Há tempos que o Selton Mello se destaca como um dos principiais nomes do novo Cinema-Novo brasileiro. Em “Meu nome não é Johnny” (Mauro Lima, Brasil, 2007) ele se supera. E não brilha sozinho, todo o elenco está no mesmo tempo, no mesmo clima, sob a mesma luz. Enfim, a magia no cinema acontece.
O Filme, baseado no livro homônimo (Guilherme Fiuza, Editora Record), narra a história do jovem da classe-média carioca, João Guilherme Estrella, que no anos 90 se tornou o maior “barão” do tráfico do varejo de cocaína.
Estrella é o anti-herói de uma geração regada pelo excesso. A liberdade repentina, após anos de censura, desinibiu e exorcizou o medo escondido da juventude tupiniquim, que caíra no desbunde um tempo antes, logo após que perdera a utopia.
É um filme que fala da perda dos valores. Que nada, na realidade é um filme para quem nunca teve uma visão clara do que são valores. Acima do bem ou do mal, Estrella viveu uma vida de sonhos, pelo menos de boa parte da juventude classemediana brasileira. Festas, amigos, mulheres, viagens, dinheiro para gastar, excesso de drogas, poder. O mesmo mergulho raso de um “aviãozinho” que cai no tráfico, em cima dos morros e longe dos olhos da opinião pública. A diferença entre os dois é o mundo que os separam, a vida que os separam, os dramas que os separam. Para um é o único meio se sobrevivência, para outro é a alienação.
O que Estrella colheu do tráfico. Nenhum bem material. Nada, além de passar meses na cadeia e dois anos de tratamento psicológico em um manicômio. O filme mostra um retrato escondido de nosso pequeno medo, que a nossa retina tabulada não quer ver. A geração “maio de 68” quis mudar o mundo pela porta da frente. Em resposta, a geração posterior que conquistá-lo, pelo elevador social de um condomínio de luxo. Infelizmente o caminho mais torto. Quando preso, precisava de uma segunda chance. Teve. Recuperou-se. Hoje é um homem de bem. Valores tão estanhos em um mundo de guerras nucleares prestes a explodirem. Em um planeta com mais de 55 guerras civis acontecendo nos quatro cantos do planeta. Em um mundo que embala Africa em um único pacote, que há intolerância racial, social, cultural, religiosa. Realidade de um universo em que morre-se de fome, não pela incapacidade produtora, mas pela exclusão social.
No mesmo instante, pensei em todos que não tiveram a oportunidade de serem recuperados. São julgados sumariamente, sem ao menor poderem ter o direito (perante a lei) de responder, de cumprir o que o código penal prega, de serem incluídos na sociedade. Morrem pelo poder do tráfico, morrem pelo poder dos homens, morrem pelo poder da imprensa, morrem pela falta de poder. Morrem.
Estrella foi o retrato de uma geração que, sem utopia, perdeu-se no ostracismo da individualidade. A figura central do filme não é o tráfico, não está em jogo a moral cristã-católica. A personagem principal do trama é a fragilidade infiltrada embaixo dos olhos comuns, é a linha tênue que separa, aos olhos de uma sociedade centrada no poder econômico, o bem do mal. É um salve-se-quem-puder que tem absorvido as forças transformadoras da juventude. É o egoísmo latente imposto pelo mercado competitivo.
O “Johnny” do título poderia ser substituído por qualquer outro nome, mas figuraria como palco de um pacote enquadrado e tabulado, de um período taxado em geração 80. Ao anti-herói restam agora a história para contar, o livro, o filme e a vida pela frente. Para a juventude atual, e também a anterior, restam o gosto azedo do excesso de hedonismo e a amargar atrofiador das utopias perdidas.
