Sem você, um dia…

Eu te via passar pelas avenidas iluminadas e pelas grandes vitrines sombrias com seus passos calmos e olhar certeiro. Não temia sua voz firme, tampouco seus gestos mais ásperos, sabia eu e o mundo inteiro que era mais um charme que defeito, mais uma forma de fugir da realidade que agressão. Era uma forma tímida de ocupar a sufocante dor que dominava o dia-a-dia. Eram passos certos em rotas de colisão de meus vitimados olhos cansados. Enquanto o mundo explodia em imagens, você caminhava quase que solitária pelos caminhos da cidade. Caminhos estes que para lugar algum levava.

Eu, de tão distante e tímido, me perguntava se a vida tinha mesmo razão em existir. Você, translúcida de efervescente alegria viva em seus olhos dantes tristes, disse com uma pureza quase infantil, quase senil, quase santa, quase insana… todos os pecados que cometia ao desperdiçar cada segundo em duvidar da vida. Mesmo de brincadeira, suas palavras alimentavam minha alma, como um eterno exercício de nascimento, eu nascia cada dia para te ver cantar; e falar; e sorrir; e sonhar; e viver; e crescer; e pensar; e iludir; e caminhar; e iluminar; e radiar como o sol que queima o rosto; e a ouvir minhas palavras repetidas com a mesma atenção e paciência como se ouvisse a primeira vez tudo que sempre digo; e a mergulhar em nossos pequenos projetos; e tentar mudar o mundo; e a dançar a valsa vienense da madrugada fria mesmo com dias de sol radiante… Todos os dias acordava antes somente para te ver despertar do sono profundo, que apenas os justos podem ter, e ter a certeza que estava bem… bem viva. Bem-vinda em mim.

Não sei ao certo se você vem para o jantar, mas espero a cada dia com a mesma chama eterna da certeza latente em meu pensar que você virá. E será como sempre fomos e como sempre sonhamos. Flores enfeitando nossa casa, os pés descalços a tocar na terra molhada pela chuva serene da madrugada, mãos entrelaçadas formando um único corpo celeste. O que sempre fomos, e sempre seremos, um bólido único a vagar pelo espaço sideral, em busca de algo que estava sempre em nós: um ao outro, e nada mais.

Até que um dia derreteríamos as estrelas que compõem o azul aveludado do céu. Nesta data, gotas de orvalho escorreriam pela face do correr dos séculos. A felicidade estaria um passado diante de nossas retinas.

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1 Response to “Sem você, um dia…”


  1. 1 luciano março 25, 2008 às 9:13 pm

    Olá, passei pra dizer que achei seu blog legal
    Grande abraço
    Luciano
    PAPIROS DE ALEXANDRIA
    http://papiros.zip.net


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