Fecho os olhos. Saudade!

Algo sem conserto se quebrou dentro de mim desde o dia em que você partiu. Neste instante, parti-me em vários, em tão pequenos e míseros pedaços, que não consigo mais juntá-los. E, talvez, se juntasse, sei que não ficariam perfeitos. Imperfeitos, sempre fomos, ainda mais em nossas conversas labirintuosas. Lutávamos para nos manter neste estado. Imperfeitos sempre foram meus verbos prediletos. Mas as imperfeições de nossos dias conduziam à nossa solidão. Deito-me, sobre o mundo, e percebo que sua falta corta algo puro dentro de mim. Cadê você, cadê tudo? Tudo que me importa, neste instante, encontra-se distante.

Distante de tudo que nunca fui ou pude ser. Eterno. Gigante. Miro-me ao espelho, refletido a sombra do que um dia fui, ou, inutilmente, tentei ser. Passos que passam ao descaso. Cansaço. Ao acaso, desperto, com sono profundo, do profundo abismo abaixo dos meus pés.

Saudade tem gosto de céu. Às vezes, gosto de amora, outrora gosto amargo de arrependimento. A vida fluía, como fluirará sempre. Às vezes, o esquecer da cor dos teus olhos é tão natural que não imagino em qual tonalidade pintaria tuas retinas. Outras vezes, te esquecer é como esquecer a mim, ou uma memória de infância que nunca deveria ser esquecida. Mas, por acaso, ou por descaso, evaporam de nossas mentes. Esquecer-te é esquecer-me.

Existe o mar e existe a lua. Não sei ao certo se você ainda vem, mas sei, com exatidão, o movimento transmutatório de seus passos em minha vida. Regido pela vastidão dos séculos que nos separam, seguia, acidentalmente, pelas horas mortas da saudade. Miro meus olhos cansados ao espelho, refletido, em alto-relevo e ainda fresca na memória, sua imagem transcendental repetia à exatidão dos meus mais distraídos momentos de falta de fé. Agarro-me ao terço, sem saber rezar, converso com quem chamam de Deus. Choro. Desespero. Lanço-me ao mar infundo dos poemas mortos de amor. Perguntas voltam à mente: Cadê você? Cadê o que mais me importa neste instante? Cadê minha paz roubada no instante de sua partida?

Esqueço as datas amareladas das recordações mais remotas. Olho em volta a mais perfeita paz, instante após, tudo está de pernas para o ar. O que antes era paz e calmaria deu lugar à imensa sombra. Saudade perde o seu significado mais profundo quando penso em você. Fechos os olhos, saudade! Com a camiseta molhada de lágrimas e o coração na boca, berro seu nome. VOLTA. A paz, que sumira, voltou embriagada pelo calor da sua marca. Temporariamente terei paz. Segundos depois, todos os sentimentos se misturam em um único sentido. O pulsar acelerado do meu coração perde o compasso, me pego, distraído, a pensar em você.

Volta. Volte logo. Volte já. Mas venha com a certeza que uma vida seria pouco para acabar com a saudade que, os cinco bilhões de anos que nos separam, trouxe em meu peito cansado de chorar.

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1 Response to “Fecho os olhos. Saudade!”


  1. 1 poetriz fevereiro 7, 2008 às 10:30 pm

    Que texto triste! Saudade é assim, domina a gente, nos deixa cegos e loucos. Uma vez li que “saudade é uma dor urgente”. E é mesmo. A gente quer agora, já, nesse instante! Mas nosso relógio, o relógio da saudade é diferente do relógio da vida. Ela é dona do tempo e escolhe o momento das coisas. Enquanto isso, é aguardar que o tempo seja breve…

    Versinhos pra vc. Lya Luft eu descobri ao acaso, num texto mal recomendado onde ela falava de solidão. A partir desse dia, virei fã de carteirinha.
    Acho que os versinhos combinam com o teu texto, em especial o ínicio dele.

    Tenho medo da dor de tua ausência
    que me queima por dentro.
    E da ternura eu tenho medo, dessa
    beleza das noites secretas
    quando chegas
    sempre como se fosse a única vez.

    Tenho medo de que um dia queiras
    cessar esse rio de águas ardentes
    onde mais do que os corpos
    tocam-se as almas,
    anjos desatinados luzindo no breu.

    – Lya Luft


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