Cinco minutos

Ele olhou para o relógio com a pressa habitual dos habitantes locais. Faltavam-lhe cinco minutos, que o separava de seu corriqueiro destino. Sentiu o coração bater em apressado ritmo; a mente o sufocou de pensamentos incompletos; as pernas o traíra; ar faltava. Cinco longos minutos. Intermináveis.

O tempo andava cada vez mais devagar, chegando a ponto de estagnação. Por uma eternidade parou. Cada vez que olhava ao relógio, faltavam-lhe cinco minutos.

De súbito, olhou para um conjunto de vidro escuro e brilhante. Viu-se refletido. Observou olhos curiosos misturados à imagem em reflexo e a luz difusa do portal que o separava dos demais ambientes. Consultou as horas: ainda faltam cinco minutos. Acendeu um cigarro atrás do outro. Não sentiu gostou algum. Lembrou que nunca fumara em vida. Suava frio, ficou a espera de algo. Embora não conseguisse lembrar do que era.

Caminhou longos passos em linha reta. Andou em círculos. De tempo em tempo olhou para o seu reflexo no vidro. Depois, consultou o relógio que cravado marcava a falta de cinco minutos.

Sentiu que era observado. Olhou para trás em repetidos gesto; depois para o seu reflexo no vidro; e observou as horas no relógio. Sentiu-se perdido em um lugar que conhecera desde a infância. Apressou o passo, ao pensar que era seguido por alguém. Consultou as horas, olhou seu reflexo ao vidro de tom escuro esverdeado.

Procurou algo no bolso do blaiser. Tentou no direito; depois no esquerdo. Nada. Achou que era seguido; olhou para trás, depois para o vidro. Ficou admirado com o seu reflexo; imaginou ser observado por muitos olhos do outro lado; consultou as horas. Faltavam-lhe, ainda, cinco minutos.

Ouviu, de longe, a berrar pelo seu nome. Lembrou-se que precisava entregar algo para alguém. Procurou nos bolsos do terno, da calça, nada encontrou. Admirou-se com seu reflexo no espelho, e imaginou ser observado por olhos do outro lado. Sentia passos lhe seguindo, examinava as horas: faltavam-lhe cinco minutos.

Chocou-se contra o vidro. Levantou-se da queda e viu alguns olhos curiosos a lhe acompanhar. Sentiu medo, pavor, raiva, dor. Com o rosto colodo e as mãos tapando os reflexos externos, viu vários rostos do outro lado do vidro. Tirou o terno, a calça, ficou apenas com as roupas íntimas. Arrancou o relógio, olhou-o pela última vez. Ainda faltavam cinco minutos. Jogou-o longe. Pôs-se a correr. Nunca mais parou.

Anúncios

1 Response to “Cinco minutos”


  1. 1 Ana Letícia julho 22, 2008 às 4:30 am

    Foi insano, e profundo. Algo que muita gente gostaria de fazer as vezes. Deixar tudo, o tempo e sair correndo.
    Gostei do que você escreve. Vou adicionar nos meus favoritos ok?
    ;*


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




julho 2008
S T Q Q S S D
« jun   ago »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Categorias

Acesso número:

  • 124,995 Páginas vistas.

%d blogueiros gostam disto: