Arquivo de outubro \27\UTC 2008

Memórias de um novo amanhecer

O vento sempre sopra com mais força para quem não está acostumado com o inverno. Mesmo não estando em perigo, quero que você me proteja deste inferno, me aqueça neste inverno abismal que a sua falta me faz.

O tempo passa depressa demais para quem tem pressa em colher o novo. Embora sua retina ainda registra os meus devaneios mais inesperados, sinto um vento tocar minha face. O frio que premeditava abraçou meu desespero. Talvez seja a sua falta a inebriar meus sentidos.

Sem tato ou paladar, tudo fica mais cinza, mais triste, sem graça e sem cor sem seu abraço e palavras para dividirem o pouco que sei. Não sei o que mais me faz falta, se é seu toque em meu cabelo ou a falta de sua imagem cristalina em minha mente.

Enquanto tento esquecer palavras e gestos virtuais, uma flor de plástico e uma foto de um passado distante enfeitam a escrivaninha; a qual escrevo relatos, recados e pecados em seu nome. Então, você me diz que ser feliz de fato é inaugurar o passado. E quem pode comigo quando eu digo tudo o que sinto?

É sorte saber de tudo o que se passa. Eu não sei de você, mas acho que foi sem querer. A entrega que fizemos, os passos que colidimos. Céu, sol, girassol. O silêncio e eu olho para a janela: a música é ela. Pois toda mágoa, lágrima ou sorriso só fazem sentidos sendo amparados pelos seus olhos meigos e encantadores.

E a agonia de viver se torna mais sutil sendo aparado pelos seus braços. Carinhos que à noite, mesmo cansados, recolhem meus pedaços e abraçam meus pecados ao torno de ti. Meus pedaços tão cansados que mal conseguem suportar a barra de viver sem você.

Enquanto caio de uma altura imensurável que é o amor, na queda, observo o passado como uma repetição do futuro. Em um mundo em que milhões de imagens explorem, um minuto de silêncio é um alívio momentâneo às dores de outrora. Mesmo não estando em perigo, quero que você proteja meus olhos cansados de te esperar. Mesmo em um abrigo, quero estar contigo quando a chuva chegar.

Um pequeno devaneio

Quando escureceu, nenhuma luz por onde andava acendeu. Onde você estava? Onde estávamos nós além de dois corpos distantes em pensamentos imperfeitos. Quando anoiteceu, por que não me socorreu? Por que não te iluminei? Em que momento tudo que acreditávamos se perdeu? Foi o fim de tudo? O fim do mundo? O fim de nós!

Quando anoiteceu, a luz de sua casa permaneceu apagada durante a madrugada interminável. Eu, perdido em meus devaneios mais indesejados, perguntava onde poderia estar. Além de mim. Além dos quarteirões que separam os quintais do mundo. Distante dos muros que separam dois universos. Além de tudo. Muito além dos jardins que enfeitavam nossos sonhos, nossos planos, nossas vidas.

Vou sair para ver o mar e me perder entre os labirintos que distanciam nossos passos. Vou te procurar entre as estrelas e os satélites distraídos, que confusos me ditaram caminhos errados e esparsos. Eu irei caminhar por trajetos errados em diferentes passos. Em destinos errantes nas mais estranhas pegadas na areia. E vou te encontrar em um planeta abandonado no curto espaço entre nós dois. Em nossos abraços, em seus sorrisos largos.

Eu espero te ver deslizando entre luas e nuvens no azul aveludado do cosmos, sem gravidade. Suspensa entre as teias que amarram os destinos, em linhas paralelas amarelas e imaginárias que controlam o universo em expansão. Verei o seu sorriso estampado iluminando novas nebulosas. Em inúmeras constelações, nossos passos guiariam outros passos no escuro.

E o medo exagerado do futuro

Imaginei seu rosto em um dia de desespero. Saudade consumia-me em fragmentadas dores de um passado recente. Seu perfume ainda refresca minha memória. Momentos antes do desespero, vi seu rosto sorrindo aquela risada que sorria quando aprontava. Vem, mas com coragem de mudar a vida, os pecados, as dores, a saudade. Vem prender-te em meus braços e perder-se em meu corpo. Vem que eu te quero toda em mim.

O instante de te ver me custou chagas de uma vida. Eu vim para não morrer. As marcas que ficaram, das chuvas que apaguei, das dores que curei, dos traumas que me livrei. O escuro a procurar a luz que a sua falta trás. Não me encontro mais sozinho com a minha solidão. O silêncio me devora aos poucos. É tudo ao mesmo tempo dentro do meu dilacerado coração. O tempo não existe. Existe e devora-me em tantos trechos esquecidos. Citações anotadas em pedaços de papel, em guardanapos. Em frangalhos, reergo-me em vitórias perdidas e batalhas não iniciadas. Do passado aprendi a ter medo do futuro.

A cada segundo me despeço da vida. Como a todo mundo, a cada instante deixamos um pedaço da existência para trás. Um passo para o fim. Sei que muita coisa é possível e provável, mas não luto contra a ordem natural. Apesar de muito, tudo leve. Tudo jaz. Tudo mais. Chorar de amor para mim é quase morrer. Saio para nunca mais voltar: em ti! Em mim. Eu sou um sonhador. Sonho a dor. E você?

Como num trapézio sem rede, eu me lanço sobre o mundo, ao rumo de seus olhos castanhos. Fecho os olhos e te vejo nítida. Anseio o dia que, com o refúgio dos meus sentidos, acorde sobre seus cálculos viciados sempre com a mesma solução ilógica. Desculpa se fiz das últimas noites fogo a consumir-me por inteiro, no ápice do inverno em agosto. Ainda guardo na memória o gosto doce dos seus abraços.

Meu rosto pregado antes que eu me esqueça de tudo que eu deveria esquecer. Vaga idéia sobre os passos maquinais. Dos dias todos iguais. A hora que não passa, a saudade que não cessa, a dor que consome aos poucos. No pátio interno de meu ser, peço e imploro para que fale comigo. Eu quero que você me aqueça neste inverno, neste inferno que engole com chamas os restos de que sobraram de mim e ficaram expostos em caos.

Eu tenho os dias contados, então mantenha distância de meu coração. Com os pés sujos de lama e a roupas rasgadas somos mais sinceros. Todos iguais dentro de suas diferenças herméticas. As pessoas são os lindos problemas que enfrentamos diariamente. Em frente, adiante, enquanto os outros se arrastam eu prefiro sumir. Olho meu rosto cansado no espelho e depois vou dormir entre as cores escondidas de suas retinas. Por de trás do rosto esconde uma contradição de sentimentos irreais e imaginários. Do outro lado há você.


outubro 2008
S T Q Q S S D
« set   nov »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Categorias

Acesso número:

  • 124,226 Páginas vistas.