Arquivo para março \12\UTC 2007

E EU OLHAVA OS LÍRIOS DO CAMPO

Acordara atrasado, como sempre, mal se vestiu, pegou a mochila com seu material de trabalho, colocou alguns livros embaixo do braço e saiu. Não gostava das segundas-feiras. E esta, como típica segunda-feira, deixava no ar uma gota de saudade, certa dose de melancolia, um ponta de tristeza. Talvez ecoava na memória saudades do que nunca fizera, ou raiva pelo que deixou de fazer. Um gosto ruim amargava em sua cabeça. Pegou algumas torradas, que comeu pelo caminho. Correu ao perceber seu ônibus no ponto. Chegou a tempo. Pagou a passagem, deu bom dia ao motorista, um dos livros caiu de seu braço. Chutou, e ao passar pela roleta, abaixou para pegá-lo. Ao levantar, reparou com uma moça, cabelos negros e lisos, lendo um livro. Fixou os olhos no título “Olhai os lírios do campo”. Parou um instante, pôs-se a pensar em uma data esquecida nos labirintos da memória.

Ele tinha pouco mais de 20 anos, ela, mais nova, tinha 17.
“Você precisa ler este livro, antes de completar 20 anos” Disse com o exemplar da obra do Érico Veríssimo nas mãos.
Ela detestava ler, mas por ele faria tudo. Pegou o livro.
“Vou ler, pode deixar.”
Ainda eufórico, ele completou.
“Este livro vai mudar sua vida.”

Algum tempo passou, uma briga boba, muito orgulho e pouca conversa, fez que aquele namoro acabasse. Na última vez que tiveram juntos, ela deu com o livro, um exemplar de capa duro e folhas grossas, em seu peito. O orgulho falou mais alto, calado, engoliu a seco, pegou o livro e partiu. Não viu os olhos ressentidos dela, e seu pedido de desculpas abafado pelo barulho dos carros.

“Como será que ela está?” Pensou, ainda ao levantar com o exemplar de “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche. Ainda preso ao magnetismo do título, ficou a observar a moça lendo. Ela lia com o livro tampando todo o seu rosto. “Quanto tempo faz que a briga ocorreu? Dois anos? Ela estaria com 20 anos agora. Será?”

“Alice?”
Ela baixou o livro, ele pode vê-la. Como antes, pouca coisa mudará, apenas estava mais bonita, olhos mais brilhantes.
“Ronaldo. Quanto tempo. Meu deus! Você não mudou nada.”
“Mudei sim, estou mais envelhecido, os cabelos começaram a cair. Tenho dormido pouco. E conciliar trabalho, estudo, família, amigos, não é uma tarefa muito fácil.”
“Eu sei como é. Estou indo para o trabalho. Nem te contei, comprei uma moto, lembra, sempre quis uma.”
“Que bacana. Uma moto? Você sempre foi maluca mesmo.”
“E você, como está?”
“Bem, quer dizer, bem cansado.” Risos de ambos. “Você lendo? O que aconteceu? Ainda mais este livro… Lembra dele?”
“Você disse para que eu lesse antes dos 20 anos, bom, falta uma semana, será que dá tempo?”
“Você está em que parte?”
“O Eugênio está dirigindo o automóvel, acho que para visitar a Olívia no hospital.”
“Ainda falta um pouco…” Respirou fundo. “O que está achando o livro?”
“Não estou entendendo bem, mas parece bom. E você falou tanto dele.”

“Bom, meu ponto é este” disse, ajeitando seus pertences.
“A gente se vê, anote meu telefone.”
Trocaram telefones. Ele desceu. Ficou observando o ônibus partir. Sentou no chão. Pensou sobre a vida. “Dois anos nos separava. Dois anos.” Ela acompanhou pela janela. Voltou ao livro. “O que será de tão importante tem nestas páginas?” Pensou.

Ele caminhou mais dois pontos. Antecipou sua descida. Queria evitar pensar no passado. Foi tão difícil esquecê-la. Evitara, ao máximo, reencontrá-la. “Coisas do destino? Não sei.”

Ficou o resto da tarde pensando no encontro. Com o olhar perdido e a atenção dispersa, pouco rendeu. A tarde não passava. Com o pensamento longe, suspirou: “O tempo passou e eu continuava olhando os lírios do campo.”


março 2007
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