A Bagaceira

A Bagaceira (José Américo de Almeida, 18º edição, Editora Livraria José Olympio, 1980), romance de 1928, a maior obra literária de José Américo de Almeida, é considerada por muitos críticos a como o marco inicial da segunda fase do Modernismo Brasileiro.
Escrito de maneira seca e direta, a obra relata, em discurso de denúncia, os horrores gerados pela estiagem no sertão do Nordeste. Além de ser o marco inicial da segunda fase do Modernismo, A Bagaceira inicia o ciclo de publicações que abordam a problemática da seca. Movimento que teria ligação com o Cinema Novo na década de 1960.
Nas páginas que antecedem a obra, o autor faz questão de apontar sobre a forma correta da escrita, mesmo em uma obra moderna e realista. “A língua nacional tem rr e ss finais… Deve ser utilizada sem os plebeísmos que lhe afeiam a formação […] A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar e construir…”.
A narrativa, com o vocabulário mais simplório do sertanejo, e utilização gramatical correta do autor, traz à tona um dualismo literário, no mínimo, interessante. Como no trecho a seguir:
“Mas, ali não se brigava por mulher: o amor não valia uma facada. O ciúmes mal passava de ameaças:
– Olhe que eu te dou uns croques!…
– Quando chegar em casa, você chia no relho!…”
Lúcio despertou, ouvindo um vozear estranho. Um formidável clamor que uivava dentro da noite.
(Página 44)
O maior problema da obra é o exagero da reflexão sociológica que o autor imprime. A necessidade demasiada do autor em tudo explicar – em caráter sociológico, e algumas vezes, psicológicos – fez que a obra não tivesse maiores efeitos sugestivos na concepção de narrativa.
Como análise histórico-cultural, o romance aborda pontos chaves no processo evolutivo e cultural do Nordeste brasileiro. O choque entre o erudito (filho do proprietário da fazenda, e estudante de Direito na capital do Estado), o rústico (o sertanejo, o brejeiro, o simplório, o povo oprimido vítima da seca) e o poder ditatorial e patriarcal da oligarquia latifundiária.
Como plano de fundo, uma simples história de amor em que, devido ao medo do protagonista, e os desvios do destino – nesse caso o poder opressor –, acarretou em um trágico desfecho, quase uma tragédia grega. Mas, nesse ponto, que a obra ganha maior volúpia e êxtase. A forma que o estudante Lúcio conduz a fazenda – em seguida da morte de seu pai, Dagoberto, acusado de violentar sexualmente Soledade (apaixonada pelo Lúcio) que fora assassinato em nome da honra sertaneja (por um agregado da família, Pirunga) – e a moderniza, não apenas no que diz respeito à produção, mas também no âmbito social (alfabetização dos filhos dos trabalhadores, melhores condições de moradias e de trabalho), dá maior dinâmica e outro fluxo à leitura.
José Américo de Almeida dividiu-se entre a política e a literatura. Na vida política, chegou a ser ministro do Getúlio Vargas (nos dois mandatos) e candidato à Presidência a República, eleição que não ocorreu devido ao golpe do Estado Novo. Na literatura lançou, sem obter maiores êxitos, mais duas obras; Boqueirão, em 1935; e Colteiros, em 1936.

E a Cultura?

Enquanto as engrenagens de madeira, movidas pelo círculo marcado das pegadas dos bois, rodam e tiram da cana o mel, e esse, ao tacho, produz a rapadura, a tradição do sertão – os seus valores sociais, culinária e gostos – fica evidente. O processo de fabricação do melado é apenas uma delas.
Mas, nos momentos de descanso, e, geralmente, no maracatu, que fica nítido os principais aspectos sócio-culturais do sertanejo. A forma como tenta seduzir a “dama”, as conversas no ambiente, e principalmente na música e na dança, o sertanejo mostra as raízes de sua cultura.
O apego à terra natal, e a certa mácula ao deixá-la. A falta de identidade com o local transitório, e a espera pela chuva, para, enfim, voltar ao lar. Além da submissão perante ao proprietário das terras, demonstram outros traços característicos dos hábitos e costumes do retirante.
A relação da miséria com o sexo. A perda total de valores no limite mais baixos do ser humano, a fome. Mas, sem dúvidas, o maior fator de análise da obra é acerca da honra do sertanejo. A desonra da mulher (a perda da virgindade antes do casamento), oriunda de tradições seculares, anterior à chegada dos portugueses ao país, apontam principais características sócio-cultural do nordestino. Lavar a honra a sangue é vingar-se e uma tentativa de purificar a mulher “desonrada”.
No final obra, outro fator cultural vem à tona, os cuidados do Lúcio ao seu irmão bastardo.

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3 Responses to “A Bagaceira”


  1. 1 poetriz janeiro 14, 2008 às 10:12 pm

    Acho que o tema do sertanejo já foi tão divagado na literatura…

    Resposta: A Bagaceira foi uma das primeiras obras do modernismo a explorar a temática.

  2. 2 Poetriz janeiro 15, 2008 às 2:36 pm

    Ah, mas qual menina no adoraria ganhar um livro e uma flor?
    Ou precisa ser “a” menina?
    No perca a esperana no… um dia ela aparece por a, com uma flor na mo…

    Bjs!

  3. 3 poetriz janeiro 15, 2008 às 10:38 pm

    Mas se o tempo agiu e você não deu nem a flor nem o livro, sinal que algo não estava certo.
    Ou a moça não era a certa.
    Ou o tempo não era o apropriado…

    Estou baixando a música. Depois eu digo se gostei…

    E Guinard, ele viu lindas montanhas.
    Mas Vinicius que viu a menina com uma flor.
    E não sei dizer qual das paisagens é mais bela, vista por olhos apaixonados…

    Ah, te adicionei no msn! Eu nem uso o Gtalk.

    Bjs!


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