Ontem eu vi o mar. Fazia tempo em que eu não o olhava de frente, a ponto de quase molhar meus pés. Não recordo a última vez que o encarei, peito aberto e uma enorme chaga sem cura a espera de cicatrização. Era noite. Uma longa e interminável noite fria de inverno. Vento cortava meus suspiros. No marcador, cravado 19 graus. Frio absoluto apenas em meus olhos. Durante o dia, um lindo sol fora de estação. Mesmo assim, sentia o frio congelar minha fala, meu pensar, meus passos.
Precisava ver o mar, como há tempo não o via. Senti vontade de mergulhar, em um abafado e silencioso pulo no espectro escuro da Lua. Precisava caminhar sozinho, feito cão sem dono na barriga da noite. Para dialogar comigo sobre o tempo, o fogo, a dor… Precisava me encontrar.
Perdido em rotas imaginárias que meus sapatos faziam ao tocar a areia no branco encontro com as espumas do mar, vaguei em labirintos desertos dos desencontros e medos mais remotos de minha parda existência. Longe da confusão de fora, enquanto o caos urbano devorava a cidade em combustão; eu, perdido em pensamentos e memórias do passado, apenas chorava a dor de sua ausência.
Enquanto tentava manter a mente em paz e o coração tranqüilo, numa luta desumana entre o Eros e meus medos secretos, sua imagem cristalizava em minhas retinas úmidas. Passos em falso em um abismo. Meus pés sem um porto seguro e minhas mãos tentando agarrar um reflexo de lapsos de memória. Vaguei sobre corpos celestes durante uma queda interminável. Sua voz ao longe era uma música desconhecida, repetindo sem cessar dentro de mim. Em milhões de pedaços em mim, em mil, em nós.
Tentei abafar a sufocante dor que dominava meus devaneios. Disposto a acabar com tudo, lancei ao mar o lado mais belo que permanecerá em mim: o sentimento que alimentamos nestes últimos séculos de amor em evolução. Joguei-o longe, fora do alcance da arrebentação, para que o oceano aberto o deixe à deriva, sem a chance de regressar. Senti-me morto, segundo após desprender-me de meus sentimentos.
Joguei também as imagens que se formavam em minha mente. Não que eu queira esquecer nossos dias, tampouco nossos passos, mas não posso deixar no inconsciente os melhores momentos de nossa caminhada. Uma espécie de fantasma a me torturar em uma terça-feira tediosa e cheia de problemas. Lancei ao mar todas as lembranças do passado para que não voltem em um momento de grande dificuldade. E, assim, sem querer, os fragmentos de seus charmes e gestos arrancarem-me um sorriso dos lábios desacostumados a sorrir desde que deixei em águas calmas a calmaria de nós dois.
Não que eu queira esquecer o passado, mas é preciso. Na luta interna entre querer-te ou seguir em frente – como o caminho dos barcos -, perdido e confuso, peço força ao sobrenatural – que não acredito – para acalmar os sonhos abortados pelo medo oposto. Não que eu queira te esquecer, eu preciso. E luto contra isso, com todas as minhas forças semi-esgotadas. Preciso desesperadamente esquecer-te, como preciso neste instante de seu abraço e regresso; ou necessito de atenção; de todos os impulsos que Pan teme; que Eros lança à terra. O ar arde-me em labaredas vermelhas. Fogo e dor se misturam em um ciclo interminável. Sísifo em seu ardo labor. IN-VA-RI-A-VEL-MEN-TE…VOCÊ.
Pensei no fogo, pensei na dor, pensei no amor. Agora, em alto mar, nossos sonhos, nossos planos. O futuro perdido pelo medo do passado. Não que eu queria esquecer. Faz-se necessário apagar dos labirintos da memória seu rosto, seu gosto, tudo… tudo que me deixa em paz. Uma claridade viva de uma mente sem lembrança. Perdido sobre os rastros deixados na areia, esperando o mar trazer o que lancei, recolho o que sobrou de tudo. Despejo na penteadeira o resto dos sonhos…. Despejo em copos vazios a lamentável dor dos sentimentos esquecidos lançados ao mar sem memória, sem cor, sem vida, sem nada. Enquanto durmo, ouço passos escondidos no porão da alma. Verdade derretidas em douradas chuvas da consciência: você?
Amanhece mais um dia. Como sempre amanheceu e amanhecerá… Os pés sujos de areia e a roupa molhada de suor provam a existência de minha difícil escolha. Sem onde correr, ou abraço para me abrigar da chuva ácida, deito sobre o mundo, ao rumo de seus olhos castanhos: estranhos enganos! Espero que a civilização inteira se levante para, enfim, poder enterrar meu rosto embaixo do cobertor. Dormir em berço explêndido sobre a luz do meio dia. Esquecer o que tentei esquecer e acordar para ver o Sol queimando a cara. Passos imaginários no escuro. Olho em volta e você não está.