Chovendo na roseira

Era verão. Eu deveria ter cinco ou seis anos. Não recordo exatamente a data, mas tenho uma certeza: era verão. Lembro, pois estávamos de férias, minhas irmãs e eu iríamos para o interior de São Paulo, na casa de minha avó. Eu não fui. Mamãe achou perigoso demais que eu viajasse com uma tia. Vi meus irmãos na despedida, e senti um pouco de inveja da idade deles. Queria ter ido também. Sentir o sol nascendo no caminho, comer pamonha caseira durante a viagem, tomar refrigerante, destes bem baratinhos, em um restaurante à beira da estrada, picolé vendido em caixas de isopor e com um gosto que não era do sabor da embalagem, bolachas. Naquele verão não tive nada disso.

Minha diversão era ler, aprendi pouco antes desta data com a minha mãe, pois, ela, não agüentava mais ler as mesmas histórias. Então passava as manhãs, tardes e parte da noite com as minhas aventuras infantis. Era com Monteiro Lobato que mais me divertia: a coragem do Pedrinho; Narizinho e sua meiguice; Emília e toda a vontade de devorar o mundo com perguntas. Naturalmente, morria de medo da Cuca. Em minha cabeça, corria em fazendas. Subia em árvores, nadava em rios. Naquele verão imaginei sentir o cheiro de café torrado, depois moído, o sabor da culinária do interior, feita em fogo à lenha, ao som de uma moda de violas. O gosto de curral, bolo de milho, pamonha e tudo mais que minha avó habitualmente faria.

Em uma manhã, destas que deveríamos marcar nos calendários como um dia especial, tentei ocupar-me. Queria chutar bola contra a parede, sentir o sol tocando minha pele, conversar com as plantas do jardim. Mas não pude. Chovia. Estas chuvas típicas de verão. Sol e chuva. Um dia mágico que ainda hoje, posso sentir o aroma daquelas horas. Embora, hoje, classifique aquele dia como mágico, na ocasião fiquei entediado com a o clima. Com isso, minha mãe, vendo minha inquietude, calmamente pegou um LP, ligou o aparelho de som, colocou na vitrola, ajeitou a agulha. Comecei a ouvir uma linda música. Depois outra, e outra, mais uma.

Acabou o lado A. Virou o lado B. Cada vez mais me apaixonava com aquela voz angelical, com o som de um piano, os seus compassos, harmonias, notas, coisas tais que, na época, eu não sabia que existiam. Aquela poesia cantada oras sussurradas por um homem, oras que me levavam às lágrimas cantada por uma mulher. A música percorria meu corpo infantil, e transformei em rei, em arco-íris, tempestade, calmaria. Sol. Silêncio. Outra faixa. Volto ao mundo real.

Fixo meus olhos à janela, que escorre gotas da chuva. Sinto que meu corpo todo faz parte daquela onda musical. A música acaba, chamo minha mãe e peço para repita uma das faixas. Com a calma, habitual em todas as mães, sou atendido. Acaba de novo, peço para repetir, e repetir, e repetir… Fico bailando meu corpo, sobre a letra e música, com os olhos fechados. Sentindo que melodia e eu éramos um único sentimento.

Mesmo com tão pouca idade, senti algo único. Algo que não tem explicação. E que nunca esquecerei. Quando a melancolia toma conta de meu pensamento, fecho os olhos e posso sentir os passos daquele dia, todos os minutos daquelas horas. Ao passo que ouvia: “Pétalas de rosa espalhadas pelo vento / Um amor tão puro / carregou meu pensamento, / Olha! Um tico-tico mora ao lado / E, passeando no molhado, /Adivinhou a primavera”, senti o nascer de algumas paixões em meu tão jovem coração: Música, chuvas e rosas.

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