O sol seguinte

Às vezes, quando remontamos o passado em nossas cabeças, escolhemos os fatos que nos remetem ao tempo áureo, coberto com o verde das datas amarelas pela ação dos anos. O tempo, velho camarada, nos ajuda a recriar uma terceira realidade, fantasiando o que realmente teria ocorido. Não que nada daquilo tenha ocorrido, mas muitos fatos são, de fato, remontagens e fantasias de como desejavámos que tive sido. Quem sabe, até mesmo, realmente aconteceu.

Destas datas que o tempo cobre com o sabor e a textura da melancolia. Essa, com toda certeza, remeterá ao tempo infindo dos passos indecisos. Tempo. Tempo. Tempo.

Quanto tempo olhando para o relógio pendurado na parede da sala, relembrando ou quem sabe, tentando remontar cada frase. Em um labirinto típico de Borges, tento fugir dos seus passos, do seu charme, do seu enigma. E, como preso em seus passos, charme e enigma, sinto-me atraído ao labirinto borgiano sem ao menos pensar na possibilidade de sair. Fico preso, ao redor dos astros que te mantém suspensa no espaço existente entre meus distraídos dias e suas mais malucas tormentas. Tempo.

Eram dias especiais. Sei disso, pois, realmente podia sentir que algo mudaria para sempre. E mudou. Mudamos todos, mudamos tudo. Tudo de lugar. Onde deveria estar a razão, deu vazão ao sentimento. No lugar do sentimento, tudo se transformou em uma coisa só. Água, terra, fogo, ar, condensados em mim, em mil, em milhões de partes em mim, em ti, em todo o mundo. E o mundo, neste instante, sentiu que a eternidade era apenas um passo, um desvio do caminho quando sabe aonde quer chegar. E sabíamos.

Ela sorriu.
Ele sorriu
Os dois se viram amparado um ao outro, desde sempre, desde antes do sempre existir.
Ela se viu nele.
Ele se viu nela.

Os dois se viram refletidos a um espelho sem vidro. Era apenas um arco, um círculo, uma redoma. Era só aro, e viram um ao outro. E viam, no outro, a metade que tanto procuravam. Ou, quem sabe, nunca procuraram. Mas ao se verem, metade do outro em um, metade de um em outro, entenderam toda a busca inútil que realizaram. Era impossível ser diferente. Era impossível serem dois sem que se transmutassem em um. Um no outro.

Ela sorriu.
Ele percebeu que aquele sorriso, na verdade, era o sorriso dele.
Ela via nele o sorriso que não tinha.
Ele era amparado pelas lágrimas que ela chorava ao vê-lo.

Não entendiam que as dores do passado eram alguma forma de cura para todo mal que passaram, e agora, juntos, poderiam sorri, e chorar, e viver, e sonhar, e sonhar, e sonhar sem fim. Afinal, a vida dos dois era como um conto de fadas, fadada a ser feliz desde o instante que se reconheceram como a metade do outro.

Ele entrou na história no instante que ela disse oi.
Ela disse oi para que ele entrasse na história.
Ele morrera tantas vezes, mas agora queria ressuscitar todas as vezes que morrera.
Ela nasceu para ele, só agora compreendia sua jornada.

No rádio tocava: “Não se afobe, não. Que nada é para já. O amor não tem pressa. Ele sabe esperar”. Mas desligou de repente. Como uma espécie de aviso, de desalento do destino, anunciando em cinco mil alto-falantes que a vida era mesmo um eterno encontro e desencontro. Logo agora que se encontraram, desencontravam-se… e por tanto tempo.

– Vou sentir sua falta ao ponto de se tornar dor, a dor se tornará lágrima, a lágrima saudade, a saudade uma vazio que me consumirá ao ponto de perder a fé, duvidar de Deus, desacreditar no amor, oscilar entre destino e embriagues, esquecer seu rosto, esquecer seu perfume, seu gosto, sua cor, tudo… tudo que me trouxe paz.

– Eu te amarei, mesmo no vazio da noite, mesmo no vazio do copo, mesmo no vazio da vida, mesmo no vazio da alma que sentirei por não te ver sorrir. Seu sorriso vai aos poucos se desfazendo da minha memória. Minha memória vai tentar remontar seu rosto, seu gosto, tudo.

– Vou procurar em outros braços seus abraços, outros rostos seu carinho, outros carinhos o seu rosto, outras rotas seus caminhos, outros caminhos sua volta.

– Vou pensar em ti com tanta força, que a sentirei ao meu lado, mesmo nas noites de chuva ou nas rodas com amigos. Vou esquecer seus abraços, seu rosto, seu nome, mas antes vou chorar nos braços de amigos, nos braços de familiares, sozinho, antes de dormir, na hora de acordar. Pensarei em você com tanta força, que aos poucos será parte minha pensar em você.

– Caminharei nas ruas a sua procura. Talvez acharei alguém os olhos parecidos com os seus. Quem sabe, a boca, ou corte de cabelo, ou a barba por fazer, ou o formato do rosto semelhante ao seu. Com sorte, quem sabe, eu ache alguém que me lembrará você, mesmo quando a memória nem mais saber como é.

– Sentirei seu cheiro de longe, e sempre que olhar uma rosa pensarei que estarei ao seu lado. Quando olhar para as estrelas, pensarei que estará olhando também. Isso me trará conforto temporário. Vou fazer planos que nunca se realizarão. Vou deixar de sentir coisas que nunca mais poderei sentir. Vou pensar que fui culpado. Vou culpar você. Vou desistir de tudo. Vou recomeçar tudo outra vez.

– Ouvirei sua voz me chamando, vou dizer seu nome baixinho três vezes antes de dormir. Pedirei ao meu anjo da guarda para te guiar, para sonhar com você. E sonharei sempre.

-Vou ouvir três tiros queimando-me a carne sempre que ouvir seu nome. Nesse instante irei reconhecer que a vida é um risco e que devo seguir em frente. Três passos depois, lembrarei de tudo que vivemos até o dia que se foi. Vou chorar. Vou pensar em tudo, em nós, vou te esquecer, e tentarei esquecer, mas três passos depois lembrarei que tudo que somos é algo que sempre esteve em mim. Eu sou você.

– Irei chorar ao ouvir Milton Nascimento por você. Vou chorar ao ouvir Chico Buarque por você. Vou chorar quando lembrar de Minas, quando lembrar de tudo que me lembra você. E sei que estará livre para correr em campos verdes, como foram verdes nossos dias.

– Vou escrever poemas, depois rasgá-los. Vou escrever seu nome, depois chorar. Esperarei seu telefonema durante o dia todo. Dormirei tarde, olhando para o telefone que não toca. Vou escrever milhões de cartas e e-mails, não mandarei nenhum. Vou queimar algumas fotos, cartas e bilhetes que me deu. Depois vou me arrepender.

– Vou te esperar.

– Vou te esperar.

– Vou ouvir muito alto nossas músicas e pensar em voltar para o local que nunca deveria ter saído.

– Vou pensar que está perto sempre que ouvir nossas músicas.

– Esquecerei sua voz.

– Sua voz ecoará em minha mente a cada segundo.

– Eu te amo.

– Eu te amo.

– Escreverei um diário para lembrar de cada dia longe de ti. Vamos rir de tudo quando essa agonia acabar.

– Escreverei milhões de poemas. Vamos ler quando voltar.

– Não quero nunca mais partir sem você.

– Sei que é necessário, mas por egoísmo meu, não quero que vá.

– Voltarei em breve.

– Sobreviverei.

– Espere-me

– Espero mil anos se assim for necessário

– Espero que seja menos. – Riu.

Ela foi embora no momento exato que tocava “Meu corpo é um instrumento. Eu sopro aos sete ventos. Pra você me escutar. Pra você me ver. Pra me ouvir falar disso tudo…”

Dobrou a esquina, dobrou a vida, dobrou o destino. Caminharam por lados oposto. Um dia a música os unirá novamente. Enquanto isso, a estes dois, apenas os olhos cansados e a memória seletiva esverdeada que caberá a cada um.

Das velhas folhas amareladas pelo tempo, apenas uma data remete ele: 09 de dezembro. Apenas uma data a remete: 01 de março.

Ouve-se cinco tiros quando chega estes dias. Renascem no nascer do sol seguinte.

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4 Responses to “O sol seguinte”


  1. 1 poetriz fevereiro 15, 2008 às 1:29 am

    Seu texto me fez lembrar Caio:

    >>
    -Mas não seria natural.
    -Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
    -Natural é encontrar. Natural é perder.
    -Linhas paralelas se encontram no infinito.
    -O infinito não acaba. O infinito é nunca.
    -Ou sempre.
    <<

    Não sei por que você republicou o outro texto. Ou até saiba, mas não ouso dizer. Talvez algumas coisas não precisem ser ditas, é desnecessário.
    E fui lá descobrir o tal Lobo da Estepe. Também me vi no trecho que li, na dualidade, na luta interior.
    Acho que todo mundo é assim: a parte que é pública e a parte que esconde (até de si mesmo). E é quando essa parte escondida começa a querer se mostrar que tendemos a nos defender ou defender os outros de nós mesmos. Meu recurso é o sumiço. Costumo dizer que eu me fecho na minha concha e fico lá sofrendo com meu grãozinho de areia até não ter mais jeito.
    A gente pode se afastar do mundo, mas não dá pra se afastar da gente mesmo…

    Bjs

  2. 2 Cammy fevereiro 15, 2008 às 3:14 am

    Caramba! Perfeito o teu texto! Agora além de vc me aguentar no orkut, na faculdade e no msn, vai me aguentar por aqui também.

    Mas falando sério, todo mundo tem esse mesmo pensamento, essa mesma atitude. A vida é assim mesmo e nós apenas tentamos vivê-las, por mais difícil que ela seja. E é justamente essa dificuldade que nos faz agir de forma tão complexa. Quer dizer, uma coisa é você viver solitário, longe da agitação da sociedade, fora do pessoal. Outra, completamente diferente, é viver em grupo, com outras pessoas, em outros mundos, por assim dizer. Algumas situações dão tanto medo que simplesmente não sabemos como agir. Então pra não ficar mais conturbado do que já está, a gente se defende, mesmo que das formas mais diversas, mas nos defendemos daquilo que nos aflige. Remontar lembranças é uma forma de nos proteger, bem, quer dizer, nem tudo sai exatamente como esperado e tendemos a inventar, entre lacunas de nossa memória, coisas que não são tão reais quanto gostaríamos que fossem.

    Virei aqui mais vezes.
    Beijãoooooo

  3. 3 Erika Azevedo fevereiro 16, 2008 às 7:09 pm

    Certa vez li, ouvi..nao me lembro bem….mas era bem isso.

    O amor é um punhal de dois gumes fatais.
    Se amar é sofrer
    Não amar é sofrer mais.
    Não sofro com a presença da ausencia.

    Bem assim q vejo, prefiro a dor do amor q se foi, do q não ter lembranças de um amor q foi vivido… dor q é amenizada com a esperança da volta…o esperar é o manter em nós acesa a luz do sonho.

    “… o que sao as certezas senão um fino papel
    onde dobramos os sonhos para que se tornem ou não realidade?
    Não desisto de sonhar enquanto houver doçura em nossas dúvidas.
    Humanos e delicados,
    dependemos do alimento que colocamos na boca um do outro,
    como pequenos pássaros
    cheios de esperanças no retorno das ilusões perdidas.
    Os últimos sonhos sempre serão os mais intensos.
    E permanecem no tempo feito um relógio que bate como se dissesse:

    “Não desista.
    Há vida, meu amor, há vida!”

    – Celia Musilli –

    Um abraço doador de esperança em retribuição ao prazer de ter lido vc.

    Erika

  4. 4 katia junho 26, 2008 às 2:01 am

    parece muito aquele conto lindo do Caio F
    o dia que jupter encontrou saturno


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