Arquivo para Janeiro, 2008

Rovine

Eu sou o esquecido,
a sombra que descansa de olhos aberto ao sol.
Eu sou a melancólica dor da saudade.
Deitado de braços cruzados
abaixo da luz do Equador

Eu sou a tenebrosa névoa
das noites entorpecidas de desespero.
Sou a alma do cavaleiro sem alma,
que luta bravamente,
sobre a luz do meio-dia.

Sou o nada sobre sua mesa.
Sou a medida sem medida escorrendo em suas mãos,
dos metros e metros
de chita,
de lama,
de esgoto.
Derramados aos berros,
aos punhos serrados, cortados.
Do sangue que jorra aos litros
de ódio,
de apatia,
de solidão.

Sou o décimo e segundo primogênito.
Destemido e destinado.
Fantasiando o real, realizando o imaginário.
Sou a abrupto lance da sorte.
Lançando sobre o ar, pó.

Sou lâmina afiada sem corte,
em cortes profundos,
cicatrizadas ao tempo
lento que assola ao vento,
que assombra a serenidade e morbidez.

Sou o berro de pânico nos olhos.
Sou a areia da ampulheta enganando
o tempo que passa,
com pressa,
com raiva,
com fúria,
sem pena,
sem rumos,
sem quimera.

Sou o pavil do fio do destino.
A luz do fim do túnel do tempo,
que berra,
que clama,
que geme.

Indagações

    Ou a ode para perguntas, pensamentos e frases soltas

De que lado uiva o vento?
Em que ponto os paralelos se cruzam no espaço?
De onde vejo os trópicos?
E se eu acho, como posso me perder?
O vento muda a direção. O tempo pára.

Às vezes parece nunca ter fim.

De que forma formam as nuvens?
Quantas vidas vivem sem forma?
Informa que a vida sempre vive. Desinforma.
Quantos sentidos há na rosa dos ventos?
O tempo muda a direção. O vento pára.

O tempo parou tão lento que não deu tempo de te ver passar.

Quanto mar é necessário para ser eterno?
Vida! Vida, noves fora, nada!
Em que lado nasce o sol nas manhãs de chuva?
E o brilho azul do meu terno, segue seco!
Por um instante, cinco vidas em suas lágrimas.

Não olhe em meus olhos sinceros. Tenho medo de ter medo.

Como mede-se força?
E no escuro, como sabemos ocultar a dor?
Como saberei ouvir seus passos?
Se na boca do caos eu me mato.
Viva, brilha estrela cadente do outono!

Gota d’água a abrandar a terra nas tardes de verão.

Ela Caminhava

Ele olhou pela janela no mesmo instante em que ela caminhava pela rua. Olhos postados no chão, sentia o peso do mundo nas costas. Não viu, mas ela carregava na face a dor de uma vida inteira. Olhos fundos e vermelhos, chorava há muito tempo, não recordando quando começara. Encantado com o jeito angelical que ela andava, pôs-se a acompanhar com os olhos o trajeto que percorria. Não sabia ao certo, mas no instante que a viu pela primeira vez, renasceu em outra vida. Em outras vidas. Daquele momento em diante renasceria a cada vez que a visse passar.

Alguns dias foram necessários até que ele renascesse novamente.

Mas ela voltou a caminhar pela rua, no mesmo instante que ele pôs-se a observar pela janela. Não percebeu que recebera cinco tiros à queima roupa quando a viu. Morreu. Cinco vidas passaram pelas suas retinas cansadas do cotidiano. Renasceu, como Fênix, apenas para vê-la passar outra vez; e morreu; e renasceu… sucessivamente.

Sentia o tamanho do mundo nos dias em que ela não cruzava, cabisbaixa, diante da janela da sala de seu lar. Tomado de saudade, ouvia, em alto volume, “Não sei andar sozinho por estas ruas, sei dos perigos que nos rodeiam pelos caminhos. Não há sinal de paz e tudo me acalma no seu olhar”. Sorria ao lembrar dos olhos cândidos e da paz que ela emitia. Chorava ao lembrar da saudade que o consumia e das expectativas a cada novo olhar para a janela.

Entendia que a dor da ausência consumia mais que qualquer outra chaga. Suportaria viver cem vidas sem tê-la conhecido, mas não agüentaria uma semana sem a vê-la, depois do instante em que ela fez parte dele. Como um imã, sentia atraído à gravidade dela. Positivo e negativo que se encontravam no espaço, completando-os.

    Chovia.

Chovia gotas de ternura a cada nova esperança readquirida.
Ele seguia seus dias comuns; morte e vida a cada vez que a via transitar pelas alamedas.
Sentia que a compreendia sem ter, ao menos, conversado com ela.

Nos devaneios mais insanos, conversavam. Eram diálogos sem fim e costurados por fragmentos de dúvidas, afirmações e sonhos.

-Oi
-Oi
-Sei das suas dores e seu passado.
-…
- Seu olhar me transmite calma.
- Sua presença enche meus dias de esperança.
- Seu silêncio me tortura e me alimenta, como um labirinto borgiano.
- Penso em você como um anjo para ampara minhas lágrimas
- Sei que você veio salvar minha alma.
- Eu morri, não sei quantas vezes. Mas voltarei sempre que for necessário.
- Antes de te ver não era vivo, apenas caminhava sobre os trilhos da vida. Sem rumo.
- Quando te vejo, sinto cinco tiros queimando-me a carne, trazendo-me a paz que tanto sonhara.
- Eu já vivi tantas vezes, morrer seria uma liberdade. Um estado de glória.

Imaginava, dançando ao som profundo, diálogos improváveis e impossíveis devido à sua timidez.

Tinha medo do escuro, mas não temia a incerteza dos dias maquinais. Calculava que viver era preciso, assim como Camões achava sobre navegar, porém não fazia mais planos sem que ela estivesse incluída.

Esquecera de tudo, até de comer, até de sonhar…. Sonhara sempre e sempre com ela.

- Leve-me daqui.
- Leve-me para o seu mundo
- Não sei andar sozinho, talvez até saiba, talvez até consiga, mas não quero.
- Quero tudo, deste caminho escuro. Tudo. Sua vida em meus passos. Meus passos em sua vida.
- Ar, Água, Fogo, Terra.
- Terra, Fogo, Água, Ar.
- Às vezes você vem me visitar nos meus sonhos. Sinto seu aroma, ouço sua voz como se fosse real. Como se o sonho fosse minha vida, como se fosse a única realidade em que eu pudesse viver.
- O real nos devora, nos consome. O que é real? Essa carne que está grudada ao meu osso é real? O sonho nos alimenta.
- Sei que não deve se dizer, mas digo. Direi sempre que sentir necessidade: Não é possível viver sem seus sonhos costurando meus sonhos, sem sua vida permeando minha vida.

Em um dia mágico, avistou no ar dois arco-íris. Duas vezes sete cores enfeitam o céu até então acinzentado. Um azul profundo, iluminado por raios solares, espantava as nuvens grossas. O que restou da chuva iluminava, pelos reflexos do sol, o rosto sereno a observar pela janela quem passava.

Foi quando ela surgiu. Em rara demonstração da natureza, ele, bestificado pelo quadro que pintara diante seus olhos, pôs-se a sorrir. Compreendeu naquele instante, com o eterno ciclo do nascer do sol, mesmo em dias de tempestades, a natural jornada de suas almas. Acorrentados, como os dois arcos-íris a enfeitar um pôr-do-sol na montanha em dias de recente chuva, mas separados como o sol e lua, seguiram, abstratos, a renascer diariamente pelo correr das areias na ampulheta do tempo.

O sol estampou seu gosto.
Cinco tiros ouviu-se no ar.
No mesmo instante, ao longe, badalava às seis horas o sino da igreja.
Como Sísifo, ele a esperava passar, com seus olhos fundos. Ela caminhava.

CONTRA-MÃO

Vinda vestida de azul. Azul!
Sorriste sem medo. Andaste sem medo.
Derreteste estrelas. Cantaste sem tom.
Molhaste meu rosto com suas lágrimas.
Sentaste ao meu lado. Roubaste meus planos.
Viveste minhas fantasias. Ria de minha alegria.
Mas parou de repente no meio da estrada.
Entrada para outra história. Saída!

Vestido de calça e camisa azul. Azul.
Sorri com medo. Caminhava passos difusos.
Derreti meus sonhos. Cantei errado, na hora errada.
Sequei meu pranto com minhas mágoas.
Sentado ao seu lado, contei meus planos.
Entreguei minhas fantasias. Ri do passado.
Continuei a caminhar quando falaste adeus.
Sai de sua vida, entrei na contra-mão.

Quanto custa um sonho?

    Eu, que falei tantas vezes baixinho, não tive voz para evitar.
    Foi-se como um vendaval.
    Foi-se como um rio.
    Foi-se para nunca mais sorrir.

A Bagaceira

A Bagaceira (José Américo de Almeida, 18º edição, Editora Livraria José Olympio, 1980), romance de 1928, a maior obra literária de José Américo de Almeida, é considerada por muitos críticos a como o marco inicial da segunda fase do Modernismo Brasileiro.
Escrito de maneira seca e direta, a obra relata, em discurso de denúncia, os horrores gerados pela estiagem no sertão do Nordeste. Além de ser o marco inicial da segunda fase do Modernismo, A Bagaceira inicia o ciclo de publicações que abordam a problemática da seca. Movimento que teria ligação com o Cinema Novo na década de 1960.
Nas páginas que antecedem a obra, o autor faz questão de apontar sobre a forma correta da escrita, mesmo em uma obra moderna e realista. “A língua nacional tem rr e ss finais… Deve ser utilizada sem os plebeísmos que lhe afeiam a formação [...] A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar e construir…”.
A narrativa, com o vocabulário mais simplório do sertanejo, e utilização gramatical correta do autor, traz à tona um dualismo literário, no mínimo, interessante. Como no trecho a seguir:
“Mas, ali não se brigava por mulher: o amor não valia uma facada. O ciúmes mal passava de ameaças:
- Olhe que eu te dou uns croques!…
- Quando chegar em casa, você chia no relho!…”
Lúcio despertou, ouvindo um vozear estranho. Um formidável clamor que uivava dentro da noite.
(Página 44)
O maior problema da obra é o exagero da reflexão sociológica que o autor imprime. A necessidade demasiada do autor em tudo explicar – em caráter sociológico, e algumas vezes, psicológicos – fez que a obra não tivesse maiores efeitos sugestivos na concepção de narrativa.
Como análise histórico-cultural, o romance aborda pontos chaves no processo evolutivo e cultural do Nordeste brasileiro. O choque entre o erudito (filho do proprietário da fazenda, e estudante de Direito na capital do Estado), o rústico (o sertanejo, o brejeiro, o simplório, o povo oprimido vítima da seca) e o poder ditatorial e patriarcal da oligarquia latifundiária.
Como plano de fundo, uma simples história de amor em que, devido ao medo do protagonista, e os desvios do destino – nesse caso o poder opressor –, acarretou em um trágico desfecho, quase uma tragédia grega. Mas, nesse ponto, que a obra ganha maior volúpia e êxtase. A forma que o estudante Lúcio conduz a fazenda – em seguida da morte de seu pai, Dagoberto, acusado de violentar sexualmente Soledade (apaixonada pelo Lúcio) que fora assassinato em nome da honra sertaneja (por um agregado da família, Pirunga) – e a moderniza, não apenas no que diz respeito à produção, mas também no âmbito social (alfabetização dos filhos dos trabalhadores, melhores condições de moradias e de trabalho), dá maior dinâmica e outro fluxo à leitura.
José Américo de Almeida dividiu-se entre a política e a literatura. Na vida política, chegou a ser ministro do Getúlio Vargas (nos dois mandatos) e candidato à Presidência a República, eleição que não ocorreu devido ao golpe do Estado Novo. Na literatura lançou, sem obter maiores êxitos, mais duas obras; Boqueirão, em 1935; e Colteiros, em 1936.

E a Cultura?

Enquanto as engrenagens de madeira, movidas pelo círculo marcado das pegadas dos bois, rodam e tiram da cana o mel, e esse, ao tacho, produz a rapadura, a tradição do sertão – os seus valores sociais, culinária e gostos – fica evidente. O processo de fabricação do melado é apenas uma delas.
Mas, nos momentos de descanso, e, geralmente, no maracatu, que fica nítido os principais aspectos sócio-culturais do sertanejo. A forma como tenta seduzir a “dama”, as conversas no ambiente, e principalmente na música e na dança, o sertanejo mostra as raízes de sua cultura.
O apego à terra natal, e a certa mácula ao deixá-la. A falta de identidade com o local transitório, e a espera pela chuva, para, enfim, voltar ao lar. Além da submissão perante ao proprietário das terras, demonstram outros traços característicos dos hábitos e costumes do retirante.
A relação da miséria com o sexo. A perda total de valores no limite mais baixos do ser humano, a fome. Mas, sem dúvidas, o maior fator de análise da obra é acerca da honra do sertanejo. A desonra da mulher (a perda da virgindade antes do casamento), oriunda de tradições seculares, anterior à chegada dos portugueses ao país, apontam principais características sócio-cultural do nordestino. Lavar a honra a sangue é vingar-se e uma tentativa de purificar a mulher “desonrada”.
No final obra, outro fator cultural vem à tona, os cuidados do Lúcio ao seu irmão bastardo.

Meu nome não é Johnny

Há tempos que o Selton Mello se destaca como um dos principiais nomes do novo Cinema-Novo brasileiro. Em “Meu nome não é Johnny” (Mauro Lima, Brasil, 2007) ele se supera. E não brilha sozinho, todo o elenco está no mesmo tempo, no mesmo clima, sob a mesma luz. Enfim, a magia no cinema acontece.

O Filme, baseado no livro homônimo (Guilherme Fiuza, Editora Record), narra a história do jovem da classe-média carioca, João Guilherme Estrella, que no anos 90 se tornou o maior “barão” do tráfico do varejo de cocaína.

Estrella é o anti-herói de uma geração regada pelo excesso. A liberdade repentina, após anos de censura, desinibiu e exorcizou o medo escondido da juventude tupiniquim, que caíra no desbunde um tempo antes, logo após que perdera a utopia.

É um filme que fala da perda dos valores. Que nada, na realidade é um filme para quem nunca teve uma visão clara do que são valores. Acima do bem ou do mal, Estrella viveu uma vida de sonhos, pelo menos de boa parte da juventude classemediana brasileira. Festas, amigos, mulheres, viagens, dinheiro para gastar, excesso de drogas, poder. O mesmo mergulho raso de um “aviãozinho” que cai no tráfico, em cima dos morros e longe dos olhos da opinião pública. A diferença entre os dois é o mundo que os separam, a vida que os separam, os dramas que os separam. Para um é o único meio se sobrevivência, para outro é a alienação.

O que Estrella colheu do tráfico. Nenhum bem material. Nada, além de passar meses na cadeia e dois anos de tratamento psicológico em um manicômio. O filme mostra um retrato escondido de nosso pequeno medo, que a nossa retina tabulada não quer ver. A geração “maio de 68” quis mudar o mundo pela porta da frente. Em resposta, a geração posterior que conquistá-lo, pelo elevador social de um condomínio de luxo. Infelizmente o caminho mais torto. Quando preso, precisava de uma segunda chance. Teve. Recuperou-se. Hoje é um homem de bem. Valores tão estanhos em um mundo de guerras nucleares prestes a explodirem. Em um planeta com mais de 55 guerras civis acontecendo nos quatro cantos do planeta. Em um mundo que embala Africa em um único pacote, que há intolerância racial, social, cultural, religiosa. Realidade de um universo em que morre-se de fome, não pela incapacidade produtora, mas pela exclusão social.

No mesmo instante, pensei em todos que não tiveram a oportunidade de serem recuperados. São julgados sumariamente, sem ao menor poderem ter o direito (perante a lei) de responder, de cumprir o que o código penal prega, de serem incluídos na sociedade. Morrem pelo poder do tráfico, morrem pelo poder dos homens, morrem pelo poder da imprensa, morrem pela falta de poder. Morrem.

Estrella foi o retrato de uma geração que, sem utopia, perdeu-se no ostracismo da individualidade. A figura central do filme não é o tráfico, não está em jogo a moral cristã-católica. A personagem principal do trama é a fragilidade infiltrada embaixo dos olhos comuns, é a linha tênue que separa, aos olhos de uma sociedade centrada no poder econômico, o bem do mal. É um salve-se-quem-puder que tem absorvido as forças transformadoras da juventude. É o egoísmo latente imposto pelo mercado competitivo.

O “Johnny” do título poderia ser substituído por qualquer outro nome, mas figuraria como palco de um pacote enquadrado e tabulado, de um período taxado em geração 80. Ao anti-herói restam agora a história para contar, o livro, o filme e a vida pela frente. Para a juventude atual, e também a anterior, restam o gosto azedo do excesso de hedonismo e a amargar atrofiador das utopias perdidas.


 

Janeiro 2008
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