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Nem todos os sonhos se desmancham no ar

Leve-me para onde seus olhos possam me proteger deste amargo e escuro desfiladeiro que se aproxima de meus passos cansados e desamparados de proteção. Por algum motivo, insisto em reinventar histórias adormecidas sobre o travesseiro. Algo encheu meu coração de sentimentos incompletos; pediram-me para não chorar: foi inevitável. O mês voando e a velha chama a queimar a derme novamente.

Agora que envelheço anos a cada dia, procuro a paz roubada reinante em minhas fantasias mais secretas. Onde esteve o tempo que deixava minhas feridas expostas ao sol? Crianças, acordem antes que seus sonhos se tornem tão breve quanto uma chuva de verão. Sigam seus erros a provocar tempestades por causas justas. Não se prendam as horas mortas, que enferrujam as engrenagens de nossos corações a cada gesto bom.

Perdi-me em curvas provocadas pelo meu insano medo de errar. Voltas incompletas e repetições em mesmo tom sobre as poucas migalhas envelhecidas em cima da mesa. Na sala de jantar, estranhos conversam banalidades. Eu, com o correr dos olhos, sigo a movimentação de fora. Um dia será apenas um breve relato. Um corte profundo na carne. Arcos de fogo cruzam o céu em chamas. Em poucos instantes, o cinza tornou-se vivo em mim. Com minhas flechas e relâmpagos, posso ver como serei no futuro. O desenho que se cerra em minhas vistas não é nada animador.

Passos incertos e a improvável certeza de um novo amanhecer. Lúcido, sei que não há nenhuma saída para estes labirintos imaginários e regressos para o lar depois da madrugada morta. Então, deixo meu cabelo crescer e tento esquecer tudo que aprendemos a nos acostumar sem duvidar. Nem todos os sonhos se perdem no ar. Conforme a madrugada se aproxima do final, ouço sua voz a entoar uma sutil melodia dourada. É a canção que não me acompanhará na manhã seguinte. Nada mais está escondido diante de suas retinas.

Foi pelos ares!

Levo branco o seu sorriso tatuado em pontos escuros da cidade: entre o cinza opaco de construções incompletas e anúncios iluminados de arranha-céus, escuto acordes dissonantes nas alamedas das quais fui mais feliz. Ouço-te cantar uma sutil melodia. Durma enquanto o dia desperta para as rotineiras repetições de palavras e gestos. Garota, você conseguirá carregar este fardo por tanto tempo assim?

Em suas palavras, deixava transparecer algumas dúvidas que pairavam no ar. Como as rápidas cenas de um filme sem nexo, fragmentados sentimentos se desenham no quadro branco que tentava compor. Nesta tela triste, remotos relatos pincelavam a paisagem e o chão forrado de folhas decaídas da última estação. Não tenha medo, o vento sempre sopra com mais força para os que não são acostumados com o Inverno. Então, deixe a brisa molhar seus olhos e nos fazer acreditar que o sol voltará em breve. As árvores eram mais altas quanto tínhamos cinco anos. Vem iluminar o deserto que nos cerca enquanto o dia se extingue.

Eu nunca te dei meus sonhos mais perturbadores. No meio das celebrações tolas, apenas convidei para adentrar em meus devaneios. Sobre os ombros, pesa a ausência de algo ainda disforme, uma espécie de reconciliação com os pecados do passado. Eterno caminho das águas. Acompanhava o amanhecer de forma bucólica, como se fosse a primeira vez que via os raios solares surgindo para o novo dia. Sigo, mudo, pelos percalços deixados pela excessiva timidez. O silêncio de minha retórica guarda o significado de uma tormenta vindoura. Eu desabei.

No momento em que o mundo explode em milhares de manifestações desencontradas e eu apenas penso em seu sorriso como uma maneira de reencontrar o arco-íris antes que o dia termine. É uma dor que não se esconde com falsas demonstrações de aparente tranquilidade. Como uma espécie de despedida; a arte de desprender-se das falsas demonstrações de carinho repentino. Procuro seus olhos em uma forma de recriar, em doces lembranças, novas sensações. Certa vez, houve um caminho que nos levaria para casa. O que, afinal, foi feito com isso tudo? Foi pelos ares!

Insisto em escrever relatos em voltas e labirintos incompletos. A poesia não passa de uma forma de se exonerar aos poucos: antes do derradeiro pôr-do-sol, sei que vou reler por várias vezes a sua risada. É um conforto momentâneo diante de tanta imagem que explode. Para me abrigar da chuva ácida, quero me esconder por detrás de suas retinas, em um ponto em que possa ver o mundo cada vez menor. Uma pergunta martela minha cabeça: você estará em meus sonhos esta noite?

O túnel

Insistentemente o telefone toca. Atendo. Do outro lado da linha, uma voz sombriamente conhecida me diz entre soluço: alô!
Ainda atônito, olho para o rádio-relógio a me informar que ainda estamos no meio da madrugada fria de inverno. Respondo: oi!

– Tenho pensado em você de uma forma que não se limita ao que sou.

Ainda sem saber com quem estava a falar, contesto com frases soltas, como a me reencontrar depois de uma imensa tempestade vindoura.

Do outro lado da linha, aquela voz sombria e familiar relatava acontecimentos até então adormecidos.

– Estive fora uns dias. Estava fora de mim, de ti, de tudo que fizemos juntos. Do nada que nos separa. Onde esteve quando me perdi de você?

Ela me perguntava justamente o que eu procurei entender neste tempo todo. Longos dias frios e maquinais, a repetir exaustivamente os mesmos percursos. Cada dia era fatal.

- Não sei o porquê de você me diz isso – respondo. Justamente agora que não há mais a indagar por estas respostas. Neste tempo de exílio que me mantive longe de suas retinas, aprendi a representar uma felicidade que não tenho. Sorria para os outros como a alimentar uma alegria que nunca esteve estampada em meu sorriso lacônico. Sorria para disfarças as cicatrizes deixadas com a sua ida ou o seu regresso. Agora, você …

Ouço-a fungar, como a amparar uma lágrima que teima em rolar nas horas mais impróprias. Ela emenda:

- Nunca se arrependeu de algo que fez? Ou ainda continua com a sua soberba mania de achar que seus sentimentos são mais valiosos que os dos outros? – disse, aos berros, na remota tentativa de esconder a voz embargada pelas lágrimas.

Engulo a seco uma resposta atravessada, que normalmente falaria nestas ocasiões. Calo-me, em uma auto-análise das parvas insensatas atitudes que tive até então. Ela continua, agora com a voz aveludada e doce.

- Senti-me perdida, da mesma forma que se sentia e nunca o entendi. Agora compreendo a confusão que eram seus passos tortos. Por que se calava quando precisava se abrir? Por que relatava suas mágoas a quem nunca teve a sensatez de entender os labirintos de sua alma? Por que, afinal, nunca confiou em meus conselhos? Sempre tão auto-suficiente em seu egoísmo cético, que se esqueceu de ajudar a quem mais precisa: você.

Suspiro… queria encerrar aquela conversa insana e inoportuna. Falo:

- Está bêbada? Ligar a esta hora e para nada falar, a não ser para me derrubar em um mar comum que eu mesmo me joguei… O que quer afinal? Minha cabeça como sobremesa? Entre, sirva-se à vontade. Hoje o prato da casa é a minha dor. Experimente.

- Ironia sempre foi a sua arma mais apaixonante. Somente os inteligentes conseguem a usar de uma forma tênue, quase poética. Você é um dos poucos que me fez enxergar isso.

– Não exagere – como um tolo, respondo a única frase que me vem à mente, no instante que tento afastar o sono. Desperto para a vida!

Ela diz:

- Não estou bêbada, embora tenha motivo para me embriagar todos os dias, principalmente ao cair da noite. Nessas horas, a dor é mais forte e nos entregamos aos vícios. Da mesma forma que você fazia e eu não o compreendia. Para falar a verdade, eu nunca o compreendo. Talvez seja esse o grande mistério: o labirinto multicolor que me envolvi a ti. Sem nunca o entender plenamente, mergulhava de cabeça para saborear a queda livre até seus passos contraditórios. Eu acompanhava de uma janela com vistas ao mar o seu suicídio perante a vida banal… Renunciava-se sempre contra o senso-comum.

Silêncio.

Por um breve instante, vem à mente o momento de desespero que, sem alternativa, retirei meu cinto e tentei me enforcar. Na cena seguinte, vejo minha mãe ajoelhada e com o terço nas mãos, pedindo proteção aos seus santos católicos pela vida de seu filho errante. Ouço velhos cânticos, como sinos a badalar em minha cabeça e a me mostrar as iniquidades cometidas no passado. Passos incertos e uma vontade de deixar os caminhos livres fluírem as próximas jogadas.

- Andei em linhas tortas, quase em círculos concêntricos – respondo. Quando mais precisei de ti, não que devemos projetar nos outros as passagens mais amargar, você disse que precisava cuidar sozinha de seus passos. Passei por medos, momentos de inseguranças, solidão em ponto de dor. Você apenas sorriu e disse que precisava devorar o mundo. Nesse instante, o mundo todo desabou em minha cabeça. Mesmo assim, aprendi a deixar a ferida aberta e seguir em frente. Acumulando dores, medos, solidões, desamparos e desesperanças em um único turbilhão. Para amenizar estes sentimentos confusos, afogava-me em vícios rasos: trabalho excessivo, álcool, solidão dos amigos, noites de insônia em meio à cidade em combustão. Você apenas ria, enquanto eu tropeçava pelo chão com uma garrafa de rum vazia.

Naquela altura, remeto-me a lágrimas de minha avó em um momento de despedida, um abraço antes de colocar o carro na estrada de volta à confusão e para a solidão das grandes metrópoles. Em cenas repetidas, me vejo voltando para casa, em busca de um abraço materno. Uma redenção longe de um final feliz.

- Eu sempre me entreguei a remotas tormentas, como um marujo frente ao mar. Desesperada diante do abismo que nos cercava cada vez mais e amedrontada com as correntes que nos arrastavam, saltei enquanto dava tempo. Confesso, foi o medo de te perder aos poucos que me fez arrancar esse sentimento de uma só vez. Dor instantânea e ensurdecedora, mas que um dia cessa. Ainda guardo cicatrizes profundas que, acredito, nunca irão se curar. Por que não me perdoa e faz cicatrizar as marcas que me fizeram ser o que hoje sou?

- Quando minhas feridas estavam expostas, jogou sal para arder na carne a dor que trazia. Fez-me envelhecer anos a cada dia que esteve distante. Hoje, trago marcas amargas no rosto, na boca, na alma. Não durmo em paz. Esqueci a áurea que deixar se apaixonar por uma música, um poema, um filme… Não me recordo do gosto do amor. Não a culpo, desculpo-te em mim. Mas um forte medo ainda cintila nos meus olhos quando me vejo frente ao que poderia ser chamado de felicidade. E por quê? Pergunto na minha mais insana ignorância: por não ter que repetir as cenas de alegria que compartilhamos em outro rosto, exceto ao seu.

Limitou-se a me ouvir. Com a boca velada, como a assistir, bestificada, uma ópera no Municipal. Em seus trajes de gala para aparecer pertencente de uma pequena elite burramente dominante a viver, socialmente, de aparentes demonstrações de suas insignificâncias intelectualidades. Boçal como a maioria dos comensais, sorria com uma taça de vinho em mãos, sabor que não soube apreciar. Continuei…

– Em seu egoísmo homérico, esqueceu-se de perguntar como seria o amanhã. Quis a liberdade, mas ela não é aceita de braços abertos e sem cobrar pelos préstimos feitos. Tem seu preço sujo e implacável. Cobra caro pelos passos distraídos dos desventurados. A coroa da liberdade está salpicada com o sangue, a lágrima e o suor dos que desafiaram suas ardilosas regras. No final, somos todos reféns de um sistema falho. Presos pela eterna sensação de sermos livres… assim na terra como no céu.

- Eu te procurei no vento, eu te procurei em outros rostos, outros portos, outras rotas, outras voltas. Reencontrei-te em mim num dia escuro e úmido, depois de uma sessão de cinema ordinário, naquele cubículo que sempre adorou. Eu detestava ir naquele antro de cinéfilos babacas, que nunca entendiam os filmes que assistiam. – disse-me.

Ainda com raiva no tom da voz, continuou:

- Reclamava de minhas inúteis vaidades, mas seus vícios burgueses como cafés, cinemas europeus, culinária sofisticada e vinhos caros não te fazem uma pessoa melhor. Apenas mais interessante e, para certas mulheres, quase irresistível. Esta mistura de quem precisa de atenção com a docilidade de suas palavras, seus acalantos e confusões te fazem mais belo que o realmente é.

- E para quê? Para que me ligar em um dia em que eu não estou mais em mim. Quando se foi, senti-me sozinho e sem tem com quem confiar. Desacreditei do que seria capaz. Mesmo assim, a cada dia sorria para os vizinhos apenas para mostrar a eles que tudo estava bem. Para esconder meu rosto triste, recolhi-me em abraços momentâneos e desesperados. Encarei a morte na sua face mais cruel. Perdi cabelos, mas não a teimosia.

- Eu não sei viver, convivendo com a sua falta. Tenho pressa do novo, o imediato instante que seus passos seguiam em direção os meus sonhos mais secretos. Sua boca a relatar seus estranhos medos e seu toque em meu cabelo para me falar que tudo ficariam bem, quando eu me desesperava. Calado, engolia a seco as mágoas que habitavam seu espírito. Eu sempre me senti num labirinto imaginário, que me devorava aos poucos, nos raros momentos ao seu lado – ela disse.

- É fácil recontar o passado, pois sempre recriamos pela nossa ótica. Não vivíamos em labirintos. Andávamos em linha reta, cada um em um túnel com caminhos distintos. Nos encontramos no meio do trajeto. Breve momento eterno. Foi…

“Preciso desligar”, ela disse. O sombrio som de sua voz deu espaço ao tom da linha telefônica. Minha vontade era arremessar o aparelho contra a parede. Limitei-me a desligá-lo. Tentei reencontrar o sono, da mesma forma que, no passado, me esperancei em seguir nos trilhos certos instantes depois que ela se foi. Ecoava na cabeça suas frases rotas e o mantra que recitei apenas para me afastar dos perigos que me rodeiam por imaginá-la novamente em mim. Viver era perigoso. A cada curva, uma nova aventura nesta escura estrada rumo ao desconhecido nada.

Ecos de um mundo em silêncio

Tateávamos no escuro os nossos reflexos repetidos na alma do outro. A falta de palavras nos fazia companhia, da mesma forma que nossos corpos se enlaçavam no frio da madrugada interminável. A paz roubada tão longe de uma redenção sem fim. Dias passavam e o vazio consumia as vistas cansadas de cenas repetidas dos corriqueiros passos no escuro. Fechava os olhos para não encarar as verdades expostas em sua boca velada. Esquivava de seus olhos suplicantes por repostas, que não poderia explicar com palavra vazias, repetidas, sem embasamento teórico… Frios vocábulos, inúteis passagens.

Procuro em meus restos algo que nunca esteve presente em mim. A vontade de conquistar o mundo pelas portas dos fundos deixou-me vícios indecifráveis: partida e despedia; o regresso antes mesmo da viagem; o sonho derretido em horas incertas. Pego-me a reler devaneios imprecisos enquanto acompanho as cenas repetidas dos próximos acontecimentos. Sei que caminhará dias em dúvidas; na sequência de diferentes naipes, apostará ambiciosamente contra a sorte comum. Depois, pedirá a conta e abandonará o salão principal em salto alto e ar esnobe. Na manhã do outro dia, se despedirá dos comensais.

Persigo seu rosto sobre escombros da fragmentada memória: uma noite e tudo volta ao mar insólito das sensações imperfeitas. Esqueço as horas mortas, os segundos sagrados que fecho os olhos e tento dormir novamente. Um pouco de ar, por favor! Em poucas palavras murmuradas, um silêncio ensurdecedor estrangulava o resto dos sonhos esquecidos, que nunca mais voltarão. Pesa sobre a penteadeira um retrato em cores apagadas a modurar seu sorisso irônico. Como a uma película, águas calmas em um dia de sol contrastavam a taciturnidade de seus olhos cândidos e desesperados. Você gargalhava em momentos de desespero, repetia sem fé ou esperanças frases rotas e cantava para esquecer as dores. Sorria na hora errada no inútil tentativa de disfarçar o desespero repentino. Unhas roídas e esmalte borrado. Seguia. Eu fiquei na contramão dos acontecimentos que nos uniam. Parti, para nunca mais me reencontrar.

As luzes da cidade demarcam as ruas sem saídas que teimosamente tentei desafinar o coro dos contentes. O paradoxo das despedidas intermináveis. O tempo deixou marcas em nossos corpos, como as quentes armas disfarçadas da alegria mediada. Escrevo nas paredes do mundo com letras garrafais e em poucas palavras o silêncio anacrônico que atravessamos nos últimos tempos. Sobram vozes, mas falta conteúdo. O infinito abre seus braços perversos com vista para o mar.

O castelo dos destinos

Longa noite sem sono; pesa sobre os ombros a ausência de algo ainda inclassificável. Uma espécie de saudade de acontecimentos que estão por vir. Na memória, pensamentos imperfeitos e incompletos. Fragmentos do passado misturados com os próximos passos em direções opostas. Contraditórios sempre foram meus devaneios mais interessantes. Creio que me acostumei a esquecer os sentimentos ainda em estado embrionário.

Ao senso comum, ilusórias sombras sem um espectro visível. Forma e conteúdo imprecisos ao passo que se escondem por detrás de cortinas concebidas pela imaginação fértil. Improvável, impossível, inalcançável aos olhos nus e sentimentos desencontrados. Ligações invisíveis, redes imagináveis. Suave tormenta e retorno ao lar. Sejam bem-vindos, mas regressem ao mar raso de sensações insólitas e momentâneas antes que a dor torne-se insuportável.

Sobre nove luas, gritei sem força seu nome em uma noite fria. Nada permanece inalterado sobre os trilhos de comedida tempestade. Calmaria provisória. Amanhã tudo voltará à velha rotina: morte e vida; encontros e desencontros; lua e sol. Bendita voz a sussurrar palavras doces e mentirosas aos meus ouvidos desacostumados com a realidade dura e imposta pelos padrões de consumo. Suas verdades inventadas me fazem acreditar que são respostas e manifestações do coração. Antes viver de esperança que perder a certeza de tudo.

Lavo as mãos e deixo sobre a alma o que não se pode interromper. O que nos aproxima, afasta-nos involuntariamente com a mesma intensidade, talvez com um pouco mais de força. Nesse vetor, o tempo dita as regras sujas. Polos magnéticos que se chocam em um espaço sem gravidade. Suspenso no ar. Reflexos de uma noite desprendida sobre vultos. Empilhada em cantos escuros da alma, a soberba reflexão incorreta sobre quem sou. Minhas abstrações se limitam a nada definir com profundidade. Nos destinos cruzados, castelos envelhecidos permeiam caminhos emaranhados pelo acaso. Por descaso, espero sua volta, da mesma forma que aguardo meu reencontro.

Do mais, estou indo embora do campo de sua visão, apenas para resguardar o que restou das velhas lembranças. Recordações de alguns abraços, fotos espalhadas e sua imagem cristalizada em minha retina. O que restou de vastas sensações que nos permearam por anos: a ausência, a dor, a saudade, seu retrato na estante e a redenção dos pecados não cometidos. Ficaram as palavras soltas no ar. Como bolhas de sabão, após breve elevação, esvaem com o vento.

O tempo diminui com a intensidade que os pensamentos incompletos controlam meus passos ao acaso. Com o cuidado necessário, preocupo-me com a saúde e equilibro uma dieta que não será cumprida. Tardios reflexos da consciência, por instantes tive a sensação nítida que estava ao meu lado. A sua presença se faz necessária em ocasiões em que não me encontro em mim. De exato, apologias deixadas de lado e outras utópicas revelações sobre as invisíveis teias que controlam o mundo. Feridas abertas pelo tempo e a vontade de cura instantânea.

Depois da vertigem, a volta

Partes perdidas de uma calmaria desejada. Sobre o mundo, caminho vislumbrando seus suspiros esquecidos. A paz roubada tão perto de voltar ao princípio, quando tudo era utopia ou um lindo sonho inalcançável. Inexatos instantes a contemplar as horas mortas. Enquanto a roda-gigante que gerencia o universo gira, vagamos pelas lentes cristalizadas e olhares infantis. Meus olhos vermelhos e o medo de se entregar.

Perto do fogo, longe das lágrimas de um recinto de outrora. Mar e sol que se unem em um ponto perdido no universo. Volte do lado sombrio da lua e me encante com seus mistérios, que me devoram aos poucos. Um pouco de luz. Ar, por favor! Rascunhos de histórias inacabadas e imperfeitas transcorrem em passos lentos a me conduzir. Perigos e sinais de vida vindos de um passado opaco. Medo e desejo misturados. A saudade transmuta em sabedoria e dores solidificadas. Pelos reflexos do espelho, te vejo a dançar em um ritual. Mitologicamente, você a enfeitar meus pesadelos mais sombrios.

Aproximo meus anseios a suas mãos cândidas. Olhos e pele próximos a acontecimentos recentes e expectativas de ações vindouras. Pesa sobre os ombros, a necessidade quase que vital em alinhar seus impulsos a meus pulsos cansados. No momento de ir embora, resolvi voltar. Esqueço traumas, dores e sonhos sobre a penteadeira e parto para mais um dia sem flores, sem poesia. Como entregue a um amor remoto, sem conseguir um direcionamento aos meus passos, saio para salvar o mundo. Rostos e gestos trazidos pela maré. Depois da vertigem, a volta.

Palavras não ditas

Guardei o retrato seu que mais gostava entre as páginas de um livro de contos reunidos de Murilo Rubião. Não como metáfora às questões existencialistas, apenas para me refugiar das decisões contrárias. O sorriso que me iluminava adormece, agora, entre o canto empoeirado e as antigas leituras na estante de meu quarto. O amor é isso: poeira, vestígios de sorrisos e uma imensa saudade a enfeitar o mosaico que nos cerca.

A emoção parece ter chegado ao fim. Ver-te caminhar perdeu a importância. As imagens vão se apagando da memória rarefeita. Voltas incompletas de um caleidoscópio a girar sem órbita. Fora do ar em vastas sensações esquecidas. Irônico destino fadado a seguir em linha reta quando o mundo insiste em caminhar de forma cíclica. Sol, girassol a girar…

Cada face da lua guarda um mistério. Seus olhos e palavras duras eram enigmas que tentava decifrar a cada novo ciclo lunar. Disposto a ser devorado, perdia o pouco da paz reinante de desencontros do passado. Com gosto de framboesa na boca, imagina ser dias especiais. Foram. Mas partiram. Nem o frio ou a falta de assunto foram capazes de afugentar os corpos cansados de promessas esquecidas.

Enquanto você ria, o mundo parecia parar. Problemas deixavam de existir apenas por ter as imagens de seus olhos cerrados e lábios abertos cristalizados em minhas retinas. Pego o livro que repousa sua foto, mas desisto instante antes de abrir a página certa. Ver seu sorriso puro, estampado em cores límpidas e registrado em um momento de felicidade plena, seria um golpe certeiro ao dilacerado coração ofendido. Deixo repousar na eternidade de um segundo a repentina inspiração. Seu sorriso emoldurava a corrente que envolve o amanhã.

Foi o tempo de fechar os olhos e dormir. Breve pluma a voar pelo ar, com a mesma intensidade que veio, partiu sem deixar sinal. Varres esfinges em cruzadas épicas. Triste mundo em que se vangloriam estadistas e guerreiros. Em meu cenário ideal, artistas vadios e poetas boêmios governariam os corações solitários. O arremesso mortal da saudade que sentirei do amanhã.

Há ocasiões que o sol se esconde entre nuvens indefinidas e carregadas. Em outros momentos, é a chuva a molhar a roseira no jardim. O cheiro que exala e as cores ressaltadas fazem-me recordar as notas musicais de uma antiga canção que me acompanha desde os cinco anos de idade. Escrevo porque não sei compor músicas. Talvez nem saiba transpor em papel o que se passa em minha cabeça.

Mas, você teimava em ser essa menina distraída que vacila diante de tudo. Eu, enquanto isso, tentava equilibrar a insegurança com o medo do escuro. Espelhos multicoloridos refletiam em uma realidade criada a epopéia seguida pelo infindo espaço de nós dois. A diferença, como sempre, era a sua desconfiança cética de tudo e a minha falta de fé. Mentindo, seus olhos me confidenciaram que necessitava de uma nova dose do novo. Você, pela clarividência de meu rosto, percebeu que eu aguardava o derradeiro amanhecer.

Em bolhas de sabão sopradas por uma criança enquanto esperava o tempo passar até se tornar adulta – e fria como todos aos amadurecidos –, reflexos recriavam o que fui até então. Nuvens cobriam o céu em que o sol lutava friamente para raiar. Eu olhava as bolhas de sabão a desafiar a gravidade e pegava-me a pensar sobre a vida: sábias palavras não ditas e as expectativas deixadas sobre o travesseiro.

Em leve satélite

O telefone a tocar sem a mínima esperança de ouvir sua voz do outro lado da linha. A vida passa rápido demais. Fecho os olhos e parece que foi ontem. Ao mesmo tempo, tantos encontros e desencontros, beijos e despedidas, gritos e sussurros… tantas coisas ocorreram desde então. Há quem chame de acaso, outros de ironia do destino; fato é que não creio na existência de tais redes invisíveis a controlar nossos passos. Existem a lua e a maré, mas também há remédios para dormir. Retrato instantâneo de um cotidiano não vivido; flores deixadas sobre o túmulo e o medo de reinventar o futuro remoto. Uma cápsula do tempo guardada no fragmentado (in)consciente coletivo. A bifurcação dos sentimentos. Janela da alma em formas homeopática. Por ondas via satélite, enxergamos um mundo formatado pela tábua-rasa do senso comum. Incomum abrir os olhos e analisar a realidade opaca que nos cerca. A vida sem freio, sem pressa, sem sonho, sem expectativa e alegria nos prega um sorriso irônico. Pelos cantos de olhares sombrios, via-se o resto de esperanças perdidas escoarem pelo ralo. Numa dança macabra, a realidade misturava-se com escombros de uma noite de insônia e sentimentos desfeitos.

Deixo a cama sabendo que terei um longo dia sem poesias, flores ou alguém a me esperar. Corro contra o relógio para me alimentar na hora certa, ser pontual aos compromissos, não esquecer de pagar as despensas mensais e lembrar de datas que não me remetem a nada. Luto, diariamente, contra o gigante medo no intuito de manter a cabeça ereta, a coluna reta e o coração o mais tranquilo possível. Cogito: entre o ébrio e o inexato, o sombrio e o inacabado, o abatido e o derrotado. Para saber o que se passa ao meu redor, ligo a TV e esqueço das preocupações pertinentes sobre meu relato. À taba de índio pós-catequizado pelo moderno desejo da companhia midiática. Cabos de fibra ótica e sistemas complexos de transmissões digitais vomitadas, friamente, entre o fetiche tecnológico e a solidão mediada. Do outro lado do mundo, sequer sabe de minhas angustias e lamentações.

Sobem as cortinas e um novo mundo desce pelos desfiladeiros da inconsciência. Tenho a chave do jogo na palma das mãos. Incapaz, deixo escorrer como areia ao vento os meus desejos e esperanças. Caem folhas, despedem da vida no ápice de seus impulsos. Acompanho pelo calendário deixado, involuntariamente, sobre a mesa o correr acelerado dos dias maquinais. Revir a areia da ampulheta escorrer, face sombria, pelo largo orifício. Cada dia, um ensaio dramático para o último ato, a última cena, a última fala. O adeus definitivo ensaiado a exaustão diária. Guiado pela sequência de diferentes naipes e cores, deixo o destino jogar as cartas. Não por acaso, faz as maiores apostas; é detentor do melhor carteado e controla a banca. Num desatino cruel e desenfreado, vence quem sabe mentir com o rosto alvo da verdade.

Esconde entre os dentes um amor definitivamente abandonado. Um anjo solto escreveu em minhas mãos: sairá a salvo, sem vida; mas não terá nada para citar. Desta janela, sozinha, olhar as luzes da cidade lhe traz calma. Sorria quando o choro era a única vontade que sua alma emitia. Fez-se uma dor cicatrizada em alto-relevo em seu coração. Pelos anúncios luminosos da orla da praia, seu olhar sem brilho segue em busca de algo inclassificável. Desatino e dor sem cessar. A rigor, o passo seguinte se confunde com o caminhar do passado. Segue em frente sem saber a próxima jogada. Dados a rolarem sobre os degraus dos destinos que se cruzam no tempo. Amanhã, repetirá os mesmos temores e acalantos antes do sol nascer. Que o satélite seja breve.

Lutas invisíveis

Abrem-se as cortinas e um mundo novo explode diante dos olhos cândidos. Esperançosos, procuram reconstruir a partir de fragmentos um mosaico multicolor. Frases incompletas, intenções escondidas; desejos subentendidos; sorte jogada aos astros distraídos: incompletas verdades e mentiras que deixaram de acontecer.

A realidade tinge a beleza dos pequenos milagres cotidianos com cores violentas. Segundos depois, nada mais restará nos poros, na pele, na boca, na alma… no ar. Evapora-se e leva-nos a acreditar que tudo não passou de um delírio, um momento de loucura controlada. Ventos solares a varrerem as lágrimas escondidas.

Nem tudo que é fugaz perder-se nos labirintos da memória. O ar rarefeito e a imensa necessidade de reiventar o passado mesmo antes do sol nascer. Sísifo indeciso diante da colina a calcular a necessidade de seu labor. A beleza é efêmera diante de olhos desprotegidos de tudo que é simples e suave. Leve pluma solta sem direção aos sete ventos. Dentro de mim, o mundo parou. Revive agora em ti; ou no que restou de nós. Silêncio: o que me resta é observar a solidão da rua pela janela.

Vou sair para ver o céu, vou me perder nos segundos sagrados dos sonhos deixados no travesseiro. Antes mesmo do pôr-do-sol, penso em milhares de formas para me esquecer de tudo que se passou. Preso em armadilhas do tempo, creio viver hoje uma repetição de cenas nunca vistas. Para sempre essa noite na memória. Chovia, mas ninguém se importou se mudávamos tudo em nós. Uma rua deserta no meio do mundo imaginário.

Olho meus olhos cansados diante ao espelho e percebo marcas de lutas invisíveis pelo corpo. Restos de um passado presente em meus passos indecisos e gestos contraditórios. Por medo, deixo alguns sonhos entorpecidos em cima da penteadeira e saio para mais um dia de poesia morta. Sem flores pelo trajeto, observo o entardecer melancólico da cidade cinza. Cores e fantasmas que rodeiam as ruínas esquecidas são as heranças recebidas da ganância voluptuosa.

Deixo as chaves para um jovem mundo sobre os trilhos e parto por galerias desconhecidas em busca de um novo eu. Sem documentos nos bolsos, conta em banco ou carta de alforria sigo preso em minha liberdade excessiva. Como se o dia seguinte não fosse nascer, ou se não existisse mais nada para acreditar, levo meus cabelos às rajadas tropicais de um tempo inexistente. O vento beija a noite escura, em volta completa rumo ao amanhecer. Amanhã, tudo voltará ao normal.

Uma canção triste

Fragmentadas cenas se repetem à exaustão. Palavras frias em voz de veludo colidem ao medo repentino de ter o que não se pode tocar. Ouço uma canção triste. Uma espécie e ópera a narrar traços de meus relatos. Sentimentos incompletos e histórias inacabadas. A vida sem freio cega para pequenos milagres cotidianos. Leva-nos para um lugar desconhecido: ao mesmo tempo em que é sombrio, saltam aos olhos a beleza latente dos encantos escondidos no misterioso. Repetidas frases, subentendidas intenções.

O segundo que antecede o medo, a paz roubada de quem desmoronou. Se tudo muda o tempo todo, mude-se para dentro de mim. Não, não é saudade em demasia; tampouco relatos ordinários confeccionados pela dor. Imagens explodem em um mundo governado por anti-heróis. Atravesso a noite interminável com algumas melodias suaves em minha cabeça. Torturantes horas em que busco o sono perdido. Entre versos perdidos e flores, rabisco no espelho nomes e palavras soltas. Não acendo a luz nem procuro me alimentar. Uma canção triste embala a falta de sorriso e o medo do pecado.

Vou perder-me no centímetro exato de seus delírios e subtrações não resolvidas. A matemática e seus mistérios; o silêncio absorto em seus lábios. Palavras não ditas e frases incompletas mostram-me em um mosaico de acontecimentos da fria realidade escondida em seus olhos castanhos. Fantasias deixadas no travesseiro ao som ensurdecedor do despertador, que rouba os melhores instantes do sonho. Mais um longo dia sem poesias e flores pelo chão. A realidade entorpece as vistas cansadas. Pego o telefone para te contar um sonho ruim. Desisto antes de discar o primeiro número. Afinal, vai valer?

Enquanto preocupo-me em saber se vai chover; num segundo de distração pego-me a pensar em você. Não que eu quero torturar-me ou encontrar um culpado. Apenas revi seus sorrisos entre outdoor antigo da avenida. Escrevo cartas repetidas e uso palavras iguais na tentativa de traduzir sentimentos contraditórios. Assim, antes do amanhecer vejo nove luas a clarear o breu. Concebo e descubro respostas; metade é mentira e a outra metade, inventada.

Memórias de velhas fotografias penduradas na parede

Marcas deixadas pela ação do tempo: as velhas folhas amareladas de papéis fotográficos ainda guardam fragmentos da memória rarefeita. No escuro, suspirava pelas glórias de um passado distante. A cada gesto e sentimentos, gotas de saudades mensuradas em viagens não iniciadas e regressos ao lar. Das travessuras de infância, sorrisos misturados a uma vontade imensa de te ter em meus braços. A vida segue em linhas tortas e ruas desertas.

Observo velhas fotografias que enfeitam as paredes acinzentadas do cotidiano. Pedaços de ilusões esquecidas sobre a mesa. Quando será minha vez de esquecer passos a colidirem em um silêncio abstrato. Justamente na quietude das horas mortas que relembro quem eu fui. São tantas histórias perdidas nos labirintos da memória seletiva. Primavera chuvosa e flores de lótus a enfeitarem sua jornada de retorno ao lugar que nunca deveria ter partido. De concreto, apenas um sorriso moldurado na parede de um longo corredor.

Duzentas vezes berrei seu nome no escuro. Chama viva a queimar minhas diretrizes perdidas e encantos inalcançáveis. A cada manhã, vejo-me mais perto da despedida derradeira, do último adeus, do silêncio das estrelas. Longa estrada em direção ao nada. Caminhos difusos aos que perdem o coração. E no canto escuro do cômodo, uma lembrança a incomodar pela presença eterna. Um gosto amargo na boca e caminhos que se bifurcam num paraíso distante. Distante de ti, tudo paraste.

Passos solitários no asfalto e o céu de brigadeiros sobre cabeças desprovidas de parâmetros mínimos para seguir em frente sem titubear. Feridas abertas em jogos perdidos e uma imensa vontade de servi-se à cova dos leões. Do ponto a qual miro ao espelho, reflexos de uma auto-imagem datada de dez anos. Outrora, as cores eram mais vivas e a saudade pesava menos na alma. Toda as tonalidades do arco-íris a relembrar instantes de euforias revelados em papéis fotográficos. Cada retrato, uma volta ao passado raso; uma espécie de corredor do tempo, que me faz voltar séculos de existência.

Pensamentos nebulosos encobertos por devaneios momentâneos. Em preto e branco, vejo seu sorriso como uma onda de boa esperança. Velhas páginas amarelas e provérbios repetidos à exaustão. Sobre a cama, um terço para relembrar a fé perdida e o conturbado medo da solidão mediada. Nossas vidas tornaram-se um único caminho composto por percalços e desafios. Rezo três vezes a santos que não acredito, apenas para repetir um exercício ensinado por minha mãe. Das cavernas da religião, entrego-me à desconfiança de tudo que não se derrete no ar.

Olhares vagos postos à parede que, translúcida, mostra-me seus olhos transpostos em papel moldurado a enfeitar a casa refeita de saudade. Recordações em cada canto escuro. Do outro lado do mundo, eu olho à janela: as músicas que cantamos juntos e a incompreensão muda dos medos do passado a reinaugurarem em um futuro próximos aos olhos cândidos. Outono tem gosto de mágoas. Primavera, uma chaga aberta. A falta de memória trai os melhores momentos da vida. Vivemos em um mundo voraz, que desaparece a todo instante a magia do objeto cotidiano. Cada dia, milênios de evolução são esquecidos em nome do fetiche tecnológico. Apetrechos fabricados ao menor custo e com baixa capacidade científica a servir-se de psicologia barata para aliviar os desesperos pós-modernos. Um pequeno milagre límpido para a próxima geração, que se consumirá após 15 minutos no ar.

Aonde nascem os anjos?

Sonhos e malas desfeitos. Sobre a penteadeira, restos de um passado recente, que remete ao gosto amargo dos que ousaram desafiar a vida em duras batalhas desnecessárias. De exato, apenas a incerteza que nada será como antes. Como nunca foi e nunca será. Em vão, ao mar, fragmentos de vidas vistos pela rotina. Passos que caminham ao acaso, pelo descaso de suas retinas viciadas a enxergar apenas o que compreende como verdades. Meio-dia: guardo na boca o sabor amargo de seu corpo; na alma lembrança que nunca se apagarão por completo. Sísifo sombrio. Leve-me para longe e perto de ti. Leve-me agora para nunca mais voltar.

Por prudência, escovei os dentes e ouvi alguns discos no intuito de esquecer seu gosto, seu rosto, tudo que me deixava em paz. Lembranças que martelam e me deixam sem chão para executar tarefas rotineiras e comuns. Sem fôlego, atravesso em longos pensamentos os dias incertos, a pensar sobre os caminhos bifurcados que nos rodeiam. Se fosse diferente, oras, diferente seria. Nada mais duvidoso que os dias que se seguem depois dos temporais. Vida e morte; luz e escuridão; céu e inferno. Trajetos opostos, vidas cortadas ao meio e o medo de reinventar o futuro com gestos do passado. Por todos os lados, seus olhos me acompanham a me torturar. Sem dor ou saudade; apenas lágrimas condensadas em restos de esperanças projetadas. Uma paisagem tatuada na alma que me queima como chaga.

Esqueci os versos, os pecados e as redenções por te ver sorrir em um curta-metragem filmado em super-8. Passos ancorados no passado e a esperança de um futuro melhor estampada em letras garrafais e cores enigmáticas. Em negrito, vi seu nome grafado em muros espalhados pela cidade cinza. Sobre o mundo, uma breve lucidez deu vazão à insanidade imposta pelos padrões esquecidos e o amarelo do outono latente pelas palavras esculpidas em pedra-sabão. Em cima dos enganos tardios, a novidade consumia litros de saudade. Como pontes destruídas e malas desfeitas, em meu pensar, você corre livre em verdes campos cobertos de tulipas. Anjos nascem do escuro abstrato das palavras em chamas. Quentes e vivos versos como um quadro do século V. Vida!

No escuro, tropeçávamos em palavras distraídas.

Sobras

    “Diz-se que quem é feliz no amor
    No jogo é infeliz
    Mas de quem faz do amor
    Um jogo o que é que se diz
    Eu não sei jogar e ela é a rainha
    Como poderei pensar que ela é minha?”
    (Caetano Veloso – Dama do Cassino)

Palavras se desfazem como chuva, em percursos costurados pelo tempo. Derretem violentamente entre o silêncio e os suspiros próprios de cólera. Há pouco instante, tudo era paz. Fios invisíveis a demonstrar a ternura exposta em olhos cansados de esperar. As frases caem de alturas imensuráveis e explodem rompendo a noite fria. Cortam o breu em imagens de luzes dançantes no espaço infindo de nós dois.

Pensamentos imperfeitos como tempestades tropicais clareiam as névoas deixadas pelo passado fragmentado e caminhos interrompidos. Espectros de vidas que se bifurcam em labirintos difusos. Rotas em colisão. Um milhão de sóis a iluminar a face mais sombria do universo. Todos os lados escuros da lua são regidos pelas suas retinas a me fotografar. Início e fim interruptos; que clamam sempre por mais: incansavelmente!

Sobre corpos desfeitos, a maquiagem fria e borrada expõe em versos profundos a quietude de seu exílio. Do lado de fora, longas jornadas em vão. Em minha cabeça, um Minotauro se aloja entre o Dédalo d’alma e a solidão das grandes metrópoles. Sem Teseu e o fio condutor para achar a saída, vago pelas peripécias típicas dos distraídos para a vida. Esqueço os dias de calmaria e miro-me aos pensamentos sobre tormentas e desalentos. Voe como quem deve partir e regresse ao lado dos puros de coração.

A queda de Ícaro: o mergulho raso ao céu aberto e o horizonte infinito. O devaneio de aventurar-se. O risco de cair e o medo de se arriscar. A carne e o osso. Ondas de tristeza encharcada de eufórica alegria divergem e convergem em partes; a me possuir, torturar e proteger. A alma e seus mistérios. A metafísica do amor. A alquimia dos sonhos. A virtualidade do ser. Saídas de emergência em todos dos cantos.

Enquanto feras andam soltas, você me hipnotiza em cada gesto inculto. Feridas e chagas desfeitas em pétalas de rosas a tatuar a pele. Certas consternações não se sentem apenas com o coração. Dores expostas em vitrines vulgares, sob a sombra semi-iluminada do consumo desenfreado e desinibido de pudores. Preso a uma cela, tento fugir e cair em suas garras. Astros distraídos ofuscam constelações.

O côncavo e o convexo

Sempre os meus erros primários e pecados insólitos sobre a mesa. A confraria dos covardes, a batalha dos derrotados. Sobre o chão, restos de uma noite sem sono e a tortura angustiante a embaçar as vistas cansadas dos desesperos comuns. De real, apenas uma história de amor inventada e tortuosas horas de prazer e acalanto. Eu te vejo pelos cantos escuros da alma em estado de calmaria provisória aos desatinos provocados pela incompreensão. Paz, amor e recomeço a exorcizarem a tempestade de sentimentos que teve início há poucos dias. Contados nos relógios, meio século de evolução cármica.

Do outro lado do hemisfério, seus olhos enfeitam o mundo. Sobre o globo, caminha tranquila pelas ruas e alamedas das cidades em chamas. O mundo, quase que por encanto, esqueceu de me avisar que tudo não passou de um devaneio vespertino, ou uma história combinada e espalhada pelos quatro cantos. Real, imaginário, virtual ou embrionário: o que sei é que esqueci de me lembrar do que não poderia duvidar. Quem sabe, o amanhã me surpreenderá com mais uma história incompleta neste caleidoscópio fantástico e irreal.

Em minha confusão, sentimentos esparramados pelos cantos. Janelas e portas que se abrem para o desconhecido inerte em cinco sentidos e quatro pontos cardeais. Vistas encobertas pela incerteza latente dos que temem a paz derradeira e a felicidade completa, negociada em pegue-e-pagues espalhados em esquinas vulgares de cidades vazias. A única certeza é que nada de concreto passa imune por rotas alteradas. A vida, meu caro, era uma repetição de cenas sem nexo, num imenso mosaico multicolor. Alguém nos cosmo deve se divertir com as investidas equivocadas dos marinheiros inexperientes defronte ao imenso mar do amor.

A poesia é um vício: a podre corrupção da falta de poder. A arte é a fantasia da alma, enquanto se embriaga pela escassez de sentimentos convictos e puros. Toda poesia é uma mentira. E as mentiras me fazem viver. Será que existe vida inteligente diante minhas retinas, ou dentro delas. Livros e filmes empilhados sobre a memória cada vez mais rarefeita. Sobre o mundo, seus olhos castanhos me mostram estranhos caminhos inexplorados. Tudo de pernas para o ar; côncavo e convexo fundem-se em um ponto abstrato no infinito inseguro. Vida vista de fora; em estações fora do ar… Pelas as esquinas do mundo a fora, aflora a dor. Sem você, tudo fica fora do lugar. Se há, sei lá!

Procuro o resto de uma lucidez inexistente. Nada. Fecho os olhos e espero o grande inverno da Rússia. Girassóis que não procuram a luz e refrões de bolero que não rimam amor com dor. Felicidade não combina com a realidade. Pontos que não convergem no infinito opaco de suas palavras frias. Vejo seu rosto em gélidas galerias; nos cinemas; em páginas coloridas dos jornais. Eu sempre escolhi bem as palavras, mas hoje eu não sei o que pensar. Talvez por falta de sorte, talvez por falta de repertório, talvez pela ausência em mim em mim.

Hoje, vou fugir de casa, desfigurar a falta de coragem em escolher outros caminhos. Hoje, irei esparramar resíduos do passado em vultos que se multiplicam refletidos em um espelho a me mostrar o que nunca fui. Em repetidas cenas, o meu lado mais sombrio a me torturar em frases não ditas e o silêncio abstrato de suas palavras – duras palavras. Pelo caminho, pedaços de sentimentos triturados a contaminar velhas feridas não cicatrizadas. A paz derradeira tão longe de uma compreensão.

Tudo que é sólido derrete no ar

Sentimentos nublados por cicatrizes não curadas e tentativas desconexas de me reencontrar. Por mares nunca dantes navegáveis, tateio a monotonia dos dias maquinais. De longe, apenas o universo em expansão a acompanhar virtualmente meus suspiros abandonados ao acaso. Por descaso, deixo que marcas do passado conduzam a incompreensão da angústia lapidada em palavras e frases.

De concreto, apenas a incerteza latente que amanhã tudo recomeçara: como voltas concêntricas e retorno ao lar. Imprecisos sempre foram minhas decisões. Meus passos que colidem ao acaso dos astros vagabundos. Vida vista por outra ótica. Saudades com sabor amargo. Marcas no rosto e um gosto salgado na boca. Equilibro-me à beira de um abismo. Largo, fundo, interminável. Quem sabe caio, quem sabe vôo, quem sabe vou. Vou-me embora para nunca mais voltar em mim.

Deitado em asfalto molhado, a neblina desvia minhas vistas cansadas do tédio e apatia. Fazer forças para conseguir pensar em algo que nem mesmo sei prover, provar, tentar. Fora de estação, inverno se mistura ao verão que e anuncia em poucos dias. Caóticos sentimentos desencontrados e uma revolta intermitente de reinaugurar o passado. Volte voando, vindo dos céus.

Sem rumo, a menina que refletia de seus olhos agora demonstra que se perdeu por não aprender a dividir os seus medos e traumas. Apática, a chama que lhe enfeitava as datas mágicas agora se esconde sobre a maquiagem borrada e o abuso de álcool. Longe da confusão de fora, vaga entre desencontros e medos. Lágrimas pela dor de ausência.

Pensei no fogo, falei de dor, recriei o amor em mim. Uma claridade viva de uma mente sem lembranças dos fragmentos do passado. Ao mar sem cor, lanço a única memória envolta. Livrei-me de mim… Passos no porão da alma. Do outro lado, verdades derretidas em combustão estrelar. Tudo que é sólido derrete no ar. Ante a explosão, um momento de calmaria. Momentânea e desnecessária quanto uma imagem refletida no espelho. Linhas paralelas que se cruzam no infinito e além dos olhos comuns.

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