Arquivo de julho \28\UTC 2008

Tecnicolor

Eu vejo seu sorriso em preto e branco a colorir meus tristes pensares. Aos poucos, em tecnicolor, vejo as cenas dos próximos capítulos como uma repetição do passado. Da forma de um raio, você apareceu. Em poucos segundos, um enorme sentimento deu vazão em meus sonhos. Antes, sem cor e sem brilho, agora uma aquarela de tonalidades a enfeitar e saltar sobre a imensidão de meus devaneios mais delirantes. Cores e sombras a dançar sobre o azul aveludado dos cosmos. Com a mesma velocidade em que veio; você se foi.

Tem dia que o sol demora a raiar os primeiros focos de luzes. Em outros, pontualmente, brilha forte às 6h. Como um relógio bem alinhado, sou conduzido pelas expressões de seu rosto. Em um momento único, duas vidas antes destinadas a caminhar estradas opostas em colisão tornaram-se única. Como uma explosão cósmica, estrelas distantes que brilhavam sem forma uniram-se em uma luz azul uniforme. Vida vista por quatro olhos, dois corações e abraços apertados. Neste instante, toda a civilização ocidental regressou dez milênios de evolução.

Por um momento, o universo em expansão retrocedeu. O tempo, velho camarada, acelerou-se, ao passo que cinco séculos cruzaram em um piscar de olhos, no instante que nossas retinas tentavam assimilar a imagem do outros refletidos no olhar oposto. Um céu de brigadeiros abriu-se diante da imensidão da eternidade que se escancarava entre os dois corações, agora ritmados ao mesmo compasso sincopado. Ao fundo, lembranças da primeira infância embalada por sons mágicos.

Talvez o tempo não exista. Talvez seja para a vida inteira. Talvez dure a eternidade de um segundo. Talvez dure o segundo de uma eternidade. Como podemos prover isso? Ou provar? Se a vida fosse certa como os cálculos matemáticos que flexiona teria graça? A previsão de tudo tira o lado mais inebriante: o próximo passo.

Como um girassol a procurar de luz solar, sentíamos-nos atraídos à gravidade do outro. Sol, girassol, a rodar sem fim na imensidão do universo. Gira a vida em órbitas desenhadas pelo seu magnetismo. De volta ao presente, agora diferente do que vivemos, solitários, no passado remoto. Apenas a saudade do futuro tomava-nos o sentimento. A paz habitava em nossos peitos. À nossa frente, apenas a certeza latente dos dois corações a aventurar-se pelos desfiladeiros da felicidade encontrada no abraço do outro.

Seu charme é o charme que me completa. Sua inteligência é a beleza que me embriaga. Seu sorriso me deixa cego de prazer. Sua voz aveludada afaga meu afeto. Vejo em seus olhos e sinto em seu corpo a realização do sentimento que nutrimos um para o outro. Músicas e sonhos projetados com sua cabeça apoiada em meu peito ou nossos corpos colados em noites eufóricas.

Duas vidas que se permeiam quando deram as mãos. Agora unidas, como as cores do arco-íris, um sem o outro não compreende um sentido lógico para os problemas cotidianos sem ter um sorriso fortalecedor estampado nos rostos dos dois. Ao assistirem ao cair das primeiras folhas amareladas do outono, despedindo-se da vida, a longa caminhada pelos desfiladeiros do destino faz-se sentido lógico. Ilógico mesmo seria não ter suas mãos apertando as minhas ou seu respirar pulsando sobre meu peito. Uma única lembrança embalava minha cabeça: seu sorriso primaveril trazia de volta as flores, as cores e os aromas que reinavam nas mais longínquas memórias de infância.

Cinco minutos

Ele olhou para o relógio com a pressa habitual dos habitantes locais. Faltavam-lhe cinco minutos, que o separava de seu corriqueiro destino. Sentiu o coração bater em apressado ritmo; a mente o sufocou de pensamentos incompletos; as pernas o traíra; ar faltava. Cinco longos minutos. Intermináveis.

O tempo andava cada vez mais devagar, chegando a ponto de estagnação. Por uma eternidade parou. Cada vez que olhava ao relógio, faltavam-lhe cinco minutos.

De súbito, olhou para um conjunto de vidro escuro e brilhante. Viu-se refletido. Observou olhos curiosos misturados à imagem em reflexo e a luz difusa do portal que o separava dos demais ambientes. Consultou as horas: ainda faltam cinco minutos. Acendeu um cigarro atrás do outro. Não sentiu gostou algum. Lembrou que nunca fumara em vida. Suava frio, ficou a espera de algo. Embora não conseguisse lembrar do que era.

Caminhou longos passos em linha reta. Andou em círculos. De tempo em tempo olhou para o seu reflexo no vidro. Depois, consultou o relógio que cravado marcava a falta de cinco minutos.

Sentiu que era observado. Olhou para trás em repetidos gesto; depois para o seu reflexo no vidro; e observou as horas no relógio. Sentiu-se perdido em um lugar que conhecera desde a infância. Apressou o passo, ao pensar que era seguido por alguém. Consultou as horas, olhou seu reflexo ao vidro de tom escuro esverdeado.

Procurou algo no bolso do blaiser. Tentou no direito; depois no esquerdo. Nada. Achou que era seguido; olhou para trás, depois para o vidro. Ficou admirado com o seu reflexo; imaginou ser observado por muitos olhos do outro lado; consultou as horas. Faltavam-lhe, ainda, cinco minutos.

Ouviu, de longe, a berrar pelo seu nome. Lembrou-se que precisava entregar algo para alguém. Procurou nos bolsos do terno, da calça, nada encontrou. Admirou-se com seu reflexo no espelho, e imaginou ser observado por olhos do outro lado. Sentia passos lhe seguindo, examinava as horas: faltavam-lhe cinco minutos.

Chocou-se contra o vidro. Levantou-se da queda e viu alguns olhos curiosos a lhe acompanhar. Sentiu medo, pavor, raiva, dor. Com o rosto colodo e as mãos tapando os reflexos externos, viu vários rostos do outro lado do vidro. Tirou o terno, a calça, ficou apenas com as roupas íntimas. Arrancou o relógio, olhou-o pela última vez. Ainda faltavam cinco minutos. Jogou-o longe. Pôs-se a correr. Nunca mais parou.

O silêncio da estrela

Teci seus lábios num canto,
rascunho escuro, riscado.
Teci seu susto sem motivos,
largos risos, longos prantos.

Teci uma prece, uma escolha.
Escrevi seu nome, sua escolta;
rasguei três copias, perfeição.
Procurei seu aroma, inspiração.

Procurei em um torto manto
seus sinais, sua brisa.
Procurei em vão sua alma.
Toquei sem mãos seu rosto.

Troquei palavras, silêncio!
Pensares. Troquei, troquei…
Bordando com tristes lágrimas,
teci a purificação de seu rosto.

Procurei nas entrelinhas
qualquer motivo para escrevê-la:
tracei lápis, caneta, borracha.
Não encontrei palavras, nem as minhas.

Tracei círculos ao tentar escreve
as mais singelas palavras repetidas
para explicar um sentimento inexplicável.
De onde saem as palavras no escuro?

Tantas palavras dizia ao seu ouvido,
que a morbidez do silêncio tenho visto.
Minhas repetidas palavras fez-te pensar.
Mas o seu distraído pensamento fez-me calar.


julho 2008
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