DESFABRICANDO UM TOM DE ZÉ

“Tô te explicando
Prá te confundir
Tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar “
Tô (Elton Medeiros – Tom Zé)

O documentário Fabricando Tom Zé (Décio Matos Júnior, 2007), que como plano de fundo registra a turnê na Europa, em 2005, veio para encaixar as peças que faltam para armar o complexo panorama do movimento cultural Tropicália. Visceral e poético, musical e anarquista, completo e fragmentado, o documentário narra, entre idas e vindas, as nuances da vida e obra de um dos maiores gênios da moderníssima música popular brasileira.

Confundindo para esclarecer, o documentário parece uma criação da mente genial do Tom Zé. Montado entre trechos de shows com entusiasmo ultra-excitado da platéia e o fracasso ao tentar cantar em francês em Paris, costurado com entrevistas, intimidade e depoimentos de pessoas ligadas ao personagem principal, o documentário é rico em música, irreverência e criatividade. De tom para Tom.

“Mas eu te espero
na porta das manhãs porque
o grito dos teus olhos
é mais e mais e mais
e depois que você partiu
o mel da vida apodreceu na minha boca
apodreceu na minha boca”

DOR E DOR (TOM ZÉ)

Enfim, o amor. O ponto alto do filme é a declaração de amor e dedicação à esposa, Neusa. E como ela anulou sua carreira para cuidar do Tom Zé. Em poesia pura, aos litros, pelos brilhos dos olhos, Tom e Neusa – ou Neusa e Tom – entendem cada particularidade e genialidade do outro. Amparando seus passos, antecipando seu caminhar, apoiando-o, Neusa dedica seus dias à sombra – ou à frente – do som metafísico, dos tons e zes do Tom Zé.

Mágoas à parte, e com razão, os comentários – analisados com frieza – sobre a “expulsão” do Tom Zé da Tropicália. Caetano assumiu uma meia culpa, Gilberto Gil atribuiu à juventude e “egos” dos dois lados. Tom Zé era tropicalista? Há quem afirma que ele foi fundamental para o movimento, mas estava muito além dos limites estéticos tropicalistas.
“Tento fazer o melhor porque sou péssimo músico”, assim Tom Zé se define. “Tenho que deixar estas sementes [as músicas], se não, quando os grandes gênios chegarem, o que eles tocarão?” lança ao ar, em tom profético. A singularidade do músico vanguardista que teve aula com lendas como Koellreuter, Smetak e Ernst Widmer. Com harmonias complexas, dissonantes, acordes e ritmos fora do comum, foi até natural entender a “não aceitação” do “mercado” para a música do Tom Zé. Porém, a década de 80, em que o artista esteve afasto da música, foi devastador para uma nova visão estética musical.

“Quando eu vi
que o Largo dos Aflitos
não era bastante largo
ora caber minha aflição,
eu fui morar na Estação da Luz,
porque estava tudo escuro
dentro do meu coração.”

AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO (Tom Zé)

Tom Jobim dizia que o futuro da música brasileira estava no aeroporto. Tom Zé voltou aos holofotes musicais quando foi descoberto na Europa. Até então, largara a música e dedicava-se à jardinagem. Voltou ao “mercado” consagrado no exterior – como sempre –, em uma forma de colonização cultural, que nosso país ainda atravessa. Voltou para o lugar que nunca deveria ter partido.

Em mil tons fragmentados, em harmonias, compassos e descompassos, na modéstia e genialidade, Tom Zé explora por caminhos não trilhados. Fazendo música com a precisão de um alquimista. Por fim, a música não acabará, Tom plantou no “gene da gente” como a música tem vida própria. E, mesmo nas vitrines empoeiradas dos sebos dos centros da cidade, tocará em alguma vitrola antiga e sensibilizará a alma dos ouvidos e corações dos teimosos que não andam em caminhos traçados.

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