Noites

Quantas noites em claro passei lendo e relendo, depois rasgando, suas cartas? Em vão. Tudo utopia, tudo ilusão. Mas sua voz ecoando em minha cabeça, com as mesmas frases repetidas, que com o calor do tempo faz ter a força de um mantra. Voltas completas do relógio torturando em minha cabeça: “Eu te amo, tanto”… “Eu te amo”.

O amor é mesmo mágico, tem um toque de extracomunal, um toque trágico. Um toque de ar soprado das grandes galerias do destino. Ah! Destino. Não em fale de destino, sorte, acaso ou outra bobagem zodiacal. Não me fale de netuno entrando júpiter, ou câncer na lua de leão. Eu não entendo muito além das minhas vistas cansadas de ler besteiras escritas por filósofos há tanto tempo. Tanto tempo que não sei o que é ter tempo, e hoje que tenho, não sei o que fazer. E o dia inteiro passa, sem que eu tenha percebido como. Parece que tudo perdeu a importância. Água. Terra. Fogo. Ar. Sem você, tudo fica como quem não foi, ou se foi, ainda não voltou.

Todo porre que tomo, juro que será o último. Até o próximo, eu já me esqueci das promessas, das dívidas e das dores de barriga que tenho sempre que tomo um porre. Gosto deste estado de quem vê com os olhos boiando na água. Os olhos de pesquisador. Eu, normalmente, tenho estes olhos quando estou na segunda ou terceira taça de vinho, chileno de preferência, ou quando esqueço das dívidas, promessas e dores de barriga que sempre atacam nas terças-feiras tediosas.

Quantas cores têm o arco-íris. Engraçado, quando criança nossas preocupações são tão importantes. Ai, crescemos e o nosso egoísmo torna sério coisas simples. Sabe, eu nunca vi sete cores em um arco-íris. E eu já vi em um único dia dois arco-íris, um em cima do outro. Durante a infância, a minha irmã me chamava de daltônico. Eu olhava para o azul, via o azul, mas falava verde. Eu sabia que era azul. Não era daltonismo, era uma forma diferente de ver o azul. Até hoje sou assim, vejo diferente tudo que é correto. Vai entender? Deve ser coisa de pisciano.

Estes dias, numa livraria, folheie – na verdade li muitas e muitas páginas, estava fazendo hora para a sessão de cinema – “O disco que salvou sua vida”. Depois de olhar o índice, escolher pelos discos e depois pelos autores, pensei qual o disco que mudou minha vida. Putz! Tenho tantos. Acho que só estou vivo graças aos discos. Desde os cinco anos um disco tem salvo minha vida. Elis e Tom foi o primeiro. Clube da Esquina foi o segundo. De lá para cá, cada semana um disco salva um pedaço de mim. Nas brincadeiras de criança, “cinco discos que levaria para uma ilha deserta”, eu me embananava todo. Eram tantos. Livros então, nem te conto. Nunca respondia.

Tenho uma cicatriz na testa. Doze pontos tortos. Um acidente de bicicleta na infância. Minha única aventura, de resto sempre fui comportado. Exemplo de filho, exemplo de aluno, exemplo de amigo, exemplo para os pais dos amigos. Um porre. Aos 15 anos, e depois de me entupir de Sartre, rebelei-me. Primeiro foi comigo, depois, naturalmente com o sistema político, sistema social e posteriormente o sistema solar. Antes, entre o sistema político e o solar, rebelei-me com a família. Ninguém é de ferro. A cicatriz continua na testa, a rebeldia se foi com o tempo. Mas invento história…

O mundo anda em linha reta, eu ando do meu jeito, mesmo sem saber para onde, como ou porquê. Se o mundo espera, eu caminho sobre o vendaval. Caminho nada, eu corro, como sempre corri. Comigo sempre foi 100%, força total, ou ócio absoluto. O mundo anda cada vez mais confuso, eu, como sempre, confuso e perdido. Em tantas imagens que explodem, a poesia perde-se em filas de mercado, no trânsito das marginais, no sistema do banco que cai. A poesia não habita o coração dos homens, acho que nunca habitou. A poesia foi uma forma de rebeldia, de heróis, dos amantes. Hoje não há mais heróis, não há mais rebeldes e nem os apaixonados. A poesia perde-se nos estádios lotados nos fins-de-semana, na guerrilha urbana, no medo de viver. A poesia morre a cada dia e ninguém faz nada. O mundo anda complicado demais.

Quantas noites não durmo pensando em suas palavras. Quantas noites penso: foi tudo em vão. Quantas noites de chuva perco o sono olhando para o teto, tentando juntas letras, formas, harmonia, melodia e poesia em seu nome. Nome que está tatuado em mim. Em mil partes em mim. Em tudo que respiro, inspiro e transpiro você habita. E habita nas horas frutíferas de dor e alegria, “… tanto na saúde, como na doença… amém”. Além dos jardins, vejo seus olhos verdes (verdes mesmo), vejo seu sorriso belo, a apaziguar os humores do mundo e trazer de volta toda a poesia perdida no cinza-concretos das esquinas da cidade.

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1 Response to “Noites”


  1. 1 poetriz março 2, 2008 às 1:56 am

    “Cega-me.
    Meu desespero fracassou
    ao passar a noite em claro.
    Fez amizade com as sombras.”
    – Fabricio Carpinejar

    Só te cuida pra amando o passado e sonhando com o futuro, não te perder do presente.
    Sê poeta, mas alimenta tua alma de amor e não de ilusão.
    Toda dor vira verso e música.
    Mas também dói em quem os lê e ouve…


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