Arquivo de junho \24\UTC 2008

Soneto V

Vejo a união de várias constelações em seu olhar.
Em um brilho único, todo encanto do universo
condensado em duas pupilas a refletir em sua alma.
Sorriso do céu em noite de luz e dança no ar.

Em chão de estrelas, astros perdidos vagam eternos.
Flores de lótus a perfumar toda uma jornada.
Deitados sob a manta azulada dos cosmos
o correr dos séculos divaga em seus olhos cândidos.

Mas, em um segundo, você a embalar meus sonhos.
No instante seguinte, a fragilidade bela de nossos suspiros
mostrou-nos, ingenuamente, a beleza latente em seu coração.

De tão puro e belo, ao ponto de me tornar refém confesso
das tramas do acaso que deu-nos o momento perfeito.
Fecho os olhos e vejo você sorrindo. Saudade sem fim!

Último adeus

Quando jovens, achamos que somos invencíveis. Capazes de vencer a velocidade, a vida, a morte. Achamos-nos super-heróis, imbatível com nossos corpos e mentes saudáveis. Acreditamos, piamente, que nunca iremos envelhecer. Indestrutíveis em nosso sorriso federal seguimos em frente com uma vontade incontrolada de desbravar o mundo. Sede de sugar tudo.

Por um instante, morrer jovem pode ser um passo para a eternidade. Uma espécie de James Dean não filmado em 35mm, tampouco transposto à imortalidade. Sem jaqueta de couro e a falsa rebeldia do cinema. Sem tapete vermelho ou reconhecimento de herói. Talvez, morrer jovem seja o destino de uma geração sem esperanças de mudanças. Quem sabe exista um motivo maior.

Sem capa para voar ou superpoderes somos tão frágeis. Em bólidos movidos por combustão fóssil, aventuramos nossa vida diariamente. Como a uma corrida maluca ao espaço, injetamos nas rotações dos motores o desprender das sensações frustradas. Estradas esburacadas. Descaso governamental. Pedágios não aplicados em melhorias. Pressa. Mais um fim de semana que acaba. Acabou a vida.

Restam na gaveta duas fotos. Na memória, aventuras de duas décadas. Nos corações dos familiares ficam o arrependimento e impotência. Vidas interrompidas em um segundo. Um segundo e tudo mudou. O que era paz deu vazão ao desespero. Berrei contra Deus. Berrei contra meus próprios demônios. Chorei. Desesperei. Esperei que fosse mentira. Não acreditei. Três calmantes. Abraços. Soluços e lágrimas. Saudade e arrependimentos de viagens desmarcadas em cima da hora devido a uma banalidade. Aos sorrisos e aventuras vividas. Às poucas brigas, duas exatamente, por motivos tão insignificantes ao passo que nem me recordo quais foram.

Pego-me a pensar em todas as vezes que, involuntariamente, dei um passo para o fim de minha vida. E coloco-me em seu lugar. Lembro das músicas que gostava. Lembro que conheceu o Clube da Esquina por mim. Que pedia para repetir e repetir “Um girassol da cor de seu cabelo”. Lembro de quando acabou a gasolina, no alto de uma ladeira, da moto que pegamos emprestada e sem a consulta prévia de um tio. Das traquinagens de infância. De andar a cavalo. De acordar cedo para nadar no rio. Rancho. Leite com goiabada. Fazer cabana na horta da avó. Da vez, talvez minha única aventura, que eu machuquei a testa em um acidente de bicicleta. Você ria. Eu ria. Você me chama de um “caipira de cidade grande”.

De ouvir Creedence Clearwater Revival em um dia de chuva na estrada. Nós dois berrando:
“I heard it through the grapevine, not much longer would you be mine.
Oo, I heard it through the grapevine, and I’m just about to lose my mind.
Honey, honey yeah.”

De ver o limpador tirando o excesso da água a cair no pára-brisa. Você trocando a marcha, apertando meu joelho depois dando uns tapinhas a dizer: “É, boy! Essa música é boa demais”. Aquele foi um dia especial.

Remete-me a lembrança das vezes que almoçávamos pastéis. De quando roubávamos goiaba do quintal do vizinho. Comer bobagem. Do meu aniversário de 18 anos e que bebemos uma garrafa de Jack Daniels. Do dia que entramos na igreja bêbados. Da noite que paramos em uma festa estranha com gente esquisita. Tivemos que entrar na casa da vó pela janela dos fundos. Ela acordou e nos deu um “pito”. Das vezes em que você me defendia. Das vezes que me colocava em fria (tudo bem, depois tirava). Da gente vendendo sorvete. Da gente vivendo.

Recordo das férias em que passava na minha casa. Do dia que queria fugir para Portugal. Das vezes que eu te chamar de “portuga”. De você vomitando pinga com groselha e dizer para a avó que era por causa da pizza. De trilhas no mato. Das conversas malucas. De ver e rever “Matrix”. De trabalharmos juntos. Do seu abraço. Dos planos de termos uma banda.

Do “primão”. Das vezes que você pregava peças na gente (e era o tempo todo). Por que desta vez não foi mais uma peça?

Penso em nossa cumplicidade. Da nossa amizade. Do nosso amor.

Lembro de tantas coisas…

Só não quero lembrar que se foi. Não posso.

Para mim, meu irmão, estás apenas em uma viagem longa, em alguma aventura, como sempre gostou, bem distante. Quem sabe, agora sim está em Portugal ou no Nepal. E estaremos esperando seu regresso.

Neste instante, queria ter uma máquina para fazer o tempo voltar. Para voltar nos momentos em que éramos felizes e aproveitar muito mais. De recordar o último abraço, o último telefonema, a última aventura. Um acidente em uma tarde de domingo. Uma bobagem sem tamanho. Dor.

Chovendo na roseira

Era verão. Eu deveria ter cinco ou seis anos. Não recordo exatamente a data, mas tenho uma certeza: era verão. Lembro, pois estávamos de férias, minhas irmãs e eu iríamos para o interior de São Paulo, na casa de minha avó. Eu não fui. Mamãe achou perigoso demais que eu viajasse com uma tia. Vi meus irmãos na despedida, e senti um pouco de inveja da idade deles. Queria ter ido também. Sentir o sol nascendo no caminho, comer pamonha caseira durante a viagem, tomar refrigerante, destes bem baratinhos, em um restaurante à beira da estrada, picolé vendido em caixas de isopor e com um gosto que não era do sabor da embalagem, bolachas. Naquele verão não tive nada disso.

Minha diversão era ler, aprendi pouco antes desta data com a minha mãe, pois, ela, não agüentava mais ler as mesmas histórias. Então passava as manhãs, tardes e parte da noite com as minhas aventuras infantis. Era com Monteiro Lobato que mais me divertia: a coragem do Pedrinho; Narizinho e sua meiguice; Emília e toda a vontade de devorar o mundo com perguntas. Naturalmente, morria de medo da Cuca. Em minha cabeça, corria em fazendas. Subia em árvores, nadava em rios. Naquele verão imaginei sentir o cheiro de café torrado, depois moído, o sabor da culinária do interior, feita em fogo à lenha, ao som de uma moda de violas. O gosto de curral, bolo de milho, pamonha e tudo mais que minha avó habitualmente faria.

Em uma manhã, destas que deveríamos marcar nos calendários como um dia especial, tentei ocupar-me. Queria chutar bola contra a parede, sentir o sol tocando minha pele, conversar com as plantas do jardim. Mas não pude. Chovia. Estas chuvas típicas de verão. Sol e chuva. Um dia mágico que ainda hoje, posso sentir o aroma daquelas horas. Embora, hoje, classifique aquele dia como mágico, na ocasião fiquei entediado com a o clima. Com isso, minha mãe, vendo minha inquietude, calmamente pegou um LP, ligou o aparelho de som, colocou na vitrola, ajeitou a agulha. Comecei a ouvir uma linda música. Depois outra, e outra, mais uma.

Acabou o lado A. Virou o lado B. Cada vez mais me apaixonava com aquela voz angelical, com o som de um piano, os seus compassos, harmonias, notas, coisas tais que, na época, eu não sabia que existiam. Aquela poesia cantada oras sussurradas por um homem, oras que me levavam às lágrimas cantada por uma mulher. A música percorria meu corpo infantil, e transformei em rei, em arco-íris, tempestade, calmaria. Sol. Silêncio. Outra faixa. Volto ao mundo real.

Fixo meus olhos à janela, que escorre gotas da chuva. Sinto que meu corpo todo faz parte daquela onda musical. A música acaba, chamo minha mãe e peço para repita uma das faixas. Com a calma, habitual em todas as mães, sou atendido. Acaba de novo, peço para repetir, e repetir, e repetir… Fico bailando meu corpo, sobre a letra e música, com os olhos fechados. Sentindo que melodia e eu éramos um único sentimento.

Mesmo com tão pouca idade, senti algo único. Algo que não tem explicação. E que nunca esquecerei. Quando a melancolia toma conta de meu pensamento, fecho os olhos e posso sentir os passos daquele dia, todos os minutos daquelas horas. Ao passo que ouvia: “Pétalas de rosa espalhadas pelo vento / Um amor tão puro / carregou meu pensamento, / Olha! Um tico-tico mora ao lado / E, passeando no molhado, /Adivinhou a primavera”, senti o nascer de algumas paixões em meu tão jovem coração: Música, chuvas e rosas.


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