Um salto no escuro e abafado grito da noite

Estrada sem sol e resto de ilusões perdidas. Trânsito difuso para o caminho mais próximo do que esteve ao alcance do coração. Duas chamas. Pouca vida. Quase nada sobre a mesa. Lembranças e fragmentos de um futuro recente. Rente aos olhos e distante de acontecer. Real? Imaginário? Fantasia? Movimentos transitórios misturados a redes invisíveis a transmutar em sonhos e pensamentos imperfeitos. Um salto rasante no grito da noite. Na soturna e desesperadora espera pela hora da estrela.

Sem lógica sempre foram os devaneios mais interessantes. No epicentro do furacão caótico do cotidiano, vagam pelas frias galerias dos séculos, em passos lentos, a absurda velocidade dos desventurados para o novo. De novo, como de costume, vidas amarradas em trópicos imaginários e latentes aos olhos nus. Como orquestras dodecafônicas, compassos e rimos inebriantes e imprecisos entorpecem os ouvidos mais puros. Sem lógica. Mentiras inventadas, verdades distorcidas e o medo de inaugurar o passado, que ainda não passou de um lugar comum.

Como fosse mágica. Como se fosse preciso. Como se pudesse voar, ao mar, sem fim. Se hoje o sol sair, eu te prometo o céu. Prometo o que não poderei cumprir e te espero no entardecer em um ponto qualquer à beira do mar. Em girassóis da noite fria. Trens estrangeiros em visita à terra natal.

Três vidas em suas mãos. Sujas. Cegos, tateamos o escuro abstrato criado pela incompreensão. Vida vista de fora, olhos e ouvidos censurados pela dor. A carne rasga e entorpece o pânico. Mensurado pela inconsciência, vagam solitários e malucos ao mundo afora. Fora do ar. Fora de órbita. Em uma outra estação de ondas médias, tocando músicas retrô de um futuro próximo. Polaroid dos aos 70. Imagens em Tecnicolor. A música preenche a sua falta. A solidão escorre pelos ralos, pela latrina comum dos desejos comuns. O resto é paisagem. O restante é perfumarias baratas, vendidas em esquinas ordinárias.

O que não fere tranqüiliza. Temo ter os nervos calmos. A fome do novo, a fome do povo, a fome de viver desesperadamente. Há fome. A fome do mundo. Imundo. O fim próximo e constante. Nuvem de fumaças a tampar as vista para o óbvio. Duas chagas, três escolhas, uma única saída. Saem pelos poros, pelos cantos, pelas lágrimas, na transpiração, no suor latente, no frio que escorre a espinha da solidão virtual mediada. Meios e formas que em nada informam.

Não deixe o sol morrer. Gritos no corredor. Seu silêncio abafado fez o tempo ficar lento e tenso. A lágrima estampada em sua camisa fez companhia à noite, estrela. Para a lua, berrei seu nome em mais uma noite sem sono. O tempo passa lento em sua órbita. Verdes campos e o céu de brigadeiro entre as antigas dores dissimuladas. Ao sabor do metal, ávida semente a florescer entre os matagais da selva de pedra das metrópoles. Verdades inventadas e mentiras que esqueceram de acontecer. De exato, apenas a certeza que amanhã tudo se repetirá, como discos riscados e recados na secretária eletrônica.

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