Presépios: um símbolo religioso que resiste ao tempo

    783 anos depois de criado por São Francisco, a tradição ganhou vida e forma com o choque cultural em terras brasileiras


Vinda com as caravelas dos portugueses, a imagem do presépio, após a década de 1950, foi gradativamente substituída por outros símbolos natalinos. Aos poucos, árvores de natal e bonecos de Papai Noel tomaram o lugar da representação do nascimento de Jesus em várias casas comerciais e em residências. Mas, recentemente, o resgate cultural e religioso tem retomado o interesse referente ao assunto.
Originário da palavra “prosepium”, que do latim significa estábulo, curral; o presépio representa a cena de adoração ao Menino Jesus na manjedoura, acolhido por Maria, José e os pastores, que estavam com seus rebanhos, na gruta de Belém.
A coordenadora da Centro de Estudos Folclóricos Albino Luiz Caldas (Cefalc), Yza Fava de Oliveira, realiza há mais dez anos exposições sobre o tema. A pesquisadora acredita que o valor religioso foi o principal fator para a retomada para este hábito natalino.
“No natal só era montado o presépio, mas, a partir década de 50, começou a surgir a influência da árvore de natal, além de outros elementos que foram sendo introduzidos. Estes novos símbolos se transformaram em um contra-ponto à montagem do presépio. Porém, agora está retornando um pouco a valorização dos presépios, das lapinhas e do alto de natal, que é mais ligada à religião”, analisa Yza.

Religiosidade
A pesquisadora aponta que a cultura e o imaginário de cada povo deram características diferentes ao presépio. Porém, todos retratam de forma artística o nascimento do Menino Jesus. A história e a religiosidade permearam a tradição do culto durantes os séculos.
Narra a bíblia que, para participarem de um recenseamento convocado pelo imperador romano César Augusto, José e Maria saíram da cidade de Nazaré e se dirigiram para Belém. Sem ter onde ficar, o casal abrigou-se em um estábulo dentro de uma gruta, na noite de 24 de dezembro. Virgem Maria deu à luz ao Menino Jesus, que foi colocado numa manjedoura coberta por palhas, tendo ao lado pastores, jumentos, vacas e um galo.
A notícia do nascimento fez com que pastores dos arredores viessem visitá-los. Seguindo a estrela-guia, os três Reis Magos (Gaspar, Baltazar e Belchior) chegaram ao local do nascimento, para ofertar ao Menino Jesus presentes, ouro, incenso e mirra.

História
Foi São Francisco de Assis, em 1224, o primeiro a encenar , de acordo com o Evangelho, o ambiente da Natividade de Jesus. Nesse ano, em vez de festejar a noite de Natal na Igreja, como era de hábito, São Francisco celebrou em uma gruta em Créccio, localizada num bosque na Itália, para onde mandou transportar uma manjedoura, um boi e um burro, além de imagens esculpidas em argila, madeira e pedra, para melhor explicar o Natal às pessoas comuns da localidade.
A representação simbólica do nascimento de Cristo foi bem aceita e generalizou-se nas comunidades franciscanas. A Igreja e as famílias cristãs assumiram a tradição, que se espalhou pelo mundo.

Brasil
Em 1391, segundo estudos do Frei Luiz de Souza, eram montados presépios em Lisboa. A tradição chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, pelas mãos do frade Gaspar de Santo Agostinho, que introduziu o presépio em Olinda, (PE)

Santos
Em Santos, alguns presépios ficaram famosos e ainda remetem ao saudosismo nos mais experientes. O do Mercado Municipal atraía milhares de visitantes nas décadas de 1940/50. O presépio criado pelo artista Manoel Molina, esculpido em madeira com mais de 580 peças, era movido a eletricidade. Nesta época, várias casas comerciais no Centro armavam a representação, que, segundo aponta Yza, era o maior destaque dos festivos do comércio.
Atualmente, o maior destaque é a Exposição de Presépios realizada pelos frades do Santuário do Valongo, que este ano está na décima e quarta edição. Lá são expostos representações de diferentes regiões do mundo e das mais variadas formas e formatos. Ainda conta com a participação de artistas locais, como o Mestre Manoel Messias. Aos poucos, muitas lojas do comércio voltam a expor presépios nas vitrines, resgatando a tradição quase esquecida.
Nos dias atuais, cada vez mais novos símbolos do Natal são lançados. A pesquisadora aponta para a comercialização do espírito natalino. Embora, ela analisa que aos poucos a tradição tem voltado à tona. Os símbolos modernos do Natal não serão substituídos pelos presépios, mas aos pouco têm cedido lugar às antigas tradições. “Foi percebido que estavam caminhando em uma linha que não era da religiosidade, o que descaracterizava do Natal”, emociona-se, Yza.

Saiba Mais:

Ritual
No passado, os presépios eram montados no início do mês de dezembro. O Menino Jesus só era colocado na manjedoura no dia 24. As imagens dos Reis Magos eram introduzidas apenas no dia 6 de janeiro.
Com o tempo, passaram a ser desmontados em 6 janeiro, Dia de Reis. Todo material que ornamentava a cena era considerado sagrado, e eram queimados às 12 horas do mesmo dia. Somente as imagens eram guardadas para serem usadas no próximo ano. Na cerimônia eram cantados cânticos de despedidas e faziam promessas de refazer o presépio no ano seguinte, pois a crença popular determina que deve ser montado no mesmo espaço, durante sete anos.

Traços Culturais no Brasil
Os autos de Natal foram encenados no Brasil desde o século XVI pelos padres jesuítas, que adicionaram elementos da cultura indígena, no intuito de facilitar o processo de catequese.
Vários estados brasileiros, principalmente os do Nordeste, comemoram o Natal com o bumba-meu-boi, encerrando o ciclo de natal com o reisado.
Os presépios motivaram o aparecimento de uma cerâmica popular no Norte, Nordeste e São Paulo, especificamente no Vale do Paraíba, onde os artesões confeccionavam peças utilizando barro, algodão bambu e arames.
Por isso, levando em conta as concepções culturais de cada região, é comum encontrar, ao lado de Jesus, Maria e José, a imagem de cangaceiros com roupas de couro, caiçaras pescando, gaúchos de pantalonas, canas rurais com casas de pau-a-pique, curral, monjolo, engenho de açúcar, além de uma vegetação tipicamente brasileira.

Lapinhas – são presépios simples, que na cena incluem apenas o Menino Jesus, Maria e José.

Auto de Natal – é uma representação cênico-musical tradicional de nossa cultura popular. Neles, representam-se as figuras do ciclo natalino com a interação de personagens tipicamente folclóricos, definidos muitas vezes em função do grupo que o realiza ou das condições instrumentais em cada comunidade.

Bumba-meu-boi - uma dança do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, que gira em torno da morte e ressurreição de um boi.

Reisado – é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja a véspera e o Dia de Reis. No período de 24 de dezembro a 06 de janeiro, um grupo formado por músicos, cantores e dançadores vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam.

(Matéria publicada no caderno especial + Verão, do Jornal Diário do Litoral, em 22 de dezembro de 2007)

1 Resposta para “Presépios: um símbolo religioso que resiste ao tempo”


  1. 1 edilene Novembro 15, 2008 às 4:36 pm

    Gostaria de saber sobre a simbologia dos animais no présepio,o que eles representam.


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