Cruzada

Aumento o volume do rádio para não ouvir meu choro. Desesperado, bato com as duas mãos ao volante: afinal, o que espero? Talvez nada. Ou quem sabe um novo começo.

Perco o pouco da calma que ainda me resta no sinal fechado. O caótico trânsito da Capital deixa marcas em meus olhos fundos e meu coração inquieto e desesperado. Olho para o relógio: 14h45 a piscar. Penso em todos os momentos mágicos que passamos juntos. Teria sido tudo isso um sonho, um delírio inconseqüente, um devaneio vespertino… uma loucura?

O vôo está marcado para as 15h30. A esta altura, na minha mais cética dúvida, ela deve estar no chek-in para o embarque. Enquanto penso nas possibilidades e de onde ela estaria, continuo preso em mais um engarrafamento colossal da metrópole em chamas. Gotas de lágrimas molham minha camiseta. Insisto na pergunta que me martiriza desde o momento que soube de seu destino: o que, afinal, espero? Talvez um aceno? Um olhar? Talvez nada.

“Não sei andar sozinho por estas ruas…”. Ouço na rádio nossa música e choro. Desta vez com mais dor, com mais força, ao ponto de ficar sem ar. Cruzada, nossa música, nossa primeira música, reflete o que somos. Nós que temos tantas melodias marcantes.

Minhas vistas cansadas pelas lágrimas pouco enxergam. Apenas sigo o tráfego, incondicionalmente. “Você parece comigo, nenhum senhor te acompanha. Você também se dá um beijo dá um tiro…”, realmente sempre fomos idênticos, ao ponto de nos entregarmos e assuntarmos mutuamente.

Aumento ainda mais o volume do som, tentando inutilmente abafar o meu choro ou quem sabe ter coragem para enfrentar a sufocante falta que me faz. Mas, os outros veículos continuam seus trajetos. Não sabem, e pouco se importam, com o que estou fazendo, tampouco para onde irei. Largar o dia do trabalho, tomar um carro emprestado, mesmo sem carteira de habilitação. Louco! Talvez espere apenas um aceno, um adeus, um último abraço. Talvez nem tenha coragem de me aproximar.

Maldita loucura, quase que santa, este tal amor. Carrego algo próximo à paz, quase desespero. Por que insisto tanto, mesmo sabendo que talvez não a encontre? Por quê?

“Você também se dá um beijo dá abrigo, se dá um riso dá um tiro…”. Quantos tiros a queima roupa trocamos nestes últimos meses. E telefonemas, um mais absurdo que o outro. Mas, todos os amores são insanos. Dizem que a loucura e o amor sempre caminharam juntos. Por que, então, teima em sumir da minha vida? Logo agora que éramos um.

Todas as longas horas que ficamos longe , eternos anos. Cada segundo próximo, longas lembranças. Como esquecer o som da sua voz vibrando ao meus ouvidos. Ou seus suspiros apaixonadas ao dizer: ”Amor meu”. Como não lembrar dos sonhos que juntos nos entregamos a sonhar, dos abraços apertados em que nossos corações batiam ritmados no mesmo compasso. Como esquecer o que sou?

“Flor na janela da casa, olho no seu inimigo…” Com os braços debruçados no volante, contemplo o horizonte, nos segundos que o sinal está fechado.

Faltam poucos quilômetros para chegar ao aeroporto. Talvez não dê tempo. Mas afinal, o que realmente espero? Que ela me veja, desista de ir para Europa e decida voltar comigo. Para viver uma vida pela metade, com um jovem recém formado, ainda vivendo com os pais. Que futuro nos espera? Melhor seria esquecer esta loucura toda, voltar para casa e esperar que o tempo cure todo o mal.

Chego ao aeroporto, em minha cabeça ecoa: “Não sei andar sozinho por estas ruas, sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos. Não há sinal de paz e tudo me acalma em seu olhar”. Por que insisto em percorrer estes estreitos corredores? Por quê? Neste instante lembro-me da frase: “Não quero andar sozinho por estas ruas…”. Talvez a razão me falte. Não quero caminhar sem você ao meu lado. Meus passos sem rumo, não sei onde será seu embarque, nem qual vôo. Talvez espere que no final tudo dará certo. Talvez queira sofrer.

Cruzada me acalma.

Passos tímidos. Deveria voltar para casa, quem sabe tomar um porre, ligar para alguém que me entenda. Não cheguei até aqui por nada.

“Não há sinal de paz, mas, tudo me acalma em seu olhar”.

Estava despenteado, camiseta amarrotada e molhada de suor e lágrimas. No rosto, as marcas de choro constante: olhos vermelhos e fundos, cansaço de noites não dormidas, agonia e desespero misturados.

O seu olhar atravessa o frio salão, como quem me esperasse, ou esperasse um milagre, quem sabe planejasse uma fuga. Traços tristes compunham seu rosto, que permanecia belo. Não tive coragem de gritar seu nome, talvez fosse melhor assim. E, se gritasse, provavelmente não me ouviria. Estava sem fôlego e com nó na garganta. Cabisbaixo, atrás de uma pilastra, tento acompanhar seu embarque, choro mais ainda. Bato minha cabeça contra a parede. “Você também se dá um riso dá um tiro…”

Seus passos distraídos seguiam o fluxo dos demais passageiros. Eu pensava em Cruzada, e todas as vezes que sussurrei esta música em seu ouvido. Você dizia: “Você realmente ama esta música?”. Eu respondia: “Cruzada me lembra você”. Sorriamos sempre.

“Não há sinal de paz, mas tudo me acalma em seu olhar”. Levanto a cabeça, e você está na sala de espera do vôo, impossível trocarmos qualquer palavra. Mas, nossos olhares encontraram-se no espaço. Um indescritível brilho raiou em seus olhos. Acessa-quente-chama, seu rosto esqueceu os traços tristes. As gélidas paredes derreteram-se, pelo calor provocado de nossos olhares. Pela primeira vez em muitas semanas sorrimos. Sorrimos como sempre sorriamos um ao outro. Sorriso puro, capaz de cativar até os corações mais acinzentados. Éramos nós novamente. Corremos um para o outro. Paramos no vidro que separam as galerias. Encostamos nossos corpos, nossos rostos, nossas mãos no reflexo que o outro projetava no vidro fosco.
“Eu te amo”, falamos ao mesmo tempo. Apenas ouvíamos nossas próprias vozes ecoadas. “Eu te espero o tempo que for necessário”, dizia repetitivamente vendo-a ser arrastada pelos outros passageiros. Com lágrimas nos olhos, ela acenou um adeus, pude ler em seus lábios: “Eu te amo para sempre, amor meu”.

Meu corpo escorrega no vidro, sento no chão do aeroporto. Não vi o avião decolar. Fiquei ali, em choro constante, por vários minutos, talvez horas. Muitos tentaram me levantar, diziam: “Vá atrás dela”, “Não desanime, meu filho”, “Agüente firme”; ouvia-os sem animação. Não tinha força, nem cabeça para agradecer ou responder com quem falava comigo. Não sei o que afinal esperava. Talvez imaginasse que teria um final como nos filmes. Não houve. Fiquei ali, desesperado no chão frio da galeria, milhares de pessoas em trânsito e eu em lágrimas.

“Não sei andar sozinho por estas ruas, sei do perigo”, realmente viver era risco, ainda mais sozinho. Volto para casa, coração nas mãos.

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2 Responses to “Cruzada”


  1. 1 Bibiana maio 27, 2008 às 4:21 pm

    esse eu gostei mais.
    talvez por sentir assim, desesperado.
    por ser assim, desesperada.

  2. 2 Grazi novembro 12, 2008 às 1:00 pm

    Tô sem palvras, de boca aberta e coraçào na mão..pq dá pra sentir a emoção em cada palavra, ponto e virgula


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