Arquivo para Abril, 2008

Pequeno mapa sobre a loucura

O tempo rasga a face cansada de esperar. Range bravo feito cão sem dono. O tempo passa. “E, o esquecer era tão normal que o tempo parava…”. Esquecíamos de olhar nos olhos, desejar bom dia, esperar a saudade bater mais forte ao ponto de sentir dor. Mas, a ilha não se curva? O mar continua seu ciclo mesmo sem seus olhos para admirar. A lua renascerá amanhã após o pôr do sol.

Éramos corpos bailando no ar, duas estrelas perdidas em negros labirintos. Desertos. Éramos corpos celestes vagando no azul aveludado sem órbita. Mas, o tempo parou. Paramos.

Às vezes penso em liberar as portas do meu próprio manicômio. Mergulhar no meu mundo louco, marginalizado. Outras, penso que o todos estão certos e o único louco sou eu. Internaria-me como o Dr. Simão Bacamarte.

Quantas vezes quis expurgar as dores mais sombrias, os pensamentos mais imperfeitos, as saudades mais doloridas… Estes sentimentos martelam em minha mente como um sino às seis da tarde de uma quarta-feira chuvosa. Todos, apressados, passam sem ver o pedido de socorro emitido nas estrelas.

Procuro esquecer certo peso em meu peito, cenas e sensações que me torturam. Em vão, a cada fechar de olhos, como um flash, repetem incessantemente diante de minhas retinas cansadas de chorar. A dor dos mais fracos é transformada em lágrimas tristes, que ardem as vistas e rasgam a carne frágil da melancolia.

Saudade tem sabor de primavera. Mas, éramos cegos solitários tateando a escuridão esculpida em nossos rostos, corpo e mente. Éramos satélites perdidos em colisão procurando um ao outro. Achamos. O tempo parou. Mas depois acelerou-se tão veloz que não vimos o abismo que nos separa. E separamos. Voltamos a ser apenas eu e você, pedidos no curto caminho dos nossos olhares. O tempo parou.

Tocava ao fundo o som das primeiras memórias da infância. Som com gosto de Sol, com sabor de nostalgia. Você sorri em curta-metragem filmado em super-8. Em fotografias preto e branco, vejo-te correr sobre as águas.

Tempo, velho camarada.

Rumo ao norte

Era uma noite fria. Dessas noites frias em que o vento gelava não somente o corpo, mas a alma. Caminhava pelas ruas a procura de um porto seguro ou uma nova história. Um novo começo, recomeçar do zero, em novos rumos, velhos portos, nova história repetida pelas armações do destino. Apenas caminhava. Seguia meus passos, que não seguiam a lugar algum. Caminhava sem rumo pelos rumos tortos das ruas desertas do centro vazio da cidade cinza. O frio era a única companhia. O meu pensar pesava em minha alma. Alma solitária não era alma e sim algo solto no ar, como um balão de gás flutuando no azul aveludado do céu de inverno, vagando sem importância. Era frio, destes dias cinza e nublados que escondem qualquer sorriso, até mesmo dos mais contentes.

Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam. Destes dias gelados que atravessam a memória e atacam nossas mentes como tempestades sem tamanho. Frio violento cortava-me em pedaços tão míseros ao ponto de perder-me entre bilhões de pontos de solidão. Caminhava sem rumo, a caminho qualquer, sem passos, sem pressa, seguindo o ar.

Nada via com meus olhos cansados, também não procurava olhar para nada. Caminhava no escuro, não percebia que a cidade estava iluminada ou eu seu meus olhos não eram capazes de captar luz. Continuava a caminhar e o frio era cada vez maior a ponto de seguir os meus passos. Caminhava, vigilante solitário, atrás de refúgio para meus tristes relatos. Histórias incompletas de vidas incompletas de relatos incompletos…

Não fazia idéia alguma para onde meus pés me levavam. Eles trilhavam um caminho desconhecido, coisa que nem me dei ao trabalho de refletir por onde ou como. Apenas, com os olhos baixos, vendo o chão, deixei que meus pés guiassem meu destino, como uma espécie de pedido de socorro. Escuro. Escuto passos. Paro. Medo. Sigo. Caminho apressado. Paro. Olho para os lados, nada. Atrás, não olho, paralisado, tremulo. Ouços passos. Voltou a caminhar. Sigo em frente. Caminho mais rápido, ando, ando, ando… Paraliso. Viro meu rosto. Não vejo nada. Houve algo? Ouço algo? Sinto passos fortes, caminhando, mas nada vejo. Viro lentamente a cabeça, em minha frente um rosto. Um rosto novo, algo, alguém.

- Oi! – Branda uma voz suave, no escuro, não vi quem era.

- Olá! – Timidamente minha voz sai rouca, quase abafada pelo som dos automóveis que circulavam pela cidade.

- Para onde vai? – Perguntou-me a voz, agora avisto um rosto, sobre um corpo feminino.

- Apenas caminho, sem rumo. – Ainda tímido mal ouço minha voz.

- Não importa o caminho, basta caminhar, diria o poeta.

- Qual poeta? – Esta frase estúpida sai da minha boca, se pudesse voltar ao tempo, ou quem sabe continuar meu caminho.

- Também não sei. – Risos por parte dela.

Procuro andar, sou impedido. Por quem? Ninguém, meus pés me traem. Mentalmente ordeno: “Andem pés. Andem”. Nada. Preciso desesperadamente sair dali.

-Mas o que você faz na rua, ainda mais com este frio? – Insiste aquela voz suave que soa em minha cabeça, como uma orquestra regida por mãos competentes.

-Solidão. – Penso em outras palavras, mas apenas esta evapora dos meus lábios.

- Solidão, Só – Lidão, Soli-dão. Solidão. Todos somos sós. Mas a pior solidão é quando sentimos sozinhos mesmo com a companhia de alguém.

Não compreendia aquela pessoa, não compreendia seu olhar, seus olhos profundos, calmos, tranqüilos. Não entendia sua voz pura, nem seus cabelos que o vento balançava lindamente, trazendo um aroma que me roubava a paz transitória entre a dúvida e a certeza de continuar meu trajeto. Queria sair deste quadro e, por outro lado, não queria mover um músculo sequer para continuar o caminhar. Mas, minha razão inconscientemente teimava em argumentar que era preciso voltar ao velho roteiro cansado e fingir que não havia ninguém nas ruas. Sentir-me só novamente. A solidão fazia-me forte, ao mesmo passo que me deixava desprotegido, desamparado. Buscava a liberdade que me acorrentava nas paredes do labirinto a qual estava preso. Nos meus medos e traumas, desejos e desatinos de largas memórias perdidas nas linhas do tempo que já não corriam mais diante dos meus olhos cansados.

- Somos livres, mesmo correndo o risco de nos prender na solidão. Somos seres solitários, egoístas. Os seres humanos são como lobos nas estepes, são solitários por natureza. – Continuava aquela voz que me trazia calmaria e desconforto. Paz e agitação. Aquela voz que confundia meu pensar e meus passos.

Apenas concordei com a cabeça, tentando andar. Não entendia o que ela queria, não entendia o que me deixa imóvel ao seu lado. Tentei fazer uma pequena movimentação com as mãos para indicar o caminho que deveria tomar. Não obtive nenhum sucesso, nem por minha parte, nem por parte dela.

- Só-Li-Dão. Sou só também. Mas tenho um cachorro, Teco o nome dele, um São Bernardo. Ele é minha única alegria. Você tem cachorro?

- Não. Tenho medo. – Respondo olhando o vapor que saia de minhas narinas.

- Eu amo cachorro. Como assim medo? O Teço é tão fofinho – Continuava – E chocolate, você gosta de chocolate?

- Medo. Não sei explicar, deve ser algum trauma de infância.

- Hun…, mas de chocolate você gosta?

- Tenho alergia.

- A chocolate?

- É – Minha palavra abafada pelo som do sino da igreja ao longe.

- Qualquer chocolate? – Insiste

- Pelo menos a todos que comi. – Disse, rindo da minha piada, porém ela não entendeu.

- Uma pena, não vivo sem chocolate. – Disse isso retirando do bolso um pedaço ordinário de chocolate. Cheirava o tablete antes de comer, e ao sentir derreter na boca, soltava um suspiro de alívio.

- Também gosto de andar. Por onde anda? – Disse-me.

Tentando desesperadamente me livrar da tempestade, disse: – Tenho que ir desculpe. Está tarde – Falei, baixinho, como quem que estivesse atrasado ou caminhando para algum lugar.

- Vai para onde? – Perguntou-me com um olhar perdido e esperançoso.

- Vou para lá – Apontei para o meu norte, apenas por ser o lado onde meu nariz mirava.

– Eu também. Vamos? – Tornou-me pelos seus braços e pôs a caminhar ao meu lado em direção ao norte.

De repente, fez-se sol. O calor derretia as calotas polares do meu coração.

Igrejas Históricas

Antes das igrejas luxuosas do ciclo do ouro em Minas Gerais, as primeiras construções religiosas em solo nacional foram edificadas com a simplicidades e devoção aos padroeiros das cidades litorâneas. Vindos com as caravelas de Martim Afonso, os padres jesuítas, que tentariam catequizar os índios, foram responsáveis pela confecção das primeiras capelas. Eram construídas com o material que dispunham na época: madeira; pedras talhadas; areia do mar. Além de imagens sacro-santos simples, esculpidas em barro ou pedra-sabão. Na região, são várias as edificações que resistiram ao tempo e se mantiveram como centro histórico-religioso. Hoje em um belo ponto turístico.


Convento Nossa Senhora da Conceição
No início do povoamento de Itanhaém, os primeiros habitantes edificaram, no alto de um monte, uma pequena ermida de barro. Desde cedo atraiu a atenção e a fé dos romeiros que vinham de vários pontos da Capitania Hereditária de São Vicente.
Por ser um dos pontos mais afastados da colonização portuguesa na América, o convento serviu de abrigo aos moradores e defesa da cidade. Foi durante longos anos a igreja matriz da vila, por isso existia a seu lado uma casa para o vigário, assim continuando até 1639, quando se iniciou a construção do novo templo paroquial, com o título de Sant’ana.
Os dois pavimentos superiores, dos quais o de baixo está ao nível do piso da igreja divididos em celas, eram os dormitórios principais. Ao lado direito do lanço descrito, fazendo face com a frente da igreja, fica anexo outro edifício com pavimento térreo e um só superior. Este está ao nível do piso do primeiro andar do lanço principal, com o qual comunica por meio de um arco. O seu pavimento térreo, em parte cavado dentro do morro, está ao nível dos outros e nele funcionava o capítulo conventual. O primeiro andar, que de fora parece o térreo, é acessível do adro da igreja: era a portaria. No segundo andar havia uma sala, talvez biblioteca.
Com a extinção da Capitania de Itanhaém, que passou de novo para a Capitania de São Vicente, e com o êxodo da maior parte dos seus habitantes para o interior, atraídos pela fama das descobertas de minas de ouro e de pedras preciosas, os frades existentes também sentiram a escassez da renda do Convento, que os levou a irem, por sua vez, saindo para outros lugares onde pudessem ser melhor amparados.
Durante muito tempo, a igreja ficou abandonada e entregue à destruição do tempo. Em 1921, Washington Luís, amante da história do Brasil e Presidente do Estado de São Paulo, resolveu proceder uma restauração parcial, renovando o madeiramento do telhado e o assoalho. Soube-se que um dos vigários tinha enterrado há muito tempo diversas imagens do Convento, logo atrás da Igreja Matriz de Sant’Anna. A busca teve êxito e quatro dessas imagens ainda são conservadas no Convento.
Em 1948 grande parte do telhado e do forro ruiu por um raio, destruindo completamente a torre. O monumento histórico, a partir de 1952, foi objeto de restauração, executada então pelo órgão de preservação federal.
O monumento foi parcialmente incendiado e ficou abandonado por longo período, e de certo modo submetido a dilapidações. As obras de restauração iniciadas em 1952, previam também a reconstituição da ala conventual (ruínas da residência), incendiada no início do século XIX, conforme pode-se verificar dos estudos então efetuados. Dessa época até os dias de hoje, exigiu de tempos a tempos, obras de conservação


Matriz de São Vicente
A Igreja Matriz da Vila de São Vicente foi erguida por Martim Afonso, embora não seja no exato local em que ela se encontra hoje. O primeiro prédio que abrigou a Igreja foi erguida próximo à orla da praia. Local onde ocorreu a fundação oficial da Vila de São Vicente.
Diz os livros de história que em 1542, a construção foi destruída por um maremoto que varreu a cidade. Não apenas a Matriz, mas boa parte das construções da Vila foram destruídas.
Após a tormenta, a segunda sede foi erguida pelo povo em local, um pouco mais distante da faixa de areia do mar. Porém, novamente ficou em ruínas. Desta vez, foram os piratas que atacaram São Vicente para saquear o comércio e as casas.
Em 1757, a atual igreja foi construída sobre as ruínas da anterior, onde permanece até os dias atuais. Seu nome é uma homenagem a São Vicente Mártir, santo espanhol que deu nome à cidade e hoje é seu padroeiro.
Em 1999 foi interditada. No ano seguinte, um incêndio destruiu parte do teto e altar, além de danificar algumas imagens sacras. Em 2006 foi finalizada a primeira parte das obras de restauração do imóvel.


Igreja do Valongo

Importante exemplar das construções dos padres franciscanos. Considerada um dos mais belos barrocos do século XVIII, a entrada da igreja conta com três arcos romanos, simétricos às portas-balcões de arco abatido do andar superior, arrematadas por vergas curvas de pedra. Frontão ondulado e guirlandas completam a fachada.
À esquerda fica a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que conserva o Cristo Místico de Seis Asas entre as obras de arte de sua capela, perpendicular e com arco aberto para a igreja conventual. Além do padroeiro apresenta, no altar-mor, um dos únicos tronos rotativos do País: de um lado a Santíssima Trindade e, do outro, o ostensório para Adoração Perpétua.
Ali as paredes ganharam murais de azulejos, na década de 30, de autoria de Cândido da Silva Jr., que se auto-retratou de paletó e gravata, ao lado de Santo Antônio.
Uma placa comemora a visita do monsenhor José Ferreti, datada de 1823, que se tornaria papa com o nome de Pio XII.
O portal da igreja traz a data de 1640 no alto, ao passo que a entidade leiga da Ordem Terceira inaugurou a capela em 1691. Em 1859, o imóvel foi vendido para a construção da estação da estrada de ferro Santos-Jundiaí. O convento foi demolido mas não houve força capaz de retirar a imagem de Santo Antônio do altar, fato que foi considerado milagre e impediu o desaparecimento da igreja, elevada a santuário em 1987.


Mais informações:

Convento Nossa Senhora da Conceição – Itanhaém
Localizado no alto do Morro do Itaguaçu, Centro Histórico. Funciona diariamente, das 9 às 11 horas e das 13 às 18 horas. Mais informação nos telefones da Secretaria de Turismo (13) 3421-1808 ou (13) 3421-1809

Igreja Matriz – São Vicente
Localizada na Praça João Pessoa, s/ nº, Centro. Mais informações no telefone da secretaria de Turismo e Cultura (13) 3569-1400

Igreja do Valongo – Santos
Largo Marquês de Monte Alegre s/ nº. Funciona de terça a sábado, das 8h00 às 20h00, e domingo, das 8h00 às 19h00. Mais informação no telefone (13) 3219-1481

(Matéria publicada no caderno especial + Verão, do Jornal Diário do Litoral, em 19 de janeiro de 2008 )

Presépios: um símbolo religioso que resiste ao tempo

    783 anos depois de criado por São Francisco, a tradição ganhou vida e forma com o choque cultural em terras brasileiras


Vinda com as caravelas dos portugueses, a imagem do presépio, após a década de 1950, foi gradativamente substituída por outros símbolos natalinos. Aos poucos, árvores de natal e bonecos de Papai Noel tomaram o lugar da representação do nascimento de Jesus em várias casas comerciais e em residências. Mas, recentemente, o resgate cultural e religioso tem retomado o interesse referente ao assunto.
Originário da palavra “prosepium”, que do latim significa estábulo, curral; o presépio representa a cena de adoração ao Menino Jesus na manjedoura, acolhido por Maria, José e os pastores, que estavam com seus rebanhos, na gruta de Belém.
A coordenadora da Centro de Estudos Folclóricos Albino Luiz Caldas (Cefalc), Yza Fava de Oliveira, realiza há mais dez anos exposições sobre o tema. A pesquisadora acredita que o valor religioso foi o principal fator para a retomada para este hábito natalino.
“No natal só era montado o presépio, mas, a partir década de 50, começou a surgir a influência da árvore de natal, além de outros elementos que foram sendo introduzidos. Estes novos símbolos se transformaram em um contra-ponto à montagem do presépio. Porém, agora está retornando um pouco a valorização dos presépios, das lapinhas e do alto de natal, que é mais ligada à religião”, analisa Yza.

Religiosidade
A pesquisadora aponta que a cultura e o imaginário de cada povo deram características diferentes ao presépio. Porém, todos retratam de forma artística o nascimento do Menino Jesus. A história e a religiosidade permearam a tradição do culto durantes os séculos.
Narra a bíblia que, para participarem de um recenseamento convocado pelo imperador romano César Augusto, José e Maria saíram da cidade de Nazaré e se dirigiram para Belém. Sem ter onde ficar, o casal abrigou-se em um estábulo dentro de uma gruta, na noite de 24 de dezembro. Virgem Maria deu à luz ao Menino Jesus, que foi colocado numa manjedoura coberta por palhas, tendo ao lado pastores, jumentos, vacas e um galo.
A notícia do nascimento fez com que pastores dos arredores viessem visitá-los. Seguindo a estrela-guia, os três Reis Magos (Gaspar, Baltazar e Belchior) chegaram ao local do nascimento, para ofertar ao Menino Jesus presentes, ouro, incenso e mirra.

História
Foi São Francisco de Assis, em 1224, o primeiro a encenar , de acordo com o Evangelho, o ambiente da Natividade de Jesus. Nesse ano, em vez de festejar a noite de Natal na Igreja, como era de hábito, São Francisco celebrou em uma gruta em Créccio, localizada num bosque na Itália, para onde mandou transportar uma manjedoura, um boi e um burro, além de imagens esculpidas em argila, madeira e pedra, para melhor explicar o Natal às pessoas comuns da localidade.
A representação simbólica do nascimento de Cristo foi bem aceita e generalizou-se nas comunidades franciscanas. A Igreja e as famílias cristãs assumiram a tradição, que se espalhou pelo mundo.

Brasil
Em 1391, segundo estudos do Frei Luiz de Souza, eram montados presépios em Lisboa. A tradição chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, pelas mãos do frade Gaspar de Santo Agostinho, que introduziu o presépio em Olinda, (PE)

Santos
Em Santos, alguns presépios ficaram famosos e ainda remetem ao saudosismo nos mais experientes. O do Mercado Municipal atraía milhares de visitantes nas décadas de 1940/50. O presépio criado pelo artista Manoel Molina, esculpido em madeira com mais de 580 peças, era movido a eletricidade. Nesta época, várias casas comerciais no Centro armavam a representação, que, segundo aponta Yza, era o maior destaque dos festivos do comércio.
Atualmente, o maior destaque é a Exposição de Presépios realizada pelos frades do Santuário do Valongo, que este ano está na décima e quarta edição. Lá são expostos representações de diferentes regiões do mundo e das mais variadas formas e formatos. Ainda conta com a participação de artistas locais, como o Mestre Manoel Messias. Aos poucos, muitas lojas do comércio voltam a expor presépios nas vitrines, resgatando a tradição quase esquecida.
Nos dias atuais, cada vez mais novos símbolos do Natal são lançados. A pesquisadora aponta para a comercialização do espírito natalino. Embora, ela analisa que aos poucos a tradição tem voltado à tona. Os símbolos modernos do Natal não serão substituídos pelos presépios, mas aos pouco têm cedido lugar às antigas tradições. “Foi percebido que estavam caminhando em uma linha que não era da religiosidade, o que descaracterizava do Natal”, emociona-se, Yza.

Saiba Mais:

Ritual
No passado, os presépios eram montados no início do mês de dezembro. O Menino Jesus só era colocado na manjedoura no dia 24. As imagens dos Reis Magos eram introduzidas apenas no dia 6 de janeiro.
Com o tempo, passaram a ser desmontados em 6 janeiro, Dia de Reis. Todo material que ornamentava a cena era considerado sagrado, e eram queimados às 12 horas do mesmo dia. Somente as imagens eram guardadas para serem usadas no próximo ano. Na cerimônia eram cantados cânticos de despedidas e faziam promessas de refazer o presépio no ano seguinte, pois a crença popular determina que deve ser montado no mesmo espaço, durante sete anos.

Traços Culturais no Brasil
Os autos de Natal foram encenados no Brasil desde o século XVI pelos padres jesuítas, que adicionaram elementos da cultura indígena, no intuito de facilitar o processo de catequese.
Vários estados brasileiros, principalmente os do Nordeste, comemoram o Natal com o bumba-meu-boi, encerrando o ciclo de natal com o reisado.
Os presépios motivaram o aparecimento de uma cerâmica popular no Norte, Nordeste e São Paulo, especificamente no Vale do Paraíba, onde os artesões confeccionavam peças utilizando barro, algodão bambu e arames.
Por isso, levando em conta as concepções culturais de cada região, é comum encontrar, ao lado de Jesus, Maria e José, a imagem de cangaceiros com roupas de couro, caiçaras pescando, gaúchos de pantalonas, canas rurais com casas de pau-a-pique, curral, monjolo, engenho de açúcar, além de uma vegetação tipicamente brasileira.

Lapinhas – são presépios simples, que na cena incluem apenas o Menino Jesus, Maria e José.

Auto de Natal – é uma representação cênico-musical tradicional de nossa cultura popular. Neles, representam-se as figuras do ciclo natalino com a interação de personagens tipicamente folclóricos, definidos muitas vezes em função do grupo que o realiza ou das condições instrumentais em cada comunidade.

Bumba-meu-boi - uma dança do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, que gira em torno da morte e ressurreição de um boi.

Reisado – é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja a véspera e o Dia de Reis. No período de 24 de dezembro a 06 de janeiro, um grupo formado por músicos, cantores e dançadores vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam.

(Matéria publicada no caderno especial + Verão, do Jornal Diário do Litoral, em 22 de dezembro de 2007)

Hora de partir

Acordo com a Nova Sinfonia de Beethoven. Ainda atônito, procuro o celular, que normalmente uso como despertador. Quatro horas da manhã. Não programei para esta hora. Programei? No identificador, o seu nome a piscar como uma memória ainda recente. Atendo? Eu vacilo por um segundo, derrotado de uma batalha não iniciada: atendo.

Do outro lado da linha, sua voz abafada e velada diz com a mesma ternura de antigamente: “Alô, amor meu!”

Respondo, confuso, misto de ironia e desatino: “Há algum tempo não sou mais seu amor.”

Com suspiros, ela fala pausadamente entre lágrima: “Acordei chorando, tive um sonho ruim, pensei em ti, por isso te liguei. Será que você ainda pensa em nós?”

Atormentado por milhares de imagens que explodem em minha mente, respondo: “Hun! Desculpe, me pegou desprevenido. O que aconteceu? Faz mais de dois anos que não nos falamos. O que houve?”

À tira roupa, ela diz: “Andei pensando em ti”

Surpreso, tento desviar do torpedo: “Sobre o que foi seu sonho?”

“Bobagens, coisas da minha cabeça. Acho que era apenas saudade.”

“Fiquei preocupado agora.”

“Não fique, na verdade precisava ouvir sua voz, saber se ainda me ama. A gente faz tanta besteira na vida, te largar foi a pior.”

Como uma bomba, suas últimas palavras feriram-me: “Não foi uma tarefa fácil esquecer nossos dias.”

“Eu nunca deixei de te amar.”

De repende, como se fosse uma orquestra dodecafônica, minha boca começou a ruminar palavras desordenadas, que nem o meu pensar poderia acompanhar: “Você queria sua liberdade. No final, concordei contigo. Éramos presos em um sentimento que sentíamos pela metade. És livre hoje, e eu estou em pedaços.”

“Desculpe, amor”

“Eu me perdi nestes dias, andei por aí, sem saber por onde caminhar. Você era livre, tudo que sempre sonhou. Quis o mundo, o mundo te quis. Ganhou o mundo. E eu me perdi dentro de mim, me perdi nos nossos sonhos perdidos, nas perdidas horas que sonhávamos. Hoje! nem sonhar eu sonho. Pouco durmo.”

“Não sei o que dizer.”

Continuei: “Enquanto o mundo eclodia, eu me escondia de tudo, principalmente de você. O mundo não parou para que eu pudesse me reestruturar. Ele girou, e no meu ver, cada vez mais veloz. Você sorria, enquanto o álcool era minha companhia. Você sorria. O mundo sorria de minha cara enquanto perdia cabelo, perdia a esperança. Você sorria, com seu belo sorriso jocoso. Ria que gargalhava. No final, estava certa, a melancolia cobriu minhas vistas. Eu esperava, calado, por milagres que, eu sei, nunca existiram e nunca existirão. A vida passava…”

Por um segundo, no ar o silêncio ensurdecedor.

Continuei: “Sabe, às vezes nem me reconheço no espelho. Outras ocasiões, acho que nem existo mais. Caminho quase que sozinho sobre o mundo. E por quê? Por acreditar no amor, por crer em promessas vazias que sua boca velava? Como te disse, anjo, o mundo não parou para que eu pudesse me reconstruir. Eu passei, as horas vazias passaram. Nós, minha flor, passamos. Passamos como um vendaval, como um rio, como as estações, como as férias que chegam ao fim…”

Em um golpe fatal, ela disse: “Eu ainda te amo.”

“Tchau”. Desliguei o telefone.

Enquanto isso, do outro lado da linha, ela sorria que gargalhava.

Fiquei sentado na cama, tentando acreditar em minhas próprias palavras. Falei da boca para fora, como um desabafo ou um manual a ser seguido. Não dormi, aliás, ultimamente pouco o tenho feito. Ela, que roubara minha paz, roubou agora o pouco que me sobrara. Eu me perdia nos labirintos tortos dos amores desfeitos. Fiquei ali, no meio da noite reconstruindo os pedaços que ela deixara ao breu. A fria carne crua de minha alma estava exposta em uma mesa de mármore branco. Pelos cantos, o rubro do meu sangue a marcar toda uma existência.

Três dias depois, encarei meu olhar perante ao espelho.

Que o paraíso seja leve.


 

Abril 2008
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