Ela Caminhava

Ele olhou pela janela no mesmo instante em que ela caminhava pela rua. Olhos postados no chão, sentia o peso do mundo nas costas. Não viu, mas ela carregava na face a dor de uma vida inteira. Olhos fundos e vermelhos, chorava há muito tempo, não recordando quando começara. Encantado com o jeito angelical que ela andava, pôs-se a acompanhar com os olhos o trajeto que percorria. Não sabia ao certo, mas no instante que a viu pela primeira vez, renasceu em outra vida. Em outras vidas. Daquele momento em diante renasceria a cada vez que a visse passar.

Alguns dias foram necessários até que ele renascesse novamente.

Mas ela voltou a caminhar pela rua, no mesmo instante que ele pôs-se a observar pela janela. Não percebeu que recebera cinco tiros à queima roupa quando a viu. Morreu. Cinco vidas passaram pelas suas retinas cansadas do cotidiano. Renasceu, como Fênix, apenas para vê-la passar outra vez; e morreu; e renasceu… sucessivamente.

Sentia o tamanho do mundo nos dias em que ela não cruzava, cabisbaixa, diante da janela da sala de seu lar. Tomado de saudade, ouvia, em alto volume, “Não sei andar sozinho por estas ruas, sei dos perigos que nos rodeiam pelos caminhos. Não há sinal de paz e tudo me acalma no seu olhar”. Sorria ao lembrar dos olhos cândidos e da paz que ela emitia. Chorava ao lembrar da saudade que o consumia e das expectativas a cada novo olhar para a janela.

Entendia que a dor da ausência consumia mais que qualquer outra chaga. Suportaria viver cem vidas sem tê-la conhecido, mas não agüentaria uma semana sem a vê-la, depois do instante em que ela fez parte dele. Como um imã, sentia atraído à gravidade dela. Positivo e negativo que se encontravam no espaço, completando-os.

    Chovia.

Chovia gotas de ternura a cada nova esperança readquirida.
Ele seguia seus dias comuns; morte e vida a cada vez que a via transitar pelas alamedas.
Sentia que a compreendia sem ter, ao menos, conversado com ela.

Nos devaneios mais insanos, conversavam. Eram diálogos sem fim e costurados por fragmentos de dúvidas, afirmações e sonhos.

-Oi
-Oi
-Sei das suas dores e seu passado.
-…
– Seu olhar me transmite calma.
– Sua presença enche meus dias de esperança.
– Seu silêncio me tortura e me alimenta, como um labirinto borgiano.
– Penso em você como um anjo para ampara minhas lágrimas
– Sei que você veio salvar minha alma.
– Eu morri, não sei quantas vezes. Mas voltarei sempre que for necessário.
– Antes de te ver não era vivo, apenas caminhava sobre os trilhos da vida. Sem rumo.
– Quando te vejo, sinto cinco tiros queimando-me a carne, trazendo-me a paz que tanto sonhara.
– Eu já vivi tantas vezes, morrer seria uma liberdade. Um estado de glória.

Imaginava, dançando ao som profundo, diálogos improváveis e impossíveis devido à sua timidez.

Tinha medo do escuro, mas não temia a incerteza dos dias maquinais. Calculava que viver era preciso, assim como Camões achava sobre navegar, porém não fazia mais planos sem que ela estivesse incluída.

Esquecera de tudo, até de comer, até de sonhar…. Sonhara sempre e sempre com ela.

– Leve-me daqui.
– Leve-me para o seu mundo
– Não sei andar sozinho, talvez até saiba, talvez até consiga, mas não quero.
– Quero tudo, deste caminho escuro. Tudo. Sua vida em meus passos. Meus passos em sua vida.
– Ar, Água, Fogo, Terra.
– Terra, Fogo, Água, Ar.
– Às vezes você vem me visitar nos meus sonhos. Sinto seu aroma, ouço sua voz como se fosse real. Como se o sonho fosse minha vida, como se fosse a única realidade em que eu pudesse viver.
– O real nos devora, nos consome. O que é real? Essa carne que está grudada ao meu osso é real? O sonho nos alimenta.
– Sei que não deve se dizer, mas digo. Direi sempre que sentir necessidade: Não é possível viver sem seus sonhos costurando meus sonhos, sem sua vida permeando minha vida.

Em um dia mágico, avistou no ar dois arco-íris. Duas vezes sete cores enfeitam o céu até então acinzentado. Um azul profundo, iluminado por raios solares, espantava as nuvens grossas. O que restou da chuva iluminava, pelos reflexos do sol, o rosto sereno a observar pela janela quem passava.

Foi quando ela surgiu. Em rara demonstração da natureza, ele, bestificado pelo quadro que pintara diante seus olhos, pôs-se a sorrir. Compreendeu naquele instante, com o eterno ciclo do nascer do sol, mesmo em dias de tempestades, a natural jornada de suas almas. Acorrentados, como os dois arcos-íris a enfeitar um pôr-do-sol na montanha em dias de recente chuva, mas separados como o sol e lua, seguiram, abstratos, a renascer diariamente pelo correr das areias na ampulheta do tempo.

O sol estampou seu gosto.
Cinco tiros ouviu-se no ar.
No mesmo instante, ao longe, badalava às seis horas o sino da igreja.
Como Sísifo, ele a esperava passar, com seus olhos fundos. Ela caminhava.

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2 Responses to “Ela Caminhava”


  1. 1 poetriz janeiro 28, 2008 às 1:18 am

    “Suportaria viver cem vidas sem tê-la conhecido, mas não agüentaria uma semana sem a vê-la, após o momento em que ela fez parte dele.”

    Esse é o mais triste da vida.
    A vida não ter sentido até o dia em que aparentemente surge um sentido.
    Como se precisássemos de um sentido pra vida.
    Ou pra caminhar…

    Lindo demais o texto.
    Quase pude ouvir os passos na rua molhada de chuva e o bater de asas das aves assustadas com os tiros.

    Bjinhos!


  1. 1 A peça que faltava « Poetriz Trackback em janeiro 28, 2008 às 1:39 am

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