Arquivo para abril \28\UTC 2008

Pequeno mapa sobre a loucura

O tempo rasga a face cansada de esperar. Range bravo feito cão sem dono. O tempo passa. “E, o esquecer era tão normal que o tempo parava…”. Esquecíamos de olhar nos olhos, desejar bom dia, esperar a saudade bater mais forte ao ponto de sentir dor. Mas, a ilha não se curva? O mar continua seu ciclo mesmo sem seus olhos para admirar. A lua renascerá amanhã após o pôr do sol.

Éramos corpos bailando no ar, duas estrelas perdidas em negros labirintos. Desertos. Éramos corpos celestes vagando no azul aveludado sem órbita. Mas, o tempo parou. Paramos.

Às vezes penso em liberar as portas do meu próprio manicômio. Mergulhar no meu mundo louco, marginalizado. Outras, penso que o todos estão certos e o único louco sou eu. Internaria-me como o Dr. Simão Bacamarte.

Quantas vezes quis expurgar as dores mais sombrias, os pensamentos mais imperfeitos, as saudades mais doloridas… Estes sentimentos martelam em minha mente como um sino às seis da tarde de uma quarta-feira chuvosa. Todos, apressados, passam sem ver o pedido de socorro emitido nas estrelas.

Procuro esquecer certo peso em meu peito, cenas e sensações que me torturam. Em vão, a cada fechar de olhos, como um flash, repetem incessantemente diante de minhas retinas cansadas de chorar. A dor dos mais fracos é transformada em lágrimas tristes, que ardem as vistas e rasgam a carne frágil da melancolia.

Saudade tem sabor de primavera. Mas, éramos cegos solitários tateando a escuridão esculpida em nossos rostos, corpo e mente. Éramos satélites perdidos em colisão procurando um ao outro. Achamos. O tempo parou. Mas depois acelerou-se tão veloz que não vimos o abismo que nos separa. E separamos. Voltamos a ser apenas eu e você, pedidos no curto caminho dos nossos olhares. O tempo parou.

Tocava ao fundo o som das primeiras memórias da infância. Som com gosto de Sol, com sabor de nostalgia. Você sorri em curta-metragem filmado em super-8. Em fotografias preto e branco, vejo-te correr sobre as águas.

Tempo, velho camarada.

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Rumo ao norte

Era uma noite fria. Dessas noites frias em que o vento gelava não somente o corpo, mas a alma. Caminhava pelas ruas a procura de um porto seguro ou uma nova história. Um novo começo, recomeçar do zero, em novos rumos, velhos portos, nova história repetida pelas armações do destino. Apenas caminhava. Seguia meus passos, que não seguiam a lugar algum. Caminhava sem rumo pelos rumos tortos das ruas desertas do centro vazio da cidade cinza. O frio era a única companhia. O meu pensar pesava em minha alma. Alma solitária não era alma e sim algo solto no ar, como um balão de gás flutuando no azul aveludado do céu de inverno, vagando sem importância. Era frio, destes dias cinza e nublados que escondem qualquer sorriso, até mesmo dos mais contentes.

Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam. Destes dias gelados que atravessam a memória e atacam nossas mentes como tempestades sem tamanho. Frio violento cortava-me em pedaços tão míseros ao ponto de perder-me entre bilhões de pontos de solidão. Caminhava sem rumo, a caminho qualquer, sem passos, sem pressa, seguindo o ar.

Nada via com meus olhos cansados, também não procurava olhar para nada. Caminhava no escuro, não percebia que a cidade estava iluminada ou eu seu meus olhos não eram capazes de captar luz. Continuava a caminhar e o frio era cada vez maior a ponto de seguir os meus passos. Caminhava, vigilante solitário, atrás de refúgio para meus tristes relatos. Histórias incompletas de vidas incompletas de relatos incompletos…

Não fazia idéia alguma para onde meus pés me levavam. Eles trilhavam um caminho desconhecido, coisa que nem me dei ao trabalho de refletir por onde ou como. Apenas, com os olhos baixos, vendo o chão, deixei que meus pés guiassem meu destino, como uma espécie de pedido de socorro. Escuro. Escuto passos. Paro. Medo. Sigo. Caminho apressado. Paro. Olho para os lados, nada. Atrás, não olho, paralisado, tremulo. Ouços passos. Voltou a caminhar. Sigo em frente. Caminho mais rápido, ando, ando, ando… Paraliso. Viro meu rosto. Não vejo nada. Houve algo? Ouço algo? Sinto passos fortes, caminhando, mas nada vejo. Viro lentamente a cabeça, em minha frente um rosto. Um rosto novo, algo, alguém.

– Oi! – Branda uma voz suave, no escuro, não vi quem era.

– Olá! – Timidamente minha voz sai rouca, quase abafada pelo som dos automóveis que circulavam pela cidade.

– Para onde vai? – Perguntou-me a voz, agora avisto um rosto, sobre um corpo feminino.

– Apenas caminho, sem rumo. – Ainda tímido mal ouço minha voz.

– Não importa o caminho, basta caminhar, diria o poeta.

– Qual poeta? – Esta frase estúpida sai da minha boca, se pudesse voltar ao tempo, ou quem sabe continuar meu caminho.

– Também não sei. – Risos por parte dela.

Procuro andar, sou impedido. Por quem? Ninguém, meus pés me traem. Mentalmente ordeno: “Andem pés. Andem”. Nada. Preciso desesperadamente sair dali.

-Mas o que você faz na rua, ainda mais com este frio? – Insiste aquela voz suave que soa em minha cabeça, como uma orquestra regida por mãos competentes.

-Solidão. – Penso em outras palavras, mas apenas esta evapora dos meus lábios.

– Solidão, Só – Lidão, Soli-dão. Solidão. Todos somos sós. Mas a pior solidão é quando sentimos sozinhos mesmo com a companhia de alguém.

Não compreendia aquela pessoa, não compreendia seu olhar, seus olhos profundos, calmos, tranqüilos. Não entendia sua voz pura, nem seus cabelos que o vento balançava lindamente, trazendo um aroma que me roubava a paz transitória entre a dúvida e a certeza de continuar meu trajeto. Queria sair deste quadro e, por outro lado, não queria mover um músculo sequer para continuar o caminhar. Mas, minha razão inconscientemente teimava em argumentar que era preciso voltar ao velho roteiro cansado e fingir que não havia ninguém nas ruas. Sentir-me só novamente. A solidão fazia-me forte, ao mesmo passo que me deixava desprotegido, desamparado. Buscava a liberdade que me acorrentava nas paredes do labirinto a qual estava preso. Nos meus medos e traumas, desejos e desatinos de largas memórias perdidas nas linhas do tempo que já não corriam mais diante dos meus olhos cansados.

– Somos livres, mesmo correndo o risco de nos prender na solidão. Somos seres solitários, egoístas. Os seres humanos são como lobos nas estepes, são solitários por natureza. – Continuava aquela voz que me trazia calmaria e desconforto. Paz e agitação. Aquela voz que confundia meu pensar e meus passos.

Apenas concordei com a cabeça, tentando andar. Não entendia o que ela queria, não entendia o que me deixa imóvel ao seu lado. Tentei fazer uma pequena movimentação com as mãos para indicar o caminho que deveria tomar. Não obtive nenhum sucesso, nem por minha parte, nem por parte dela.

– Só-Li-Dão. Sou só também. Mas tenho um cachorro, Teco o nome dele, um São Bernardo. Ele é minha única alegria. Você tem cachorro?

– Não. Tenho medo. – Respondo olhando o vapor que saia de minhas narinas.

– Eu amo cachorro. Como assim medo? O Teço é tão fofinho – Continuava – E chocolate, você gosta de chocolate?

– Medo. Não sei explicar, deve ser algum trauma de infância.

– Hun…, mas de chocolate você gosta?

– Tenho alergia.

– A chocolate?

– É – Minha palavra abafada pelo som do sino da igreja ao longe.

– Qualquer chocolate? – Insiste

– Pelo menos a todos que comi. – Disse, rindo da minha piada, porém ela não entendeu.

– Uma pena, não vivo sem chocolate. – Disse isso retirando do bolso um pedaço ordinário de chocolate. Cheirava o tablete antes de comer, e ao sentir derreter na boca, soltava um suspiro de alívio.

– Também gosto de andar. Por onde anda? – Disse-me.

Tentando desesperadamente me livrar da tempestade, disse: – Tenho que ir desculpe. Está tarde – Falei, baixinho, como quem que estivesse atrasado ou caminhando para algum lugar.

– Vai para onde? – Perguntou-me com um olhar perdido e esperançoso.

– Vou para lá – Apontei para o meu norte, apenas por ser o lado onde meu nariz mirava.

– Eu também. Vamos? – Tornou-me pelos seus braços e pôs a caminhar ao meu lado em direção ao norte.

De repente, fez-se sol. O calor derretia as calotas polares do meu coração.

Hora de partir

Acordo com a Nova Sinfonia de Beethoven. Ainda atônito, procuro o celular, que normalmente uso como despertador. Quatro horas da manhã. Não programei para esta hora. Programei? No identificador, o seu nome a piscar como uma memória ainda recente. Atendo? Eu vacilo por um segundo, derrotado de uma batalha não iniciada: atendo.

Do outro lado da linha, sua voz abafada e velada diz com a mesma ternura de antigamente: “Alô, amor meu!”

Respondo, confuso, misto de ironia e desatino: “Há algum tempo não sou mais seu amor.”

Com suspiros, ela fala pausadamente entre lágrima: “Acordei chorando, tive um sonho ruim, pensei em ti, por isso te liguei. Será que você ainda pensa em nós?”

Atormentado por milhares de imagens que explodem em minha mente, respondo: “Hun! Desculpe, me pegou desprevenido. O que aconteceu? Faz mais de dois anos que não nos falamos. O que houve?”

À tira roupa, ela diz: “Andei pensando em ti”

Surpreso, tento desviar do torpedo: “Sobre o que foi seu sonho?”

“Bobagens, coisas da minha cabeça. Acho que era apenas saudade.”

“Fiquei preocupado agora.”

“Não fique, na verdade precisava ouvir sua voz, saber se ainda me ama. A gente faz tanta besteira na vida, te largar foi a pior.”

Como uma bomba, suas últimas palavras feriram-me: “Não foi uma tarefa fácil esquecer nossos dias.”

“Eu nunca deixei de te amar.”

De repende, como se fosse uma orquestra dodecafônica, minha boca começou a ruminar palavras desordenadas, que nem o meu pensar poderia acompanhar: “Você queria sua liberdade. No final, concordei contigo. Éramos presos em um sentimento que sentíamos pela metade. És livre hoje, e eu estou em pedaços.”

“Desculpe, amor”

“Eu me perdi nestes dias, andei por aí, sem saber por onde caminhar. Você era livre, tudo que sempre sonhou. Quis o mundo, o mundo te quis. Ganhou o mundo. E eu me perdi dentro de mim, me perdi nos nossos sonhos perdidos, nas perdidas horas que sonhávamos. Hoje! nem sonhar eu sonho. Pouco durmo.”

“Não sei o que dizer.”

Continuei: “Enquanto o mundo eclodia, eu me escondia de tudo, principalmente de você. O mundo não parou para que eu pudesse me reestruturar. Ele girou, e no meu ver, cada vez mais veloz. Você sorria, enquanto o álcool era minha companhia. Você sorria. O mundo sorria de minha cara enquanto perdia cabelo, perdia a esperança. Você sorria, com seu belo sorriso jocoso. Ria que gargalhava. No final, estava certa, a melancolia cobriu minhas vistas. Eu esperava, calado, por milagres que, eu sei, nunca existiram e nunca existirão. A vida passava…”

Por um segundo, no ar o silêncio ensurdecedor.

Continuei: “Sabe, às vezes nem me reconheço no espelho. Outras ocasiões, acho que nem existo mais. Caminho quase que sozinho sobre o mundo. E por quê? Por acreditar no amor, por crer em promessas vazias que sua boca velava? Como te disse, anjo, o mundo não parou para que eu pudesse me reconstruir. Eu passei, as horas vazias passaram. Nós, minha flor, passamos. Passamos como um vendaval, como um rio, como as estações, como as férias que chegam ao fim…”

Em um golpe fatal, ela disse: “Eu ainda te amo.”

“Tchau”. Desliguei o telefone.

Enquanto isso, do outro lado da linha, ela sorria que gargalhava.

Fiquei sentado na cama, tentando acreditar em minhas próprias palavras. Falei da boca para fora, como um desabafo ou um manual a ser seguido. Não dormi, aliás, ultimamente pouco o tenho feito. Ela, que roubara minha paz, roubou agora o pouco que me sobrara. Eu me perdia nos labirintos tortos dos amores desfeitos. Fiquei ali, no meio da noite reconstruindo os pedaços que ela deixara ao breu. A fria carne crua de minha alma estava exposta em uma mesa de mármore branco. Pelos cantos, o rubro do meu sangue a marcar toda uma existência.

Três dias depois, encarei meu olhar perante ao espelho.

Que o paraíso seja leve.


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