Último adeus

Quando jovens, achamos que somos invencíveis. Capazes de vencer a velocidade, a vida, a morte. Achamos-nos super-heróis, imbatível com nossos corpos e mentes saudáveis. Acreditamos, piamente, que nunca iremos envelhecer. Indestrutíveis em nosso sorriso federal seguimos em frente com uma vontade incontrolada de desbravar o mundo. Sede de sugar tudo.

Por um instante, morrer jovem pode ser um passo para a eternidade. Uma espécie de James Dean não filmado em 35mm, tampouco transposto à imortalidade. Sem jaqueta de couro e a falsa rebeldia do cinema. Sem tapete vermelho ou reconhecimento de herói. Talvez, morrer jovem seja o destino de uma geração sem esperanças de mudanças. Quem sabe exista um motivo maior.

Sem capa para voar ou superpoderes somos tão frágeis. Em bólidos movidos por combustão fóssil, aventuramos nossa vida diariamente. Como a uma corrida maluca ao espaço, injetamos nas rotações dos motores o desprender das sensações frustradas. Estradas esburacadas. Descaso governamental. Pedágios não aplicados em melhorias. Pressa. Mais um fim de semana que acaba. Acabou a vida.

Restam na gaveta duas fotos. Na memória, aventuras de duas décadas. Nos corações dos familiares ficam o arrependimento e impotência. Vidas interrompidas em um segundo. Um segundo e tudo mudou. O que era paz deu vazão ao desespero. Berrei contra Deus. Berrei contra meus próprios demônios. Chorei. Desesperei. Esperei que fosse mentira. Não acreditei. Três calmantes. Abraços. Soluços e lágrimas. Saudade e arrependimentos de viagens desmarcadas em cima da hora devido a uma banalidade. Aos sorrisos e aventuras vividas. Às poucas brigas, duas exatamente, por motivos tão insignificantes ao passo que nem me recordo quais foram.

Pego-me a pensar em todas as vezes que, involuntariamente, dei um passo para o fim de minha vida. E coloco-me em seu lugar. Lembro das músicas que gostava. Lembro que conheceu o Clube da Esquina por mim. Que pedia para repetir e repetir “Um girassol da cor de seu cabelo”. Lembro de quando acabou a gasolina, no alto de uma ladeira, da moto que pegamos emprestada e sem a consulta prévia de um tio. Das traquinagens de infância. De andar a cavalo. De acordar cedo para nadar no rio. Rancho. Leite com goiabada. Fazer cabana na horta da avó. Da vez, talvez minha única aventura, que eu machuquei a testa em um acidente de bicicleta. Você ria. Eu ria. Você me chama de um “caipira de cidade grande”.

De ouvir Creedence Clearwater Revival em um dia de chuva na estrada. Nós dois berrando:
“I heard it through the grapevine, not much longer would you be mine.
Oo, I heard it through the grapevine, and I’m just about to lose my mind.
Honey, honey yeah.”

De ver o limpador tirando o excesso da água a cair no pára-brisa. Você trocando a marcha, apertando meu joelho depois dando uns tapinhas a dizer: “É, boy! Essa música é boa demais”. Aquele foi um dia especial.

Remete-me a lembrança das vezes que almoçávamos pastéis. De quando roubávamos goiaba do quintal do vizinho. Comer bobagem. Do meu aniversário de 18 anos e que bebemos uma garrafa de Jack Daniels. Do dia que entramos na igreja bêbados. Da noite que paramos em uma festa estranha com gente esquisita. Tivemos que entrar na casa da vó pela janela dos fundos. Ela acordou e nos deu um “pito”. Das vezes em que você me defendia. Das vezes que me colocava em fria (tudo bem, depois tirava). Da gente vendendo sorvete. Da gente vivendo.

Recordo das férias em que passava na minha casa. Do dia que queria fugir para Portugal. Das vezes que eu te chamar de “portuga”. De você vomitando pinga com groselha e dizer para a avó que era por causa da pizza. De trilhas no mato. Das conversas malucas. De ver e rever “Matrix”. De trabalharmos juntos. Do seu abraço. Dos planos de termos uma banda.

Do “primão”. Das vezes que você pregava peças na gente (e era o tempo todo). Por que desta vez não foi mais uma peça?

Penso em nossa cumplicidade. Da nossa amizade. Do nosso amor.

Lembro de tantas coisas…

Só não quero lembrar que se foi. Não posso.

Para mim, meu irmão, estás apenas em uma viagem longa, em alguma aventura, como sempre gostou, bem distante. Quem sabe, agora sim está em Portugal ou no Nepal. E estaremos esperando seu regresso.

Neste instante, queria ter uma máquina para fazer o tempo voltar. Para voltar nos momentos em que éramos felizes e aproveitar muito mais. De recordar o último abraço, o último telefonema, a última aventura. Um acidente em uma tarde de domingo. Uma bobagem sem tamanho. Dor.

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