Girassol da Rússia

O tempo escorre entre os dedos cansados de esperar uma solução simples para resolver todos os problemas de nossos corações. A vida passa como um trem estrangeiro em visita à terra natal. Os dias maquinais consomem tudo que nos restou da fé esquecida dos idos tempos de outrora. Seguia reto, céu aberto entre o cataclismo e o desespero. A cada dia nascente, a mesma certeza me martelava o pouco que sobrou da consciência.

Entendo, perfeitamente, as marcas de agonia que armazenava em seu peito. Tanta dor acumulada pelos desatinos e desfiladeiros de sua caminhada, que deixou sinais profundos em mim. Carrego um peso ardente fragmentado em milhares de pontos brilhantes. Em cada brilho, uma história cristalizada em uma perfeição secular.

O tempo ecoa pelas paredes pouco iluminadas das galerias da vida. Vago por um labirinto borgeano a procura dos restos e risos esquecidos. Aquece-me a difusa idéia de perder-me em seus braços e prender-me em seu sorriso enigmático. Trilhar durante a perpétua existência de sua risada apertando meu peito frágil. Suave dor que berra alto, ao ponto de ensurdecer-me. Cego, inexato, tateio o escuro reluzente do amargo gosto dos esquecidos. Nas galerias do século, sua vida, minha vida, nosso mundo.

Enquanto seu sorriso atropela minha paz roubada, inspiro o aroma agridoce do ciúme que o Sol tem da Lua. A sufocante rotina, pressionada pelos ponteiros dos relógios, fabricando tortura com a mesma velocidade de uma linha de produção, molda a tábua rasa triturada de fragmentos da virtualidade que compõem o que nos cerca. Ao lado, um retrato e flores de plástico enfeiam a saudade a me consumir aos poucos.

Sinto o cheiro que adorna as datas bucólicas do futuro. Presente tatuado em mim. O som do passado impregnado pelos cinco mil auto-falantes ao tocar, repetidamente, os trechos de uma música desconhecida. Ainda, ao fundo, ouço passos colidindo aos cotidianos dias marginais. Dor, saudade e utopias misturadas sobre copos e sorrisos. O resto, apenas máculas literais de uma imensa chama em combustão nuclear.

Ao passo que reflito sobre meu exílio embrionário, pego-me a pensar sobre as pessoas que perdem-se, que prendem-se, que vivem para pedir e querem sempre mais.

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1 Response to “Girassol da Rússia”


  1. 1 Marcel maio 28, 2008 às 4:29 am

    Olá, Eduardo!
    Seu Girassol bem que podia compôr “Os Girassóis da Rússia”… ou seria melhor num quadro de Van Gogh?…
    Gostei muito da crônica (- conto?), i.e., da POESIA.
    (você sabe do que estou falando: o poema é um detalhe)
    caí no teu blog, pesquisando por “A Bagaceira”…

    estou fazendo um trabalho sobre “romances do sertão”. até semana passada, estava tudo certo p’ra eu abordar a violência em “Vidas Secas”, somente no livro do Graciliano. Hoje, meu professor me disse que gostaria de um trabalho COMPARATIVO/CONTRASTIVO com A Bagaceira.

    Detalhe: eu, confesso, não li. Se você puder me ajudar…Cara, sabe de alguma edição em e-book?
    Eu precisaria é de umas 15 citações sobre a violência (em diversos aspectos) no livro. Trechos que relatem cenas violentas, em vários objetos.

    Se puder pelo menos dar um retorno, você tem meu e-mail aí.
    um abraço!


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