O tempo escorre entre os dedos cansados de esperar uma solução simples para resolver todos os problemas de nossos corações. A vida passa como um trem estrangeiro em visita à terra natal. Os dias maquinais consomem tudo que nos restou da fé esquecida dos idos tempos de outrora. Seguia reto, céu aberto entre o cataclismo e o desespero. A cada dia nascente, a mesma certeza me martelava o pouco que sobrou da consciência.
Entendo, perfeitamente, as marcas de agonia que armazenava em seu peito. Tanta dor acumulada pelos desatinos e desfiladeiros de sua caminhada, que deixou sinais profundos em mim. Carrego um peso ardente fragmentado em milhares de pontos brilhantes. Em cada brilho, uma história cristalizada em uma perfeição secular.
O tempo ecoa pelas paredes pouco iluminadas das galerias da vida. Vago por um labirinto borgeano a procura dos restos e risos esquecidos. Aquece-me a difusa idéia de perder-me em seus braços e prender-me em seu sorriso enigmático. Trilhar durante a perpétua existência de sua risada apertando meu peito frágil. Suave dor que berra alto, ao ponto de ensurdecer-me. Cego, inexato, tateio o escuro reluzente do amargo gosto dos esquecidos. Nas galerias do século, sua vida, minha vida, nosso mundo.
Enquanto seu sorriso atropela minha paz roubada, inspiro o aroma agridoce do ciúme que o Sol tem da Lua. A sufocante rotina, pressionada pelos ponteiros dos relógios, fabricando tortura com a mesma velocidade de uma linha de produção, molda a tábua rasa triturada de fragmentos da virtualidade que compõem o que nos cerca. Ao lado, um retrato e flores de plástico enfeiam a saudade a me consumir aos poucos.
Sinto o cheiro que adorna as datas bucólicas do futuro. Presente tatuado em mim. O som do passado impregnado pelos cinco mil auto-falantes ao tocar, repetidamente, os trechos de uma música desconhecida. Ainda, ao fundo, ouço passos colidindo aos cotidianos dias marginais. Dor, saudade e utopias misturadas sobre copos e sorrisos. O resto, apenas máculas literais de uma imensa chama em combustão nuclear.
Ao passo que reflito sobre meu exílio embrionário, pego-me a pensar sobre as pessoas que perdem-se, que prendem-se, que vivem para pedir e querem sempre mais.