Fragmentadas cenas se repetem à exaustão. Palavras frias em voz de veludo colidem ao medo repentino de ter o que não se pode tocar. Ouço uma canção triste. Uma espécie e ópera a narrar traços de meus relatos. Sentimentos incompletos e histórias inacabadas. A vida sem freio cega para pequenos milagres cotidianos. Leva-nos para um lugar desconhecido: ao mesmo tempo em que é sombrio, saltam aos olhos a beleza latente dos encantos escondidos no misterioso. Repetidas frases, subentendidas intenções.
O segundo que antecede o medo, a paz roubada de quem desmoronou. Se tudo muda o tempo todo, mude-se para dentro de mim. Não, não é saudade em demasia; tampouco relatos ordinários confeccionados pela dor. Imagens explodem em um mundo governado por anti-heróis. Atravesso a noite interminável com algumas melodias suaves em minha cabeça. Torturantes horas em que busco o sono perdido. Entre versos perdidos e flores, rabisco no espelho nomes e palavras soltas. Não acendo a luz nem procuro me alimentar. Uma canção triste embala a falta de sorriso e o medo do pecado.
Vou perder-me no centímetro exato de seus delírios e subtrações não resolvidas. A matemática e seus mistérios; o silêncio absorto em seus lábios. Palavras não ditas e frases incompletas mostram-me em um mosaico de acontecimentos da fria realidade escondida em seus olhos castanhos. Fantasias deixadas no travesseiro ao som ensurdecedor do despertador, que rouba os melhores instantes do sonho. Mais um longo dia sem poesias e flores pelo chão. A realidade entorpece as vistas cansadas. Pego o telefone para te contar um sonho ruim. Desisto antes de discar o primeiro número. Afinal, vai valer?
Enquanto preocupo-me em saber se vai chover; num segundo de distração pego-me a pensar em você. Não que eu quero torturar-me ou encontrar um culpado. Apenas revi seus sorrisos entre outdoor antigo da avenida. Escrevo cartas repetidas e uso palavras iguais na tentativa de traduzir sentimentos contraditórios. Assim, antes do amanhecer vejo nove luas a clarear o breu. Concebo e descubro respostas; metade é mentira e a outra metade, inventada.