Arquivo para agosto \21\UTC 2007

“EU FIZ QUERÔ”

OU HISTÓRIAS DE CINEMA COMO ALMA. ALMAS QUE FAZEM CINEMA.

“Na minha comunidade, me chamavam de mentiroso”, diz, entre risos, o jovem ator Maxwell Nascimento, personagem central do longa Querô, baseado na obra do Plínio Marcos, (Carlos Cortez, 2007), que estréia nacionalmente dia 14 de setembro. Afinal, mais de dois anos separam os últimos dias de filmagens até os dias atuais. O bate-papo envolvendo o diretor do filme, Carlos Cortez, atores, produtores, aconteceu após a exibição do documentário “Eu fiz Querô” (Carlos Cortez, Eduardo Bezerra e Samuel de Castro, 2007), realizado no CCA da Unisantos.

O documentário aborda todo o processo de preparação do elenco do filme. Editado de um material bruto de mais de 700 horas, “Eu fiz Querô” nos brinda com os “argumentos do coração”. Desde o início do documentário, a sensibilidade à flor da pele nos embala. Primeira cena, a premiação do Maxwell Nascimento, como melhor ator, no festival de Brasília, que segundo Cortez é o festival mais crítico do país. “Lá, se o pessoal não gostou do filme, levanta e sai no meio da exibição”. Maxwell concorreu ao Quiquito com, entre outros, Caio Blat

Em seguida, a preparação do elenco, desde o processo de escolha, envolvendo mais de 1200 jovens das comunidades de Santos e Região. Cortez explica que destes 1200 jovens, 200 passaram para a segunda fase, e destes 40 foram para as oficinas. “O processo foi simples, na primeira seleção, com as câmeras ligadas, os que respondiam as perguntas feitas pela equipe com reflexão passariam. Na segunda, quem se entregasse de cabeça e coração nas dinâmicas chegariam às oficinas”. Os 40 selecionados ficaram sobre a tutela do talentosíssimo Luiz Mario Vicente e sua equipe.

Foram oito semanas de oficinas. Capoeira, dança, interpretação, aulas e palestras, com um único propósito, deixar floresce o sentimento nos corações acostumados com tanta dor. “Meu coração é um recheio, e eu sou por inteiro”, recitava Beto Áudio, professor de interpretação. Aos poucos, os jovens deixaram brotar as mais sutis demonstrações de sensibilidade. Nas aulas de dança, seus corpos bailavam ao som vindo do interior de cada um. “A música brotou de dentro do meu corpo”, comenta sorrindo um dos alunos.

Semana a semana, o documentário mostra a edificação de algo maior que as personagens, e sim, a construção de sentimentos e humanização dos 40 garotos. “Eu sempre acreditei neles, mesmo antes de conhecê-los. Nas periferias que surgiram os maiores gênios da cultura brasileira. Cartola, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Geraldo Filmes”, comenta Cortez.

Fica latente no documentário que no decorrer das gravações o entusiasmo tomou conta de todos. Nos bastidores das filmagens, é nítida a amizade entre os atores. Tendo como plano de fundo o cais de Santos (não poderia ser diferente, tratando-se de uma obra de Plínio Marcos), boa parte das filmagens realizadas na região periférica, abandonada dos olhos da opinião pública, alguns garotos descobriam a magia do cinema, de dentro para fora, de forma visceral. “Eu nunca tinha ido ao cinema antes, além de ser longe, era caro. Pensava que ali não era o meu lugar”, analisa o ator Maxwell. Da amizade e da magia do cinema resultou as Oficinas Querô. Proposta vinda dos jovens em fazer arte e, assim, trazer um mundo melhor à comunidade. Infelizmente, nem sempre é assim, segundo o diretor do longa, alguns jovens voltaram ao tráfico. “Um deles me disse: Muito obrigado por tudo, aprendi muito com vocês, mas essa é a minha sina, e tenho que cumprir”, lamenta Cortez. Lamentamos com ele.

O filme Pixote – A lei do mais fraco (Hector Babenco, 1981), revelou o problema da fragilidade emocional do estrelato instantâneo. Desde então, todo o cineasta que se propôs em buscar talentos escondidos tem tomado cuidados especiais. Foi assim com o Walter Salles, no Central do Brasil (1998), ou no Cidade de Deus (Fernando Meireles, 2002). Em Querô não foi diferente, mesmo que a criação das oficinas, que levam o nome do filme, tenha acontecido por acidente. “Nada disso [a oficina] estava nos nossos planos. Não viemos fazer assistencialismo, viemos para fazer um filme e ponto. Foi um processo natural, vindo dele, nós apenas abraçamos a idéia”, comentou Cortez, ao passo que fumava tranquilamente seu cachimbo.

Simpatia e bom humor não faltam para o auto-intitulado tímido Carlos Cortez. Pacientemente atendeu à imprensa local (estudantes ávidos por entrevistas para seus blogs, ou para os veículos laboratoriais, além de TV e jornais da região). Cortez falou de quanto é efêmero o sucesso. “O Max (Maxwell Nascimento) ainda está deslumbrado com o sucesso, mas lentamente vai voltar à realidade. Vai ser duro. Uns garotos falaram que não querem mais voltar à comunidade, eles estão em um outro mundo e não tem com quem conversar. Eles estão em um outro universo. O choque cultural foi imenso”.

Em uma das mais belas cenas do documentário, e certamente do longa, a atriz Alessandra Santos (Lica), dona de uma linda voz, canta suavemente a belíssima canção do filme. A emoção toma conta de grande parte do público presente. Lágrimas rolaram, não apenas dos meus cansados olhos, mas também de outras pessoas ao meu lado. No telão, duas almas envoltas em tamanha sensibilidade. São estas imagens belas que me vêm à mente ao fechar os olho e lembrar do documentário.

As últimas cenas do documentário coincidem com a última cena filmada do longa. Lágrimas, despedidas e na cabeça a certeza de um trabalho bem feito. Acabou, lamentam alguns. Ecoa em minha mente as palavras de agradecimento que o professor de atuação, Beto Áudio, fez ao término de seus trabalhos. Depois de uma emocionada e linda oração, o “obrigado” com as lágrimas na garganta (de todos).

Para saber mais:

Oficinas Querô
Blog Oficinas Querô
Querô – O Filme
Trailer QUERÔ
A obra – Querô: Uma reportagem maldita
Plínio Marcos

DESFABRICANDO UM TOM DE ZÉ

“Tô te explicando
Prá te confundir
Tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar “
Tô (Elton Medeiros – Tom Zé)

O documentário Fabricando Tom Zé (Décio Matos Júnior, 2007), que como plano de fundo registra a turnê na Europa, em 2005, veio para encaixar as peças que faltam para armar o complexo panorama do movimento cultural Tropicália. Visceral e poético, musical e anarquista, completo e fragmentado, o documentário narra, entre idas e vindas, as nuances da vida e obra de um dos maiores gênios da moderníssima música popular brasileira.

Confundindo para esclarecer, o documentário parece uma criação da mente genial do Tom Zé. Montado entre trechos de shows com entusiasmo ultra-excitado da platéia e o fracasso ao tentar cantar em francês em Paris, costurado com entrevistas, intimidade e depoimentos de pessoas ligadas ao personagem principal, o documentário é rico em música, irreverência e criatividade. De tom para Tom.

“Mas eu te espero
na porta das manhãs porque
o grito dos teus olhos
é mais e mais e mais
e depois que você partiu
o mel da vida apodreceu na minha boca
apodreceu na minha boca”

DOR E DOR (TOM ZÉ)

Enfim, o amor. O ponto alto do filme é a declaração de amor e dedicação à esposa, Neusa. E como ela anulou sua carreira para cuidar do Tom Zé. Em poesia pura, aos litros, pelos brilhos dos olhos, Tom e Neusa – ou Neusa e Tom – entendem cada particularidade e genialidade do outro. Amparando seus passos, antecipando seu caminhar, apoiando-o, Neusa dedica seus dias à sombra – ou à frente – do som metafísico, dos tons e zes do Tom Zé.

Mágoas à parte, e com razão, os comentários – analisados com frieza – sobre a “expulsão” do Tom Zé da Tropicália. Caetano assumiu uma meia culpa, Gilberto Gil atribuiu à juventude e “egos” dos dois lados. Tom Zé era tropicalista? Há quem afirma que ele foi fundamental para o movimento, mas estava muito além dos limites estéticos tropicalistas.
“Tento fazer o melhor porque sou péssimo músico”, assim Tom Zé se define. “Tenho que deixar estas sementes [as músicas], se não, quando os grandes gênios chegarem, o que eles tocarão?” lança ao ar, em tom profético. A singularidade do músico vanguardista que teve aula com lendas como Koellreuter, Smetak e Ernst Widmer. Com harmonias complexas, dissonantes, acordes e ritmos fora do comum, foi até natural entender a “não aceitação” do “mercado” para a música do Tom Zé. Porém, a década de 80, em que o artista esteve afasto da música, foi devastador para uma nova visão estética musical.

“Quando eu vi
que o Largo dos Aflitos
não era bastante largo
ora caber minha aflição,
eu fui morar na Estação da Luz,
porque estava tudo escuro
dentro do meu coração.”

AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO (Tom Zé)

Tom Jobim dizia que o futuro da música brasileira estava no aeroporto. Tom Zé voltou aos holofotes musicais quando foi descoberto na Europa. Até então, largara a música e dedicava-se à jardinagem. Voltou ao “mercado” consagrado no exterior – como sempre –, em uma forma de colonização cultural, que nosso país ainda atravessa. Voltou para o lugar que nunca deveria ter partido.

Em mil tons fragmentados, em harmonias, compassos e descompassos, na modéstia e genialidade, Tom Zé explora por caminhos não trilhados. Fazendo música com a precisão de um alquimista. Por fim, a música não acabará, Tom plantou no “gene da gente” como a música tem vida própria. E, mesmo nas vitrines empoeiradas dos sebos dos centros da cidade, tocará em alguma vitrola antiga e sensibilizará a alma dos ouvidos e corações dos teimosos que não andam em caminhos traçados.

CORRA, MENINA, CORRA

O mar refletia, como sempre refletiu,
a solidão de seus dias amargos
e o caos insano de suspiros próprios
dos que acreditam na vida além mar.

O sol, que deixou de brilhar milhões de anos atrás,
serve apenas para abrigar a dor latente
do peito frágil dos que um dia teimaram em amar.
O mar. Em vão. Tudo que reinava em volta. Pó.

O mar refletia seu rosto calmo em agitadas águas,
a paz roubada foi um abrigo para esconder-se da chuva,
que caia, serene, pela madrugada fria, solitária, interminável.
Mas a solidão, da qual seus olhos miravam, era a redenção do azul.

De longe, seus passos me guiavam, sua paz orientava meus gestos.
Tão longe, menina, corra em verdes vales, corra sem medo.
O tempo exato de tudo é tudo que não devemos mais temer.
Corra, menina, corra. Alegra seus olhos,
porque são eles que fazem o mundo sorrir.

Vá em busca de tudo que estava em ti.


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