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Bondinho do Centro: Uma viagem ao passado

A bordo do Bonde, o Centro da Cidade revela trechos da história que o tempo não apagou


    O percurso dura em média 15 minutos, mas a
    sensação é que o tempo parou por um instante



Os 1700 metros de linha férrea do bonde, no centro de Santos, revelam um pedaço da história esquecida nas páginas amareladas dos livros didáticos. Como uma volta ao tempo, em nossos olhos vão surgindo, aos poucos, edificações e cenas fundamentais para os desenlaces da formação histórica e política da Cidade e do País.

Em cima dos trilhos, esse meio de transporte fazia parte da paisagem urbana e promovia o encontro e a despedida do dia-a-dia. Os três bondes elétricos do Centro, reconstituições originais de 1920, funcionam como uma máquina do tempo. O uniforme impecável do motorneiro e dos cobradores, somado com a conversa informal na Praça Mauá antes do início do passeio, nos remetem às décadas passadas.

Do último bonde que circulou em Santos, em 1971, até a inauguração da linha turística em 2000, longos caminhos foram traçados. A luta do cidadão José Carlos Vieira da Cunha, para manter o serviço na cidade, momentos antes da desativação, originou o monumento na Praça Mauá, chamado de Parada Buck Jones. É lá que dá início à viagem.

Após a primeira curva, avistamos as árvores centenárias da Praça Rui Barbosa. Ao fundo, a Igreja do Rosário. Pela Rua do Comércio a dentro, iluminada por réplicas de postes do início do século passado, o contraste arquitetônico moldura a paisagem do tempo áureo do café.

As marcas do tempo são visíveis na Casa da Frontaria Azulejada. O que restou da construção original, de 1865, abriga hoje o mais novo espaço cultural da Cidade. Ao final da rua, o Santuário do Valongo, em estilo barroco, ostenta a beleza e a simplicidade que a fé a capaz de impor. Ao lado, a Estação Valongo, que por mais de cem anos foi a principal porta de entrada da Cidade. Em frente, as ruínas do Casarão do Valongo, mostram a imponência da oligarquia cafeeira e as marcas do tempo.

Maior parte das belezas do trajeto teve seu ápice na época do café. A antiga rua da Praia, atualmente a Tuiuti, com suas janelas voltadas para o mar, abriga, uma das construções mais antiga da cidade, o Palacete Mauá. Ao lado, no estilo neo-clássico, a Bolsa do Café: com três fachadas independentes: uma na Rua Frei Gaspar, torre voltada para a Praça Azevedo Júnior e pórtico da entrada principal na Rua XV de Novembro. Com mais de duzentas portas e janelas, em cerca de seis mil metros de área construída, foi criado para abrigar a principal Bolsa de Café e Mercadorias do mundo, pois na época Santos era a maior praça cafeeira do planeta.

Na parte final do trajeto, avistamos a Praça Barão do Rio Branco, e o monumento a Cândido Gafrée e Eduardo Guinle, responsáveis pela construção dos primeiros duzentos metros do porto de pedra. Em frente, o Conjunto do Carmo e Pantheon dos Andradas remetem ao período do Brasil Império.

No último trecho, o antigo curso do rio Itororó, imortalizado na cantiga de infância, a sede dos Correios e o Paço Municipal. No alto, a imagem cinematográfica do Monte Serrat.
Os bondes deixam de trafegar na cidade em 1971. A justificativa é de que eram lentos, atrapalhavam o trânsito e eram incompatíveis com a modernidade. De volta à praça Mauá, cantarolando Caetano Veloso: “Bonde de trilhos urbanos vão passando anos”; voltamos ao nosso tempo.

Em detalhes:

Praça Mauá
A Praça Mauá é o ponto de partida do passeio. O nome “Parada Buck Jones” é em homenagem ao Sr. José Carlos Vieira da Cunha que, na época de desativação dos serviços de bonde (1971), defendeu a manutenção do serviço.

Rua do Comércio
Construções modernas convivendo em harmonia com a arquitetura colonial. A rua tornou-se uma ponto de referência da vida boêmia da cidade, inspirada no Puerto Madero, em Buenos Aires, Argentina.

Frontaria Azulejada
A Casa da Frontaria Azulejada foi construída em 1865, em estilo neoclássico, tem como característica marcante os azulejos azuis e amarelos portugueses em alto relevo confeccionados a mão.

Santuário do Valongo
O altar do Santuário do Valongo, em estilo colonial-barroco, foi desenhado especialmente para o local e mostra a Santíssima Trindade. Uma porta giratória possibilita a mudança de imagens, quando surge o Jesus Cristo com a bandeira da paz. Isto acontece por ocasião de datas festivas como Natal e Páscoa.

Bolsa do Café
Intitulado como Museu do Café Brasileiro, o Palácio da Bolsa do Café resultou de um protejo francês, inspirado no renascimento italiano, que venceu o Salão de Arquitetura de Paris, na primeira década do século XX

Estação do Valongo
Por mais de cem anos o trem de passageiros foi um dos principais meios de transporte.. O prédio esteve ativo até em 30/11/1996, quando foi desativado.

(Matéria publicada no caderno especial + Verão, do Jornal Diário do Litoral, em 29 de dezembro de 2007)

O dia que conversei com o Beto Guedes

Ou o dia que quase tomei um porre homérico com o um dos integrantes do Clube da Esquina

Quais são os mecanismos que expulsam um texto de sua cabeça? Mesmo depois de certo tempo ruminando o que dizer, imaginar mil maneiras de começar a contar uma história, pensar todas os ângulos para compôr a trama, fantasiar um determinado grau de situações, que em nada mudarão o consenso final. Enfim, como montar um enredo que desejamos enquadrá-lo por meio de palavras, sem que o torne estanque, frio, ou apenas um relato de um dia de uma vida qualquer.

Essa aqui, provavelmente, é mais uma dessas histórias que enquadrada, talvez, perca o peso e a sensação duradoura que reinou em minha mente por meses. Às vezes, aprisioná-las em palavras é retroceder ao processo que as trouxeram até aqui. Colocar em palavras, uma atrás da outra, em linhas lógicas a formar um conjunto de simbolos, talvez não ditará como tudo aconteceu, ou como as casualidades foram acontecendo sem nada ser programado. Talvez…

Mas lá se vão alguns meses, algumas histórias novas para contar…

Tudo começou um tempo antes, se fossemos puxar a linha condutora de tudo chegaríamos, provavelmente, aos meus seis anos de idade, e o dia que um álbum duplo mudou minha vida. Mas não perdermos tempo com sentimentalismo e lembranças amareladas pela ação do tempo. Começou antes do dia, e até mesmo da hora prevista para o começo do show.

Leio no jornal: Beto Guedes, Teatro Coliseu, dia 09 de junho de 2006, às 21h30. Pensei: Não perderei por nada nesse mundo – e nem do outro. Abri a agenda – sim, criei coragem, comprei uma, falta-me, apenas, começar a usá-la – em letras garrafais: PROVA SEMESTRAL , segunda aula – Psicologia. Crise. A aula começaria às 21 horas. Perder a prova era impossível, perder o show também. Mas nessas horas acreditamos em tudo, até mesmo um acidente – leve – com a pessoa responsável da aplicação da prova. Nada disso. Ela foi, mas o impossível aconteceu.

Era para ser uma prova de arrancar as cabeças. Disse bem, era. Psicologia costumava ser algo que remete à uma reflexão – minimamente existencial, creio eu; ou sexual, diriam os freudianos –, porém, neste dia, não foi. A avaliação, caso queiram chamar assim durou 10 minutos. Isso porque a professora se atrasou 5. Olhei para o relógio – do celular, que às vezes uso como despertador, e em outras até para me comunicar com alguém – 21h11. De onde estava até o Coliseu, tínhamos uns 15 minutos de ônibus – é, ônibus. Fomos, Guilherme e eu, em direção ao show, que, naquele instante, conseguir entrar já seria um milagre – ou mais um deles.

O show já tinha começado. Conseguimos ingressos – o que, normalmente, compraríamos estava esgotado. Compramos um intermediário – e, por já ter começado, fomos indicados a seguir em frente, o que daria para a parte mais cara do teatro. Por um golpe de sorte, ficamos em lugar privilegiado.

O som estava ruim, mas ruim de doer. O Beto pacientemente pedia, de forma mineira, para a melhor equalização dos equipamentos. Com o tempo foi melhorando, mas longe de um som excelente. Estava estampada a insatisfação do Beto e dos músicos, ainda mais perfeccionistas que são. Em seqüência, o melhor da carreira do compositor mineiro enchia o ambiente de luz.

Eu, anestesiado, fiquei certo par de tempo para crer em tudo aquilo. E, como de costume, comecei a berrar nomes de músicas. Comecei com Cruzada – por motivos maiores que a razão. Ao pedir “A página do relâmpago elétrico”, crente que ele não me ouviria, ouviu-se nos alto-falantes, com um sotaque mineiro, gostoso de se ouvir: “Essa não dá não, estou sem voz. Peça outra”. E deu para pedir outra? A emoção foi maior do que se ele tivesse cantado a música. Preciso dizer que chorei? Descenessário.

Acabou o show, nessa altura mais duas pessoas estavam com a gente. Uma idéia rondou nossas cabeças ao mesmo instante. Ir ao camarim deles. E fomos. Barrados na porta. Tentei barganhar. “Somos estudantes de jornalismo, precisamos entrevistá-lo para o nosso jornal”, ou “sou fã demais do clube, tenho tudo. Até a primeira comunidade no orkut fui eu que fiz”. A produtora dizia que ele tinha saído. E era verdade. Tentei uma última cartada. “Já que o Beto não está, podemos conversar com os músicos?”.

“OK! Deixarei entrar duas pessoas”, disse a produtora. Eu levantei a voz e disse, num tom meio desafiador, meio desesperado, “Ou todos ou ninguém”. Ao falar isso, pensei que tinha posto tudo a perder. E não foi que deu certo. Entramos.

Lá dentro, era como se fosse um universo paralelo. Logo de início vi o baterista Nenê Batera, responsável por gravar grande parte dos discos do Clube. Músico competentíssimo. Fui falar com ele. Ainda acanhado, pois, pode não parecer, sou tímido. “Tem algum motorzinho nessa baqueta aí, Nenê?”, perguntei, como para quebrar o gelo ou fechar uma porta. “Oh, rapaz, tem não”. Daí para frente, falamos de discos clássicos que ele gravou, faixa a faixa, trechos de músicas, de BH, de Minas, do Clube, da música popular brasileira. Eu me senti em casa.

Ele perguntou, “rapaz, mais que idade você tem?”. E me disse, “Estamos indo para o seguinte lugar, o Beto já está lá, vamos?”. Sem grana, com mais vergonha que medo, respondi, “vontade não me falta, agora, grana…”. De forma carinhosamente – e típica – mineira, respondeu: “convidei, não perguntei se tem grana. A gente paga”. Acredita? Nem eu.

Fui.

Lá, sentado-se à mesa do bar, caríssimo por sinal, Beto Guedes. Pânico. Tremor nas pernas, suor nas mãos, um impasse. Vamos ou não falar com ele. Saímos do camarim dos músicos antes que eles, e chegamos ao bar, também, antes que eles. Foi quando, de forma milagrosa, chega a van que trouxe os músicos. Nenê Batera me abraçou e reforçou o convite, me levando até a porta do estabelecimento. Confesso, tinha no bolso R$ 3,00 e creio que a água naquela lugar deva custar mais que isso. Convidando-nos para beber, minha preocupação era se teríamos que ajudar na conta.

Entrei. Sentei-me à mesa, conversei com o Beto. Neste instante, poderia acrescentar que conversamos horas a fio, ficamos amigos de infância, tomamos um porre homérico, e de lá, fomos ao hotel, compomos juntos uma melodia, eu fiz a letra, que sei que não vai ser gravada, pois não registramos nada e, ao acordar, esquecemos tudo. Não foi bem assim.

Conversei com o Beto por uns 10 minutos, mais ou menos, e só. Fechado, e pouco à vontade, devido ao assédio das pessoas estranhas, eu me incluo na lista, falei da minha admiração por ele e de algumas histórias do movimento. E só. Gentilmente, ele nos atendeu, conversou, até riu. Vi que era hora de me retirar, ele precisava relaxar, beber alguma coisa, falar de possíveis falhas do show com a banda e técnicos, por fim dormir. E parti. Partimos.

De lá, fui para uma festa com o pessoal. Gente estranha, festa esquisita, lugar horrivelmente esnobe. Não quis ficar, mas uma amiga de Portugal, em intercambio no Brasil, sugeriu que bebêssemos em outro lugar. Fomos. Como estava sem grana, ela pagou. Ficamos conversando sobre a loucura que foi aquela noite, por horas e horas. Eu não consegui dormir, a excitação era maior que o cansaço físico e mental. Fui para a aula no dia seguinte – sim, tenho aula no sábado, e o pior, pela manhã, Filosofia e Diagramação – sem dormir.

Daquela noite, além das lembranças e história, tenho o ingresso, o set-list do show, autografado pelos músicos e pelo Beto, os telefones do Nenê Batera e o convite dele para uma turnê acompanhando os músicos do clube. Falta só a coragem para ligar.

NUJJOR: ENCONTRO COM AUDÁLIO DANTAS – 02/07/2007

É, chegou ao fim. Fica em nossas mentes a sensação de dever cumprido, o aprendizado adquirido, compartilhado, além de renovadas esperanças e projeções para o futuro. Depois de quase dois meses de reuniões, planos, idéias, nomes, debates, escolhas…, finalmente foi realizado o nosso projeto de um debate paralelo ao Intercom. Realmente paralelo, tanto que nem constava na relação de atividades do evento.

Tivemos a presença ilustríssima do Audálio Dantas, para quem não o conhece, é importante lembrar que se trata de um dos melhores jornalistas que nosso país já teve, foi repórter da saudosa Revista Realidade. Além disso, Audálio era o presidente do Sindicato dos Jornalistas de SP quando Wladimir Herzog foi assassinado nos porões da Ditadura. Neste cenário, teríamos a idéia de como seria o encontro.

Mas, foi muito melhor que poderíamos imaginar. Além da simpatia e do tato para lidar com as pessoas, o Audálio Dantas deu uma aula de empenho jornalístico e de ânimo para os mais jovens. Com uma capacidade ímpar de acumular a sabedoria dos anos com a vontade, gana e determinação dos mais jovens, Audálio mostrou mais vitalidade em mudar o jornalismo atual que muitos estudantes que conheço.

Outras surpresas cercaram a data. A primeira de todas foi a presença do jornalista Carlos Conde. Uma semana antes, no projeto “Papo de botequim” (encontro com jovens jornalistas com uma figura importante [jornalista, artista, intelectual], com o propósito de conversar sobre a profissão), Conde conversou por mais de quatro horas. Entre histórias, injeções de ânimo e doses de simpatia com modéstia, intimistamente, Conde nos contou sobre seus planos de futuro. Ao vê-lo entrar, minutos antes do início do evento, senti (e creio que todos os envolvidos sentiram) uma serenidade típica dos que fazem a coisa certa.

Aos poucos, alguns professores (os mais apaixonados, envolvidos e incentivadores de ações por parte dos alunos) foram chegando. Neste instante, tive (novamente, creio que tivemos) a sensação que algo bárbaro estava a acontecer. Aconteceu. O debate ocorreu de forma brilhante. Mas um bate-papo que uma forma hierárquica de mesas de discussões. Polêmicas foram levantadas e discutidas com seriedade e profundidade. Visões antagônicas depositadas com bases teóricas de todos os lados. Quem ganhou com isso? Todos os presentes.

Tive esta resposta nos momentos seguintes, nos sorrisos de quem participou. Professores vieram nos parabenizar pelo “sucesso” do evento. Mas nem tudo correu tão bem assim. Tivemos alguns problemas. Poucos estudantes interessados em ir ao evento. Tínhamos o Intercom acontecendo ao mesmo tempo, em outros campi. Depois, nas atividades culturais, a trupe Teatro do Pé teve um problema com um instrumento músicas essencial para o espetáculo. Foram pessoalmente nos dar a notícia, e de forma ética comprometeram-se em participar conosco em outros eventos. O guitarrista Mauro Hector, competentíssimo, manteve os presentes na companhia de boa música.

Com o saldo positivo deste evento, e a experiência adquirida, temos, agora, que continuar com o nosso trabalho sério e reflexivo. Levantar nossas bandeiras e sonhos. Caminhar com mais empenho em nossos projetos, e, com isso, realizarmos o que propomos desde a criação (desde antes da oficializaçãol) do núcleo que era a formação de jornalistas críticos, em uma sociedade mais reflexiva e justa. Utopia? Costumo chamar de vontade de mudar o mundo. Se não for possível o mundo todo, mudaremos o mundo que está próximo de nossos braços. Não sei vocês, mas tenho coragem e vontade suficiente para abraçar o mundo todo.

Diário de Bordo – 50º Congresso da UNE – Brasília

Planalto Central. Brasília. Latitude 15º14´s, longitude 47º54´w. Clima seco. Umidade relativa do ar: 35%. Vento: norte, 3,09 m/s. Céu de Brigadeiros. Sol. 1500 quilômetros longe de casa.

50º Congresso da UNE.

Antes de tudo

Às 20h, horário de Brasília, na Praça do Correio, São Vicente – SP. Pouco depois da hora marcada, saímos em viagem com duas paradas programas. Cubatão e São Paulo. Eu, depois de quatro anos, tirei férias no trabalho, para quatro dias em Brasília.

São Paulo. Última parada para embarque. Conversas, teorias, sonhos. Pelo caminho, discussões sobre o futuro político, política, partidos, congresso, juventude. Sonhos.
Quinze horas e algumas paradas pelo caminho, chegamos a Brasília. UNB, 15 horas.

Quinta-feira, 5 de julho de 2007.

“No centro de um planalto vazio/ Como se fosse em qualquer lugar/ Como se a vida fosse um perigo…” (Léo e Bia – Oswaldo Montenegro)

Após o desembarque, câmera na mão e o início do nosso trabalho, realização de um documentário sobre o Congresso. Um mar de estudantes, com bandeiras, faixas, camisetas, bonés, adesivos partidários. Gritos de guerras, palavras de ordem. Desordem.
Início dos muitos debates proposto pela UNE. Em quase todos os rosto, a vontade de mudar, de construir algo novo. Sonhos.

Pelos corredores tomados pelos estudantes dos quatro cantos do país, além da diversidade cultural de cada estado estampada em camisetas, no sotaque, nos cabelos, na vestimenta, na forma de aproximação…, havia o entusiasmo típico da juventude. Idéias pulsantes das mentes inquietas, de jovens que desejam mudar os rumos políticos do Brasil. Sonhos, vontade de mudar e a bandeira do futuro estampada em cores vivas nos sorrisos e retóricas eufóricas do futuro da nação. Brasília.

Debates e mais debates, sobre os mais variados temas. Softwares livres, GLBTT, Meio Ambiente, Política, Educação. Tudo ao mesmo tempo, em diversas salas e auditórios da UNB. Pelos corredores, artistas, hippies, livros, DVDs, cartazes, camisetas do Che, livros de correntes Socialistas, Marxistas, Comunistas. Filmes proibidos e raros em cópias piratas, livros e cartilhas partidárias raras, artesanato em couro…

Rosto do Che em várias partes, paro para indagar, onde estão as estampas do Luís Carlos Prestes, Lamarca, Antônio Conselheiro, Bacuri, Marighella, entre outros revolucionários brasileiros? Até em nossos heróis seremos colonizados eternamente? Indagações e pensamentos soltos.

Depois dos debates, e ao cair da noite, todos de volta (ou ida) para os alojamentos. Ficamos cerca de 11 quilômetros da UNB, na W3, asa sul. E 308. De banho tomado, mesmo com a precária estrutura da escola que serviu de alojamento, fomos jantar em uma pizzaria. As ruas calmas da noite de Brasília, acompanhada do frio ao cair da tarde e do ar seco, nos levaram pelas quadras bem desenhadas. De volta ao alojamento, a segunda parte mais interessante da viagem começava. O choque cultural de todos os estados da nação aberto entre nós. Em uma roda de mate, gaúchos, mineiros, paulistas, pernambucanos, paraenses, amazonenses, baianos, acreanos, potiguares… Na mesma roda que o mate passava, a cachaça nordestina e mineira rodava de mão em mão. Nas conversas, carregadas de encantados com os milhares de sotaques, toda a diversidade cultural do país depositada nas particularidades e características de cada unidade da nação. Características de cada canto, cada verso, cada estrofe e refrão. Sons, poesias, literatura, cinema, teatro, dança, cultura popular e erudita em um balaio único. Brasil. Durmo com o sorriso nos lábios por toda a riqueza que só nosso solo sagrado tem, o seu povo.

Sexta-Feira, 06 de junho de 2007.

“Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos projetos do futuro, /É duro tanto ter que caminhar /E dar muito mais do que receber” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)

O segundo dia começa um pouco preguiçoso, pelo menos para o meu corpo cansado. Ao chegar à UNB, por volta das 9h30, alguns debates interessantes sobre o Meio Ambiente. Com a ajuda da assessoria de imprensa do congresso, fomos ao julgamento de anistia de ex-dirigentes da UNE, presos no período da Ditadura Militar.

Estava agendada para as atividades da tarde uma passeata até o Banco Central, os dados oficiais falam de 8 mil estudantes exigindo a demissão do Henrique Meirelles e mudanças na política econômica. Manobra eleitoreira da UNE, para mostrar “força” nas eleições de domingo. Acompanhei do alto do trio elétrico, em posição privilegiada, registrando para o documentário. Pelo caminho, palavras de ordem, bordões e discursos verborrágicos, inflamados e jargões ultrapassados da esquerda estudantil.

“Povo marcado é povo feliz…” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)

Do alto do trio elétrico, a massa compactada de estudantes, ao som das músicas (sucessos) do momento e discursos eufóricos, senti a sensação e o arrepio de fazer parte de um movimento que o idealismo e o sonho é maior que a razão. Apenas ao cair da noite pude reparar, de forma clara, a manobra eleitoreira que mais de 8 mil estudantes foram vitimados. Uma passeata absolutamente inútil, como se o presidente do Banco Central, funcionário público, mudasse algo na política econômica, sendo que é apenas um cargo burocrático e figura decorativa. A raiz do problema, o xis da questão, o ponto de equilíbrio está acima da figura emblemática do Henrique Meirelles.

Mesmo assim, fiz o registro fiel. Ao chegar ao Banco Central, chuva de papel picado dos funcionários da instituição. Mais de 200 policiais faziam a guarda da entrada do BC. Desci do trio elétrico e acompanhei a manifestação do chão. Atravessei a barreira policial com a câmera na mão. 8 mil vozes gritando “Fora Meirelles”. Depois do discurso, o Hino Nacional cantando por um belo coro. Com a garganta seca e emocionado, berrávamos: “Verás que um filho seu não fosse a luta…”.

De volta à UNB, assistimos ao documentário sobre o Honestino Guimarães, líder estudantil morto durante a ditadura militar. Ao término, “Batismo de Sangue”, do diretor Helvécio Ratton, sobre o livro do Frei Beto. Tortura, prisões, humilhações e a destruição dos ideais. Registro fidelíssimo do período que sonhar era proibido, idealizar um sonho era crime. Período que estudante era símbolo de rebeldia e de liberdade.

“É esta a juventude que quer tomar o poder?” O que diria Caetano Veloso hoje, ao ver a juventude calada diante de tanta barbárie social? O que diria Caetano para os pragmáticos, aos acomodados, aos consumistas, aos porras-loucas, aos alienados, aos manipulados, os que estão no poder? Sonhar e não ter medo de sonhar.

Sábado, 07 de julho de 2007.

“Nada existe como o azul/ Sem manchas/ Do céu do Planalto Central/ E o horizonte imenso aberto/ Sugerindo mil direções” (Céu de Brasília – Toninho Horta e Fernando Brant)

Terceiro dia da nossa viagem, quarto dia do congresso. Como todos os dias, começamos cedo, mas a preguiça fez-me ficar um pouco mais no colchonete, retardando o café da manhã, e perdendo o ônibus, que desta vez nos levaria para ginásio Nilson Nélson. Fomos de circular até a rodoviária e de lá, em uma lotação, para o ginásio. Um grande professor diz que o furo é a junção da sorte e do faro jornalístico. Tive alguns furos nos últimos dias, mas devo, em grande parte, à sorte. Desta vez, ao chegarmos ao ginásio, Heloísa Helena falava para a juventude do PSOL. Fomos até ela e pedimos uma “palavrinha”. Fomos atendidos com entusiasmo e atenção pela ex-senadora. Ao término, um abraço fraternal e desejos de boa sorte.

Entrevistamos a candidata à presidência da UNE, de forma arrogante, declarou-se eleita, um dia antes das eleições, indireta por sinal. E ainda falam em democracia.

Entramos no ginásio. Arquibancadas lotadas, na quadra um mar de gente, gritos de guerra, palavras de ordem, bandeiras de diversos partidos, representações da juventude partidária. MPB nas camisetas e bandeiras, camisetas com frases de músicas, mesmo que os que a usavam não soubessem quem compôs a canção. Como exemplo claro, em um panfleto com os autores errados da música “Clube da Esquina n.º2”. Discursos nacionalistas e antiimperialistas. Contradições entre a fala e a ação. Berros antiianques, mas nas camisetas desenhos do Calvin para expressar a revolta imperialista (?). Pergunto-me, onde estão a Mônica, o Cebolinha, o Menino Maluquinho, o Saci-Perere, a Graúna, ou qualquer outro traço nacional? A colonização por meio da TV é visível até em quem quer reclamar da colonização por meio da TV. Aliás o marxismo também é uma colonização. Nossos estudantes citam Marx, Engels, Sartre, Nietzsche, mas esquecem de citar Darcy Ribeiro, Orlando Villas Boas, Gilberto Freire. Faltam referencias nacionais aos que querem tratar da nacionalidade.

Fomos pegar algumas imagens panorâmicas de Brasília na Torre de TV. A idéia era pegar o pôr-do-sol. Tarefa cumprida. Do alto da torre podemos ver o Estádio Mané Garrincha lotado. Ao fundo, o Congresso Nacional, o sol se pondo, Brasília encerrando o início de uma longa jornada de sonhos e realizações. Na mente, ecoavam os versos do Sérgio Sampaio, “E posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião, /E mesmo com o ar desse jeito tão seco, consigo cantar no seu chão. /Quase que me sinto em casa em meio a suas asas e “Dablius” e “Éles” e/ Eixos e ilhas, Brasília”.

Voltamos ao Congresso. Circo pegando fogo. Votação das propostas. Um militante subiu as estruturas metálicas do teto. Foi detido por um policial. Agressão ao estudante. Todo o ginásio eufórico contra as cenas de violência. Uma pequena multidão cercou os seguranças. Pensei que a coisa ficaria feia, mas a mesa conseguiu contornar a situação. Voltamos à votação. Nada de novo, tudo como antes. As propostas da situação ganharam “por diferença visual”, segundo a mesa. O término do sonho, telegrafada a acabar, dava seus primeiros passos que muita coisa foi em vão. E foi.

Conchavos, negociatas, repetições da velha oligarquia dominante no poder, idealismo versus politicagem, partidos divididos entre a emoção idealista e a razão política. Fim de sonhos, início da realidade. Construção de bases? Esquerda versus Direita? Nunca a esquerda foi mais direita! Conservadorismo dos dois lados. Esquerda à direita. Direita à esquerda. Reboque. Choque. Cargo. Cadeira. Voz. Caminhada realizada no primeiro passo. Tijolo por tijolo. Democracia? Mil por UM? Crachá? Quem são os jovens que querem tomar o poder? Repetições da politicagem e negociatas da política tradicional. Votos e composições de chapas por cargos. Nas universidades repetimos o passado. Reluzimos o brilho de uma estrela que morreu há bilhões de anos. Miramos o presente, repetimos o passado no futuro. Poder versus posição. Conservar tudo como está, como foi e, provavelmente, como sempre será.

Um dia… quem sabe… um dia tudo mudará.

Domingo, 08 de junho de 2007 – Último Dia.

“Já gastei muita esperança/ Já segui muita ilusão/ Já chorei como criança/ atrás de uma procissão/ Mas já fiz correr valente/ quando tive precisão” (Ventania [De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando] – Geraldo Vandré e Hilton Accioly)

Último dia. Dia D. Acordamos arrumando nossas coisas, roupas sujas em sacolas plásticas, último banho gelado, plenárias, barracas arrumadas, café da manhã reforçado. Abraços e despedidas, trocas de e-mails e telefones. Sonhos depositados em futuras alianças, que no fundo sabemos, que não serão tão fortes assim. Deixamos o alojamento com um nó na garganta, uma brisa de saudade apertando o peito, como se o mais importante de toda a viagem estivesse naqueles quartos, dentro de cada coração e mente inquieta de cada um dos jovens que deixaram seus lares, camas confortadas, banhos quentes e comidas saborosas, para ousar sonhar em um futuro político melhor. Um Brasil melhor, mais digno, mais justo, menos sofrido ao nosso maior tesouro, o povo brasileiro.

Entramos no ônibus que nos levaria para o ginásio, neste dia que seria o último na Capital Federal. As chapas levariam suas propostas, defenderiam suas teses, teria as eleições e tudo acabaria. Para daqui dois anos tudo começar de novo.

De início, 11 chapas inscritas. Antes de tudo, negociatas e acordos elaborados nos bastidores. Em uma barraca de lanches, muito antes do início das eleições, um “político” bebia e gozava comemorando sua “cadeira” na UNE, fruto da desistência de candidato próprio em sua chapa. ABSURDO.

Duas chapas retiraram suas candidaturas pedindo “vaga” na composição da UNE. Em alto grau de sem-vergonhice, negociando “cargo” abertamente, como se fosse normal. Uma novidade no Congresso, a chapa Deus. Como quase todos, pensei ser uma sigla, mas não, o intrépido “companheiro” (ou camarada) estava disposto na defesa da DEUS (religião, não o Deus universal) na UNE. Acertadamente ou não, foi a única chapa de oposição ao atual modelo que manteve a posição calada, até de forma respeitosa. As demais frentes de oposição ou eram vaiadas, ou se afogavam em mares de bolinhas de papel, ou com lasers nos olhos, ou por barulho, mas o ato de maior demonstração antidemocrata era o “fala com a minha mão”.

“É esta a juventude que quer tomar o poder?”

Protestar contra o que foi dito é um direito, tanto quanto falar e dar sua opinião. Tal senso de democracia e liberdade não foi visto no ginásio Nilson Nelson, no último dia do Congresso. Teoricamente o mais importante. Mas como tudo era um jogo de cartas marcadas, nada muda e nada mudará.

Houve rachas internos dos grupos que formaram o “chapão” (chapa 11, posição). Muitos movimentos internos dos blocos não aceitaram a debandada. Mas ficaram apenas no protesto, outros se retiram do ginásio, houve quem não votou, em forma de protesto.

O mais grave estava para vir. O almoço seria liberado após o voto dos delegados. O ginásio foi fechado. Ninguém entra, ninguém sai. Só quando o último delegado votasse que os portões seriam abertos. Às 18 horas, não tinha acabado a votação. A desorganização ficou completa, por volta das 19 horas, quando o “almoço” acabou, deixando muitos sem comida. Contam-me, de bastidores, que um grupo invadiu o palanque do ginásio para reclamar da situação. O presidente da UNE disse que chegaria mais almoço e pediu que os manifestantes formassem fila no refeitório. Ao passo que os manifestantes saiam, ele pediu para os seguranças do recinto para fechar as portas. ABSURDO.

O resultado das eleições deu o óbvio. O que já era telegrafado desde a última eleição. Alias, há quem aposte no próximo presidente da UNE.

Nos gritos de guerra eufóricos, nos protestos contra o americanismo, imperialismo, TV Globo, política econômica de FHC, Lula, marxismo, monopólio, juventude no poder. Pedidos de democratização dos meios de comunicação, TV comunitária, inclusão social, inclusão digital, GLBTT, aborto, meio ambiente, minorias, ensino à distância, revolução pela cultura…

Solitário em uma bandeira vermelha, o Graúna do Henfil berrava a favor da contra reforma. A mola que resiste?

Embarcamos no ônibus que me levaria para casa, em doze horas de desconforto e sono pesado, imaginei sobre o futuro político do país. Há saídas? Naomi Klein, salve-nos.

TERCEIRAS TERÇAS – JOSÉ HAMILTON RIBEIRO

Quebrando a série “35 anos do primeiro álbum do Clube da Esquina, uma história de superação que inspirou um aspirante a alguma coisa. Algumas vezes, eu digo jornalista.

OU SONHOS QUE SE TRANSFORMAM

Certas histórias exigem um pouco mais de tempo para que possamos escrever. Pensei em como começar este relato, em não ser “nariz de cera”, ou, quem sabe, exagerar na parcialidade dos fatos, exagerar nos elogios. Na última terça-feira, dia 17 de abril, o jornalista José Hamilton Ribeiro esteve em Santos, depois de três anos, pelo projeto “Terceiras Terças”, do Sesc Santos e Livraria Realejo. Na última passada por Santos, o jornalista recebeu homenagens e o lançamento de uma biografia, realizada como TCC.

O teatro do Sesc estava lotado, aproximadamente 700 pessoas (dos 785 lugares do recinto) compunham o ambiente intimista, a qual decorreu a entrevista, composto, por maior parte, de estudantes de jornalismo, as perguntas eram direcionadas à profissão. Começou descrevendo os quatro últimos lançamentos editoriais com sua assinatura. Peculiaridades de cada grande reportagem descrita nas páginas de sua obra. Contou a história de Zé Bilico, um produtor rural do de Itapecerica, Minas Gerais, que está no livro “O livro das grandes reportagens”, da Editora Globo. Que em meio a tantas “personalidades”, Hamilton deu voz à sabedoria popular. Seus olhos brilhavam ao descrever o porquê desta escolha.

Destacou a importância da mulher na profissão de jornalista. Importância que a Lya Luft sempre defendeu. Relembrou momentos da Guerra do Vietnã, destacou o momento político-social da primeira, e comparou-a com a Guerra do Iraque. Relembrou dos ideais mortos de uma sociedade justa pelo Socialismo. E, 30 anos depois, deu a vitória do combate na Ásia aos americanos, justificando a abertura ao capital estrangeiro e a livre iniciativa existente nos dias atuais no Vietnã. Emocionou-se ao relembrar momentos da sua tragédia pessoal, mas, neste instante, com a força de um ser humano ímpar, que não desiste, descreveu, de forma jocosa, uma parte do seu drama.

Nas poucas linhas acima temos uma idéia, mesmo que superficial, do ocorrido. Mas algo maior aconteceu, um pequeno gesto, um acontecimento pequeno, uma frase fez reafirmar a chama que por pouco quase se apagou em mim. Minha paixão por livros e música é eminente. Estavam à venda alguns livros do José Hamilton, comprei o “Música Caipira”, (estava com pouco dinheiro, mas precisamente o valor exato do livro e minha condução de regresso à casa). Entrei na fila para autografar meu exemplar. Fila grande, e, pacientemente, o Hamilton atendia um a um, tirando foto, conversando, respondendo, com simpatia e bom-humor. Ele que passara o dia todo em uma maratona de entrevistas à imprensa local. Todos, que ele atendia com um sorriso, diziam ser estudantes de jornalismo ou jornalista. Eu, confesso, fiquei encabulado de tal abertura. Na minha vez, sorri, dei-lhe o livro, e disse: “Ola, mestre”. Ele levantou os olhos, olhou-me e perguntou: “É jornalista?”. Respondi: “Estudante”, ele retribuiu: “Tem todo o jeito de ser”. Tiraram foto deste instante, e, como de habitual, fiz minha pose (não-pose) de tirar fotos.

Voltei para casa, exemplar nas mãos, envaidecido do elogio de um ícone do jornalismo, sentei-me com minha mãe e meu tio (fãs do José Hamilton), na cozinha, recitei trechos do livro, contei minha aventura, senti-me tão jornalista como me senti vivo. Na cama, na hora de dormir, fiquei olhando o teto por bons pares de horas, pensando nos meus sonhos ao embarcar nesta profissão, nos projetos de mudar o mundo, de construir valores de cidadania, de levar conhecimento ao máximo possível de pessoas, germinar cultura, lapidar e descobrir talentos… Sonhos que me fazem viver, que me fazem acordar a cada dia. Estou no caminho certo, penso a cada instante.

Cada caminhada inicia-se no primeiro passo.

Os Livros

Música Caipira
Tropeiros
O Gosto da Guerra
O livro das reportagens

A Foto
Crédito: Carlos Freire
Terceiras Terças - José Hamilton Ribeiro
Encontro com o mestre José Hamilton Ribeiro
Ps: Não levem a sério minha pose.

Ditadura da imprensa

Toda a imprensa noticiou a morte do ditador chileno, Augusto Pinochet. Figura aliada aos Estados Unidos, durante a Guerra-fria, foi um dos mais violentos ditadores da América Latina; e peça principal da implantação do Neoliberalismo no Hemisfério Sul.

Algumas informações sobre ele: Em 1973, então comandante chefe do Exército, lidera o golpe que levaria a derrocada do governo socialista de Salvador Allende. Permaneceu até 1990 no poder. Com mais de 3.000 acusações de morte e mais de 20.000 de torturas.

Todos os dias milhares de crianças morrem de fome, outras milhares trabalham em regime de semiescravidão. Nas periferias de São Paulo, imigrantes clandestinos de países latino-americanos trabalham em condições sub-humanas; na Palestina tiroteios e bombas o dia inteiro; Iraque; África… Nada mais é noticiado. O espetáculo da notícia não se rende ao que já é banalizado. Sim, banalizamos a morte, a violência, a falta de esperança.

Isso faz lembrar algo, pouco mais de três semanas atrás, as principais revistas semanais do Brasil com a mesma capa – e mesma foto -. Anorexia. Amplo assunto para venda de revistas, e anúncios de indústrias farmacêuticas no conteúdo do produto (sic. revista). Não tiro a responsabilidade das publicações, entendo a importância do assunto. Existe a necessidade de alertar para os riscos desta doença, visões clínicas e psicológicas. Mas volto ao mesmo assunto, quantas pessoas morrem de fome a cada dia? Viram capas de revistas? Isso aumenta a tiragem das publicações? Atraem publicidade? Muitos sabem da existência desta patologia, nunca foi noticiada.

Também faz me lembrar algo, menos de duas semanas em voga, a crise no transporte aéreo. Algo previsível. Há anos ouço, da boca de passageiros e aviadores, o colapso aéreo brasileiro. Aeroportos sucateados, ampla jornada de trabalho e falta de controladores de vôos, falta de investimentos. Porém, foi preciso um acidente aéreo das proporções do da Gol para chamar a atenção da imprensa. Acompanhamos filas nos embarques aéreos. Absurdos… E as filas em rodoviárias? As greves no transporte público? Os velhos trens das periferias? Os aumentos das tarifas e a falta de ônibus? Os atrasos do metrô? Assaltos em coletivos? Isso é noticiado? Merece destaque na poderosa? Faz-se necessário atingir a uma pequena minoria para virar manchete. É necessário incomodar os ricos para virar pauta.

Aos problemas das classes C, D e E pouco se importam. Aliás, bacanas como são, criaram jornais para esta “classe”, noticiam crimes em um português sofrível (como julgam viverem os leitores deste nicho) receitas econômicas, fofoca de artistas, futebol e mulheres na capa, e lá darão abertura para este tipo de informação, que pouco interessa aos leitores dos “jornalões”; estes estão preocupados com a morte de ditadores, ou árvores condenadas por fungos, ou na crise aérea, ou em doenças da moda, em novidades nas academias.

Tenho que concordar com o Gérson Moreira Lima, quando afirma: “O jornalismo é feito por gente da classe média alta, com pensamentos e preconceitos da classe média alta, defendendo interesses e pontos de vistas da classe média alta”.

Quando surge alguém disposto a lutar contra esta maré comum são tachados de lunáticos, loucos, sonhadores, utópicos.

Enquanto milhares morrem na África, na Palestina ou bem próximo a nós, bestificados, comentamos nas padarias, filas de bancos ou mercado, a morte do ditador chileno. E os mais de 3 mil que morreram durante o período do regime de Pinochet? E os milhares de torturados? Merecem nossos comentários? Ou estarão esquecidos, como os crimes impunes do Ditador?

A América Latina comete os mesmos erros que culminaram à Ditadura Militar. Fidel Castro mal fechou os olhos, e ameaçam “roubar-lhe” o
cargo.

Enquanto discutem se o enterro do ditador será com honras oficiais ou não, guerras explodem pelos quatro cantos do planeta. Morre um ditador, mas a ditadura econômica, que aniquila milhares aos dias, está longe de um fim.


abril 2014
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