O ANJO AZUL

De tudo que nos restou, apenas sombras decoram o quarto. Sobre a penteadeira algumas fotos provando que, um dia, tentaram encontrar a dita felicidade. Pelo chão, além de garrafas de bebidas, roupas, muitas roupas, espalhadas. Completam, esta imensa bagunça, restos de comida, livros, jornais, revistas e uma bíblia que, inutilmente, tentava trazer paz em seu pobre, e desfeito, coração.

Pelas paredes imundas, quadros maravilhosos pintados por ele, em noites de agonias e desespero, projetava em telas todo o sufoco que tirava a tranqüilidade roubada no dia que ela partir. Misturados com os remédios para dormir e excessivo uso de álcool. Faz um ano em dezembro. Decorou alguns trechos do livro sagrado, durante o banho recitava-os como quem provocava Deus. A voz abafada pelas lágrimas e desespero, recitava sem fé, esperava um milagre. Sabia de cor os palavras de Matheus.

Das sombras que decoravam o quartinho dos fundos de uma casa na periferia da cidade, escondia um grande artista, genial e louco. Recolhia-se do mundo.

Desde que ela partira para ganhar o mundo, ele se trancou em seu próprio universo. Criou fantasias e histórias. Nos quadros, narra o que sonhou em toda vida. Passou os primeiros meses assim, depois a depressão o consumiu, nos quadros imprimiu a morbidez e a autodestruição. Em cores pesadas, pincelava a amargurada dor que tornara seus passos. Tinha saudade das promessas e planos de amor sonhado em loucas horas. Em algumas manhãs, e tomado pela melancolia, pintava o rosto da amada sendo amparada por anjos. Ou pintava o que desejava ser o tão imaginativo lar. Outros dias, tomado pela dor, pintava as mais horrendas imagens, muitas delas, o seu corpo sendo velado. Desejava a morte. Nos momentos de grande desespero, quebrava tudo ao redor. Quando acalmava, sentava nos restos e chorava, depois, ainda molhado de lágrimas, bebia o que tinha pela frente, após dormia. Dez, doze horas seguidas. Acordava no meio da madrugada com ódio de si mesmo, e, para tentar se desculpar, pintava as mais intrigantes figuras em quadros abstratos, sem nexo, apenas deixava a mão guiar os traços. Destruía todos. Às vezes, pintava algo genial, e, por isso, cobra-se muito, esperava a cada obra superar a anterior. Isso o deprimia de forma devastadora.

No ápice de sua apatia, entregou-se aos vícios. Álcool, drogas, mas era nos antidepressivos com uísque que sentia mais à vontade. Esqueceu os sonhos mais delirantes. Das sombras que decoravam seu quarto, herdou a apatia e a solidão.

No alto de seu desespero tentou o suicídio. Acordou com a cabeça girando, milhares de imagens formando ao seu redor. Via a enfermeira com o rosto de sua mãe. Lembrou-se do ocorrido. Depois da lavagem estomacal, sentia dor imensa. Olhou para o teto, começava a ver sentido em tudo que ocorrera. Foi quando viu a imagem de um anjo azul decorado por uma estrela de cinco pontas, também de cor azul, rodiado por algumas pessoas, entre elas, sua avó falecida e seu grande amor. Nas mãos do anjo estava tatuado seu futuro.

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2 Responses to “O ANJO AZUL”


  1. 1 Jairo dezembro 22, 2006 às 11:52 am

    Já conhecia o texto, mas cada vez que lemos surge uma imagem nova na cabeça. Esse lance do anjo tatuado é muito poético… como sempre, vou acabar inspirado!!

  2. 2 Roberto Teixeira setembro 13, 2007 às 5:44 pm

    É quando lemos textos como este que nos sentimos o quanto somos vulneráveis aos problemas do mundo, quando não temos a espiritualidade desenvolvida.


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