Montanha-Russa

Eu volto ao passado. Passado, este, que não passou, ecoa em minha mente, e varre as ruas desertas dos labirintos, infindos, que criou. Eu vago pela solidão do quarto, vago pelas calçadas cheias de rostos desconhecidos, pedindo passagem, pedindo abrigo, pedindo abraços, sorrisos, lágrimas. Perdidos. Esta gente que nasceu para pedir, ou perder-se entre tantos rostos carentes de abrigo e proteção.

Eu volto ao passado, não nas tardes mágicas e bucólicas, que guardo na memória com carinho, e, ao acaso, num sábado à tarde ou numa segunda chuvosa, recordo com ar de melancolia. Não, volto ao passado sombrio, das dores e culpas que martelam minha paz roubada. Volto ao passado, sem esperanças de futuro ou planos para o presente.

E por que você me atordoa?

Por que tenta roubar meus passos?

Por que, volta e meia, volta? E volta como se nada tivesse acontecido. Volta como quem volta para casa após um dia de trabalho árduo. Volta como se nunca tivesse partido. Ou quem tivesse comprado pão na padaria da esquina, com o jornal debaixo do braço, assobiando uma velha canção. A nossa canção.

Mas, o que mais me tira o juízo, se é que um dia eu tive algum, é sua partida. Por que parte? Ainda mais quando diz que sou seu tudo. Por que me parte em dois, três, mil, um milhão, às vezes ao meio. Por que me prende em suas palavras amargas, amortecidas pela doçura de sua voz cheia de segundas, terceiras, milésimas intenções. Por que me prende nesta montanha-russa, entre curvas, decidas e subidas intermináveis? Por que insiste em me fazer sofrer no momento em que quase sorria?

Às vezes esqueço que um dia carregava alegria no peito. Toda as minhas auto-imagem, que tenho registrada em algum lugar da memória, não consigo visualizar algum sorriso nem expressão alguma de alegria. Tenho me tornado cinza, e, pior que isso, incrédulo. Não acredito mais nem na metade dos meus sonhos antigos, não crio novos planos. Não confio em mais ninguém. Caminho sobre os dias, não sei que data é hoje. E, de verdade, pouco me importa saber. Não leio mais os jornais, não perco meu tempo assistindo tevê, tenho lido pouco, ir ao cinema, jamais. Perdi-me entre algo que não sei. Mas, afirmo, me perdi, provavelmente em algum ponto entre o que acredita ser felicidade e a descoberta cruel da vida. Não, não estou entregando os pontos, não, isso nunca. Estou em uma queda livre, em algum mergulho desta montanha-russa, e com muito prazer em cair. Quero sentir cada segundo desta viagem. Quero apreciar cada momento desta hecatombe. Depois, quero emergir, não com orgulho, nem triunfante, mas como sempre insurgi nos momentos mais difíceis. Quero ver seu sorriso, seus olhos e o pulsar de seu coração ao me ver ressurgir, e desta vez, para sempre.

Enquanto ando em sua armadilha, divirta-se.
Que o paraíso seja leve.

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1 Response to “Montanha-Russa”


  1. 1 poetriz março 2, 2008 às 1:40 am

    Eu já li esse texto antes, dias atrás… mas as vezes me dá receio de comentar algo aqui. Aliás, isso é totalmente inusitado em mim. Porque eu sempre soube quando falar e quando calar. O que falar. Dizem que eu tenho o “dom” de adivinhar o que os outros dizem e pensam, de enviar mensagens na hora certa. Mas aqui eu não, com vc não. Porém vou arriscar dizer que achei que o título não combinava com o conteúdo.

    Mas foi justamente o título que me chamou mais atenção…
    Quando eu vou nesses brinquedos, o momento que me dá mais medo é a subida. Eu tenho medo do carrinho voltar pra trás, tenho medo de não chegar nunca no topo. Cair é consequência da subida. Só cai quem chega no alto. Por isso a adrenalina pra mim está em subir, subir é que é arriscado, é que é difícil.

    E essa semana ouvi uma música da Zélia Duncan, e agora vindo aqui percebi que ela combinava com o título desse post. E foi preciso toda essa explicação pra algo tão simples como a música dela…

    ♪ Quero sentir a altura do abismo
    Pra eu poder subir depois do perigo ♪


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