Na corda bamba

Sobre todas as coisas em cima da mesa, pedaços de passados esquecidos nos labirintos da memória. Todos os gestos e manifestos o seu nome estampa em letras colossais. A sua saudade me devora aos poucos. Envelheci décadas de evolução cármica nestas últimas semanas. Meus passos confusos confundiram-se com as idéias turvas que rodeiam minha mente. Agora, sorrio uma risada amarela, sem graça e sem esperança. Desde que partiu, algo sem conserto se quebrou dentro de mim. Em milhões de pedaços, sua imagem reflete a incompreensão de nossos tempos. A paz sonhada deu vazão aos sonhos atormentados.

A fé cega e inexata é uma forma de ópio, uma espécie de morfina da era mediada pelos bombardeios comerciais e hedônicos. Pós-modernos tempos de solidão acompanhada da virtualidade. As palavras se esvaem em discursos burocráticos sem sentidos. A supervalorização da forma desinforma o valor real do conteúdo.

Em cima da cama, meu corpo vela noites de insônia e medo da solidão. Restos depositados sobre a cabeça se desfazem em milhões de respostas em uma única pergunta a martelar a que sobrou de uma consciência inexata. Sombras e luzes decoram a parede dos fundos de minha alma. Destes anos de exílio embrionário, sua sutil lembrança torna mais leve os dias maquinais.

Perto do fogo, aquecido pelo calor que escorre de seus poros. Fotos e fatos que contam narrativas terríveis. Perto de seus braços, longe de uma paz esquecida. Quanto tempo faz? Dois dias sobre os mesmos relatos repetidos de sempre. A sonhada eternidade alcançada em tantas páginas viradas e recomeços. Alguns pensamentos esquecidos. Sonhos depositados em outros braços.

Tremo de pavor no outro dia, na mesma hora. A solidão, desde cedo te devora. Você não pode suportar a hora de arriscar. Perder-se em vidas, em dias e mapas traçados pelos devaneios dos destinos tortos. Não adianta, as horas não passam. Os dias não passam, a dor não cessa. As cores não borram. As almas não dançam a valsa vienense da madrugada fria. Nas estrofes de uma ópera, piratas e canções concluíam seu carnaval.

Mar de semáforos sobre os olhos. Vias interditadas e nada que possamos fazer sobre o caos que está à frente. A paz esquecida e o amor desfeito enfeitam nossas cabeças e cabelos cortados ao modismo da vez. Dentro de nossos peitos adormecem dores e pecados não cometidos. Reconheci as canções que você não ouviu. Escrevi cartas que nunca foram enviadas. Ouvi suas palavras não ditas.

No escuro do mar, fragmentos de luz se escondem de nossas percepções. Em caleidoscópios, deixamos que o tempo guie nossos passos difusos. Confusão inspirada pelos relatos gerados por terminadas guerras impróprias. A revolta contida em seus planos, a falta de sentido em seus trajetos, a saudade devorada em obras consagradas da literatura, a ilusão projetada em salas de cinema, a paixão pela música, a ausência de uma trilha sonora, a revolta, a conquista, a tragédia, a perda, a falta que você me faz.

Sobre todas as coisas, o inexato resultado cativa o desconhecido. Enquanto sorri, o sol não brilha mais no céu d’Espanha. Uma lágrima congelada a cristalizar a eternidade de uma dor latente. Preso em um labirinto por necessidade, sou atraído ao seu brilho raro e único. Vidas divididas em antes e depois de um momento catalisador. Como prever o epicentro de um furacão?

Que a morte do que acredito e me inspiro não seja o fim absoluto do que desejo. Que meu desenho inexpressivo continue a colorir mesmo quando acabar a dança, mesmo quando acabar o fogo. Que os versos rotos que alinho sejam um presente a dois corações embebedados de carinhos e ternuras. Que o sol a brilhar nas manhãs chuvosas tenha força para radiar os corações cinzas.

Como se não fosse tão longe. Como se sonhos nascessem do ar. Como se faz com muito cuidado, com o medo que não se pode acalmar. Caminhar em corda bamba de olhos vendados e cair como se fosse em astros distraídos pelo correr da eternidade em chamas. Ouço nos clarins da noite escura seus berros de agonia e desespero. Um passo para o destino e outro para a solidão.

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