Página de arquivo 2

Sobras

    “Diz-se que quem é feliz no amor
    No jogo é infeliz
    Mas de quem faz do amor
    Um jogo o que é que se diz
    Eu não sei jogar e ela é a rainha
    Como poderei pensar que ela é minha?”
    (Caetano Veloso – Dama do Cassino)

Palavras se desfazem como chuva, em percursos costurados pelo tempo. Derretem violentamente entre o silêncio e os suspiros próprios de cólera. Há pouco instante, tudo era paz. Fios invisíveis a demonstrar a ternura exposta em olhos cansados de esperar. As frases caem de alturas imensuráveis e explodem rompendo a noite fria. Cortam o breu em imagens de luzes dançantes no espaço infindo de nós dois.

Pensamentos imperfeitos como tempestades tropicais clareiam as névoas deixadas pelo passado fragmentado e caminhos interrompidos. Espectros de vidas que se bifurcam em labirintos difusos. Rotas em colisão. Um milhão de sóis a iluminar a face mais sombria do universo. Todos os lados escuros da lua são regidos pelas suas retinas a me fotografar. Início e fim interruptos; que clamam sempre por mais: incansavelmente!

Sobre corpos desfeitos, a maquiagem fria e borrada expõe em versos profundos a quietude de seu exílio. Do lado de fora, longas jornadas em vão. Em minha cabeça, um Minotauro se aloja entre o Dédalo d’alma e a solidão das grandes metrópoles. Sem Teseu e o fio condutor para achar a saída, vago pelas peripécias típicas dos distraídos para a vida. Esqueço os dias de calmaria e miro-me aos pensamentos sobre tormentas e desalentos. Voe como quem deve partir e regresse ao lado dos puros de coração.

A queda de Ícaro: o mergulho raso ao céu aberto e o horizonte infinito. O devaneio de aventurar-se. O risco de cair e o medo de se arriscar. A carne e o osso. Ondas de tristeza encharcada de eufórica alegria divergem e convergem em partes; a me possuir, torturar e proteger. A alma e seus mistérios. A metafísica do amor. A alquimia dos sonhos. A virtualidade do ser. Saídas de emergência em todos dos cantos.

Enquanto feras andam soltas, você me hipnotiza em cada gesto inculto. Feridas e chagas desfeitas em pétalas de rosas a tatuar a pele. Certas consternações não se sentem apenas com o coração. Dores expostas em vitrines vulgares, sob a sombra semi-iluminada do consumo desenfreado e desinibido de pudores. Preso a uma cela, tento fugir e cair em suas garras. Astros distraídos ofuscam constelações.

Solidão nuclear

Rotas incertas e incompletas voltas,
em remotos começos sem fim:
a cada hora, uma nova história.
Tímidos devaneios da alma em ebulição.

Extremos sempre cicatrizaram meus dias.
Passos em direção ao precipício,
calmarias em dias tropicais:
inverno e pôr-do-sol ao amanhecer.

Sigo por trajetos não traçados,
em aventuras não vividas.
Recomeço e fim que se encontram
no escuro abstrato das palavras.

Luta vã a minha, tecer em versos
os horizontes perdidos do amor.
Chaga tatuada no espírito,
tempestade e calmaria que não cessam.

A paz próxima e distante ao olhar.
Peito aberto para engolir o mundo.
Imaginário e real em polos opostos
em luzes apagadas da solidão nuclear.

O côncavo e o convexo

Sempre os meus erros primários e pecados insólitos sobre a mesa. A confraria dos covardes, a batalha dos derrotados. Sobre o chão, restos de uma noite sem sono e a tortura angustiante a embaçar as vistas cansadas dos desesperos comuns. De real, apenas uma história de amor inventada e tortuosas horas de prazer e acalanto. Eu te vejo pelos cantos escuros da alma em estado de calmaria provisória aos desatinos provocados pela incompreensão. Paz, amor e recomeço a exorcizarem a tempestade de sentimentos que teve início há poucos dias. Contados nos relógios, meio século de evolução cármica.

Do outro lado do hemisfério, seus olhos enfeitam o mundo. Sobre o globo, caminha tranquila pelas ruas e alamedas das cidades em chamas. O mundo, quase que por encanto, esqueceu de me avisar que tudo não passou de um devaneio vespertino, ou uma história combinada e espalhada pelos quatro cantos. Real, imaginário, virtual ou embrionário: o que sei é que esqueci de me lembrar do que não poderia duvidar. Quem sabe, o amanhã me surpreenderá com mais uma história incompleta neste caleidoscópio fantástico e irreal.

Em minha confusão, sentimentos esparramados pelos cantos. Janelas e portas que se abrem para o desconhecido inerte em cinco sentidos e quatro pontos cardeais. Vistas encobertas pela incerteza latente dos que temem a paz derradeira e a felicidade completa, negociada em pegue-e-pagues espalhados em esquinas vulgares de cidades vazias. A única certeza é que nada de concreto passa imune por rotas alteradas. A vida, meu caro, era uma repetição de cenas sem nexo, num imenso mosaico multicolor. Alguém nos cosmo deve se divertir com as investidas equivocadas dos marinheiros inexperientes defronte ao imenso mar do amor.

A poesia é um vício: a podre corrupção da falta de poder. A arte é a fantasia da alma, enquanto se embriaga pela escassez de sentimentos convictos e puros. Toda poesia é uma mentira. E as mentiras me fazem viver. Será que existe vida inteligente diante minhas retinas, ou dentro delas. Livros e filmes empilhados sobre a memória cada vez mais rarefeita. Sobre o mundo, seus olhos castanhos me mostram estranhos caminhos inexplorados. Tudo de pernas para o ar; côncavo e convexo fundem-se em um ponto abstrato no infinito inseguro. Vida vista de fora; em estações fora do ar… Pelas as esquinas do mundo a fora, aflora a dor. Sem você, tudo fica fora do lugar. Se há, sei lá!

Procuro o resto de uma lucidez inexistente. Nada. Fecho os olhos e espero o grande inverno da Rússia. Girassóis que não procuram a luz e refrões de bolero que não rimam amor com dor. Felicidade não combina com a realidade. Pontos que não convergem no infinito opaco de suas palavras frias. Vejo seu rosto em gélidas galerias; nos cinemas; em páginas coloridas dos jornais. Eu sempre escolhi bem as palavras, mas hoje eu não sei o que pensar. Talvez por falta de sorte, talvez por falta de repertório, talvez pela ausência em mim em mim.

Hoje, vou fugir de casa, desfigurar a falta de coragem em escolher outros caminhos. Hoje, irei esparramar resíduos do passado em vultos que se multiplicam refletidos em um espelho a me mostrar o que nunca fui. Em repetidas cenas, o meu lado mais sombrio a me torturar em frases não ditas e o silêncio abstrato de suas palavras – duras palavras. Pelo caminho, pedaços de sentimentos triturados a contaminar velhas feridas não cicatrizadas. A paz derradeira tão longe de uma compreensão.

Fugas

Eu me escondo no escuro do mundo.
Rumo aos seus olhos castanhos.
Estranhos enganos.
Calo-me em um segundo.
Guiado pelo criado-mudo
Escuto: silêncio!
Sinto forte o cheiro do vento vir.
Volta você do alto, voando baixo.
Por perto. Peito aberto. Vento vem seguir!

Eu me escondo do medo.
Do tempo.
Guiado sem paz.
Água!
Areia!
Ar!
Céu!
Mar!
Quando meus olhos menos esperavam, anoiteceu.

Escondo-me do medo perdido,
no espaço vazio esquecido.
Nos livros, festas e fantasias,
No exato momento que perdia a alegria.

Tudo que é sólido derrete no ar

Sentimentos nublados por cicatrizes não curadas e tentativas desconexas de me reencontrar. Por mares nunca dantes navegáveis, tateio a monotonia dos dias maquinais. De longe, apenas o universo em expansão a acompanhar virtualmente meus suspiros abandonados ao acaso. Por descaso, deixo que marcas do passado conduzam a incompreensão da angústia lapidada em palavras e frases.

De concreto, apenas a incerteza latente que amanhã tudo recomeçara: como voltas concêntricas e retorno ao lar. Imprecisos sempre foram minhas decisões. Meus passos que colidem ao acaso dos astros vagabundos. Vida vista por outra ótica. Saudades com sabor amargo. Marcas no rosto e um gosto salgado na boca. Equilibro-me à beira de um abismo. Largo, fundo, interminável. Quem sabe caio, quem sabe vôo, quem sabe vou. Vou-me embora para nunca mais voltar em mim.

Deitado em asfalto molhado, a neblina desvia minhas vistas cansadas do tédio e apatia. Fazer forças para conseguir pensar em algo que nem mesmo sei prover, provar, tentar. Fora de estação, inverno se mistura ao verão que e anuncia em poucos dias. Caóticos sentimentos desencontrados e uma revolta intermitente de reinaugurar o passado. Volte voando, vindo dos céus.

Sem rumo, a menina que refletia de seus olhos agora demonstra que se perdeu por não aprender a dividir os seus medos e traumas. Apática, a chama que lhe enfeitava as datas mágicas agora se esconde sobre a maquiagem borrada e o abuso de álcool. Longe da confusão de fora, vaga entre desencontros e medos. Lágrimas pela dor de ausência.

Pensei no fogo, falei de dor, recriei o amor em mim. Uma claridade viva de uma mente sem lembranças dos fragmentos do passado. Ao mar sem cor, lanço a única memória envolta. Livrei-me de mim… Passos no porão da alma. Do outro lado, verdades derretidas em combustão estrelar. Tudo que é sólido derrete no ar. Ante a explosão, um momento de calmaria. Momentânea e desnecessária quanto uma imagem refletida no espelho. Linhas paralelas que se cruzam no infinito e além dos olhos comuns.

Marcas profundas

Enquanto o mundo se arrasta, nós nos mantemos presos em milhares de feridas não cicatrizadas e momentos eternizados em nossas almas. A vida, vista de fora, parecia ser algo simples; tão comum quanto respirar. Não! Não me convide para beber seu veneno. Não tenha medo de entregar seus planos em outras rotas. Pedras em seus passos. Poeira vermelha sobre o céu de brigadeiro que não nos aguarda.

Espero o telefone tocar, como torço para que não me ligue. Contradições que se compõem em um enorme mosaico de sentimentos mensurados pelo tempo. Em relógios imprecisos, rotas de colisão e estrelas distraídas perdem-se em longas e intermináveis voltas concêntricas em um labirinto sem nexo, sem lógica e sem final. Nove pontas de uma estrela reluzente: azul. Noites de frio, manhãs melancólicas com cheiro de saudade. E você vinda do alto.

Busco em outras histórias pedaços esquecidos do passado. Em frente, apenas a lembrança dos dias que virão. Compro flores como se pudessem rever as rosas que enfeitavam um jardim que me marcou, em algum lugar estranho. Tudo é tão verde em seus olhos, que é impossível não enxergar pela sua clarividência. Justo quando me acostumava, o ar faltou. Fulminante como um raio em noite de tempestade, novamente o tapa brutal da dor.

Eu esperei tanto tempo por respostar para as perguntas não formuladas, que me deparei com a desesperança de ter perdido algo que nunca pude tocar. Mas, ainda havia mais a esperar. Os dias que passavam enquanto esquecia do tempo, os olhos que cansavam diante da penteadeira desabitada de sua fotografia. Resolvi desprender-me do período remoto que nos uniu. Na verdade, dias intermináveis.

Enquanto caminhava devagar pelas ruas da cidade deserta, você respirava fundo em novos planos e entregas. Do outro lado, dois mundos que se chocaram e que deixaram marcas profundas. Qual a palavra certa para descrever o que nos passa? Dor e saudade que e misturam a um gosto de sal na língua. Bem-vinda ao lar; guardo histórias embaixo do colchão para encher de alegria ao seu regresso em nós. Sobre a mesa vazia, o passado como sobremesa.

Um salto no escuro e abafado grito da noite

Estrada sem sol e resto de ilusões perdidas. Trânsito difuso para o caminho mais próximo do que esteve ao alcance do coração. Duas chamas. Pouca vida. Quase nada sobre a mesa. Lembranças e fragmentos de um futuro recente. Rente aos olhos e distante de acontecer. Real? Imaginário? Fantasia? Movimentos transitórios misturados a redes invisíveis a transmutar em sonhos e pensamentos imperfeitos. Um salto rasante no grito da noite. Na soturna e desesperadora espera pela hora da estrela.

Sem lógica sempre foram os devaneios mais interessantes. No epicentro do furacão caótico do cotidiano, vagam pelas frias galerias dos séculos, em passos lentos, a absurda velocidade dos desventurados para o novo. De novo, como de costume, vidas amarradas em trópicos imaginários e latentes aos olhos nus. Como orquestras dodecafônicas, compassos e rimos inebriantes e imprecisos entorpecem os ouvidos mais puros. Sem lógica. Mentiras inventadas, verdades distorcidas e o medo de inaugurar o passado, que ainda não passou de um lugar comum.

Como fosse mágica. Como se fosse preciso. Como se pudesse voar, ao mar, sem fim. Se hoje o sol sair, eu te prometo o céu. Prometo o que não poderei cumprir e te espero no entardecer em um ponto qualquer à beira do mar. Em girassóis da noite fria. Trens estrangeiros em visita à terra natal.

Três vidas em suas mãos. Sujas. Cegos, tateamos o escuro abstrato criado pela incompreensão. Vida vista de fora, olhos e ouvidos censurados pela dor. A carne rasga e entorpece o pânico. Mensurado pela inconsciência, vagam solitários e malucos ao mundo afora. Fora do ar. Fora de órbita. Em uma outra estação de ondas médias, tocando músicas retrô de um futuro próximo. Polaroid dos aos 70. Imagens em Tecnicolor. A música preenche a sua falta. A solidão escorre pelos ralos, pela latrina comum dos desejos comuns. O resto é paisagem. O restante é perfumarias baratas, vendidas em esquinas ordinárias.

O que não fere tranqüiliza. Temo ter os nervos calmos. A fome do novo, a fome do povo, a fome de viver desesperadamente. Há fome. A fome do mundo. Imundo. O fim próximo e constante. Nuvem de fumaças a tampar as vista para o óbvio. Duas chagas, três escolhas, uma única saída. Saem pelos poros, pelos cantos, pelas lágrimas, na transpiração, no suor latente, no frio que escorre a espinha da solidão virtual mediada. Meios e formas que em nada informam.

Não deixe o sol morrer. Gritos no corredor. Seu silêncio abafado fez o tempo ficar lento e tenso. A lágrima estampada em sua camisa fez companhia à noite, estrela. Para a lua, berrei seu nome em mais uma noite sem sono. O tempo passa lento em sua órbita. Verdes campos e o céu de brigadeiro entre as antigas dores dissimuladas. Ao sabor do metal, ávida semente a florescer entre os matagais da selva de pedra das metrópoles. Verdades inventadas e mentiras que esqueceram de acontecer. De exato, apenas a certeza que amanhã tudo se repetirá, como discos riscados e recados na secretária eletrônica.

Céu azul!

De repente, estava você do outro lado. Nossos medos misturados em um único sentimento. Você sorriu. Tentei fugir, como sempre fujo. Desta vez, porém, estático, não consegui sair do rumo de suas retinas. O tempo, sempre nosso inimigo, agora fez-se aliado. Em poucos instantes reconhecemos-nos. Éramos nós, como sempre fomos. Em todo os cinco bilhões de anos que estivemos separados, segundo algum duvidamos que éramos nós.

“Onde estave o tempo todo?” Perguntei ainda sem jeito.
“Esta em ti. Sempre estive. Você não percebeu?” Respondeu-me de forma angelical.

Nossos destinos cruzados nos desencontros rotineiros da vida, caminhavam na mesma direção. Cegos ou medrosos fingíamos não ver a junção das nossas almas, que se separaram ainda na formação para, no plano físico, unirem-se. Deste instante, por toda a vastidão da eternidade.

Flores enfeitavam nosso caminhar. O caminho iluminado pelo brilho radiante de nossos sentimentos, fez que a vida fosse algo mágico. Lágrimas rolavam em nossas faces. Choro bom, choro de euforia, alegria. Pequenas gotas de amor cristalizadas em nossos olhos. Olhos, estes, que sem a outra metade não teria razão alguma para enxergar.

Tateávamos no escuro nossos rostos, conhecíamos de cor cada detalhe. Esculpida sem seus sorrisos compreendia a perfeição que vivíamos. A cada instante, sentiamos algo gigantesco crescendo dentro de nós. Uma enorme esfera azul. Desde então, o universo parou de expandir, chegando a reduzir de tamanho, apenas para contemplar de perto o nosso amor em vasta dilatação.

Estrelas, confusas, colidiam-se, atraídas pela gravidade que girava em torno do nosso amor. Fragmentos de brilhos solares, oriundos de outras constelações, iluminavam o efervescente bradar de nossas palavras puras e sinceras. “Eu te amo”, saia de nossos corações diretamente ao coração do outro. As vozes, nestas ocasiões, eram desnecessárias. Enquanto vivíamos nossos sonhos, a vida, caprichosamente, aponta nosso destino a paraísos nunca dantes vistos por nossas retinas maravilhadas de tanta paz.

Pela calmaria que seus olhos transmitiam, via em cenas coloridas o nosso futuro. Uma onda de paz invadia meu peito de forma tão abismal fazendo-me esquecer que um dia não fora assim. Girava em torno de sua gravidade, atraído pelo magnetismo natural de suas mais delicadas demonstrações de carinho, e, por toda a eternidade, vaguei em órbitas decididas, seguindo as trilhas postas por ti em meu caminhar.

Seu sorriso iluminada o breu de toda a galáxia. “Sorrio por ti e para ti”, meu coração parou por uma eternidade ao ouvir esta frase, meu corpo arrepiou, a garganta secou, suor frio tomou conta de minhas mãos. Trêmulo e em torpor, pude ouvir você dizer: “Eu te amo”. Neste instante, ganhei vida eterna. E por toda minha vida tento fazer-te feliz, sentir o mesmo prazer de existir apenas por e para ser amado por ti.

Há dias que o cinza encobre o céu, nestas datas o brilho do seu olhar dissipa as mais negras nuvens.

Memórias de um tênis surrado

Um tênis surrado marca o ritmo da primeira melodia a encher de vida, luz e emoção o Teatro Coliseu, na noite de quinta-feira (6). Aos poucos, o sotaque mineiro e a música influenciada por Beatles, bossa nova e jazz se misturam em um universo paralelo criado por Lô Borges. Em quase duas horas de show, mesclando antigos e novos sucessos, três gerações de fãs se emocionaram ao cantar em coro as canções que marcaram sonhos, vidas e amores.

Com mais de três décadas de carreira, em plena forma, o cantor mineiro entra em turnê de seu último CD e primeiro DVD (Intimidade, Som Livre, 2008). No mini-documentário musical, os maiores sucessos do sócio-fundador do Clube da Esquina são interpretados de forma intimista para um seleto grupo de fãs. A vida e obra do compositor são expostas por meio de seu cotidiano, entrevistas e depoimentos em tons informais.

Da mesma forma, Lô entoou 19 sucessos presentes nos nove álbuns solos e três em parceria com outros artistas mineiros. Desde o antológico Clube da Esquina (EMI, 1972), divido com o Bituca, até o mais recente trabalho Bhanda (independente, 2007). Em tom mineiro, moderando entre “causos” ilustres e pedidos da platéia, Lô demonstra a simplicidade e a magia musical oriunda das montanhas das Gerais.

Foi justamente ao cantar uma parceria com a nova geração – Dois Rios (Lô Borges, Samuel Rosa e Nando Reis) – que um sol nasceu entre as montanhas mineiras, devidamente costuradas em retalhos, que enfeitavam o palco semi-iluminado do teatro santista. No refrão de seu último sucesso radiofônico, interpretada pelo eterno parceiro Milton Nascimento – Quem sabe isso quer dizer amor (Lô e Márcio Borges) – que as lágrimas correram a face do músico mineiro. No bis, aclamado, Lô marca com o pé o compasso para entoar, com a emoção da platéia, as frases “Porque se chamavam homens/ também se chamava sonhos / E os sonhos não envelhecem” – Clube da Esquina nº2 (Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges).

Há 35 anos, um outro tênis surrado e cheio de lama – que ilustrou a capa de seu primeiro disco solo (Lô Borges, 1972) – marcou a passagem do garoto Salomão Borges Filho (de 17 anos) em um dos maiores compositores brasileiros. Na contra-capa do álbum, explicava que a escolha do calçado desprendia uma imensa vontade de “cair na estrada” e conhecer o mundo. Algumas voltas depois, Lô é capaz de recriar um universo por meio dos acordes de suas composições.

Set-list
Feira moderna
Quem sabe isso quer dizer amor
Tudo em cores para você
Clube da Esquina N.º2
Segundas mornas intenções
Dois rios
Clube da Esquina N.º1
Força do vento
Tudo que você podia ser
Qualquer lugar
Nuvem cigana
Um dia e meio
Equatorial (violão e guitarra)
Sonho Real (violão e guitarra)
Cordão de ouro (inédita)
Um girassol da cor de seu cabelo
Paisagem da janela
Trem azul
Para Lennon e McCartney
Clube da Esquina N.º2 (Bis)

Memórias de um novo amanhecer

O vento sempre sopra com mais força para quem não está acostumado com o inverno. Mesmo não estando em perigo, quero que você me proteja deste inferno, me aqueça neste inverno abismal que a sua falta me faz.

O tempo passa depressa demais para quem tem pressa em colher o novo. Embora sua retina ainda registra os meus devaneios mais inesperados, sinto um vento tocar minha face. O frio que premeditava abraçou meu desespero. Talvez seja a sua falta a inebriar meus sentidos.

Sem tato ou paladar, tudo fica mais cinza, mais triste, sem graça e sem cor sem seu abraço e palavras para dividirem o pouco que sei. Não sei o que mais me faz falta, se é seu toque em meu cabelo ou a falta de sua imagem cristalina em minha mente.

Enquanto tento esquecer palavras e gestos virtuais, uma flor de plástico e uma foto de um passado distante enfeitam a escrivaninha; a qual escrevo relatos, recados e pecados em seu nome. Então, você me diz que ser feliz de fato é inaugurar o passado. E quem pode comigo quando eu digo tudo o que sinto?

É sorte saber de tudo o que se passa. Eu não sei de você, mas acho que foi sem querer. A entrega que fizemos, os passos que colidimos. Céu, sol, girassol. O silêncio e eu olho para a janela: a música é ela. Pois toda mágoa, lágrima ou sorriso só fazem sentidos sendo amparados pelos seus olhos meigos e encantadores.

E a agonia de viver se torna mais sutil sendo aparado pelos seus braços. Carinhos que à noite, mesmo cansados, recolhem meus pedaços e abraçam meus pecados ao torno de ti. Meus pedaços tão cansados que mal conseguem suportar a barra de viver sem você.

Enquanto caio de uma altura imensurável que é o amor, na queda, observo o passado como uma repetição do futuro. Em um mundo em que milhões de imagens explorem, um minuto de silêncio é um alívio momentâneo às dores de outrora. Mesmo não estando em perigo, quero que você proteja meus olhos cansados de te esperar. Mesmo em um abrigo, quero estar contigo quando a chuva chegar.

Um pequeno devaneio

Quando escureceu, nenhuma luz por onde andava acendeu. Onde você estava? Onde estávamos nós além de dois corpos distantes em pensamentos imperfeitos. Quando anoiteceu, por que não me socorreu? Por que não te iluminei? Em que momento tudo que acreditávamos se perdeu? Foi o fim de tudo? O fim do mundo? O fim de nós!

Quando anoiteceu, a luz de sua casa permaneceu apagada durante a madrugada interminável. Eu, perdido em meus devaneios mais indesejados, perguntava onde poderia estar. Além de mim. Além dos quarteirões que separam os quintais do mundo. Distante dos muros que separam dois universos. Além de tudo. Muito além dos jardins que enfeitavam nossos sonhos, nossos planos, nossas vidas.

Vou sair para ver o mar e me perder entre os labirintos que distanciam nossos passos. Vou te procurar entre as estrelas e os satélites distraídos, que confusos me ditaram caminhos errados e esparsos. Eu irei caminhar por trajetos errados em diferentes passos. Em destinos errantes nas mais estranhas pegadas na areia. E vou te encontrar em um planeta abandonado no curto espaço entre nós dois. Em nossos abraços, em seus sorrisos largos.

Eu espero te ver deslizando entre luas e nuvens no azul aveludado do cosmos, sem gravidade. Suspensa entre as teias que amarram os destinos, em linhas paralelas amarelas e imaginárias que controlam o universo em expansão. Verei o seu sorriso estampado iluminando novas nebulosas. Em inúmeras constelações, nossos passos guiariam outros passos no escuro.

E o medo exagerado do futuro

Imaginei seu rosto em um dia de desespero. Saudade consumia-me em fragmentadas dores de um passado recente. Seu perfume ainda refresca minha memória. Momentos antes do desespero, vi seu rosto sorrindo aquela risada que sorria quando aprontava. Vem, mas com coragem de mudar a vida, os pecados, as dores, a saudade. Vem prender-te em meus braços e perder-se em meu corpo. Vem que eu te quero toda em mim.

O instante de te ver me custou chagas de uma vida. Eu vim para não morrer. As marcas que ficaram, das chuvas que apaguei, das dores que curei, dos traumas que me livrei. O escuro a procurar a luz que a sua falta trás. Não me encontro mais sozinho com a minha solidão. O silêncio me devora aos poucos. É tudo ao mesmo tempo dentro do meu dilacerado coração. O tempo não existe. Existe e devora-me em tantos trechos esquecidos. Citações anotadas em pedaços de papel, em guardanapos. Em frangalhos, reergo-me em vitórias perdidas e batalhas não iniciadas. Do passado aprendi a ter medo do futuro.

A cada segundo me despeço da vida. Como a todo mundo, a cada instante deixamos um pedaço da existência para trás. Um passo para o fim. Sei que muita coisa é possível e provável, mas não luto contra a ordem natural. Apesar de muito, tudo leve. Tudo jaz. Tudo mais. Chorar de amor para mim é quase morrer. Saio para nunca mais voltar: em ti! Em mim. Eu sou um sonhador. Sonho a dor. E você?

Como num trapézio sem rede, eu me lanço sobre o mundo, ao rumo de seus olhos castanhos. Fecho os olhos e te vejo nítida. Anseio o dia que, com o refúgio dos meus sentidos, acorde sobre seus cálculos viciados sempre com a mesma solução ilógica. Desculpa se fiz das últimas noites fogo a consumir-me por inteiro, no ápice do inverno em agosto. Ainda guardo na memória o gosto doce dos seus abraços.

Meu rosto pregado antes que eu me esqueça de tudo que eu deveria esquecer. Vaga idéia sobre os passos maquinais. Dos dias todos iguais. A hora que não passa, a saudade que não cessa, a dor que consome aos poucos. No pátio interno de meu ser, peço e imploro para que fale comigo. Eu quero que você me aqueça neste inverno, neste inferno que engole com chamas os restos de que sobraram de mim e ficaram expostos em caos.

Eu tenho os dias contados, então mantenha distância de meu coração. Com os pés sujos de lama e a roupas rasgadas somos mais sinceros. Todos iguais dentro de suas diferenças herméticas. As pessoas são os lindos problemas que enfrentamos diariamente. Em frente, adiante, enquanto os outros se arrastam eu prefiro sumir. Olho meu rosto cansado no espelho e depois vou dormir entre as cores escondidas de suas retinas. Por de trás do rosto esconde uma contradição de sentimentos irreais e imaginários. Do outro lado há você.

Réquem de dor

Minha casa mudou de rua, mudou de bairro.
Os vizinhos não são os mesmos.
Apenas observo o silêncio assustador.
Não há ninguém ao redor.

Minha casa mudou de casa.
Abriga-se agora em qualquer canto sujo, sombrio.
Vigia-se em noites sem sono.
Do abandono natural dos esquecidos.

Talvez a incerteza de seus passos
conduz ao infinito trajeto sem começo.
De longe ouvia seus berros. A clamar:
- socorro. Sozinho não poderia acudir.

Eram dias duvidosos de chuva,
e incertos de tempestade branda.
Talvez a primavera foi-se para sempre.
E o correr atrasado do cotidiano
fez-nos esquecer que um dia ela existiu.

Minha casa mudou de rua, de vizinhos.
Perdeu o encanto de outrora.
A alegria de outrem.
A comemoração de antigamente.
Das datas esquecidas,
ficaram apenas as fotos amareladas pelo tempo.

Podres Poderes

Embora vitorioso nas urnas no último 10 de agosto – quando teve seu mandato reconfirmado no revogatório -, o presidente da Bolívia, Evo Morales, acompanhou em seguida a oposição ao seu governo ganhar força e ser abraçada pela opinião pública em várias partes do mundo. A crise vizinha deflagrada nas últimas semanas demonstra a escassez política e argumentativa do sistema semi-ditatorial da América católica.

O vazio político-admintrativo das figuras centrais latino-americanas ocasiona a dominação do poderio econômico. De um lado, malucos armados de doutrinas atrasadas, discursos ufanistas e ultranacionalista – disfarçadas de um neo-marxismo – ; do outro corner, os interesses imperialistas do vil capital.

Nesse embate, quem perde é a população ingênua e desarmada de conhecimentos necessários à mobilização social. Não à toa, o palco de constantes lutas egocêntricas pelo poder se faz em países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Nações sem o costume republicano e democrático. Pátrias dividas em anos de lutas históricas pela libertação colonialista, e que, como o tempo, culminaram ao servilismo do grupo dos países industrializados.

A união dos grupos oposicionistas das regiões mais ricas da Bolívia é um exemplo claro da organização de uma ala da sociedade. Mais uma vez, a busca pelo lucro dos petrodólares desloca parcela da sociedade numa luta em que um único jogador movimenta as peças. Desnecessário salientarquem sairá coroado com a “vitória”. Os semi-ditadores latino-americanos apenas dão vazão para o aparecimento de movimentações da classe econômica dominante. São, apenas, a justificativa “legal” para a o uso da força, legitimado pelo aval – mesmo por debaixo dos panos -, dos EUA.

Cantarolando Caetano Veloso: “será que nunca faremos senão confirmar/ A incompetência da América Católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos?”. A maioria dos carros que cruzam os sinais vermelhos não é mais composta por fuscas; mas os homens continuam a exercer seus podres poderes. Resta saber quem velará pelas alegrias do mundo?

Fortaleza da Solidão

Do lado em que nasce o sol, você repousava calma e bela. Dias seguintes, não enxergo mais a paz e a clarividência que a sua presença emitia. Distante do que éramos, estamos, agora, anos luz de uma estrada em destinos diversos. Cada um para um lado; silêncio entre nós dois.

Na briga interna de seu mundo, fragmentos atingiram minha calmaria alcançada depois de árduas lutas. Abalado, frágil e cansado das batalhas do passado, seu sorriso enfeita a galeria de minha memória rarefeita. Pedaços de sentimentos e sonhos destruídos. Em milhares de pontos, seu magnetismo, aos poucos, se perdeu de dentro de mim. Com quantos litros de medos se desfazem sentimentos? Quantos metros de dúvida acabam com o amor? Com quantos quilos de solidão são necessários para reconstruir uma alma em frangalhos? O silêncio de nós dois.

Mas te espero, pois o grito dos teus olhos é um misto de arrependimento, medo e insegurança. Somente em meus braços poderá, enfim, reencontrar o choque a equilibrar seus desatinos e arrependimentos de pecados do passado. Seu sorriso espontâneo despertou os sonhos que tive, esquecidos sobre a penteadeira. Desde que você partiu, o doce de meus lábios deu vazão à apatia e descontentamento. O silêncio de seus passos, a solidão de nossas palavras. O frio a arrepiar a alma.

Toda poesia é uma despedida. Você disse adeus e deixou em mim um vazio descomunal. Desde então, encobri minha dor com um manto azul: um amor e uma mágoa. Eu lavei meu rosto com palavras triste quando acenou-me tchau. De vez em quando, todos os olhos se voltam contra meus passos distraídos. No fundo, a espera que eu seja algo maior que eu sou. Em minha Fortaleza da Solidão, sem rascunhos de Krypton e superpoderes, observo o isolamento das pessoas nas grandes metrópoles.

No silêncio da noite, fecho os olhos e imagino você chegar.

« Página anteriorPróxima Página »


 

Novembro 2009
S T Q Q S S D
« Out    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Acesso número:

  • 60,613 Páginas vistas.

Twitter