Acordo com a Nova Sinfonia de Beethoven. Ainda atônito, procuro o celular, que normalmente uso como despertador. Quatro horas da manhã. Não programei para esta hora. Programei? No identificador, o seu nome a piscar como uma memória ainda recente. Atendo? Eu vacilo por um segundo, derrotado de uma batalha não iniciada: atendo.
Do outro lado da linha, sua voz abafada e velada diz com a mesma ternura de antigamente: “Alô, amor meu!”
Respondo, confuso, misto de ironia e desatino: “Há algum tempo não sou mais seu amor.”
Com suspiros, ela fala pausadamente entre lágrima: “Acordei chorando, tive um sonho ruim, pensei em ti, por isso te liguei. Será que você ainda pensa em nós?”
Atormentado por milhares de imagens que explodem em minha mente, respondo: “Hun! Desculpe, me pegou desprevenido. O que aconteceu? Faz mais de dois anos que não nos falamos. O que houve?”
À tira roupa, ela diz: “Andei pensando em ti”
Surpreso, tento desviar do torpedo: “Sobre o que foi seu sonho?”
“Bobagens, coisas da minha cabeça. Acho que era apenas saudade.”
“Fiquei preocupado agora.”
“Não fique, na verdade precisava ouvir sua voz, saber se ainda me ama. A gente faz tanta besteira na vida, te largar foi a pior.”
Como uma bomba, suas últimas palavras feriram-me: “Não foi uma tarefa fácil esquecer nossos dias.”
“Eu nunca deixei de te amar.”
De repende, como se fosse uma orquestra dodecafônica, minha boca começou a ruminar palavras desordenadas, que nem o meu pensar poderia acompanhar: “Você queria sua liberdade. No final, concordei contigo. Éramos presos em um sentimento que sentíamos pela metade. És livre hoje, e eu estou em pedaços.”
“Desculpe, amor”
“Eu me perdi nestes dias, andei por aí, sem saber por onde caminhar. Você era livre, tudo que sempre sonhou. Quis o mundo, o mundo te quis. Ganhou o mundo. E eu me perdi dentro de mim, me perdi nos nossos sonhos perdidos, nas perdidas horas que sonhávamos. Hoje! nem sonhar eu sonho. Pouco durmo.”
“Não sei o que dizer.”
Continuei: “Enquanto o mundo eclodia, eu me escondia de tudo, principalmente de você. O mundo não parou para que eu pudesse me reestruturar. Ele girou, e no meu ver, cada vez mais veloz. Você sorria, enquanto o álcool era minha companhia. Você sorria. O mundo sorria de minha cara enquanto perdia cabelo, perdia a esperança. Você sorria, com seu belo sorriso jocoso. Ria que gargalhava. No final, estava certa, a melancolia cobriu minhas vistas. Eu esperava, calado, por milagres que, eu sei, nunca existiram e nunca existirão. A vida passava…”
Por um segundo, no ar o silêncio ensurdecedor.
Continuei: “Sabe, às vezes nem me reconheço no espelho. Outras ocasiões, acho que nem existo mais. Caminho quase que sozinho sobre o mundo. E por quê? Por acreditar no amor, por crer em promessas vazias que sua boca velava? Como te disse, anjo, o mundo não parou para que eu pudesse me reconstruir. Eu passei, as horas vazias passaram. Nós, minha flor, passamos. Passamos como um vendaval, como um rio, como as estações, como as férias que chegam ao fim…”
Em um golpe fatal, ela disse: “Eu ainda te amo.”
“Tchau”. Desliguei o telefone.
Enquanto isso, do outro lado da linha, ela sorria que gargalhava.
Fiquei sentado na cama, tentando acreditar em minhas próprias palavras. Falei da boca para fora, como um desabafo ou um manual a ser seguido. Não dormi, aliás, ultimamente pouco o tenho feito. Ela, que roubara minha paz, roubou agora o pouco que me sobrara. Eu me perdia nos labirintos tortos dos amores desfeitos. Fiquei ali, no meio da noite reconstruindo os pedaços que ela deixara ao breu. A fria carne crua de minha alma estava exposta em uma mesa de mármore branco. Pelos cantos, o rubro do meu sangue a marcar toda uma existência.
Três dias depois, encarei meu olhar perante ao espelho.
Que o paraíso seja leve.