Arquivo para dezembro \29\UTC 2007

OUTRA, OUTRA E OUTRA MAIS

Esqueça estas bobagens,
Estes sentimentalismos existenciais,
Estes medos e traumas,
Estas máculas trazidas do cinema,
da música, do teatro, da literatura.
Esqueça as flores,
o vento,
o pôr-do-sol,
o anoitecer na fazenda,
o beija-flor bailando no ar.
Esqueça as pegadas na estrada.
Esqueça as dores, as alegrias.
Esqueça de viver o que se sente.
Pare!
Volte ao recomeço,
recomece cem vezes outras,
e outras, e outras, e outras.
E outra mais.

Tema apenas o medo de ter medo
e seja livre o suficiente
para lembrar que tem contas a pagar.
Desconfie de quem fala de amor com propriedade,
mas não o recrimine,
ele, provavelmente, nunca entenderá o que é amar.
Afaste-se de quem prega a paz,
São estes os que mais se divertem com guerra.
Livre-se dos relógios,
faça uma chuva de papeis picados com o talão de cheque,
quebre sua televisão.
Rasgue as cartas de amor.
Amor não se guarda em papel.
Não se guarda amor
Não se guarda, amor.

Volte ao recomeço
recomece mil vezes outras
Outras, outras, outras.
E outra mais

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O PASSADO

Senti como se saísse de um labirinto. Ou de um corredor escuro, irreal, sufocante. Como se tivesse sido encontrado, semi-morte, após perde-me no mar, à deriva. Esta angustia sem fim durou o tempo exato do filme “O Passado” (“El Passado“, Babenco, 2007). O filme, sutil nas filmagens e técnicas cinematográficas; pesado nos diálogos e tramas narradas, constrói e desconstrói vidas.

Após o término de 12 anos de um relacionamento, a tranqüila separação logo é apresentada em diabólicas tramóias, em forma maquiavélica, com o intuito de uma reconciliação. Como antes? Nada será como antes, como não foi. Semelhante à fotografia, em que a falta de memória nos abriga a escrever no verso a data, local e nomes. Semelhante e inútil.

Todos personagens, emergidos em seu mundo particular, são merecedores de tratamentos psicológicos. Aliás, quem não precisa? A realidade que nos cerca, em um mundo repleto de trajas-pretas para dormir, nos transforma em escravos de alguma ‘droga’ para fugir da realidade: amor; religião, futebol, ciúmes. “Um café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício. São companheiros da solidão”, berrava Lobão há quase vinte anos. Depressivos, possessivos, desvairados, angustiados, solitários… , irremediavelmente loucos. A fuga da realidade em fantasias. Imagens que explodem diante nossas retinas passivas. Resistimos a tudo? Até quando?

Os devaneios provocados pelo ciúmes, em uma das relações, esbarra no senso-comum estereotipado da fragilidade feminina. Assunto esgotado na literatura, cinema, teatro, tv… E, ao meu ver, ultrapassado. O corriqueiro cotidiano – opressivo pelos ponteiros dos relógios, fabricando tortura da mesma maneira de uma linha de produção – traz à tona a fragilidade da solidão humana. Homens e mulheres tornam-se mais ciumentos, ao passo que se tornam mais livres, ao mesmo tempo em que procuram a estabilidade de um relacionamento, mesmo que inventado, mesmo que fracionado, mesmo que incompleto, mesmo que baseado no sexo, mesmo que de aparências.

Citando Freud, o amar é transferir o sentimento para alguém. A temática principal do filme, atualíssima, vem ao encontro de recentes pesquisas sobre divórcios. O consumo de cocaína é esquecido pelo doentio – e cego – ciúmes. A solidão e angustia do dia-a-dia nos faz projetar no outro as nossas maiores frustrações. Não repartimos, não nos transferimos, não doamos nada a alguém. Cobramos e cada vez mais e mais. Sísifo da “pós-modernidade”. Responsabilizando a outros a nossa felicidade. Procurando em terceiros motivos, desculpas e justificativas para esconder nossos medos, traumas e fracassos.

Os sentimentos foram dando vazão a outras formas de sentir. Drogas sintéticas, consumismo, perda de ideologia, falta de esperança e a entrega exagerada ao hedonismo, fazem que os sentimentos mais puros dêem lugar a algo com gosto plástico. A virtualidade desprendida com os “tempos modernos” está acorrentando a humanidade à uma não-revolução sentimental. A solidão caracterizada nas grandes metrópoles está presente em nossos medos, ao ponto de nos amarrar em sentimentos sem sentidos, em relacionamentos fracionados, em vidas incompletas. À nada.

A alma humana nua, como mais um personagens do filme, explorando a nossa pequena alienação, personificada na busca, equivocada, de um prisioneiro fragmento amoroso, destituído de paz e alegria, sacrificada pelo dogmas pragmáticos dos falidas instituições sociais. A nudez censura pelos nosos olhos e intelecto tabulados nas antigas barbaridades institucionais, que nos condena à pressão limite. Como válvulas de escape, o amor torna-se um jogo. “Ao vencedor, as batatas”.

Mergulhados nesse universo, a película de Babenco mostram, em ângulos perfeitos, a solidão urbana mascarada em um relacionamentos vazios. Como uma tonel de pólvora prestes à explodir, essas relações remetem a caótica perda da valorização aos sentimentos necessários à humanidade. Como lobos solitários, vivemos. O sexo, mais de um século depois, ainda é um tabu, ao mesmo tempo é uma droga tranqüilizante da depressão dos caóticos centros urbanos. É a heroína do século XXI, o LSD dos novos hippies sem contracultura. ROLETA-RUSSA.

Resgatado do meu naufrágio particular ao término do filme, sai da sessão com a visão de uma dura realidade, encoberta pela minha visão “cor de rosa” de um mundo enfeitado por música, literatura, cinema e esperanças de um mundo “mais justo”. Utopias, que cada vez mais luto para não perder. Em um mundo fracionado, em quem milhões de imagens explorem, aprendemos a ter sentimentos mediados por efeitos midiáticos. O passado, cada vez mais presente, projeta a solidão acompanhada.

1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU: A AVENTURA DE UMA GERAÇÃO

O ano 1968 começou pela porta da frente. Escancarada. Querendo sorver o novo, o admirável mundo novo. Os ventos da mudança, que arrasariam pelas ruas das capitais européias, aportavam no Brasil nos passos dos estudantes. Para parte da juventude e intelectuais cariocas, o ano começou embalado em uma festa que parecia não ter fim. Pelas cabeças dos que rondavam o místico reveillon, na casa de Heloísa Buarque de Holanda, imaginava-se que aquele ano seria diferente. Porém, nem os mais otimistas dos otimistas – ou o pessimista dos pessimistas – ousariam idealizar o que 1968 viria a representar para o mundo e particularmente para o Brasil. Como poeticamente Zuenir Ventura definiu, foi o ano que não chegou ao fim.

Reconstruir os rumos que mudariam a história daquele ano, e conseqüentemente as trajetórias políticas e culturais do país, foi o primoroso relato do jornalista Zuenir Ventura, na obra 1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU: A AVENTURA DE UMA GERAÇÃO (Editora Nova Fronteira, 1988, 314 páginas). Testemunha das movimentações daquele período, Zuenir, vinte anos depois, faz uma análise riquíssima sobre o início dos anos de chumbo. Misturando entrevista com os envolvidos, documentos, até então, inéditos e suas memórias – além de um estilo literário desprendido de mágoas das vivências que sofrera quando preso -, o autor remonta um enorme quebra-cabeça de fatos que mudariam vidas e o destino da nação.

O ano em questão, marcado pela rebeldia dos estudantes na Europa – o famoso Maio de 1968 -, teve reflexo na juventude carioca e paulista (e em outras capitais brasileiras). As crescentes manifestações estudantis e o apoio dos populares desencadearam vários processos para tentar legitimar o uso da força por parte dos militares. Quatro anos depois do golpe – que fora apoiado pelos meios de comunicação e opinião pública –, inúmeras falhas administrativas desgastavam a imagem perante os populares. Descontentes com os rumos que o golpe culminava, as revoltas populares, arquitetadas pelos movimentos estudantis, tomavam às ruas. Ao mesmo tempo, a “Revolução Armada” ganhava corpo e força entre os jovens rebeldes com o sistema.

Retrato fidelíssimo do momento, evitando ao máximo tender para um dos lados, apontando falhas e exageros de todos os ângulos, Zuenir desprende das mágoas que poderiam o amofinar, para, em meio de bom humor e visão aguçada, relatar da ascensão à queda – por imposição de força superior, ou por fragmentação e erros da esquerda – das movimentações estudantis. E, por fim, ao desfecho do fatídico 13 de dezembro.

Nem a tentativa do então vice-presidente, Pedro Aleixo, foram suficiente para evitar o golpe dentro do golpe, nem a atitude digna de Pôncio Pilatos do então presidente, o General Costa e Silva, foi capaz de impedir o Ato Institucional número 5 (AI-5), que estava em com as horas contadas para ser instituído. Ao passo, que a esquerda estudantil, cada vez mais fragmentada, perdera força e a empatia da opinião pública ao misturar rebeldia e baderna, manifestação popular com atos de vandalismo desnecessários. Além da ingenuidade e ações de espionagem infiltradas entre os estudantes.

Aos artistas e intelectuais restaram apenas as mordaças que calariam as produções culturais. Esmagando como rolo compressor qualquer cisma, por mais estúpida que fosse, sobre a ideologia política dos produtores de arte. Assim, 13 de dezembro de 1968 encerrou o ano idealizado e sonhado pelos estudantes que bebiam dos filósofos e pensadores mais iluminados. A caça as bruxas, que dera início antes mesmo do pronunciamento oficial do ato, matou parcela da esperança que ainda florescia na mente inquieta dos jovens. Para quem foi alvo das perseguições na madrugada e os dias seguintes ao Golpe dentro do Golpe, 1968 deixou no ar a sensação incompleta do ano que não terminou.

Outras resenhas:

A aventura de Zuenir De Paulo Francis. Folha de S. Paulo, 27/10/88.

Para escapar da repetição De Leandro Konder. Jornal do Brasil, 8/10/88.


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