Arquivo para janeiro \22\UTC 2009

Sobras

    “Diz-se que quem é feliz no amor
    No jogo é infeliz
    Mas de quem faz do amor
    Um jogo o que é que se diz
    Eu não sei jogar e ela é a rainha
    Como poderei pensar que ela é minha?”
    (Caetano Veloso – Dama do Cassino)

Palavras se desfazem como chuva, em percursos costurados pelo tempo. Derretem violentamente entre o silêncio e os suspiros próprios de cólera. Há pouco instante, tudo era paz. Fios invisíveis a demonstrar a ternura exposta em olhos cansados de esperar. As frases caem de alturas imensuráveis e explodem rompendo a noite fria. Cortam o breu em imagens de luzes dançantes no espaço infindo de nós dois.

Pensamentos imperfeitos como tempestades tropicais clareiam as névoas deixadas pelo passado fragmentado e caminhos interrompidos. Espectros de vidas que se bifurcam em labirintos difusos. Rotas em colisão. Um milhão de sóis a iluminar a face mais sombria do universo. Todos os lados escuros da lua são regidos pelas suas retinas a me fotografar. Início e fim interruptos; que clamam sempre por mais: incansavelmente!

Sobre corpos desfeitos, a maquiagem fria e borrada expõe em versos profundos a quietude de seu exílio. Do lado de fora, longas jornadas em vão. Em minha cabeça, um Minotauro se aloja entre o Dédalo d’alma e a solidão das grandes metrópoles. Sem Teseu e o fio condutor para achar a saída, vago pelas peripécias típicas dos distraídos para a vida. Esqueço os dias de calmaria e miro-me aos pensamentos sobre tormentas e desalentos. Voe como quem deve partir e regresse ao lado dos puros de coração.

A queda de Ícaro: o mergulho raso ao céu aberto e o horizonte infinito. O devaneio de aventurar-se. O risco de cair e o medo de se arriscar. A carne e o osso. Ondas de tristeza encharcada de eufórica alegria divergem e convergem em partes; a me possuir, torturar e proteger. A alma e seus mistérios. A metafísica do amor. A alquimia dos sonhos. A virtualidade do ser. Saídas de emergência em todos dos cantos.

Enquanto feras andam soltas, você me hipnotiza em cada gesto inculto. Feridas e chagas desfeitas em pétalas de rosas a tatuar a pele. Certas consternações não se sentem apenas com o coração. Dores expostas em vitrines vulgares, sob a sombra semi-iluminada do consumo desenfreado e desinibido de pudores. Preso a uma cela, tento fugir e cair em suas garras. Astros distraídos ofuscam constelações.

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Solidão nuclear

Rotas incertas e incompletas voltas,
em remotos começos sem fim:
a cada hora, uma nova história.
Tímidos devaneios da alma em ebulição.

Extremos sempre cicatrizaram meus dias.
Passos em direção ao precipício,
calmarias em dias tropicais:
inverno e pôr-do-sol ao amanhecer.

Sigo por trajetos não traçados,
em aventuras não vividas.
Recomeço e fim que se encontram
no escuro abstrato das palavras.

Luta vã a minha, tecer em versos
os horizontes perdidos do amor.
Chaga tatuada no espírito,
tempestade e calmaria que não cessam.

A paz próxima e distante ao olhar.
Peito aberto para engolir o mundo.
Imaginário e real em polos opostos
em luzes apagadas da solidão nuclear.

O côncavo e o convexo

Sempre os meus erros primários e pecados insólitos sobre a mesa. A confraria dos covardes, a batalha dos derrotados. Sobre o chão, restos de uma noite sem sono e a tortura angustiante a embaçar as vistas cansadas dos desesperos comuns. De real, apenas uma história de amor inventada e tortuosas horas de prazer e acalanto. Eu te vejo pelos cantos escuros da alma em estado de calmaria provisória aos desatinos provocados pela incompreensão. Paz, amor e recomeço a exorcizarem a tempestade de sentimentos que teve início há poucos dias. Contados nos relógios, meio século de evolução cármica.

Do outro lado do hemisfério, seus olhos enfeitam o mundo. Sobre o globo, caminha tranquila pelas ruas e alamedas das cidades em chamas. O mundo, quase que por encanto, esqueceu de me avisar que tudo não passou de um devaneio vespertino, ou uma história combinada e espalhada pelos quatro cantos. Real, imaginário, virtual ou embrionário: o que sei é que esqueci de me lembrar do que não poderia duvidar. Quem sabe, o amanhã me surpreenderá com mais uma história incompleta neste caleidoscópio fantástico e irreal.

Em minha confusão, sentimentos esparramados pelos cantos. Janelas e portas que se abrem para o desconhecido inerte em cinco sentidos e quatro pontos cardeais. Vistas encobertas pela incerteza latente dos que temem a paz derradeira e a felicidade completa, negociada em pegue-e-pagues espalhados em esquinas vulgares de cidades vazias. A única certeza é que nada de concreto passa imune por rotas alteradas. A vida, meu caro, era uma repetição de cenas sem nexo, num imenso mosaico multicolor. Alguém nos cosmo deve se divertir com as investidas equivocadas dos marinheiros inexperientes defronte ao imenso mar do amor.

A poesia é um vício: a podre corrupção da falta de poder. A arte é a fantasia da alma, enquanto se embriaga pela escassez de sentimentos convictos e puros. Toda poesia é uma mentira. E as mentiras me fazem viver. Será que existe vida inteligente diante minhas retinas, ou dentro delas. Livros e filmes empilhados sobre a memória cada vez mais rarefeita. Sobre o mundo, seus olhos castanhos me mostram estranhos caminhos inexplorados. Tudo de pernas para o ar; côncavo e convexo fundem-se em um ponto abstrato no infinito inseguro. Vida vista de fora; em estações fora do ar… Pelas as esquinas do mundo a fora, aflora a dor. Sem você, tudo fica fora do lugar. Se há, sei lá!

Procuro o resto de uma lucidez inexistente. Nada. Fecho os olhos e espero o grande inverno da Rússia. Girassóis que não procuram a luz e refrões de bolero que não rimam amor com dor. Felicidade não combina com a realidade. Pontos que não convergem no infinito opaco de suas palavras frias. Vejo seu rosto em gélidas galerias; nos cinemas; em páginas coloridas dos jornais. Eu sempre escolhi bem as palavras, mas hoje eu não sei o que pensar. Talvez por falta de sorte, talvez por falta de repertório, talvez pela ausência em mim em mim.

Hoje, vou fugir de casa, desfigurar a falta de coragem em escolher outros caminhos. Hoje, irei esparramar resíduos do passado em vultos que se multiplicam refletidos em um espelho a me mostrar o que nunca fui. Em repetidas cenas, o meu lado mais sombrio a me torturar em frases não ditas e o silêncio abstrato de suas palavras – duras palavras. Pelo caminho, pedaços de sentimentos triturados a contaminar velhas feridas não cicatrizadas. A paz derradeira tão longe de uma compreensão.


janeiro 2009
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