e sono pesado, imaginei sobre o futuro político do país. Há saídas? Naomi Klein, salve-nos.

DUOFEL

Teatro do Sesc, Santos, pouco mais das 21 horas do dia 30 de junho de 2007, sob a iluminação minimalista, seis violões enfeitam o palco. O técnico verifica os últimos detalhes. Sobe a voz anunciando as próximas atrações da casa. Passos firmes caminharam na penumbra do palco semi-iluminado. Sentam, afinaram seus instrumentos, ouvíamos algumas notas soltas pelo ar e os calorosos aplausos dos poucos que souberam da apresentação. Em poucos segundos todo o ambiente estava completamente tomado pelas notas e harmonias saídas das mãos do Duofel.

A introdução primorosa, a dupla conversava pelo olhar, no meu assento próximo do palco intimista pude reparar a perfeita cumplicidade, entendimento e harmonia entre os dois, afinal são mais de 29 anos de estrada. Finda a primeira peça, Luiz contou-nos algumas histórias do início da carreira, da época que morava em Santos e da magia da música. Falava de música com a alma, de dentro para fora, como e para quem sente as harmonias, compassos e ritmos como extensão do corpo.

Depois de uma breve explanação sobre os próximos temas, mais quatro músicas surgiram em uma explosão de sensibilidade e de sentimentos, imagens formavam das notas saídas das cordas dos violões em diferentes afinações. Do disco Kids of Brazil, retratado um quadro social nas grandes cidades, o menor abandonado. “Sempre que vejo uma criança na rua penso: e se fosse eu? E seu fosse meu filho?”. Confesso que tenho este mesmo pensamento sempre que vejo estas cenas. Com os olhos úmidos, pude ouvir “Vida de rua”, “Na cola do sapateiro”, “Telhado de estrelas” e “Te vejo no sinal vermelho”. Como um filme glaubeniano, fragmentos compunham cenas fortes e altamente visuais. Víamos pelos ouvidos um filme triste e real.

“Seguiremos aquelas crianças que encontramos no sinal vermelho e levaremos-os ao parque”. Assim, o Luiz iniciou os próximos temas. “Roda Gigante”, “Palhaço” uma breve explicação das características de Baden Powell na obra da dupla, apresentaram a música “Ciranda”, baseada em uma obra prima do mestre Baden Powell. Neste instante, tive a sensação exata de estar solto em parque, correndo sentindo o vento bater no rosto, em aventuras e descobertas de uma criança.

Duas releituras vieram na seqüência. “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, e a mais brasileira das músicas dos Beatles, “Norwegian Wood”, meu pensar foi até o disco “Rubber Soul” dos Beatles, voltou com a voz doce da Marina Machado e no falsete delicado do Beto Guedes. Quando estava pensando que “Norwegian Wood” era uma obra-prima da MPB, uma virada magistral transformou-a em “Eleonor Rigby”, meus olhos fundos de lágrima exclamavam “Todas as pessoas solitárias, de onde elas vêm?”. Retornam para “Norwegian Wood” e não agüento, deixo as lágrimas rolarem pela minha face e ouço ao fundo, traído pela emoção, a voz da Marina Machado tocando de leve minha alma.

Próxima cena, a dupla compõe uma música no ato. Linda, inspiradíssima. Todo o talento e simetria dos dois, quatro mãos, vinte dedos, duas almas ligadas à música de forma tão profunda e inspiradora. Mais de dois minutos de aplausos ao término da apresentação. Fernando, até agora calado, fala com alegria e contentamento sobre a platéia e as palmas. Luiz fala do novo disco e do estudo sobre a música eletrônica. Apresentam uma versão “eletrônica” de uma de suas primeiras músicas. Linda música, leve e rítmica, aos moldes de “Gotan Project”.

Final da apresentação, mais de cinco minutos de palmas. A dupla caminha para o backstage, as palmas continuam. Ninguém sai do teatro. Voltam para o bis consagrador. “Alguém quer alguma música”, pergunta Luiz. “Calipso Nervoso”, responde a platéia. Risos geral. “Há quatro anos que não tocamos esta música”, brinca Luiz. Sai do teatro com as notas e harmonias ecoando em minha mente. Nos lábios um sorriso de vitória, um sorriso de alegria, um sorriso de quem caminha pelos passos certos os caminhos longos e arriscamos dos que fazem da vida uma obra de arte.


 

Julho 2007
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