Arquivo para novembro \21\UTC 2008

Um salto no escuro e abafado grito da noite

Estrada sem sol e resto de ilusões perdidas. Trânsito difuso para o caminho mais próximo do que esteve ao alcance do coração. Duas chamas. Pouca vida. Quase nada sobre a mesa. Lembranças e fragmentos de um futuro recente. Rente aos olhos e distante de acontecer. Real? Imaginário? Fantasia? Movimentos transitórios misturados a redes invisíveis a transmutar em sonhos e pensamentos imperfeitos. Um salto rasante no grito da noite. Na soturna e desesperadora espera pela hora da estrela.

Sem lógica sempre foram os devaneios mais interessantes. No epicentro do furacão caótico do cotidiano, vagam pelas frias galerias dos séculos, em passos lentos, a absurda velocidade dos desventurados para o novo. De novo, como de costume, vidas amarradas em trópicos imaginários e latentes aos olhos nus. Como orquestras dodecafônicas, compassos e rimos inebriantes e imprecisos entorpecem os ouvidos mais puros. Sem lógica. Mentiras inventadas, verdades distorcidas e o medo de inaugurar o passado, que ainda não passou de um lugar comum.

Como fosse mágica. Como se fosse preciso. Como se pudesse voar, ao mar, sem fim. Se hoje o sol sair, eu te prometo o céu. Prometo o que não poderei cumprir e te espero no entardecer em um ponto qualquer à beira do mar. Em girassóis da noite fria. Trens estrangeiros em visita à terra natal.

Três vidas em suas mãos. Sujas. Cegos, tateamos o escuro abstrato criado pela incompreensão. Vida vista de fora, olhos e ouvidos censurados pela dor. A carne rasga e entorpece o pânico. Mensurado pela inconsciência, vagam solitários e malucos ao mundo afora. Fora do ar. Fora de órbita. Em uma outra estação de ondas médias, tocando músicas retrô de um futuro próximo. Polaroid dos aos 70. Imagens em Tecnicolor. A música preenche a sua falta. A solidão escorre pelos ralos, pela latrina comum dos desejos comuns. O resto é paisagem. O restante é perfumarias baratas, vendidas em esquinas ordinárias.

O que não fere tranqüiliza. Temo ter os nervos calmos. A fome do novo, a fome do povo, a fome de viver desesperadamente. Há fome. A fome do mundo. Imundo. O fim próximo e constante. Nuvem de fumaças a tampar as vista para o óbvio. Duas chagas, três escolhas, uma única saída. Saem pelos poros, pelos cantos, pelas lágrimas, na transpiração, no suor latente, no frio que escorre a espinha da solidão virtual mediada. Meios e formas que em nada informam.

Não deixe o sol morrer. Gritos no corredor. Seu silêncio abafado fez o tempo ficar lento e tenso. A lágrima estampada em sua camisa fez companhia à noite, estrela. Para a lua, berrei seu nome em mais uma noite sem sono. O tempo passa lento em sua órbita. Verdes campos e o céu de brigadeiro entre as antigas dores dissimuladas. Ao sabor do metal, ávida semente a florescer entre os matagais da selva de pedra das metrópoles. Verdades inventadas e mentiras que esqueceram de acontecer. De exato, apenas a certeza que amanhã tudo se repetirá, como discos riscados e recados na secretária eletrônica.

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Céu azul!

De repente, estava você do outro lado. Nossos medos misturados em um único sentimento. Você sorriu. Tentei fugir, como sempre fujo. Desta vez, porém, estático, não consegui sair do rumo de suas retinas. O tempo, sempre nosso inimigo, agora fez-se aliado. Em poucos instantes reconhecemos-nos. Éramos nós, como sempre fomos. Em todo os cinco bilhões de anos que estivemos separados, segundo algum duvidamos que éramos nós.

“Onde estave o tempo todo?” Perguntei ainda sem jeito.
“Esta em ti. Sempre estive. Você não percebeu?” Respondeu-me de forma angelical.

Nossos destinos cruzados nos desencontros rotineiros da vida, caminhavam na mesma direção. Cegos ou medrosos fingíamos não ver a junção das nossas almas, que se separaram ainda na formação para, no plano físico, unirem-se. Deste instante, por toda a vastidão da eternidade.

Flores enfeitavam nosso caminhar. O caminho iluminado pelo brilho radiante de nossos sentimentos, fez que a vida fosse algo mágico. Lágrimas rolavam em nossas faces. Choro bom, choro de euforia, alegria. Pequenas gotas de amor cristalizadas em nossos olhos. Olhos, estes, que sem a outra metade não teria razão alguma para enxergar.

Tateávamos no escuro nossos rostos, conhecíamos de cor cada detalhe. Esculpida sem seus sorrisos compreendia a perfeição que vivíamos. A cada instante, sentiamos algo gigantesco crescendo dentro de nós. Uma enorme esfera azul. Desde então, o universo parou de expandir, chegando a reduzir de tamanho, apenas para contemplar de perto o nosso amor em vasta dilatação.

Estrelas, confusas, colidiam-se, atraídas pela gravidade que girava em torno do nosso amor. Fragmentos de brilhos solares, oriundos de outras constelações, iluminavam o efervescente bradar de nossas palavras puras e sinceras. “Eu te amo”, saia de nossos corações diretamente ao coração do outro. As vozes, nestas ocasiões, eram desnecessárias. Enquanto vivíamos nossos sonhos, a vida, caprichosamente, aponta nosso destino a paraísos nunca dantes vistos por nossas retinas maravilhadas de tanta paz.

Pela calmaria que seus olhos transmitiam, via em cenas coloridas o nosso futuro. Uma onda de paz invadia meu peito de forma tão abismal fazendo-me esquecer que um dia não fora assim. Girava em torno de sua gravidade, atraído pelo magnetismo natural de suas mais delicadas demonstrações de carinho, e, por toda a eternidade, vaguei em órbitas decididas, seguindo as trilhas postas por ti em meu caminhar.

Seu sorriso iluminada o breu de toda a galáxia. “Sorrio por ti e para ti”, meu coração parou por uma eternidade ao ouvir esta frase, meu corpo arrepiou, a garganta secou, suor frio tomou conta de minhas mãos. Trêmulo e em torpor, pude ouvir você dizer: “Eu te amo”. Neste instante, ganhei vida eterna. E por toda minha vida tento fazer-te feliz, sentir o mesmo prazer de existir apenas por e para ser amado por ti.

Há dias que o cinza encobre o céu, nestas datas o brilho do seu olhar dissipa as mais negras nuvens.

Memórias de um tênis surrado

Um tênis surrado marca o ritmo da primeira melodia a encher de vida, luz e emoção o Teatro Coliseu, na noite de quinta-feira (6). Aos poucos, o sotaque mineiro e a música influenciada por Beatles, bossa nova e jazz se misturam em um universo paralelo criado por Lô Borges. Em quase duas horas de show, mesclando antigos e novos sucessos, três gerações de fãs se emocionaram ao cantar em coro as canções que marcaram sonhos, vidas e amores.

Com mais de três décadas de carreira, em plena forma, o cantor mineiro entra em turnê de seu último CD e primeiro DVD (Intimidade, Som Livre, 2008). No mini-documentário musical, os maiores sucessos do sócio-fundador do Clube da Esquina são interpretados de forma intimista para um seleto grupo de fãs. A vida e obra do compositor são expostas por meio de seu cotidiano, entrevistas e depoimentos em tons informais.

Da mesma forma, Lô entoou 19 sucessos presentes nos nove álbuns solos e três em parceria com outros artistas mineiros. Desde o antológico Clube da Esquina (EMI, 1972), divido com o Bituca, até o mais recente trabalho Bhanda (independente, 2007). Em tom mineiro, moderando entre “causos” ilustres e pedidos da platéia, Lô demonstra a simplicidade e a magia musical oriunda das montanhas das Gerais.

Foi justamente ao cantar uma parceria com a nova geração – Dois Rios (Lô Borges, Samuel Rosa e Nando Reis) – que um sol nasceu entre as montanhas mineiras, devidamente costuradas em retalhos, que enfeitavam o palco semi-iluminado do teatro santista. No refrão de seu último sucesso radiofônico, interpretada pelo eterno parceiro Milton Nascimento – Quem sabe isso quer dizer amor (Lô e Márcio Borges) – que as lágrimas correram a face do músico mineiro. No bis, aclamado, Lô marca com o pé o compasso para entoar, com a emoção da platéia, as frases “Porque se chamavam homens/ também se chamava sonhos / E os sonhos não envelhecem” – Clube da Esquina nº2 (Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges).

Há 35 anos, um outro tênis surrado e cheio de lama – que ilustrou a capa de seu primeiro disco solo (Lô Borges, 1972) – marcou a passagem do garoto Salomão Borges Filho (de 17 anos) em um dos maiores compositores brasileiros. Na contra-capa do álbum, explicava que a escolha do calçado desprendia uma imensa vontade de “cair na estrada” e conhecer o mundo. Algumas voltas depois, Lô é capaz de recriar um universo por meio dos acordes de suas composições.

Set-list
Feira moderna
Quem sabe isso quer dizer amor
Tudo em cores para você
Clube da Esquina N.º2
Segundas mornas intenções
Dois rios
Clube da Esquina N.º1
Força do vento
Tudo que você podia ser
Qualquer lugar
Nuvem cigana
Um dia e meio
Equatorial (violão e guitarra)
Sonho Real (violão e guitarra)
Cordão de ouro (inédita)
Um girassol da cor de seu cabelo
Paisagem da janela
Trem azul
Para Lennon e McCartney
Clube da Esquina N.º2 (Bis)


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