Arquivo para julho \26\UTC 2007

AO SOM DO MAR

Queria tanto ouvir sua voz massageando meus ouvidos, ainda mais hoje em que sinto tanta mágoa contida em mim. Talvez dor, talvez saudade. Quem sabe uma ponta de arrependimento. Às vezes, às três da tarde de uma terça-feira, penso: “E se tivesse feito mais, e se tivesse me exposto mais”. Mas fica tudo para depois. A rotina corriqueira dá vazão aos sentimentos incompletos que roubam a cena, roubam a paz, roubam o que não soube, enfim, denominar com um nome próprio.

Primavera tem gosto de saudade. Outono tem sabor de melancolia. Talvez por estar tão longe, eu sinto mais medo que saudade. Talvez mais saudade do que medo. Talvez os dois sentimentos se misturaram de tal forma que é impossível desassociá-los. Talvez, talvez, talvez. Tantas dúvidas e uma única certeza. Faz tanta falta o pouco espaço que separavam nossos abraços. Tanta falta. Tanta falta. Tanto mar. Saudade.

Dentro do meu ritmado coração, acostumado a esperar, bate certa ponta de alguma coisa ainda sem nome, ainda sem rosto, ainda sem definição aparente. Um sentimento novo, uma espécie de esperança e saudade misturado de auto-realização. Um tanto paradoxal. A mesma dor que me consome, por fim, me alimenta. Como um ciclo sem fim que ininterruptamente termina e começa sem tempo para respirar. Uma forma de me matar e ter uma luz no final no túnel ao mesmo tempo em que penso no momento de entregar os pontos. Ironia. Logo eu, sempre animando quem me rodeia, mesmo que estas pessoas sejam as primeiras a me desanimar. Rosas na mão, pés descalços e um mundo novo a caminhar. Flores de lótus se abrem ao te ver passar.

Dentro das minhas bobagens, construí cenários perfeitos. Construí vidas, histórias e paisagens belas para te ver chegar. Era a vida que sonhava, que sonhávamos e que por todo o correr dos séculos sonharíamos. Mas, mesmo dentro de minhas pequenas bobagens, coisas que você – e eu também – costumava chamar de sentimentos, deixei uma parte funda do que fui. Talvez a parte que mais gostava. Talvez a parte de um todo que mais me representava. Éramos personagens de uma peça sem fim. A cada ato, uma nova descoberta, uma nova revelação. Éramos novos personagens a cada fala, a cada cair das cortinas dividindo as cenas. Ato 3. Luzes. Cortinas que se abrem, Fala 1. Ele trêmulo de amor, diz. Diga logo. Tanto tempo esperando, e na hora esperada, na hora de revelar à mocinha sobre as verdades contidas em seu coração, você se cala. Oras, vejam vocês. Cadê os mocinhos do novo mundo? Cadê os mocinhos em seus cavalos brancos? O mundo anda complicado demais.

Interessante esta forma de ver o mundo. Tudo anda complicado, tudo anda na contramão. E eu, sempre na mesma forma tragicômica de narrar meus maiores dramas. Rir é um santo remédio, dizia minha avó, mas há tempos não sei como me curar. Fui me acostumando a ser uma ilha cercada de mágoas. E o pior, cada vez mais eu cavo mais fundo o poço que me separa do continente. Queria ter um aparelho, destes que vendem nos canais de TV, para acabar com as ilusões que eu mesmo crio. E os sonhos, e as dores, e as lágrimas que não ferem profundamente, mas machucam e os finais de semanas a qual espero milagres. Existe o sol, existe a lua. Entre eles, algo maior, que nem mesmo a ciência, ou a teologia, ou a geometria, ou a paranormalidade, souberam responder. Existem as marés. Com elas, todo o movimento transitório de sua ida, contando com a esperança de seu regresso. Flor na janela da casa. Olhos para seu coração.

Ao som do mar que me rodeia, desejo sua volta e com ela a paz roubada no instante de sua partida. Em quantas partes me partiu? Não sei calcular. Sobre os pedaços reinantes nesta imensa sala iluminada, pondero sobre a existência humana. Por vez, tenho a certeza clara que nada disso é o que, até em tão, aparenta ser. Por ora, tenho a dúvida copiosa dos teimosos, que tudo isso é o que é, o que sempre foi e provavelmente sempre será. Paz? Saudade? Dor? São todos os lados de uma mesma moeda viciada a perder quando apostada. A vida sempre ganha, tem as melhores cartas, e ela que controla a queda da moeda ao solo. Enquanto isso, resta a teimosia generosa da lacuna causada pela sua falta. Não, amor, não é saudade acima do permitido. Nem desabafo de quem procura um ombro amigo para se abrigar de sua bebedeira e falar por horas a fio sobre dores do passado. Não, amor, não é. É apenas parte de uma imensa, mas imensa mágoa que tenho atravessado os séculos para tentar, em vão, dar vazão. Sem euforia, sem excesso de dor, sem lamentações profundas. Apenas uma forma de tentar apaziguar o compasso do meu coração.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, você nem sequer sabe quanto tempo faz que deixei de pensar em mim, para pensar em nós. Resta, nestes segundos que me restam, esperar, não mais sua volta, mas pelo meu regresso, dentro de mim, dentro de nós. Flores enfeitariam nossos passos. Voar seria uma gostosa brincadeira. Os pássaros teriam inveja de nossa liberdade. E viver, viver, meu bem, não teria risco algum que não conseguiríamos atravessar em paz.

OLHOS DE POETA

O poema não tem parto.
Parte ao meio-dia,
No meio do dia, de vidas ao meio.
Renasce em versos perdidos,
Em perdidos sentimentos não sentidos,
Nos sentidos não visíveis.
Nas alegrias descontentes.
Nos sonhos rompidos por pesadelos.
Nas vidas vividas em solidão.

Sim! O poema não nasce.
É expelido pelo peito do poeta confuso,
Em confusas maneiras, em perdidas horas,
Na sã e vã agonia de rever o passado,
Que nunca vivera e, talvez, nunca viverá.

O poema absorve as dores mais sombrias do poeta,
Os pensamentos mais ambiciosos,
Os amores impossíveis,
As vidas não vividas,
As horas, todas, perdidas em sonhos e agonias,
Em desejos e anseios despertos nas horas vazias,
Nos peitos vazios, nos sentimentos vazios.
Sim! A poesia é exposta em galerias frias,
Como as frias vidas sem vidas,
Em horas recheadas de sofrer, penar e desfazer malas de sonhos,
Sim! Toda poesia nasce sem vida das veias que sangue não circulam,
Dos poetas egocêntricos, narcisista ou melancólicos.

O poema é uma forma de conversa, a qual o poeta
encontrou para conversar consigo mesmo,
E com todos os “consigos mesmos” dos corações humanos.
Toda poesia nasce morta, e vive nos lábios sedutores
De quem os recitam, nos ouvidos atentos de quem os ouvem.
Nos olhos úmidos de quem os lê.
Nos sonhos inocentes das meninas em flor.
Na malícia inocente dos meninos em pétalas da dor.
Nos sorrisos dos amantes, nos corpos e mente das mulheres.
Entre copos de vinhos com os amigos.
O poema nasce e morre milhares de vezes ao correr do dia.
E o poeta carrega em suas entranhas o ponderar e todo peso do mundo.
Em suas frágeis vistas castigadas com que seus olhos desiludos, apaixonados,
ou melancólicos teimosamente viciados em enxergar,
Abortam palavras, sentimentos ou a vida.

Fernando Gabeira – Hóspede da Utopia

Hóspede da UtopiaHóspede da Utopia, Fernando Gabeira (Editora Nova Fronteira; Rio de Janeiro; 2º edição; 216 páginas, 1981). Escritor, jornalista, político (atualmente deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro),fotógrafo, iniciou sua carreira como jornalista no Jornal do Brasil (1964 – 1968). Ingressou na luta armada contra a ditadura militar, responsável, em 1969, pelo seqüestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, posteriormente, preso, torturado e finalmente, exilado (em troca pelo embaixador alemão). Acompanhou de perto o golpe militar que derrubou Salvador Allende, no Chile, após, tal golpe, passou a viver na Europa (Suécia). No final dos anos 70, participou do tribunal Bertrand Russel, que investigou os crimes da ditadura brasileira.

Com a anistia política, voltou ao Brasil, e iniciou sua carreira de escritor, com o best-seller, “O que é isso companheiro” (1979, Cia. das Letras), que narrava o episódio do seqüestro do embaixador americano. Em seguida lançou “Crepúsculo do Macho” (1980, Guanabara), e “Entradas e Bandeiras” (1981, Codecri), relatando como vivera exilado, e sua volta ao Brasil.

Em Hóspede da Utopia, a cena central é o término de uma relação marcada pela rotina, em fragmentos de cartas, lembranças do passado, viagens, e ligações telefônicas, resumidamente, em retalhos de comunicação, vai se costurando todo o enredo, que da mesma forma que começa, termina, deixando uma sensação incompleta, ou até mesmo, um desejo em saber se tudo acabará bem. Quem já esta acostumado com a forma com que o Gabeira escreve poderá pensar que se trata de mais uma de suas histórias reais, embora o mesmo deixe bem claro, no início do livro, que este trata-se de uma obra de ficção. Impossível, ainda mais para quem conhece a figura pública do Fernando Gabeira, ao ler o livro não imagine que muitos fatos narrados possam ter sido vividos.

Após o término de uma relação, que julgavam ser para sempre, o narrador, um antropólogo, narra sua vida, como a um recomeço, tentando dar continuidade, assim que Luisa o deixou, partindo para Nova Iorque. Em várias cartas, telefonemas à ex-namorada, misturado ao presente (do narrador), e seus devaneios ao passado, e claro com Luisa, toda a trama é desenhada, horas como uma aventura, despertando desejo ao leitor em seguir estes passos, horas em solidão e saudades.

O livro, sem ter pretensão alguma, ocupa uma lacuna na literatura brasileira – literatura jovem. Sendo ou não uma ficção, “Hóspede da Utopia” remete a um período conturbado da juventude no Brasil, que acabara de descobrir a liberdade política, ainda perdidos com tantas ideologias, ou falta de uma. Assim, brutalmente Gabeira termina o livro, ensaiando para o futuro ainda incerto, e impresso em suas páginas a vontade de mudar, não apenas o mundo, ou o país, mas sim, mudar a mente e o coração, abrindo-os para o novo amanhecer.


julho 2007
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