O tempo rasga a face cansada de esperar. Range bravo feito cão sem dono. O tempo passa. “E, o esquecer era tão normal que o tempo parava…”. Esquecíamos de olhar nos olhos, desejar bom dia, esperar a saudade bater mais forte ao ponto de sentir dor. Mas, a ilha não se curva? O mar continua seu ciclo mesmo sem seus olhos para admirar. A lua renascerá amanhã após o pôr do sol.
Éramos corpos bailando no ar, duas estrelas perdidas em negros labirintos. Desertos. Éramos corpos celestes vagando no azul aveludado sem órbita. Mas, o tempo parou. Paramos.
Às vezes penso em liberar as portas do meu próprio manicômio. Mergulhar no meu mundo louco, marginalizado. Outras, penso que o todos estão certos e o único louco sou eu. Internaria-me como o Dr. Simão Bacamarte.
Quantas vezes quis expurgar as dores mais sombrias, os pensamentos mais imperfeitos, as saudades mais doloridas… Estes sentimentos martelam em minha mente como um sino às seis da tarde de uma quarta-feira chuvosa. Todos, apressados, passam sem ver o pedido de socorro emitido nas estrelas.
Procuro esquecer certo peso em meu peito, cenas e sensações que me torturam. Em vão, a cada fechar de olhos, como um flash, repetem incessantemente diante de minhas retinas cansadas de chorar. A dor dos mais fracos é transformada em lágrimas tristes, que ardem as vistas e rasgam a carne frágil da melancolia.
Saudade tem sabor de primavera. Mas, éramos cegos solitários tateando a escuridão esculpida em nossos rostos, corpo e mente. Éramos satélites perdidos em colisão procurando um ao outro. Achamos. O tempo parou. Mas depois acelerou-se tão veloz que não vimos o abismo que nos separa. E separamos. Voltamos a ser apenas eu e você, pedidos no curto caminho dos nossos olhares. O tempo parou.
Tocava ao fundo o som das primeiras memórias da infância. Som com gosto de Sol, com sabor de nostalgia. Você sorri em curta-metragem filmado em super-8. Em fotografias preto e branco, vejo-te correr sobre as águas.
Tempo, velho camarada.