Arquivo para setembro \28\UTC 2008

Réquem de dor

Minha casa mudou de rua, mudou de bairro.
Os vizinhos não são os mesmos.
Apenas observo o silêncio assustador.
Não há ninguém ao redor.

Minha casa mudou de casa.
Abriga-se agora em qualquer canto sujo, sombrio.
Vigia-se em noites sem sono.
Do abandono natural dos esquecidos.

Talvez a incerteza de seus passos
conduz ao infinito trajeto sem começo.
De longe ouvia seus berros. A clamar:
– socorro. Sozinho não poderia acudir.

Eram dias duvidosos de chuva,
e incertos de tempestade branda.
Talvez a primavera foi-se para sempre.
E o correr atrasado do cotidiano
fez-nos esquecer que um dia ela existiu.

Minha casa mudou de rua, de vizinhos.
Perdeu o encanto de outrora.
A alegria de outrem.
A comemoração de antigamente.
Das datas esquecidas,
ficaram apenas as fotos amareladas pelo tempo.

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Podres Poderes

Embora vitorioso nas urnas no último 10 de agosto – quando teve seu mandato reconfirmado no revogatório -, o presidente da Bolívia, Evo Morales, acompanhou em seguida a oposição ao seu governo ganhar força e ser abraçada pela opinião pública em várias partes do mundo. A crise vizinha deflagrada nas últimas semanas demonstra a escassez política e argumentativa do sistema semi-ditatorial da América católica.

O vazio político-admintrativo das figuras centrais latino-americanas ocasiona a dominação do poderio econômico. De um lado, malucos armados de doutrinas atrasadas, discursos ufanistas e ultranacionalista – disfarçadas de um neo-marxismo – ; do outro corner, os interesses imperialistas do vil capital.

Nesse embate, quem perde é a população ingênua e desarmada de conhecimentos necessários à mobilização social. Não à toa, o palco de constantes lutas egocêntricas pelo poder se faz em países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Nações sem o costume republicano e democrático. Pátrias dividas em anos de lutas históricas pela libertação colonialista, e que, como o tempo, culminaram ao servilismo do grupo dos países industrializados.

A união dos grupos oposicionistas das regiões mais ricas da Bolívia é um exemplo claro da organização de uma ala da sociedade. Mais uma vez, a busca pelo lucro dos petrodólares desloca parcela da sociedade numa luta em que um único jogador movimenta as peças. Desnecessário salientarquem sairá coroado com a “vitória”. Os semi-ditadores latino-americanos apenas dão vazão para o aparecimento de movimentações da classe econômica dominante. São, apenas, a justificativa “legal” para a o uso da força, legitimado pelo aval – mesmo por debaixo dos panos -, dos EUA.

Cantarolando Caetano Veloso: “será que nunca faremos senão confirmar/ A incompetência da América Católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos?”. A maioria dos carros que cruzam os sinais vermelhos não é mais composta por fuscas; mas os homens continuam a exercer seus podres poderes. Resta saber quem velará pelas alegrias do mundo?

Fortaleza da Solidão

Do lado em que nasce o sol, você repousava calma e bela. Dias seguintes, não enxergo mais a paz e a clarividência que a sua presença emitia. Distante do que éramos, estamos, agora, anos luz de uma estrada em destinos diversos. Cada um para um lado; silêncio entre nós dois.

Na briga interna de seu mundo, fragmentos atingiram minha calmaria alcançada depois de árduas lutas. Abalado, frágil e cansado das batalhas do passado, seu sorriso enfeita a galeria de minha memória rarefeita. Pedaços de sentimentos e sonhos destruídos. Em milhares de pontos, seu magnetismo, aos poucos, se perdeu de dentro de mim. Com quantos litros de medos se desfazem sentimentos? Quantos metros de dúvida acabam com o amor? Com quantos quilos de solidão são necessários para reconstruir uma alma em frangalhos? O silêncio de nós dois.

Mas te espero, pois o grito dos teus olhos é um misto de arrependimento, medo e insegurança. Somente em meus braços poderá, enfim, reencontrar o choque a equilibrar seus desatinos e arrependimentos de pecados do passado. Seu sorriso espontâneo despertou os sonhos que tive, esquecidos sobre a penteadeira. Desde que você partiu, o doce de meus lábios deu vazão à apatia e descontentamento. O silêncio de seus passos, a solidão de nossas palavras. O frio a arrepiar a alma.

Toda poesia é uma despedida. Você disse adeus e deixou em mim um vazio descomunal. Desde então, encobri minha dor com um manto azul: um amor e uma mágoa. Eu lavei meu rosto com palavras triste quando acenou-me tchau. De vez em quando, todos os olhos se voltam contra meus passos distraídos. No fundo, a espera que eu seja algo maior que eu sou. Em minha Fortaleza da Solidão, sem rascunhos de Krypton e superpoderes, observo o isolamento das pessoas nas grandes metrópoles.

No silêncio da noite, fecho os olhos e imagino você chegar.

Um pedaço de mim

Rasgou minha alma, meu corpo.
Levou meus olhos, minhas pernas.
Quem tortura assim?
Trago essa dor em pedaços de mim.

Rasgou minha pele, meus braços.
Levou sem medo meus traumas.
Escondidos remoto em mim.
Quem tortura assim?

Trago as mãos vazias, escolta.
Lanço meu choro de pedra.
Minhas manias, revoltas.
Em um pedaço de mim.

Cavou meus receios, meus sonhos.
Esculpiu meus ossos e passos.
Quem tortura assim?
Um pedaço de mim em ti.

Passos imaginários no escuro

Ontem eu vi o mar. Fazia tempo em que eu não o olhava de frente, a ponto de quase molhar meus pés. Não recordo a última vez que o encarei, peito aberto e uma enorme chaga sem cura a espera de cicatrização. Era noite. Uma longa e interminável noite fria de inverno. Vento cortava meus suspiros. No marcador, cravado 19 graus. Frio absoluto apenas em meus olhos. Durante o dia, um lindo sol fora de estação. Mesmo assim, sentia o frio congelar minha fala, meu pensar, meus passos.

Precisava ver o mar, como há tempo não o via. Senti vontade de mergulhar, em um abafado e silencioso pulo no espectro escuro da Lua. Precisava caminhar sozinho, feito cão sem dono na barriga da noite. Para dialogar comigo sobre o tempo, o fogo, a dor… Precisava me encontrar.

Perdido em rotas imaginárias que meus sapatos faziam ao tocar a areia no branco encontro com as espumas do mar, vaguei em labirintos desertos dos desencontros e medos mais remotos de minha parda existência. Longe da confusão de fora, enquanto o caos urbano devorava a cidade em combustão; eu, perdido em pensamentos e memórias do passado, apenas chorava a dor de sua ausência.

Enquanto tentava manter a mente em paz e o coração tranqüilo, numa luta desumana entre o Eros e meus medos secretos, sua imagem cristalizava em minhas retinas úmidas. Passos em falso em um abismo. Meus pés sem um porto seguro e minhas mãos tentando agarrar um reflexo de lapsos de memória. Vaguei sobre corpos celestes durante uma queda interminável. Sua voz ao longe era uma música desconhecida, repetindo sem cessar dentro de mim. Em milhões de pedaços em mim, em mil, em nós.

Tentei abafar a sufocante dor que dominava meus devaneios. Disposto a acabar com tudo, lancei ao mar o lado mais belo que permanecerá em mim: o sentimento que alimentamos nestes últimos séculos de amor em evolução. Joguei-o longe, fora do alcance da arrebentação, para que o oceano aberto o deixe à deriva, sem a chance de regressar. Senti-me morto, segundo após desprender-me de meus sentimentos.

Joguei também as imagens que se formavam em minha mente. Não que eu queira esquecer nossos dias, tampouco nossos passos, mas não posso deixar no inconsciente os melhores momentos de nossa caminhada. Uma espécie de fantasma a me torturar em uma terça-feira tediosa e cheia de problemas. Lancei ao mar todas as lembranças do passado para que não voltem em um momento de grande dificuldade. E, assim, sem querer, os fragmentos de seus charmes e gestos arrancarem-me um sorriso dos lábios desacostumados a sorrir desde que deixei em águas calmas a calmaria de nós dois.

Não que eu queira esquecer o passado, mas é preciso. Na luta interna entre querer-te ou seguir em frente – como o caminho dos barcos -, perdido e confuso, peço força ao sobrenatural – que não acredito – para acalmar os sonhos abortados pelo medo oposto. Não que eu queira te esquecer, eu preciso. E luto contra isso, com todas as minhas forças semi-esgotadas. Preciso desesperadamente esquecer-te, como preciso neste instante de seu abraço e regresso; ou necessito de atenção; de todos os impulsos que Pan teme; que Eros lança à terra. O ar arde-me em labaredas vermelhas. Fogo e dor se misturam em um ciclo interminável. Sísifo em seu ardo labor. IN-VA-RI-A-VEL-MEN-TE…VOCÊ.

Pensei no fogo, pensei na dor, pensei no amor. Agora, em alto mar, nossos sonhos, nossos planos. O futuro perdido pelo medo do passado. Não que eu queria esquecer. Faz-se necessário apagar dos labirintos da memória seu rosto, seu gosto, tudo… tudo que me deixa em paz. Uma claridade viva de uma mente sem lembrança. Perdido sobre os rastros deixados na areia, esperando o mar trazer o que lancei, recolho o que sobrou de tudo. Despejo na penteadeira o resto dos sonhos…. Despejo em copos vazios a lamentável dor dos sentimentos esquecidos lançados ao mar sem memória, sem cor, sem vida, sem nada. Enquanto durmo, ouço passos escondidos no porão da alma. Verdade derretidas em douradas chuvas da consciência: você?

Amanhece mais um dia. Como sempre amanheceu e amanhecerá… Os pés sujos de areia e a roupa molhada de suor provam a existência de minha difícil escolha. Sem onde correr, ou abraço para me abrigar da chuva ácida, deito sobre o mundo, ao rumo de seus olhos castanhos: estranhos enganos! Espero que a civilização inteira se levante para, enfim, poder enterrar meu rosto embaixo do cobertor. Dormir em berço explêndido sobre a luz do meio dia. Esquecer o que tentei esquecer e acordar para ver o Sol queimando a cara. Passos imaginários no escuro. Olho em volta e você não está.

Torre de babel às avessas

Para muitos, o episódio político-jurídico da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol esconde uma disputa econômica, aos moldes de um sistema esgotado de exploração dos oprimidos pelos mais fortes. Grandes corporações esmagando tribos de índios, localizada em um país subdesenvolvido, a qual as questões de propriedade da terra ainda são lavadas com sangue, lagrimas e suor.

Para outros, a trama é centrada na busca do lucro desenfreado do bilionário setor do agronegócio. De grupos de empresas que invadem terras e se apropriam de nascentes, rios e reservas de minérios. Opressão de um poderio econômico acima do bem e do mal. De eliminação pessoas ou organizações que tentam levantar a voz contra a tirania dos percentuais alcançados nas bolsas de valores.

Porém, há quem entende que os índios assentados pelo decreto presidencial colocaria em risco as divisas internacionais brasileiras. Ou que os herdeiros dos primeiros habitantes do país são “civilizados”, com isso as demarcações de terras seriam mero oportunismo.

Contudo, um outra visão está distante dos holofotes da imprensa e das opiniões até então emitidas: as riquezas da diversidade cultural e étnica das culturas indígenas.

Palco de lutas, que se estendem por mais de trinta anos, o território contínuo de um 1,6 milhões de metros quadrados, localizado no nordeste do estado de Roraima, abriga mais 164 aldeias, em uma população estima com mais de dezenove mil índios.

Com a exploração colonizadora da colônia portuguesa, os primeiros habitantes do Brasil evadiram para as áreas mais remotas de nosso país continente. Em nome do progresso, cinco séculos depois os remanescentes da cultura tipicamente tupiniquim assistem suas tradições milenares ameaçadas em detrimento do lucro inflacionário de senhores feudais do agronegócio.

Neste campo de batalha, a disputa é entre gigantes do capital contra culturas milenares. No Superior Tribunal de Justiça as terras – embora de preservação ambiental e de valor inestimável em minérios – são as menores parcelas em discussão. O cenário é uma trama de intrigas e informações desencontradas favoráveis ao grupo dominante. Uma luta desigual (e desumana) de uma minoria étnica para manter seus costumes e heranças culturais. O maior prejuízo em risco é a perda das riquezas humanas, pois a cada cultura submergida, parcela da humanidade se esvai. É uma torre de babel às avessas.


setembro 2008
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