O compromisso com a educação é necessário para que as mudanças sociais aconteçam, e para preparar o indivíduo em cidadão capaz de compreender a sociedade. Com esses propósitos, Associação de Educadores Latino-americanos (AELAM) realizou, sábado, na Unisantos, X Encontro de Educadores da Baixada Santista.
“Não se faz mudança sem a sede do saber”, afirmou o presidente da AELAM, José Marinho Gusmão Pinto, que chama a atenção para o alto índice de brasileiros analfabetos, que segundo informou, são mais de 18 milhões de pessoas. Ainda engrossaria esse número se forem computados os analfabetos funcionais.
Projetos de educação tendem a não progredir por ter elevado custo. “Educação de qualidade custa caro, mas se reverte em formação de uma sociedade”, analisa. Ele destaca a importância do Estado para a formação educacional do cidadão, mas avalia que atualmente não há essa preocupação por parte dos órgãos públicos.
No evento, a professora da UniSantos, Nereide Saviani, frisou que para a elite econômica não há, na sociedade, a necessidade de “tantos sábios’, e sim a formação de técnicos e profissionais que executarão tarefas. “O trabalho de pensar ficaria restrito à minoria, geralmente da elite econômica”, analisou.
A coordenadora de Políticas Educacionais da Prefeitura de Santos, Susana Artonov, defendeu a tese que o professor tem que ter contato com a realidade do aluno, e a escola tem que ocupar um espaço democrático. Susana, que segue a linha de Paulo Freire, ponderou sobre a utilização das teorias de educação, para a coordenadora a utilização do bom senso e do amor pela educação conduziriam o processo de ensino.
Segundo analisou a professora Regina Inês, o papel da Educação Pública é fundamentar a igualdade social, e para isso é necessário um enorme “trabalho de formiga” por todos os educadores. “Faz-se necessário o enfrentamento para melhoria da qualidade da educação para as classes menos favorecidas como bases de uma nova sociedade”, avaliou a professora.
Evasão Escolar – Um dos maiores problemas da educação no País foi a evasão escolar. Recentes pesquisas apontam para a diminuição desse quadro. Por outro lado, o número de distorção idade/série tem aumentado. Segundo o professor Edson Florentino, coordenador da Oficina Pedagógica de Cubatão, em média, o jovem brasileiro demora mais de 50% para concluir o ensino fundamental, levando, assim, doze anos para se formar, o que normalmente seria feito em oito.
Florentino defende a idéias que essa elevação no índice mascara a evasão escolar. E aponta a Educação de Jovens e Adultos (EJA) – programa governamental de incentivo a volta às salas de aulas dos alunos desistentes – em “transição de nível de ensino”. O professor aponta que o programa foi desviado do seu compromisso original, que seria o reingresso aos bancos escolares quem um dia desistiu, para mostrar “um relativo sucesso na educação no país”.
Para comprovar a análise, Florêncio apresentou dados de 2004 de pesquisas realizadas em Cubatão, comparando com análises do Estado de São Paulo e do País. Cubatão tem índices parecidos com o restante do Brasil, mais acima da média de São Paulo. Em distorção escolar, por exemplo, Cubatão atingiu o índice de 30,3% nos alunos da 8ª série do ensino fundamental; São Paulo 19,6% enquanto a média do Brasil data 38,6%.
Minoria racial – Não podendo ficar de fora, a temática sobre minorias raciais tomou conta da mesa de discussões. Além de ser defendida a diversidade cultural, a discussão visa o reconhecimento das diferenças como plataforma da própria identidade.
O responsável pela discussão nas Oficinas de Pedagogia de Cubatão, Fábio Gonçalves Ferreira, argumentou que se o professor não reconhece o aluno negro, não reconhecerá também o aluno pobre. Para ele o professor que não reconhece o aluno não ensina, no máximo despesa informações.
Refletindo sobre a lei 10.639, que torna obrigatório o ensino das culturas afro-brasileiras nas escolas do País, Ferreira apontou o aumento significante de pessoas que se auto-denominam negros é resultado direto da lei.
Em oficinas realizadas para minimizar os problemas do preconceito nas escolas de Cubatão, Ferreira contou sobre a realização de um questionário feito no início e no término das atividades. Segundo afirmou, as mesmas perguntas são realizadas nos dois momentos.
Questionados se a escola em que eles trabalham é racista, a resposta na primeira pergunta é esmagadoramente não. Mas, ao término das atividades, este quadro se inverte, chagando obter 98% de sim. Orgulhoso com o avanço, mas sabendo das dificuldades de acabar com algo que está impregnado na cultura brasileira há séculos, completou “Nossa meta é trabalhar com esses 2% que não enxergam o racismo nas escolas. Há algo errado aí”.
(Matéria publicada em 21/10/2007, no AGÊNCIA FACOS. Ano 34. Edição 21 – Turma: Noite. Página 10)