Arquivo para setembro \13\UTC 2007

MORANGOS MOFADOS – CAIO FERNANDO ABREU

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu (Contos. Editora Brasiliense; São Paulo; 6º edição; 145 páginas, 1985). Como cenas rápidas de um trailer narrando histórias em busca de um sentido para o mundo. Ao fundo, músicas (rock, blues, tango, MPB) ajudam na composição do cenário, embalado em ritmo quase cinematográfico. Imagens explodem em palavras lapidadas, manifestadas em dores, angustias, fracassos, encontros e desencontros, esperanças, enfim, milhões de sentimentos misturados, costurados em pequenas teias a formar um enorme mosaico de emoções que marcou uma época. E ainda continua a identificar gerações e gerações que se sucedem após o lançamento apoteótico da obra.

Dividida em três partes, Morangos Mofados é, sem dúvida, a composição mais conhecida de Caio Fernando Abreu. A primeira parte, intitulada “O Mofo”, narra a queda de valores, dos amores, a solidão, a fragilidade humana, a embriagues, o consumo de drogas, o desespero, o desamor, a dor na forma mais fria e crua. Escrita de forma precisa, quase cirúrgica, Caio vai nos apresentando uma série de personagens anônimos, que ao final se personifica em uma única pessoa: o autor? Ou, quem sabe, até mesmo qualquer um de nós.

O gosto amargo da derrota, cheirando a mofo, a vômito, a vodca barata, a cigarros. Uma melodia sentimentalmente melancólica ao fundo. Escuridão e desencontros. O gosto da solidão esculpida em delírios da alma. Encravada em labirintos tortuosos e escuros de forma magistral. A sensação é idêntica à saída de uma montanha-russa.

“Os Morangos”. Aqui, uma paz tranqüilizadora invade de forma mágica a alma das personagens. Como se a existência de um final feliz fosse possível e breve, ou como se a vida fosse menos pesada. O doce levemente ácido do morango fundindo na língua, mostrando um belo dia de sol após uma tempestade. Mas o doce dá espaço para a acidez, transformando pedaços de magias em mágoas e solidão. Enquanto o dente fere o vermelho brilhoso do morango, na boca permanece o gosto azedo do preconceito, do medo, dos sonhos perdidos, das utopias transformadas em contas bancárias. O enjôo natural dos abusos. Dos delírios causados pelo excesso de cocaína

Histórias envolvendo vagabundos (giramundos), hippies sem destinos, loucos, comunistas, yupes desenfreados, compulsivos, sargentos, preconceitos, estupidez, falta de amor. Dos sonhos de uma geração apodrecendo na latrina comum. Das vidas apodrecendo em latrinas fétidas comuns. A paz tão perto e tão distante que os rápidos movimentos de nossos olhos não conseguem captar. Tampouco poderiam.

“Morangos Mofados”. A terceira parte. Com os olhos fechados, ouço “Let me take you down, ‘cause I’m going to Strawberry Fields. Nothing is real and nothing to get hungabout. Strawberry Fields forever.” Como se eu estivesse em um universo paralelo, um refúgio, um abrigo, uma morada longe, mas dentro, do caos urbano. Uma espécie de esconderijo para se abrigar da chuva tóxica, ou dos desatinos do coração. Enquanto imagens explodem diante de nossos olhos cansados, ao fundo, o som dos Beatles vai levemente aumentando, aumentando…

Caio nos deixa com a boca aberta, o livro nas mãos e o pensamento longe, imaginando: E se a vida fosse diferente? Para ler e reler sempre que a saudade – ou a dor – falar mais alto. Os morangos mofados, como estrangeiro em sua terra natal, ou girassóis no inverno enfeitando os pastos da Rússia, ou uma Guerra Santa… O cheiro e o gosto do mofo ultrapassam toda a simbologia poética do morango.

Mais de Caio Fernado Abreu:
Blog Sem Amor. Só a loucura
Wikipedia
Filme Aqueles Dois (Casa de Cinema, Porto Alegre)
Os contos do livro

NUJJOR: ENCONTRO COM AUDÁLIO DANTAS – 02/07/2007

É, chegou ao fim. Fica em nossas mentes a sensação de dever cumprido, o aprendizado adquirido, compartilhado, além de renovadas esperanças e projeções para o futuro. Depois de quase dois meses de reuniões, planos, idéias, nomes, debates, escolhas…, finalmente foi realizado o nosso projeto de um debate paralelo ao Intercom. Realmente paralelo, tanto que nem constava na relação de atividades do evento.

Tivemos a presença ilustríssima do Audálio Dantas, para quem não o conhece, é importante lembrar que se trata de um dos melhores jornalistas que nosso país já teve, foi repórter da saudosa Revista Realidade. Além disso, Audálio era o presidente do Sindicato dos Jornalistas de SP quando Wladimir Herzog foi assassinado nos porões da Ditadura. Neste cenário, teríamos a idéia de como seria o encontro.

Mas, foi muito melhor que poderíamos imaginar. Além da simpatia e do tato para lidar com as pessoas, o Audálio Dantas deu uma aula de empenho jornalístico e de ânimo para os mais jovens. Com uma capacidade ímpar de acumular a sabedoria dos anos com a vontade, gana e determinação dos mais jovens, Audálio mostrou mais vitalidade em mudar o jornalismo atual que muitos estudantes que conheço.

Outras surpresas cercaram a data. A primeira de todas foi a presença do jornalista Carlos Conde. Uma semana antes, no projeto “Papo de botequim” (encontro com jovens jornalistas com uma figura importante [jornalista, artista, intelectual], com o propósito de conversar sobre a profissão), Conde conversou por mais de quatro horas. Entre histórias, injeções de ânimo e doses de simpatia com modéstia, intimistamente, Conde nos contou sobre seus planos de futuro. Ao vê-lo entrar, minutos antes do início do evento, senti (e creio que todos os envolvidos sentiram) uma serenidade típica dos que fazem a coisa certa.

Aos poucos, alguns professores (os mais apaixonados, envolvidos e incentivadores de ações por parte dos alunos) foram chegando. Neste instante, tive (novamente, creio que tivemos) a sensação que algo bárbaro estava a acontecer. Aconteceu. O debate ocorreu de forma brilhante. Mas um bate-papo que uma forma hierárquica de mesas de discussões. Polêmicas foram levantadas e discutidas com seriedade e profundidade. Visões antagônicas depositadas com bases teóricas de todos os lados. Quem ganhou com isso? Todos os presentes.

Tive esta resposta nos momentos seguintes, nos sorrisos de quem participou. Professores vieram nos parabenizar pelo “sucesso” do evento. Mas nem tudo correu tão bem assim. Tivemos alguns problemas. Poucos estudantes interessados em ir ao evento. Tínhamos o Intercom acontecendo ao mesmo tempo, em outros campi. Depois, nas atividades culturais, a trupe Teatro do Pé teve um problema com um instrumento músicas essencial para o espetáculo. Foram pessoalmente nos dar a notícia, e de forma ética comprometeram-se em participar conosco em outros eventos. O guitarrista Mauro Hector, competentíssimo, manteve os presentes na companhia de boa música.

Com o saldo positivo deste evento, e a experiência adquirida, temos, agora, que continuar com o nosso trabalho sério e reflexivo. Levantar nossas bandeiras e sonhos. Caminhar com mais empenho em nossos projetos, e, com isso, realizarmos o que propomos desde a criação (desde antes da oficializaçãol) do núcleo que era a formação de jornalistas críticos, em uma sociedade mais reflexiva e justa. Utopia? Costumo chamar de vontade de mudar o mundo. Se não for possível o mundo todo, mudaremos o mundo que está próximo de nossos braços. Não sei vocês, mas tenho coragem e vontade suficiente para abraçar o mundo todo.


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