Arquivo para março \31\UTC 2008

Da janela

Olho pela janela do meu quarto como quem olha um retrato em branco e preto. Tento entender, ou observar, cada instante da vida que passa lá fora diante das minhas retinas cansadas. Existe noite que durmo tranqüilamente. Em outras, o cansaço me consome até as horas frutíferas de sopor. Acordo, normalmente, com sono e com melancolia do dia anterior.

Mas, como dizia, olho pela janela do meu quarto como quem observa uma obra rara. Com a mesma atenção de quem analisa os quadros do Louvre ou do MASP. Aos olho de quem procura desvendar atentamente os traços de Miró, as maluquices de Dalí, os pontos delicados do Manet, ou as perfeições em pedra-sabão de Aleijadinho. Com o sentimentos de quem se sensibiliza com a fase azul de Portinari, ou com o ocre de Tarsila do Amaral. Perco meu olhar em rotas que mesmo crio, diante da janela, imaginando meus passos tortos em desfiladeiros de aventuras parvas.

Há manhãs que acordo com vontade de mudar o mundo ou o corte de cabelo. Mudar… Em outros dias que o vermelho piscante do despertador atrapalha segundos sagrados dos meus sonhos mais delirantes. Nestas datas, a melancolia toma conta dos meus gestos e frases. Em minha mente, milhões de imagens explodem em repetidas cenas. Como se tivesse mergulhado em vários curtas-metragens, todos passando ao mesmo instante. Nestas horas, penso no seu sorriso e nas promessas de amor eterno. Impossível, mas é sempre primavera quando você habita meus pensamentos.

Eu olho pela janela como quem observa o passado. Passado este que não passou. Talvez, meu amor, nunca passará. Poucas coisas enfeitam meu quarto, como sabes, sou desprendido de bens materiais. Mas uma coisa faço questão, de um canteiro de flores fixo à janela. Lá, guardo todos os melhores instantes de passamos ou passaríamos juntos. Lembra a nossa música: “Flor na janela da casa”. Desde que o sol se fez lua, penso no momento exato de um eclipse. Neste instante, todo o universo sentirá a união de dois corpos celestes que sempre estiveram em um único movimento. A luz que emanará deste encontro será capaz de ofuscar até os mais cépticos.

Olho pela janela como quem lê um conto do Caio Fernando Abreu, ou da Clarice Lispector. Como quem lê os poemas do Drummond, ou do Torquato Neto, como quem ri ao lembrar do Quintana, ou da Cecília Meirelles. Olho a janela esperando a volta dos dias que respirava na esquina. Olho a janela esperando que venha, rumo ao norte, acabar com a saudade que me faz olhar para a janela.

Bondinho do Centro: Uma viagem ao passado

A bordo do Bonde, o Centro da Cidade revela trechos da história que o tempo não apagou


O percurso dura em média 15 minutos, mas a
sensação é que o tempo parou por um instante

Os 1700 metros de linha férrea do bonde, no centro de Santos, revelam um pedaço da história esquecida nas páginas amareladas dos livros didáticos. Como uma volta ao tempo, em nossos olhos vão surgindo, aos poucos, edificações e cenas fundamentais para os desenlaces da formação histórica e política da Cidade e do País.

Em cima dos trilhos, esse meio de transporte fazia parte da paisagem urbana e promovia o encontro e a despedida do dia-a-dia. Os três bondes elétricos do Centro, reconstituições originais de 1920, funcionam como uma máquina do tempo. O uniforme impecável do motorneiro e dos cobradores, somado com a conversa informal na Praça Mauá antes do início do passeio, nos remetem às décadas passadas.

Do último bonde que circulou em Santos, em 1971, até a inauguração da linha turística em 2000, longos caminhos foram traçados. A luta do cidadão José Carlos Vieira da Cunha, para manter o serviço na cidade, momentos antes da desativação, originou o monumento na Praça Mauá, chamado de Parada Buck Jones. É lá que dá início à viagem.

Após a primeira curva, avistamos as árvores centenárias da Praça Rui Barbosa. Ao fundo, a Igreja do Rosário. Pela Rua do Comércio a dentro, iluminada por réplicas de postes do início do século passado, o contraste arquitetônico moldura a paisagem do tempo áureo do café.

As marcas do tempo são visíveis na Casa da Frontaria Azulejada. O que restou da construção original, de 1865, abriga hoje o mais novo espaço cultural da Cidade. Ao final da rua, o Santuário do Valongo, em estilo barroco, ostenta a beleza e a simplicidade que a fé a capaz de impor. Ao lado, a Estação Valongo, que por mais de cem anos foi a principal porta de entrada da Cidade. Em frente, as ruínas do Casarão do Valongo, mostram a imponência da oligarquia cafeeira e as marcas do tempo.

Maior parte das belezas do trajeto teve seu ápice na época do café. A antiga rua da Praia, atualmente a Tuiuti, com suas janelas voltadas para o mar, abriga, uma das construções mais antiga da cidade, o Palacete Mauá. Ao lado, no estilo neo-clássico, a Bolsa do Café: com três fachadas independentes: uma na Rua Frei Gaspar, torre voltada para a Praça Azevedo Júnior e pórtico da entrada principal na Rua XV de Novembro. Com mais de duzentas portas e janelas, em cerca de seis mil metros de área construída, foi criado para abrigar a principal Bolsa de Café e Mercadorias do mundo, pois na época Santos era a maior praça cafeeira do planeta.

Na parte final do trajeto, avistamos a Praça Barão do Rio Branco, e o monumento a Cândido Gafrée e Eduardo Guinle, responsáveis pela construção dos primeiros duzentos metros do porto de pedra. Em frente, o Conjunto do Carmo e Pantheon dos Andradas remetem ao período do Brasil Império.

No último trecho, o antigo curso do rio Itororó, imortalizado na cantiga de infância, a sede dos Correios e o Paço Municipal. No alto, a imagem cinematográfica do Monte Serrat.
Os bondes deixam de trafegar na cidade em 1971. A justificativa é de que eram lentos, atrapalhavam o trânsito e eram incompatíveis com a modernidade. De volta à praça Mauá, cantarolando Caetano Veloso: “Bonde de trilhos urbanos vão passando anos”; voltamos ao nosso tempo.

Em detalhes:

Praça Mauá
A Praça Mauá é o ponto de partida do passeio. O nome “Parada Buck Jones” é em homenagem ao Sr. José Carlos Vieira da Cunha que, na época de desativação dos serviços de bonde (1971), defendeu a manutenção do serviço.

Rua do Comércio
Construções modernas convivendo em harmonia com a arquitetura colonial. A rua tornou-se uma ponto de referência da vida boêmia da cidade, inspirada no Puerto Madero, em Buenos Aires, Argentina.

Frontaria Azulejada
A Casa da Frontaria Azulejada foi construída em 1865, em estilo neoclássico, tem como característica marcante os azulejos azuis e amarelos portugueses em alto relevo confeccionados a mão.

Santuário do Valongo
O altar do Santuário do Valongo, em estilo colonial-barroco, foi desenhado especialmente para o local e mostra a Santíssima Trindade. Uma porta giratória possibilita a mudança de imagens, quando surge o Jesus Cristo com a bandeira da paz. Isto acontece por ocasião de datas festivas como Natal e Páscoa.

Bolsa do Café
Intitulado como Museu do Café Brasileiro, o Palácio da Bolsa do Café resultou de um protejo francês, inspirado no renascimento italiano, que venceu o Salão de Arquitetura de Paris, na primeira década do século XX

Estação do Valongo
Por mais de cem anos o trem de passageiros foi um dos principais meios de transporte.. O prédio esteve ativo até em 30/11/1996, quando foi desativado.

Sem você, um dia…

Eu te via passar pelas avenidas iluminadas e pelas grandes vitrines sombrias com seus passos calmos e olhar certeiro. Não temia sua voz firme, tampouco seus gestos mais ásperos, sabia eu e o mundo inteiro que era mais um charme que defeito, mais uma forma de fugir da realidade que agressão. Era uma forma tímida de ocupar a sufocante dor que dominava o dia-a-dia. Eram passos certos em rotas de colisão de meus vitimados olhos cansados. Enquanto o mundo explodia em imagens, você caminhava quase que solitária pelos caminhos da cidade. Caminhos estes que para lugar algum levava.

Eu, de tão distante e tímido, me perguntava se a vida tinha mesmo razão em existir. Você, translúcida de efervescente alegria viva em seus olhos dantes tristes, disse com uma pureza quase infantil, quase senil, quase santa, quase insana… todos os pecados que cometia ao desperdiçar cada segundo em duvidar da vida. Mesmo de brincadeira, suas palavras alimentavam minha alma, como um eterno exercício de nascimento, eu nascia cada dia para te ver cantar; e falar; e sorrir; e sonhar; e viver; e crescer; e pensar; e iludir; e caminhar; e iluminar; e radiar como o sol que queima o rosto; e a ouvir minhas palavras repetidas com a mesma atenção e paciência como se ouvisse a primeira vez tudo que sempre digo; e a mergulhar em nossos pequenos projetos; e tentar mudar o mundo; e a dançar a valsa vienense da madrugada fria mesmo com dias de sol radiante… Todos os dias acordava antes somente para te ver despertar do sono profundo, que apenas os justos podem ter, e ter a certeza que estava bem… bem viva. Bem-vinda em mim.

Não sei ao certo se você vem para o jantar, mas espero a cada dia com a mesma chama eterna da certeza latente em meu pensar que você virá. E será como sempre fomos e como sempre sonhamos. Flores enfeitando nossa casa, os pés descalços a tocar na terra molhada pela chuva serene da madrugada, mãos entrelaçadas formando um único corpo celeste. O que sempre fomos, e sempre seremos, um bólido único a vagar pelo espaço sideral, em busca de algo que estava sempre em nós: um ao outro, e nada mais.

Até que um dia derreteríamos as estrelas que compõem o azul aveludado do céu. Nesta data, gotas de orvalho escorreriam pela face do correr dos séculos. A felicidade estaria um passado diante de nossas retinas.

Bem-vinda. De volta? Até já!

Vejo as cenas dos próximos capítulos como a uma repetição dos episódios anteriores. Parece que nada de novo acontece nos cotidianos dias que passamos. Querendo ou não, meu amor, a vida continua, mesmo que de forma lenta, a correr pelos longos e duvidosos desfiladeiros. Quando ouço no rádio a nossa música parece que o mundo pára. Ou será que sou eu?

Vejo as velhas folhas amarelas a qual escrevia frases soltas, coisas que você costumava chamar de poemas. Li, reli, voltei a ler por horas e horas tentando descobrir o que teria escrito. Por que me torturo assim? Sei que não voltas, e mesmo se voltasse será que seria como sonhamos um dia? Sonho louco de duas pessoas que se tornavam um. Um. Dois, dez, dez milhões. Somos todos iguais. Ás vezes iguais até demais.

Abri suas cartas, seus recados, seus bilhetes, seus suspiros, sua alma. Li, não venha me falar de semiótica, idiotices, cafonices, de filmes água-com-açúcar-roliudianos. Não venha com todo os seus altos-e-baixos, seus sentimentos-sem-sentidos, ou com a cara-de-pau em falar de amor. Quem é você para cuspir no prato raso do amor? Quem sou eu para imaginar que um dia seríamos um, dois, dez, dez milhões, mesmo sendo todos iguais. Imaginei que seríamos diferentes dentro das nossas diferenças. BABAQUICE.

“Pra mim, chega…”, terminava o bilhete de adeus do Torquato Neto. “Para nós, chega”, mas chega perto, chega junto ao meu ritmado coração cansado de esperar horas a fio pelo seu telefonema, ou carta, ou pedido de desculpa, ou convite para irmos ao cinema, ler o último livro de 20 anos atrás que nunca lemos, de ser pego de surpresa com flores no trabalho enquanto penso como resolver um “grande problema”. Problema mesmo foi quando foi embora, e até agora não sei como resolver. Talvez resolva quando voltar, talvez piore de vez. Talvez tivesse problema antes, mas o meu egoísmo extremo, ao ponto de querer ajudar, não me fez ver o ponto que chegara. “Para mim, chega, mas chega perto, bem perto de mim…”.

Ás vezes, a dor é tão forte e profunda que não sei se sinto dor ou saudade. Outras imagino que nunca houve, mesmo existindo tão profundamente em mim. Em mil. Em um milhão de coisas que faço, penso, procuro… lá está você, vinda do alto, de tal forma que acho impossível desassociar sentimento e sentido do seu nome. Às vezes, perco o nome, perco o sono, perco cabelo, tempo, lágrima em torturantes agonias. E você disse que me deixaria para que eu pudesse ser feliz. Ironia? Destino? Chamo de saudade.

Enquanto espero o trem que vai me levar para longe, ou para o seu regresso, você ganha o que nunca quis ganhar.

Seja bem-vinda. Em mil, em um bilhão em partes de mim.

Ao mar, sem fim

As ruas levam para portos desconhecidos. Rostos familiares rodeiam as vistas cansadas. O céu, de tão azul e infindo, trouxe tranqüilidade e harmonia aos descendentes da paz roubada. Momentos eternizados em segundos sagrados do seu peito frágil e dotados de admiração bela ao te ver sorrir. Vagam, como loucos, pelos subúrbios escuros das cidades desertas de amor. A vida, mesmo que de brincadeira, dera a luz que falta para colorir seus sonhos. Voe sem medo de voar, mas volte para onde nunca deveria ter partido.

Cinco vidas em suas mãos, cinco rotas de colisão à sua frente. Em frente, sem volta, sem desculpas, sem frescuras. Quase sem sono, com dor no corpo, como sempre ou como nunca. Seus suspiros mais audaciosos inspiram qualquer sonhador. E eu, que me fiz de sonhos, memorizo cada palavra dita calmamente do seu doce penar. Cinco vidas descritas em suas memórias extraordinárias. O mundo inteiro, como uma orquestra dodecafônica, parou ao passo que suas rotas afastavam. Vá por onde ninguém ousou ir. Mas volte o mais rápido que puder.

Das poucas coisas que me lembro, remonto em minha cabeça o seu sorriso, a forma como fechava os olhos e abria os lábios, o som agradável do seu riso puro, a maneira como seu cabelo se comportava ao balançar a cabeça. Lembranças opacas que perderam a forma, perderam a razão, perderam a maneira exata que me fazia lembrar. Fotos antigas enfeitam minhas retinas. Como em uma metalinguagem cinematográfica, te vejo bailar registrada por uma Super-8. Projetada na parede da sala, ao som do projetor e das suas gargalhadas. Saudade. Saudade. Saudade.

Onde habitam os sonhos? Quantas cores há no arco-íris? Quem controla o vento? Quem ordena a vida? Quantas estações ainda estará longe? Quantas primaveras há no seu sorriso? Em que lado o Sol se levanta? Quantas vidas restam para entrar em sua vida?

Há quem duvide das movimentações ocultas que regem o mundo, coisas tais que chamam de destino. Há quem duvide do amor. Há quem duvide de tudo, só pelo prazer em duvidar. Mas há (e ainda bem que existem) os que acreditam em tudo isso, e esperam, pacientemente, pelo momento exato, pela hora cheia, pela estrela que iluminará os dias. Há aqueles que choram ao ler um poema, ou ao ver um filme, ou ao ler um livro. Há aqueles são guiados pelos sentimentos. Para estes, não há nada mais belo, mais rico e único que um pôr-do-sol.

Ao som do sim

Não me basta seu gosto impiedoso
Eu gosto do gosto do novo
do velho novo de novo

Não me basta o seu cheiro imposto
Gosto do aroma de carvalho
Eu quero o perfume do orvalho

Não me basta o seu sopro indecoroso
Quero o som do seu suspiro
ouvido tudo, aquilo

Não me basta a calor de suas palavras
Quero flores em seus cabelos
Flores tatuada em seu corpo inteiro

Não me basta seu charme à queima roupa
Tampouco a paz roubada dos seus gestos distraídos
Quero ver-te voar por aí

Não me basta o seu olhar indeciso
Vasta gloria, agora jaz
Existe distância e não existe paz

Noites

Quantas noites em claro passei lendo e relendo, depois rasgando, suas cartas? Em vão. Tudo utopia, tudo ilusão. Mas sua voz ecoando em minha cabeça, com as mesmas frases repetidas, que com o calor do tempo faz ter a força de um mantra. Voltas completas do relógio torturando em minha cabeça: “Eu te amo, tanto”… “Eu te amo”.

O amor é mesmo mágico, tem um toque de extracomunal, um toque trágico. Um toque de ar soprado das grandes galerias do destino. Ah! Destino. Não em fale de destino, sorte, acaso ou outra bobagem zodiacal. Não me fale de netuno entrando júpiter, ou câncer na lua de leão. Eu não entendo muito além das minhas vistas cansadas de ler besteiras escritas por filósofos há tanto tempo. Tanto tempo que não sei o que é ter tempo, e hoje que tenho, não sei o que fazer. E o dia inteiro passa, sem que eu tenha percebido como. Parece que tudo perdeu a importância. Água. Terra. Fogo. Ar. Sem você, tudo fica como quem não foi, ou se foi, ainda não voltou.

Todo porre que tomo, juro que será o último. Até o próximo, eu já me esqueci das promessas, das dívidas e das dores de barriga que tenho sempre que tomo um porre. Gosto deste estado de quem vê com os olhos boiando na água. Os olhos de pesquisador. Eu, normalmente, tenho estes olhos quando estou na segunda ou terceira taça de vinho, chileno de preferência, ou quando esqueço das dívidas, promessas e dores de barriga que sempre atacam nas terças-feiras tediosas.

Quantas cores têm o arco-íris. Engraçado, quando criança nossas preocupações são tão importantes. Ai, crescemos e o nosso egoísmo torna sério coisas simples. Sabe, eu nunca vi sete cores em um arco-íris. E eu já vi em um único dia dois arco-íris, um em cima do outro. Durante a infância, a minha irmã me chamava de daltônico. Eu olhava para o azul, via o azul, mas falava verde. Eu sabia que era azul. Não era daltonismo, era uma forma diferente de ver o azul. Até hoje sou assim, vejo diferente tudo que é correto. Vai entender? Deve ser coisa de pisciano.

Estes dias, numa livraria, folheie – na verdade li muitas e muitas páginas, estava fazendo hora para a sessão de cinema – “O disco que salvou sua vida”. Depois de olhar o índice, escolher pelos discos e depois pelos autores, pensei qual o disco que mudou minha vida. Putz! Tenho tantos. Acho que só estou vivo graças aos discos. Desde os cinco anos um disco tem salvo minha vida. Elis e Tom foi o primeiro. Clube da Esquina foi o segundo. De lá para cá, cada semana um disco salva um pedaço de mim. Nas brincadeiras de criança, “cinco discos que levaria para uma ilha deserta”, eu me embananava todo. Eram tantos. Livros então, nem te conto. Nunca respondia.

Tenho uma cicatriz na testa. Doze pontos tortos. Um acidente de bicicleta na infância. Minha única aventura, de resto sempre fui comportado. Exemplo de filho, exemplo de aluno, exemplo de amigo, exemplo para os pais dos amigos. Um porre. Aos 15 anos, e depois de me entupir de Sartre, rebelei-me. Primeiro foi comigo, depois, naturalmente com o sistema político, sistema social e posteriormente o sistema solar. Antes, entre o sistema político e o solar, rebelei-me com a família. Ninguém é de ferro. A cicatriz continua na testa, a rebeldia se foi com o tempo. Mas invento história…

O mundo anda em linha reta, eu ando do meu jeito, mesmo sem saber para onde, como ou porquê. Se o mundo espera, eu caminho sobre o vendaval. Caminho nada, eu corro, como sempre corri. Comigo sempre foi 100%, força total, ou ócio absoluto. O mundo anda cada vez mais confuso, eu, como sempre, confuso e perdido. Em tantas imagens que explodem, a poesia perde-se em filas de mercado, no trânsito das marginais, no sistema do banco que cai. A poesia não habita o coração dos homens, acho que nunca habitou. A poesia foi uma forma de rebeldia, de heróis, dos amantes. Hoje não há mais heróis, não há mais rebeldes e nem os apaixonados. A poesia perde-se nos estádios lotados nos fins-de-semana, na guerrilha urbana, no medo de viver. A poesia morre a cada dia e ninguém faz nada. O mundo anda complicado demais.

Quantas noites não durmo pensando em suas palavras. Quantas noites penso: foi tudo em vão. Quantas noites de chuva perco o sono olhando para o teto, tentando juntas letras, formas, harmonia, melodia e poesia em seu nome. Nome que está tatuado em mim. Em mil partes em mim. Em tudo que respiro, inspiro e transpiro você habita. E habita nas horas frutíferas de dor e alegria, “… tanto na saúde, como na doença… amém”. Além dos jardins, vejo seus olhos verdes (verdes mesmo), vejo seu sorriso belo, a apaziguar os humores do mundo e trazer de volta toda a poesia perdida no cinza-concretos das esquinas da cidade.


março 2008
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