Rumo ao norte

Era uma noite fria. Dessas noites frias em que o vento gelava não somente o corpo, mas a alma. Caminhava pelas ruas a procura de um porto seguro ou uma nova história. Um novo começo, recomeçar do zero, em novos rumos, velhos portos, nova história repetida pelas armações do destino. Apenas caminhava. Seguia meus passos, que não seguiam a lugar algum. Caminhava sem rumo pelos rumos tortos das ruas desertas do centro vazio da cidade cinza. O frio era a única companhia. O meu pensar pesava em minha alma. Alma solitária não era alma e sim algo solto no ar, como um balão de gás flutuando no azul aveludado do céu de inverno, vagando sem importância. Era frio, destes dias cinza e nublados que escondem qualquer sorriso, até mesmo dos mais contentes.

Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam. Destes dias gelados que atravessam a memória e atacam nossas mentes como tempestades sem tamanho. Frio violento cortava-me em pedaços tão míseros ao ponto de perder-me entre bilhões de pontos de solidão. Caminhava sem rumo, a caminho qualquer, sem passos, sem pressa, seguindo o ar.

Nada via com meus olhos cansados, também não procurava olhar para nada. Caminhava no escuro, não percebia que a cidade estava iluminada ou eu seu meus olhos não eram capazes de captar luz. Continuava a caminhar e o frio era cada vez maior a ponto de seguir os meus passos. Caminhava, vigilante solitário, atrás de refúgio para meus tristes relatos. Histórias incompletas de vidas incompletas de relatos incompletos…

Não fazia idéia alguma para onde meus pés me levavam. Eles trilhavam um caminho desconhecido, coisa que nem me dei ao trabalho de refletir por onde ou como. Apenas, com os olhos baixos, vendo o chão, deixei que meus pés guiassem meu destino, como uma espécie de pedido de socorro. Escuro. Escuto passos. Paro. Medo. Sigo. Caminho apressado. Paro. Olho para os lados, nada. Atrás, não olho, paralisado, tremulo. Ouços passos. Voltou a caminhar. Sigo em frente. Caminho mais rápido, ando, ando, ando… Paraliso. Viro meu rosto. Não vejo nada. Houve algo? Ouço algo? Sinto passos fortes, caminhando, mas nada vejo. Viro lentamente a cabeça, em minha frente um rosto. Um rosto novo, algo, alguém.

– Oi! – Branda uma voz suave, no escuro, não vi quem era.

– Olá! – Timidamente minha voz sai rouca, quase abafada pelo som dos automóveis que circulavam pela cidade.

– Para onde vai? – Perguntou-me a voz, agora avisto um rosto, sobre um corpo feminino.

– Apenas caminho, sem rumo. – Ainda tímido mal ouço minha voz.

– Não importa o caminho, basta caminhar, diria o poeta.

– Qual poeta? – Esta frase estúpida sai da minha boca, se pudesse voltar ao tempo, ou quem sabe continuar meu caminho.

– Também não sei. – Risos por parte dela.

Procuro andar, sou impedido. Por quem? Ninguém, meus pés me traem. Mentalmente ordeno: “Andem pés. Andem”. Nada. Preciso desesperadamente sair dali.

-Mas o que você faz na rua, ainda mais com este frio? – Insiste aquela voz suave que soa em minha cabeça, como uma orquestra regida por mãos competentes.

-Solidão. – Penso em outras palavras, mas apenas esta evapora dos meus lábios.

– Solidão, Só – Lidão, Soli-dão. Solidão. Todos somos sós. Mas a pior solidão é quando sentimos sozinhos mesmo com a companhia de alguém.

Não compreendia aquela pessoa, não compreendia seu olhar, seus olhos profundos, calmos, tranqüilos. Não entendia sua voz pura, nem seus cabelos que o vento balançava lindamente, trazendo um aroma que me roubava a paz transitória entre a dúvida e a certeza de continuar meu trajeto. Queria sair deste quadro e, por outro lado, não queria mover um músculo sequer para continuar o caminhar. Mas, minha razão inconscientemente teimava em argumentar que era preciso voltar ao velho roteiro cansado e fingir que não havia ninguém nas ruas. Sentir-me só novamente. A solidão fazia-me forte, ao mesmo passo que me deixava desprotegido, desamparado. Buscava a liberdade que me acorrentava nas paredes do labirinto a qual estava preso. Nos meus medos e traumas, desejos e desatinos de largas memórias perdidas nas linhas do tempo que já não corriam mais diante dos meus olhos cansados.

– Somos livres, mesmo correndo o risco de nos prender na solidão. Somos seres solitários, egoístas. Os seres humanos são como lobos nas estepes, são solitários por natureza. – Continuava aquela voz que me trazia calmaria e desconforto. Paz e agitação. Aquela voz que confundia meu pensar e meus passos.

Apenas concordei com a cabeça, tentando andar. Não entendia o que ela queria, não entendia o que me deixa imóvel ao seu lado. Tentei fazer uma pequena movimentação com as mãos para indicar o caminho que deveria tomar. Não obtive nenhum sucesso, nem por minha parte, nem por parte dela.

– Só-Li-Dão. Sou só também. Mas tenho um cachorro, Teco o nome dele, um São Bernardo. Ele é minha única alegria. Você tem cachorro?

– Não. Tenho medo. – Respondo olhando o vapor que saia de minhas narinas.

– Eu amo cachorro. Como assim medo? O Teço é tão fofinho – Continuava – E chocolate, você gosta de chocolate?

– Medo. Não sei explicar, deve ser algum trauma de infância.

– Hun…, mas de chocolate você gosta?

– Tenho alergia.

– A chocolate?

– É – Minha palavra abafada pelo som do sino da igreja ao longe.

– Qualquer chocolate? – Insiste

– Pelo menos a todos que comi. – Disse, rindo da minha piada, porém ela não entendeu.

– Uma pena, não vivo sem chocolate. – Disse isso retirando do bolso um pedaço ordinário de chocolate. Cheirava o tablete antes de comer, e ao sentir derreter na boca, soltava um suspiro de alívio.

– Também gosto de andar. Por onde anda? – Disse-me.

Tentando desesperadamente me livrar da tempestade, disse: – Tenho que ir desculpe. Está tarde – Falei, baixinho, como quem que estivesse atrasado ou caminhando para algum lugar.

– Vai para onde? – Perguntou-me com um olhar perdido e esperançoso.

– Vou para lá – Apontei para o meu norte, apenas por ser o lado onde meu nariz mirava.

– Eu também. Vamos? – Tornou-me pelos seus braços e pôs a caminhar ao meu lado em direção ao norte.

De repente, fez-se sol. O calor derretia as calotas polares do meu coração.

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1 Response to “Rumo ao norte”


  1. 1 Strawberry Dream abril 24, 2008 às 5:23 pm

    Lindo texto.
    Solidão já é por si só algo bem ruim, usar-se dela como escudo para o resto do mundo, pior ainda. Mas às vezes, o medo de mudar realmente nos deixa paralizados, quando certamente deveriamos ter medo é de não mudar.
    Mas fico contente que ele tenha encontrado seu dia de sol.. rs…


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