SAUDADE

Hoje faz um ano. A saudade chega a ponto de torpor. Antes sentir dor, era mais fácil conviver. Sinto o tempo cada vez mais vago e não consigo sentir o bater do meu coração. Cogito, não por falta de vontade ou aspiração para o novo, apenas por virtude, ou falta dela; cogito, como berro o seu nome. Quero recriar o mundo. Como? Se não consigo me colocar em ordem?

Não sei o que me causa mais dor, se é a sua ausência ou sua imagem no porta retrato. Releio algumas cartas como relíquias. Sigo suas palavras como religião. Mas, ao olhar-me ao espelho, percebo as marcas da sua falta. Não durmo, não por falta de sono, mas porque não está aqui. Sinto um medo indescritível do mundo, não por falta de fé ou confiança em meus passos; isso nunca! Mas por observar o vago lugar que me sobra ao lado. Cadê você?

Às vezes, leio seu nome de forma pausada, tentando observar o mistério que coroa sua marca. Calo-me, apreciando, calmamente, cada letra que compõem o universo envolto em seus dias. Por que se esconde? E, principalmente, por que não ouve meus berros mais apavorados em noites regadas de pesadelos mórbidos, que a sua falta, caprichosamente, trouxe aos meus dias de desalento.

Mas, se for voltar, não volte por uma noite ou uma tarde ensolarada de verão. Volte para a vida inteira; inteiros momentos de entregas e recebimentos. Volte! Volte logo, volte já. Por que se esconde em nebulosos passos distraídos? Por que sonhamos sonhos tão bons quanto insanos? Entregamos-nos em sólidos delírios típicos dos adolescentes na descoberta do amor durante as férias de verão. Não. Não posso admitir, nem por um segundo, nem se realmente for verdade, que este insano sonho foi inventado. Seria um tiro certeiro ao meu peito frágil, se, tudo isso, apenas passasse de delírio, ou um sonho passageiro típico das chuvosas manhãs de inverno. Volte.

Não deveria mais acreditar na felicidade eterna, passei da idade em crer em tal utopia, seria ingenuidade leviana de um coração frágil. Mas, ao te ver sorrindo e bela deslizando em passos tímidos, poucos passos ao encontro do infinito, suspirando aliviada e agradecendo aos céus, pus-me a crer no amor e felicidade pura.

Eram dias de felicidades, sorrisos e passos decididos.

Hoje, em poucos momentos que entrego aos sonhos, acordo assustado e sem ar. Liberto-me de pesadelos que vagam em minhas noites mais aflitas. Procuro minha mão no escuro e entre terços, bíblia e meus olhos aflitos refletidos no espelho, procuro um abrigo sustentável ao medo latente, perene e sombrio manifesto em indecisos manifestos de falta de fé.

A sua falta sufoca, não apenas pela presença física ou a doce harmonia de sua voz, mas pela perda dos sentidos que não reconheço em meus trajetos tortos. Não entendo, e pouco procuro entender, meus passos. Falta-me à referência inerte, ou seu sorriso mais angelical, ou o seu olhar puro como delírio infantil, ou seus passos retilíneos e decididos, falta você, com todos os defeitos que sempre desejei odiar, e todas as virtudes que faltam em meu peito solitário.

Pouco sei sobre a vida, – analisada de forma profunda, creio que nada -, só sei que sem você nem sei se quero saber.

Atravesso a noite com um pensar que não acho solução, com dúvidas e lamentos que nem sei se são corrigíveis. Isso me sufoca, perco o apetite, o sono, postura, orgulho, esperanças, fé… Tudo. Tenho perdido alguns quilos, muitos cabelos, livros, discos, sonhos… Não me atrevo em pensar que perdi você. Pessoas não se perdem, desencontram-se. Desencontramos no momento que você precisava de mim, mas, infelizmente, desencontramos no momento que eu precisava me encontrar. E, sem você, me sinto completamente perdido.

Completamente perdido… Volte!

À quem espero incondicionamente.

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2 Responses to “SAUDADE”


  1. 1 Walter Titz dezembro 17, 2006 às 9:50 pm

    o Edu é um cara sinistro!!!
    e tem esses Ela’s, mesmo roubando de uma parceria, mais sinistros ainda.
    FANTÁSTICO!!!!

  2. 2 Jairo dezembro 19, 2006 às 11:01 am

    Nada sei sobre a vida e estes caminhos sinuosos… Eu pensei que estivesse sozinho.


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