O vento sempre sopra com mais força para quem não está acostumado com o inverno. Mesmo não estando em perigo, quero que você me proteja deste inferno, me aqueça neste inverno abismal que a sua falta me faz.
O tempo passa depressa demais para quem tem pressa em colher o novo. Embora sua retina ainda registra os meus devaneios mais inesperados, sinto um vento tocar minha face. O frio que premeditava abraçou meu desespero. Talvez seja a sua falta a inebriar meus sentidos.
Sem tato ou paladar, tudo fica mais cinza, mais triste, sem graça e sem cor sem seu abraço e palavras para dividirem o pouco que sei. Não sei o que mais me faz falta, se é seu toque em meu cabelo ou a falta de sua imagem cristalina em minha mente.
Enquanto tento esquecer palavras e gestos virtuais, uma flor de plástico e uma foto de um passado distante enfeitam a escrivaninha; a qual escrevo relatos, recados e pecados em seu nome. Então, você me diz que ser feliz de fato é inaugurar o passado. E quem pode comigo quando eu digo tudo o que sinto?
É sorte saber de tudo o que se passa. Eu não sei de você, mas acho que foi sem querer. A entrega que fizemos, os passos que colidimos. Céu, sol, girassol. O silêncio e eu olho para a janela: a música é ela. Pois toda mágoa, lágrima ou sorriso só fazem sentidos sendo amparados pelos seus olhos meigos e encantadores.
E a agonia de viver se torna mais sutil sendo aparado pelos seus braços. Carinhos que à noite, mesmo cansados, recolhem meus pedaços e abraçam meus pecados ao torno de ti. Meus pedaços tão cansados que mal conseguem suportar a barra de viver sem você.
Enquanto caio de uma altura imensurável que é o amor, na queda, observo o passado como uma repetição do futuro. Em um mundo em que milhões de imagens explorem, um minuto de silêncio é um alívio momentâneo às dores de outrora. Mesmo não estando em perigo, quero que você proteja meus olhos cansados de te esperar. Mesmo em um abrigo, quero estar contigo quando a chuva chegar.