Da janela

Olho pela janela do meu quarto como quem olha um retrato em branco e preto. Tento entender, ou observar, cada instante da vida que passa lá fora diante das minhas retinas cansadas. Existe noite que durmo tranqüilamente. Em outras, o cansaço me consome até as horas frutíferas de sopor. Acordo, normalmente, com sono e com melancolia do dia anterior.

Mas, como dizia, olho pela janela do meu quarto como quem observa uma obra rara. Com a mesma atenção de quem analisa os quadros do Louvre ou do MASP. Aos olho de quem procura desvendar atentamente os traços de Miró, as maluquices de Dalí, os pontos delicados do Manet, ou as perfeições em pedra-sabão de Aleijadinho. Com o sentimentos de quem se sensibiliza com a fase azul de Portinari, ou com o ocre de Tarsila do Amaral. Perco meu olhar em rotas que mesmo crio, diante da janela, imaginando meus passos tortos em desfiladeiros de aventuras parvas.

Há manhãs que acordo com vontade de mudar o mundo ou o corte de cabelo. Mudar… Em outros dias que o vermelho piscante do despertador atrapalha segundos sagrados dos meus sonhos mais delirantes. Nestas datas, a melancolia toma conta dos meus gestos e frases. Em minha mente, milhões de imagens explodem em repetidas cenas. Como se tivesse mergulhado em vários curtas-metragens, todos passando ao mesmo instante. Nestas horas, penso no seu sorriso e nas promessas de amor eterno. Impossível, mas é sempre primavera quando você habita meus pensamentos.

Eu olho pela janela como quem observa o passado. Passado este que não passou. Talvez, meu amor, nunca passará. Poucas coisas enfeitam meu quarto, como sabes, sou desprendido de bens materiais. Mas uma coisa faço questão, de um canteiro de flores fixo à janela. Lá, guardo todos os melhores instantes de passamos ou passaríamos juntos. Lembra a nossa música: “Flor na janela da casa”. Desde que o sol se fez lua, penso no momento exato de um eclipse. Neste instante, todo o universo sentirá a união de dois corpos celestes que sempre estiveram em um único movimento. A luz que emanará deste encontro será capaz de ofuscar até os mais cépticos.

Olho pela janela como quem lê um conto do Caio Fernando Abreu, ou da Clarice Lispector. Como quem lê os poemas do Drummond, ou do Torquato Neto, como quem ri ao lembrar do Quintana, ou da Cecília Meirelles. Olho a janela esperando a volta dos dias que respirava na esquina. Olho a janela esperando que venha, rumo ao norte, acabar com a saudade que me faz olhar para a janela.

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