Preservar a memória cultural da Sorocabana. Este foi o intuito da primeira reunião que dará inicio aos trabalhos para a criação de um espaço público, que visará o permanente cultivo à história da estrada de ferro. O evento realizado, ontem, na Estação da Cidadania, em parceria com o Fórum da Cidadania de Santos, OAB e Sindicato dos Ferroviários.
Incentivado pelo projeto “Memória e Conversar”, da Comissão de Direitos da Pessoa Idosa da OAB, que tem o propósito de preservar e registrar a memória cultural da Cidade por meio dos atores envolvidos no processo histórico, a reunião tentou formar a equipe de trabalho e deu diretrizes para as próximas ações.
O coordenador do Fórum da Cidadania de Santos, Célio Nori, comentou sobre o projeto. “A idéia inicial é criar um espaço público de permanência da memória cultural da ferrovia”. A proposta idealiza a aquisição uma locomotiva, que ficará em frente da Estação Cidadania, e mais dois vagões: um de carga, que abrigará um palco para apresentações; e outro de passageiros, que abrigará uma biblioteca temática sobre ferrovias e cidadania.
Para Nori a reunião foi uma “soma de idéias e intenções com a modesta intenção de criar, além de um ponto turístico, um espaço público”. Segundo o coordenador, os interesses corporativos só não levaram ao fim da estação, porque o imóvel foi tombado como Patrimônio Público. Nori comentou que o Mc Donald’s tentou comprar o espaço, na época que iniciaram as privatizações do terreno da antiga Sorocabana.
Antes de abrigar o Fórum da Cidadania de Santos (inaugurado em 25 de agosto de 2006), a antiga estação era usada pelo Grupo Pão de Açúcar (proprietário do terreno e responsável pela manutenção do imóvel) para atividade com crianças. Mas, com a instalação do posto de gasolina no hipermercado, uma lei que proibe a realização de quaisquer atividades envolvendo crianças nas proximidades de postos de combustíveis forçaram o encerramento das ações.
História – De uma família de ferroviários e mais de 35 anos trabalhados no único emprego que teve, o aposentado Alcides Baptista Medina, praticamente nasceu dentro da estação. Para ele, é de suma importância a permanência da história do local. Motivado pelo abandono da estação, o aposentado tem lutado para a criação de um museu desde 2001. “Quando eu vi como estava aqui, não me conformei. Fui falar com o prefeito, com vereadores. Mas todos me diziam que não daria em nada”, desabafa.
A Sorocabana foi criada para acabar com o monopólio de 100 anos do grupo inglês, South West São Paulo Railway Co, na década de 1930, pelo governo de Getúlio Vargas. Pelos trilhos da companhia, escoava boa parte da produção de banana do Vale do Ribeira. “Eram dois trens por dia, com mais de 15 vagões de banana”, lembra Medina.
Manter viva a história da Sorocabana é o que motiva o aposentado. Ao falar da empresa, emociona-se. Medina conta, que no passado, no dia 1º de Maio, os funcionários decoravam os vagões e passeavam com a família. “Passávamos dois, três dias decorando os vagões. Era mais que uma empresa, éramos uma família”.
O aposentado comenta que o desenvolvimento das cidades do Litoral Sul e Vale do Ribeira se deu por meio das linhas da antiga Sorocabana. “As cartas vinham dentro do trem. O pessoal só lia os jornais depois do trem passar.”
Medina sonha com a volta dos trens de passageiros. “A solução é o trem. Em todos os países do mundo esta forma de transporte é utilizada, e com grande eficiência. Quando me aposentei da Sorocabana, estávamos vivendo um momento de modernidade. Não sei porque acabou”. Aposentado desde 1981, o ex-ferroviário viveu, longe dos trilhos, as décadas que levaram a deteriorização das linhas férreas. Motivos para isso, ele aponta ao lobby das empresas automotivas.
Para manter vivo os sonhos e relembrar o passado, a cada dois meses ex-funcionários da Sorocabana se encontram para um café, na sede do Sindicato. “Aí, a turma se encontra, é uma festa só”.
(Matéria publicada em 25/11/2007, no AGÊNCIA FACOS. Ano 34. Edição 25 – Turma: Noite. Página 08)